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dessa relação pedagógica, existia uma relação de cunho homossexual: acontece que esta era

vista mesmo como algo capaz de contribuir para a formação moral e intelectual do efebo.

Sobre a “formação-iniciática” do efebo da Grécia antiga e sobre o papel importante desta para

a formação do cidadão-guerreiro falaram Giuseppe Cambiano e Luciano Canfora as seguintes

palavras:

A inscrição no demo e, portanto, o ingresso de pleno direito na cidadania era um passo bastante delicado e antecedia a prestação do serviço militar na qualidade de efebo, sob a superintendência de um cosmeta e de dez sofronistas, um por cada tribo. A assembleia procedia à eleição de dois pedótribes, um mestre de armas, um de tiro ao arco, um de lançamento de dardo e um de catapulta, que se encarregavam da instrução dos efebos. Por ocasião da festa de Ártemis Agroteras, os efebos participavam numa procissão e, no santuário de Aglauro, juravam defender a pátria, as suas fronteiras e as suas instituições e não abandonar o camarada de armas. Depois, dirigiam-se para o Pireu, onde prestavam serviço de guarda em duas fortalezas. No segundo ano de serviço, os efebos eram passados em revista pela assembleia, no teatro de Dioniso, onde demonstravam o que tinham aprendido durante a instrução militar. Ao entregar-lhes o escudo e a lança, a cidade exprimia a sua passagem para a condição adulta do hoplita. Em seguida, sob o comando dos estrategos, começavam a patrulhar o território da Ática, a prestar serviço nas

fortalezas e a garantir a segurança nas sessões da assembleia, envergando a clâmide negra. O serviço de patrulha em zonas fronteiriças, fora da cidade, acompanhado por estrangeiros, colocava o efebo numa zona intermediária antes de ocupar, como cidadão de pleno direito, o espaço central da cidade, provavelmente em memória ou como herança de uma época de iniciação repartida por classes etárias, embora já tivesse prestado juramente como hoplita (CAMBIANO in VERNANT, 1993, pp. 93-94).

Todavia, sobretudo a partir do século III a. C., o aspecto militar da efebia foi sendo cada vez mais complementado por uma instrução de tipo superior. O ginásio continuava a ser o centro da vida dos efebos. Atenas tinha três fora da cidade, o Liceu, a Academia e o Cinosarco. Em finais do século III a. C., foram criados mais dois, o Ptolomeu e o Diógeneo, provavelmente construídos em honra de benfeitores privados. Nesses ginásios, porém, não se praticava apenas a ginástica; havia também aulas e conferências de filósofos, mestres de retórica, e por vezes também de médicos. No século I a. C., até um astrónomo fez conferências no ginásio de Delfos. Entre 208 e 204, foi erigida no Ptolomeu uma estátua ao filósofo estóico Crisipo, que deve ter ensinado nesse local. Assim, a vida dos jovens atenienses e também dos estrangeiros que em número crescente chegavam a Atenas para ouvir as lições dos filósofos e dos mestres de retórica assumia uma nova dimensão (ibidem, p. 94).

Na segunda metade do século V a. C., os sofistas tinham surgido como símbolos e fautores dessa mudança. Não se dedicavam a um ensino regular e contínuo, num lugar fixo; iam de cidade em cidade, pronunciando discursos demonstrativos para arranjar discípulos e dando aulas, onde se aprendia sobretudo a falar convincentemente em público. Tratava-se em grande parte de um ensino formal, que incidia nas diferenças de linguagem, nas figuras de retórica e no estilo, mas que não desdenhava de aplicar esses conhecimentos a temas políticos, éticos e religiosos de interesse geral (ibidem, p. 95).

De facto, só os jovens das famílias mais ricas é que podiam ter acesso a ele e o seu objectivo consistia essencialmente na formação de elites governativas. Extremamente atractivo para os jovens, era um tipo de ensino que podia parecer prematuro em relação à tradicional distinção das tarefas próprias das várias idades da vida humana, porque antecipava para a juventude a aprendizagem e o exercício do saber falar que, a partir de Homero era considerado próprio – a par da bravura na guerra – do homem completo, se não mesmo do ancião: e o princípio da ancianidade era fundamental para a atribuição do poder em todas as cidades gregas. Antes de mais, o jovem devia preparar-se para combater; saber falar viria com o tempo, com a experiência. O ensino dos sofistas parecia, porém, querer queimar as etapas (ibidem, p. 95).

Em Creta, a relação homossexual entre um jovem e um amante mais velho era uma etapa essencial para ele se tornar homem, mas não assumia a forma de uma corte, assemelhando-se mais a um rapto ritual. Três dias antes do rapto, o amante informava os amigos do jovem. Estes, tendo em conta a classe do amante – que devia ser igual ou superior à do jovem –, decidiam se permitiriam ou impediriam o rapto. Se o rapto fosse permitido, o raptor, acompanhado por amigos, podia levar o jovem para fora da cidade, para o campo, onde organizavam banquetes e iam à caça

– o desporto típico dos heróis, modelos dos efebos – durante dois meses, findos os

quais já não era permitido reter o jovem. Este era o momento da segregação, acompanhado por uma vida de agregação, típico de uma iniciação. Ao regressar à cidade, o jovem recuperava a sua liberdade, depois de ter recebido como presente o equipamento militar, um boi e uma taça; sacrificava o boi a Zeus e festejava o grupo que o tinha escoltado no regresso, manifestando a sua satisfação ou insatisfação pelo período de intimidade passado com o amante. Para os jovens de família nobre, não encontrar um amante era algo de vergonhoso, dado que equivalia ao reconhecimento da falta das qualidades que permitiam a entrada no grupo dos adultos guerreiros, simbolizada pela oferta das armas depois da iniciação homossexual. Além disso, os raptados ocupavam lugares de honra nos coros e nos ginásios e, como sinal de

distinção, envergavam o trajo que lhes fora oferecido pelo amante. Assim começavam a fazer parte da elite constituída por aqueles que eram designados por kleinòi, <<insignes>> (ibidem, p. 87).

Embora não seja de excluir que existissem relações homossexuais entre jovens da mesma idade, por norma devia haver uma diferença de idade entre o amante e o jovem amado. Essa assimetria tornava possível, por um lado, a distinção entre o papel activo e o papel passivo, e não só no sentido físico, e, por outro lado, a dimensão pedagógica da relação. [...] O jovem devia revelar ponderação e pór à prova o amado, testando o seu caráter. A passividade constitutiva do amado não devia transformar-se em escravidão. Assim se forjavam modelos de conduta que visavam formar o futuro cidadão livre na sua capacidade de mandar e ser mandado (ibidem, pp. 90-91, passim).

A relação homossexual não era, portanto, vivida e considerada como oposto à relação heterossexual: se esta permitia, no matrimónio, a reprodução física de futuros cidadãos livres, a dimensão pedagógica da relação homossexual contribuía para a sua formação moral e intelectual (ibidem, p. 91).

Enviar o filho a casa de um mestre – e não a um edifício público construído a expensas da cidade, como era o ginásio – estava de certa forma associado à tradição mítica, que descrevia o herói expulso de casa por um tutor, como Aquiles por Fênix. [...] O único controlo da cidade sobre a escola era de tipo moral: só uma idade mais avançada e um espaço público como o ginásio podiam permitir a instituição de relações homossexuais com uma base pedagógica correcta (ibidem, p. 92, passim). Aprender a ler em voz alta, passando da letras para as sílabas e para as palavras, e depois aprender a escrever segundo a mesma sequência podia levar vários anos. Em seguida, o jovem começava também a aprender de cor versos e excertos mais amplos de poetas, sobretudo de Homero, que foi sempre considerado como um ponto de referência ímpar de modelos de conduta e de valores (ibidem, p. 92).

Numa palavra, na época clássica, a visão da cidadania resume-se à identidade cidadão-guerreiro. É cidadão, faz parte de pleno direito da comunidade através da participação nas assembléias deliberativas, quem é capaz de exercer a principal função dos homens adultos livres, isto é, a guerra (CANFORA in VERNANT, 1993, p. 108).

As semelhanças existentes entre a formação, ou seja, a Paidéia, do herói mítico e a do

Benzer Belgeler