• Sonuç bulunamadı

Com o intuito de aprofundar as discussões teóricas que servem como base para este trabalho, discutiremos o uso dos termos “sujeito”, “subjetividade” e “individualidade” na presente pesquisa. Utilizaremos, novamente, as reflexões bakhtinianas e do Círculo (1976,

1997, 2010) para embasar essa discussão, além de outros autores, como Fiorin (2006), Geraldi (2010), Del Ré, et al (2012). Vale ressaltar que abordaremos o termo “sujeito” como centralizador das reflexões aqui feitas e relacionaremos os outros termos (“subjetividade” e “individualidade”) a ele.

É importante esclarecer que ao longo das obras bakhtinianas e do Círculo, tais termos, por nós aqui utilizados, são colocados, em certos momentos como sinônimos e, em outros momentos, como termos distintos (DEL RÉ, HILÁRIO, VIEIRA, 2012, p. 60). A nossa intenção não é estabelecer uma conceptualização fechada e final, mas, sim, definir parâmetros que possam guiar as nossas reflexões teóricas e análises de dados no âmbito deste específico trabalho de pesquisa. Como Geraldi (2010) afirma, Bakhtin não chegou claramente a desenvolver uma teoria a respeito do sujeito e, por isso, ao utilizar as reflexões feitas por ele e pelo Círculo nós devemos lançar mão delas para os interesses do nosso próprio trabalho.

Passemos, então, a discorrer sobre o sujeito: como o despertar da consciência se dá na interação social através da língua(gem), a palavra se mostra como o material para o desenvolvimento cognitivo. Bakhtin/Volochinov (2010, p. 37) assevera que: “[...] a consciência não poderia se desenvolver se não dispusesse de um material flexível, veiculável pelo corpo. E a palavra constitui exatamente esse tipo de material. A palavra é, por assim dizer, utilizável como signo interior.” Assim, ao estudarmos o fenômeno da aquisição da LM ou a aquisição/aprendizagem de LE, o sujeito precisa ser compreendido como essencialmente constituído em suas relações sociais, pelas quais há o “start da consciência” e ele entra em contato com o mundo e com os outros sujeitos. A constituição do sujeito se dá juntamente com a aquisição da LM e perdura durante toda a vida, dependendo das relações estabelecidas pelo sujeito com o outro. Consequentemente, o sujeito não é acabado, ele está sempre em um constante processo de constituição de sua subjetividade:

Está na incompletude a energia geradora da busca da completude eternamente inconclusa. E como incompletude e inconclusão andam juntas, as mediações sígnicas, ou as linguagens construídas neste trabalho contínuo de constituição não podem ser compreendidas como sistema fechado e acabado de signos para sempre disponíveis, prontos e reconhecíveis. (GERALDI, 2010, p. 126)

Ao analisarmos que o sujeito se constitui nas relações com o outro através da língua(gem), podemos abordar mais uma característica desse sujeito social: o dialogismo. Quando um sujeito se posiciona discursivamente, ou seja, enuncia, ele, inevitavelmente, se utiliza da imensidão dos discursos outros com quais ele já manteve contato. O discurso alheio,

consequentemente, faz parte do discurso do eu, pois este seleciona partes desse discurso, concordando com ele ou o refutando. O eu sempre assume, então, uma atitude responsivo- ativa com relação ao discurso do outro e, além de ser uma resposta aos discursos outros, gera respostas, criando o elo infinito da comunicação verbal. O sujeito e a língua(gem) são, portanto, essencialmente dialógicos:

A apreensão do mundo é sempre situada historicamente, porque o sujeito vai constituindo-se discursivamente, apreendendo as vozes sociais que constituem a realidade em que está imerso, e, ao mesmo tempo, suas inter- relações dialógicas. Como a realidade é heterogênea, o sujeito não absorve apenas uma voz social, mas várias, que estão em relações diversas entre si. Portanto, o sujeito é constitutivamente dialógico. Seu mundo interior é constituído de diferentes vozes em relações de concordância ou discordância. Além disso, como está sempre em relação com o outro, o mundo exterior não está nunca acabado. (FIORIN, 2006, p. 55)

O fato de o eu constituir o próprio discurso com o discurso do outro não significa que esse sujeito não tenha opção de escolha dentro do universo ideológico-linguístico e, portanto, não seja responsável pelo próprio discurso. Ao contrário, o sujeito nunca é assujeitado, pois participa ativamente na corrente da comunicação verbal. Além disso, a ideia de sujeito não assujeitado se liga à de individualidade que discutiremos no decorrer desta seção. Bueno (2012, p. 59) corrobora o fato de o sujeito ser responsável pelo próprio discurso:

[...] o sujeito aqui compreendido, ainda que influenciado por coerções sociais historicamente determinadas e pela comunidade linguística a que pertence, ele não é levado a tomar decisões apenas pelo agir do(s) outro(s) ou por influência do ambiente em que vive; não é assujeitado. O sujeito, ao enunciar, participa ativamente na construção de significados, de sentidos.

Por fim, a última característica que relacionaremos ao sujeito é o fato de ele, além de ser social, ser individual, único, insubstituível. A um primeiro olhar, tal afirmação pode parecer contraditória, já que afirmamos que o sujeito constitui-se socialmente nas relações interpessoais estabelecidas. Porém, o sujeito, que tem seu discurso constituído dialogicamente, possui uma maneira única de enunciar, de posicionar-se. A própria forma com a qual ele organiza o seu enunciado é individual. Nenhum outro sujeito pode lançar mão de um mesmo enunciado, em um mesmo contexto discursivo e com participantes iguais. Cada situação de comunicação é única e cada enunciado é único, fatos que evidenciam a faceta individual do sujeito:

A oração, enquanto unidade da língua, assim como a palavra, não tem autor, não é de ninguém (como a palavra), sendo somente quando funciona como enunciado completo que se torna expressão individualizada da instância locutora, numa situação concretada comunicação verbal. (BAKHTIN, 1997, p. 307-308)

Relacionando ao termo “sujeito”, temos “subjetividade”. Para o presente trabalho, a subjetividade é a base do sujeito, a qual se compõe das características que posicionam esse sujeito em uma sociedade. Essas características, constituídas através da interação social, mostram que o sujeito é único no mundo: “A subjetividade é constituída pelo conjunto de relações de que participa o sujeito. Por isso, em Bakhtin, o sujeito não é assujeitado, ou seja, submisso às estrutura sociais, nem é uma subjetividade autônoma em relação à sociedade” (FIORIN, 2006). Partindo dessas palavras, podemos dizer que a individualidade e a identidade são desdobramentos da subjetividade, a base constitutiva do sujeito. Passaremos, então, a abordar esses desdobramentos.

Como já afirmamos anteriormente, todo sujeito é único, mesmo constituindo-se em relação ao social, ao outro. Todas as amostras que posicionam o sujeito como único, diferente do outro, são marcas de individualidade. Com relação à língua(gem), o ato de enunciar é uma marca individual. Quando um sujeito lança mão de um enunciado nas trocas comunicativas com os interlocutores, ele organiza o já-dito, escolhe os elementos linguísticos (as palavras, a construção sintática, a entonação, etc.) de forma única. Os enunciados são, portanto, as marcas do que há de individual na linguagem: “O enunciado – oral ou escrito, primário ou secundário, em qualquer esfera da comunicação verbal – é individual, e por isso pode refletir a individualidade de quem fala (ou escreve). Em outras palavras, possui um estilo individual.” (BAKHTIN, 1997, p. 283)

Bakhtin (1997) ainda relaciona a ideia de individualidade aos gêneros do discurso. Segundo o autor, esses gêneros são conjuntos de enunciados relativamente estáveis ligados a uma esfera de comunicação específica. Esses enunciados são caracterizados por três elementos estáveis: o conteúdo temático, a construção composicional e o estilo. O autor ainda coloca que existem os gêneros primeiros (simples) que se ligam a situações de comunicação espontânea, ao cotidiano. Já os gêneros secundários (complexos) estão relacionados a situações de comunicação cultural mais complexa, como o romance e o teatro. (BAKHTIN, 1997, p. 281).

Alguns desses gêneros possuem estruturas mais flexíveis e, por isso, dão maior lugar à individualidade, como os gêneros literários. Entretanto, alguns gêneros, por terem estruturas

muito formais, como os documentos oficiais, dão pouco espaço à individualidade do sujeito. Muitas vezes, a individualidade aparece apenas na escolha do gênero:

Mas nem todos os gêneros são igualmente aptos para refletir a individualidade na língua do enunciado, ou seja, nem todos são propícios ao estilo individual. Os gêneros mais propícios são os literários – neles o estilo individual faz parte do empreendimento enunciativo enquanto tal e constitui uma das suas linhas diretrizes -; [...] As condições menos favoráveis para refletir a individualidade na língua são as oferecidas pelos gêneros do discurso que requerem uma forma padronizada, tais como a formulação do documento oficial, da ordem militar, da nota de serviço, etc. Nesses gêneros só podem refletir-se os aspectos superficiais, quase que biológicos, da individualidade (e principalmente na realização oral de enunciados pertencentes a esse tipo padronizado). (BAKHTIN, 1997, p. 283)

Os gêneros discursivos regem as interações verbais entre os sujeitos e, consequentemente, é por meio deles que ocorre a aquisição da LM. Além disso, acreditamos que a aquisição/aprendizagem de LE também é regida pelos gêneros discursivos e, portanto, o ensino de LE deve lançar mão desses gêneros na sala de aula para tornar a relação entre a LE e o aprendiz mais viva e significativa:

[...] é através dos gêneros discursivos que organizamos nossas atividades sociais de linguagem e que, consequentemente, materializamos as interações com o outro em situações de comunicação propositadas e situadas, o que deve ocorrer, também, no processo educacional. O objetivo central no ensino-aprendizagem de LEC31 embasado em gêneros discursivos é levar o aprendiz a desenvolver capacidades que possibilitem que ele “aprenda a fazer” e “a agir” em situações diversas [...]. (ROCHA, 2008, p. 24)

Vale ressaltar que é por meio de signos ideológicos, mais especificamente, através da materialização em enunciados (singulares), que podemos ter acesso à subjetividade humana. A subjetividade, então, só é acessível por meio da materialização de enunciados individuais. Os desdobramentos da subjetividade, ou seja, a individualidade e a identidade, são as portas de acesso à subjetividade. Del Ré, Hilário e Vieira (2012, p. 63) corroboram essa ideia dizendo que “[...] a subjetividade não está acessível senão por sua materialização na linguagem, uma produção sígnica e, portanto, também ideológica”.

Acreditamos que as seções 1.4, 1.5 e 1.6, que explicitam algumas reflexões teóricas de Bakhtin e do Círculo, são importantes para o desenvolvimento deste trabalho porque elas guiarão o nosso olhar sobre os acontecimentos por nós registrados na sala de aula de LE

observada. A nossa visão a respeito da aquisição/aprendizagem de LE e do aprendiz criança partem dos pressupostos teóricos desses autores a respeito da língua(gem) e do sujeito.