Em escala local a composição e evolução geoquímica da água subterrânea é função da geologia da área (as rochas e seus produtos de alteração, as coberturas sedimentares e as aluviões) mas também é resultado da interação entre vários outros fatores fisiográficos, como o clima, a morfologia do relevo e a vegetação. O
clima será tratado novamente no capítulo II, quando for abordado o assunto dos fatores salinizadores atuantes em escala regional.
O estado do RN faz parte da Bacia do Atlântico no seu trecho nordeste, fazendo parte de um sistema maior que corresponde à área de drenagem dos rios que deságuam no Oceano Atlântico, entre a foz do Rio São Francisco e a do Rio Tocantins. O resumo da fisiografia regional apresentado a seguir foi elaborado com base no Projeto RadamBrasil (MME, 1981) e em pesquisas na internet (Atlas Hidrológico do Brasil: ANEEL-SRH/MMA-IBAMA, 1999).
O estado do RN possui três regiões fisiográficas: Litoral, Agreste e Sertão (figura 1.5), sendo a maior parte coberta pela vegetação de caatinga, com presença de remanescentes de Mata Atlântica e mangue na área litorânea. No Litoral Oriental está inclusa uma faixa de 10 a 60 Km de largura no sentido N-S, com ocorrência de chuvas de 1000 a 1800 mm anuais distribuídas num período de 6 meses. Por sua vez, o Litoral Setentrional tem características climáticas semelhantes ao Sertão semi-árido. O Agreste é uma região intermediária entre o Litoral e o Sertão, com largura entre 60 e 80 Km e precipitações médias entre 600 e 800 mm/ano. E finalmente o Sertão ocupa cerca de 70% do território do estado e apresenta precipitações escassas e irregulares entre 400 e 600 mm anuais, distribuídas num período de três a quatro meses (Governo do Estado, et al., 2002).
1.5.1. Clima
Três tipos de clima ocorrem no estado: o tropical úmido, com chuvas de outono-inverno (As' do sistema de Köppen), o semi-árido (BSh) e o tropical semi- úmido (Aw'), com chuvas de outono. O clima tropical úmido ocorre na região litorânea oriental. Registra uma temperatura média de 24ºC, umidade relativa do ar em torno de 80% e uma pluviosidade média anual de 1000mm que diminui rapidamente da costa para o interior, passando a 600mm a apenas cinqüenta quilômetros do litoral. Para a distribuição espacial das chuvas veja a figura 2.6a.
O clima semi-árido domina praticamente todo o resto do estado, inclusive o litoral setentrional, dando lugar a uma costa bastante seca, sendo a única região litorânea do Brasil com clima semi-árido. Nessa região, a pluviosidade reduzida, os ventos secos e constantes e as temperaturas elevadas fazem do estado o maior extrator brasileiro de sal marinho, com 77 a 85% da produção nacional. No interior do estado, as temperaturas médias alcançam 26ºC, a umidade relativa do ar fica em
torno de 60% e a pluviosidade, inferior a 600mm (distribuída comumente de fevereiro a maio), é sujeita a grande irregularidade, deixando de ocorrer em alguns anos.
O clima tropical semi-úmido ocorre apenas no extremo oeste. Registra temperaturas médias também elevadas e chuvas outonais mais abundantes que na região semi-árida (em torno de 800mm anuais), sobretudo na região serrana, no sudoeste do estado.
Figura 1.5. Mapa de drenagens mostrando as principais bacias hidrográficas do estado do RN, com os rios mais importantes. A hidrografia do estado pode ser dividida entre os rios que deságuam no litoral norte e os rios que deságuam no litoral oriental do estado. A maioria dos rios tem suas nascentes em terrenos cristalinos de clima semi-árido, possuindo cursos intermitentes. As bacias dos rios Piranhas-Açu e Apodi-Mossoró representam aproximadamente 64% da disponibilidade hídrica total do estado. Para a subdivisão em terrenos cristalinos e terrenos sedimentares (Tabuleiros) veja a figura 2.1.
1.5.2. Geomorfologia
Cerca de 83% do território estadual encontra-se abaixo de 300 m de altitude, sendo que a maior parte dele faz parte da Depressão Sertaneja, um domínio geomorfológico de caráter interplanáltico em cujo interior está modelada a rede de drenagem dos principais rios da bacia. Nesse domínio estão todas as áreas rebaixadas entre blocos pré-Cambrianos soerguidos, maciços graníticos e tabuleiros costeiros formados por sedimentos Meso-Cenozóicos. Os limites são: o Planalto da Borborema (limite com a Paraíba e centro-sul do estado do RN), a Chapada do Apodi (limite com o Ceará), os sedimentos costeiros do litoral oriental e os sedimentos da Bacia Potiguar no norte do estado (região dos Tabuleiros). As maiores cotas estão na extremidade setentrional do Planalto da Borborema, ao norte do município de Currais Novos, atingindo mais de 700m de altitude.
1.5.3. Aspectos pedológicos
Baseados no mapeamento do Projeto Radambrasil (MME, 1981), apresentaremos a distribuição dos tipos de solo no estado segundo o tipo de terreno – cristalino e sedimentar (tabuleiros). As definições para os tipos de solo foram retiradas de Curi et al. (1993).
Em terrenos cristalinos, sejam maciços graníticos ou nas regiões de depressão, o tipo de solo mais comum é o solo litólico, que é uma classe que agrupa solos rasos (< 50 cm até o substrato rochoso), em que o horizonte mineral superficial é pobre em carbono orgânico e muitas vezes está assentado diretamente sobre a rocha dura. Desenvolvem-se também os solonetzs solodizados, que apresentam as características dos solos litólicos mas são salinizados, com alto teor de sódio trocável. Nas depressões, observam-se solos bruno não–cálcicos, que são solos minerais não hidromórficos geralmente cascalhentos, apresentando um horizonte B de iluviação avermelhado sob um horizonte A superficial fraco, além de saturação por bases e atividade de argila altas.
Nos planaltos de topo plano com cobertura sedimentar os tipos de solos variam entre podzólicos vermelho-amarelos a latossolos amarelos espessos, tipicamente caulínicos, com baixa capacidade de troca catiônica e de constituintes solúveis. Nos terrenos sedimentares dos tabuleiros setentrionais da Bacia Potiguar, os principais tipos de solo identificados foram cambissolos (solos com horizonte B incipiente, não hidromórficos, com certo grau de desenvolvimento e alta fertilidade);
planossolos (solos com B textural argiloso sob um horizonte A bastante arenoso e feições associadas a uma disponibilidade maior de água), além de latossolos
amarelos e vermelho-amarelos e solos podzólicos vermelho-amarelos. Menos comuns são os do tipo rendzina (desenvolvidos sobre solo calcáreo, apresentando horizonte A relativamente espesso e rico em matéria orgânica, com predominância de cátions divalentes) e os solonchaks (solos salinos formados em condições hidromórficas). Nos tabuleiros costeiros do litoral oriental, os principais tipos de solo identificados foram os podzóis, os latossolos, as areias quartzosas de origem eólica ou marinha e os solos de mangues.
1.5.4. Vegetação
A maior parte do estado, incluindo os tabuleiros do litoral norte, encontra-se distribuída em regiões de clima semi-árido, fazendo parte da região fitoecológica das Estepes (ou caatinga), que se apresenta sob forma arbórea aberta ou densa, geralmente de porte baixo. Sua distribuição se dá em todas as formas de relevo, com exceção das planícies flúvio-marinhas e dunas não fossilizadas.
Ao longo do litoral oriental em uma estreita faixa continua, encontramos as Áreas de Formações Pioneiras, que são representadas pela vegetação arbórea dos mangues e herbácea de influência marinha, bem como as áreas de contato Savana- Estepe. No sudeste do estado observam-se manchas de floresta tropical (resquícios de Mata Atlântica), que são a extremidade setentrional da chamada Zona da Mata nordestina.
Entre o litoral de clima tropical e o sertão de clima semi-árido, está o Agreste (denominada de região leste, nesta tese), que apresenta uma composição mista em função da transição entre os dois tipos de clima.
De modo geral a vegetação encontra-se bastante devastada, o que acarreta conseqüências como rebaixamento do lençol freático, aumento da salinidade das águas e do solo, aumento de processos erosivos e assoreamento dos rios a açudes, aumento de pragas nocivas à agricultura, empobrecimento dos solos e baixa produtividade.
1.5.5. Hidrografia
A rede hidrográfica do estado do RN pode ser dividida entre os rios que deságuam no litoral setentrional e os que deságuam no litoral oriental. Na grande
maioria, os rios têm suas cabeceiras em terrenos cristalinos, onde predomina um relevo plano a ondulado, vegetação escassa e xerófila (caatinga), baixos índices pluviométricos e má distribuição temporal, sendo portanto, rios de regime torrencial e de curso intermitente. A perenização parcial ou total de alguns rios vem sendo possível devido a obras de barragem, como no Rio Piranhas-Açu, perenizado em todo o território do estado (Governo do Estado et al., 2002).
Fazem parte do sistema que deságua no litoral norte, as bacias dos Rios Piranhas-Açu e Apodi-Mossoró, cujas nascentes localizam-se no Planalto da Borborema, em planaltos residuais e na Chapada do Apodi, localizados a sul, sudoeste e noroeste do estado, respectivamente (figura 1.5). Essas duas bacias representam 64% da disponibilidade hídrica total do estado (Governo do Estado et al., 2002). Bacias hidrográficas de pequena extensão localizadas no extremo NNE têm nascentes em pequenas elevações como o Pico do Cabugi.
Por outro lado, muitos rios que deságuam no litoral oriental do estado estão submetidos a uma distribuição menos irregular das precipitações, inerente ao clima semi-úmido da região leste do estado e por isso, têm seu curso final perene. Fazem parte desse sistema as bacias dos Rios Ceará-Mirim, Potengi, Trairi, Jacu e Curimataú, cujas nascentes localizam-se na encosta oriental do Planalto da Borborema (figura 1.5).
A diferença básica entre esses dois sistemas em terrenos cristalinos é que o primeiro sofre influência do clima semi-árido, mas tem suas nascentes localizadas em planaltos cujo regime pluviométrico médio anual fica entre 800 e 1000 mm, enquanto que o segundo têm suas nascentes localizadas em regiões de clima semi- árido, com média anual de chuvas entre 400 e 600 mm, mas seus cursos estão condicionados a um regime de transição entre tropical e semi-árido. Esses são fatos que vão exercer um papel de extrema importância na questão da salinidade dos mananciais de superfície e de água subterrânea, assunto que será detalhado no capítulo II desta tese.
Os açudes ou barragens, que constituem uma feição marcante no semi-árido nordestino, serão tratados mais adiante, como um fator que também exerce seu papel na salinização dos aqüíferos fissurais (capítulos II e IV desta tese).