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III. BÖLÜM

4.2. İkinci Alt Probleme Ait Bulgular ve Yorumlar

Ìbà Òrìsà, Ìbà Onílè. Onílè mo júbà o!40

Saudamos os Òrìsà, Saudamos os Onílè (Senhores da Terra). Aos Onílè (Senhores da terra) os meus respeitos A Terra é na geografia mítica, uma relação que, vista de nosso universo objetivado moderno, aparece como uma aderência total e absoluta: sonho e vertigem, indissociação; nela o homem se abandona e confia. O “animismo” que percebemos, não nos é de forma alguma desejado ou procurado: ele é espontâneo, como continua sendo para crianças pequenas, para quem o Sol, as arvores, as “coisas” estão vivas,

40 Onílè – os Senhores da Terra, conforme a crença de que o solo é morada de divindades. Segundo a crença

yorubá, “a terra pode engolir os seres humanos e a veneram como a mais antiga das três grandes forças: terra, água e céu”, fazendo alusão ao princípio de criação do mundo onde a terra é a morada dos homens e demais seres (BENISTE, 2012, p. 26 e 234).

que admitem espontaneamente que as coisas não “estão sempre lá”, mas que vão e vêm segundo nos afastemos ou nos aproximemos. Essa geografia não pode separar- se de si mesma, porque o mito, sempre colocado sobre as coisas, para às fundar, é precisamente que faz a realidade parecer como realidade, e a realidade confirma a todo o momento o “fundamento” mítico (DARDEL, 2011, p. 65).

ara os yorubá, a terra, apresenta-se como o principal recurso natural e fonte de existência. É considerada uma divindade - Onílè -, e sua fertilidade é tomada como doação do preexistente, uma vez que sua origem está relacionada ao mito de criação do mundo dos homens. Dotada de energia vital que a sacraliza, a terra não pode ser apropriada pelo homem, ou seja, reduzida à forma de propriedade privada, que, entretanto, está potencialmente habilitado a ocupá-la segundo as normas ancestrais. Para tanto, é necessário organizar e sacralizar essa relação, o que é conseguido por meio dos pactos selados entre o homem e a terra, daí nascendo os deveres e direitos para sua ocupação, sendo o principal deles a inexistência da propriedade do solo. Os pactos são estabelecidos por famílias que ocupam uma área demarcada segundo o costume, cabendo-lhes por um lado, o direito de usufruir da fertilidade da terra; e por outro lado, o dever de administrá-la, podendo inclusive compartilhá-la com famílias de outros grupos étnicos sem que ocorra um desmembramento de sua porção “original”. Essas características explicam a notável importância atribuída aos ancestrais-fundadores, que promoveram os pactos de ocupação, assim como aos zeladores da terra e da manutenção das alianças que os sucedem.

A produção agrícola se caracteriza primeiramente pela descoberta de um novo sítio, adequado pelos caçadores em geral. Eles comunicam o achado aos mais velhos e esses distribuirão as áreas entre as famílias. A terra não possui propriedade. Há apenas o direito à ocupação, de acordo a critérios ligados à antiguidade da família ou linhagem ali estabelecida. [...] Os meios de produção, incluindo os instrumentos de trabalho, são, portanto, coletivos ou comunitários, ficando, todavia, confiados à orientação e guarda dos mais velhos, que representam a comunidade de produção, vila ou aldeia (LUZ, 2000, p. 95).

Vale ressaltar que a origem divina da terra exige, segundo os pactos, que os instrumentos destinados à sua manipulação sejam fornecidos por ela mesma. Para esse fim, a matéria-prima necessária é retirada da terra e processada em fornos, transformando-se em ferro, com o qual são elaboradas as ferramentas destinadas ao trabalho. Um mito comum nas tradições yorubá sobre o Òrìsà Ògún, retrata o momento da descoberta da matéria adquirida da terra para a confecção de ferramentas necessárias de uso na agricultura.

[...] Ogum deveria esperar a próxima chuva, e procurar um local onde houvesse ocorrido uma erosão. Ali deveria apanhar da areia negra e fina e colocá-la no fogo para queimar. [...] Para sua surpresa, ao queimar aquela areia, ela se transformou na quente massa que se solidificou em ferro. O ferro era a mais dura substância que ele

conhecia, mas era maleável enquanto estava quente. Ogum passou a forjar a massa quente (PRANDI, 2001, p. 95).

Aqui, Ògún teria aprendido muitas técnicas na forja do ferro, principalmente no que diz respeito à produção de ferramentas para a agricultura. Um dia, entediado de viver no Òrun junto com os outros Òrìsà, ele decide voltar e ensinar para os homens tudo o que aprendera:

[...] veio ao Aiê e aqui fez o pretendido. Em pouco tempo foi reconhecido por seus feitos. Cultivou a terra e plantou, fazendo com que dela o milho e o inhame brotassem em abundância. Ogum ensinou aos homens a produção do alimento, dando-lhes o segredo da colheita, tornando-se assim o patrono da agricultura (PRANDI, 2001, p. 98).

Ainda sobre a importância de Ògún para a produção dos instrumentos de trabalho e consequentemente para a agricultura, José Beniste registra a seguinte passagem:

[...] os Òrìsà e o povo estavam vivendo na Terra criada por Òsàlà e onde todos exerciam suas tarefas: a caça, a limpeza da terra para a agricultura, a plantação, a construção de suas casas para abrigo de suas famílias. Tudo era feito com muita dificuldade por falta de ferramentas adequadas para o trabalho e, agora, mais ainda, pois as distancias aumentavam, a cidade crescia para o lado das montanhas, com seus terrenos desnivelados por gigantescas rochas com caminhos inacessíveis. Olhando o que tinha feito e o que estava por fazer, os Òrìsà discutiram a melhor solução para o problema. Diziam: “deixe um de nós começar a grande tarefa, derrubando as árvores e limpando a terra. Depois poderemos plantar em nossos campos”. E assim, [...] um por um, Òrìsà tentaram, mas não conseguiram fazer o que pretendiam. [...] Até aquele momento o único Òrìsà a se manter calado era Ògún, que observava todo movimento sem nada dizer. Somente quando todos já haviam tentado (sem grandes sucessos), ele se levantou de onde estava e disse: “Nísisìyí àsìkò mi ni”. [“Agora é a minha vez”]. Executou o corte das arvores necessárias para a abertura dos caminhos; com potentes golpes destruiu as rochas, enquanto outras foram deslocadas para manter a terra livre das pedras. Toda a terra foi arada, amaciada e semeada. Deu novos caminhos, enquanto ia eliminando plantas desnecessárias. Ògún trabalhou até o final da tarde initerruptamente. Quando terminou a sua obra, retornou para junto dos demais Òrìsà, que já o aguardavam. Lá chegando, exibiu suas armas e ferramentas utilizadas. Estavam afiadas e intactas. Diante do que viam, perguntaram: “que metal esplendido é este?” Ògún respondeu: “o segredo desse metal me foi dado por Olódùmarè. É chamado de irin o ferro.” (2012, p. 127-128).

Com base nas passagens citadas, observa-se que sendo Ògún, o Òrìsà dos metais, especificamente do ferro, é aquele que representa e exemplifica a materialidade do pacto do homem com a terra. Neste sentido, “habitar a Terra, percorrê-la, plantar ou construir é tratá-la como um poder que deve ser honrado: cada um de seus atos é uma celebração, um reconhecimento do laço sagrado que une o homem aos seres da Terra, da águas ou do ar” (DARDEL, 2011, p. 54). Decerto, o homem para trabalhar a terra deve utilizar ferramentas dela provindas, e Òrìsà Ògún, compartilhou o segredo da transformação da matéria “areia negra e fina” por meio do fogo, transformando-a em ferro, forjando as ferramentas necessárias

para o uso cotidiano, tanto aquelas utilizadas na agricultura, quanto na guerra, para a fabricação de armas. Vale ressaltar que o conhecimento sobre o uso e manipulação do ferro nas sociedades negro-africanas está diretamente ligado à linhagem familiar dos ferreiros, que exercem papel de prestígio político e social de suma importância para a sociedade, pois seus conhecimentos inclusive ultrapassam os limites de forja, uma vez que são os mestres da “faca ritual” utilizada nos ritos de circuncisão dos meninos ou nos sacrifícios às divindades. Deste modo, importa saber, que os aparatos tecnológicos existentes para lidar com o cultivo da terra encontram-se, como na produção, limitados à sua utilidade específica: destinam-se exclusivamente ao atendimento de necessidades sociais vitais da comunidade. A tecnologia suficiente de que são dotadas essas sociedades descarta a possibilidade da criação de necessidades artificiais ligadas à concepção segundo a qual o bem-estar depende da evolução instrumental.

Assim, das alianças seladas com a terra pelas famílias nascem como indicado antes, as unidades de produção familiar e a comunidade, elementos sintetizados na família-aldeia. Seguindo a ótica de Dardel:

a Terra se manifesta como a atualização que não cessa de se renovar em virtude e função eternizante do mundo. O mito não é de forma alguma a narrativa de um acontecimento ocorrido em uma data precisa e única. Ele é absoluto, isento do tempo como uma data ou momento. Essencial, ele engloba todos os existentes (2011, p. 49).

Dentro dessa proposta comunitária que orienta a existência social, o trabalho transparece como outro grande instrumento da produção, encontrando-se esta vitalmente associada a ele, segundo as normas de interdependência estabelecidas por outros fatores que não os meramente econômicos. Vale ressaltar que nessas sociedades o trabalho se traduz como ação comunitária por excelência já que a comunidade se dedica ao labor coletivo cerca de dois terços do tempo destinado às atividades agrárias. O tempo restante é usado para o trabalho exercido em subáreas cedidas às famílias conjugais que compõem a família extensa, possibilidade esta que é, entretanto, interdita aos homens solteiros que não passaram pelos ritos de passagem do “casamento” que lhes outorga o direito e acesso à terra. De maneira geral, os jovens que ainda não passaram formalmente pelas fases finais de iniciação, dedicam-se integralmente ao trabalho comunitário. Existem ainda os trabalhos em mutirão, que estabelecem reciprocidade. As pessoas jovens devem trabalhar mais do que as de idade avançada, e as atividades são organizadas de maneira que aquelas que terminam suas tarefas, ajudem as outras a concluir as suas. Deste modo, a comunidade assegura às pessoas idosas,

sem condições de carregar e manipular a enxada, o direito de não mais trabalhar a terra, não lhes faltando o essencial em seus celeiros, até a morte.

Acrescente-se, que o caráter comunitário de que se reveste o trabalho não encontra sua materialidade apenas no caráter coletivo da produção. Nessas sociedades a força de trabalho faz efetivamente parte dos valores sociais e da identidade dos sujeitos, e a sua personalidade não se encontra separada da totalidade vital – terra - que configura a existência dos homens, não podendo, portanto ser apropriada por alguém. Ela é, cedida à comunidade sob a forma de elemento estruturador de papéis sociais, condição em que o trabalho integra- se qualitativamente nas práticas ligadas à produção enquanto fator de vida social total, fazendo emergir o indivíduo historicamente consciente das ações que deve à sociedade. Nesse contexto, os modelos de relações e compromissos são transmitidos de acordo com a passagem pelos ritos de iniciação, responsáveis pela elaboração da personalidade, comum ao coletivo, e adequada à organização da sociedade.

Por fim, a produção, nessas sociedades agrárias, é elemento estrutural cuja relevância se afigura ainda mais decisiva quando se têm em conta as duras condições de trabalho aí vivenciadas pelas pessoas na lida com a terra, único meio de subsistência (LEITE, 2008). Mas a natureza sagrada da terra, impondo os pactos e toda a normativa que estes estabelecem, garante à sociedade deter, em suas instituições abrangentes e comunitárias, os recursos naturais, materiais e a força de trabalho como fatores unificados da produção (LUZ, 2000, p. 98-99). Por outro lado, a produção, assim como a tecnologia, suficientes, limitadas, às necessidades sociais vitais, impede a emergência de excedentes passíveis de serem apropriados por camadas sociais privilegiadas.

Benzer Belgeler