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İhtiyat İlkesinin Doğuşu ve Gelişimi

BÖLÜM 3: İHTİYAT İLKESİ

3.2. İhtiyat İlkesinin Doğuşu ve Gelişimi

O pensamento político de Nicolau Maquiavel contém enunciados sobre política interna que trazem termos referentes aos corpos dos seres humanos

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Por códigos fundamentais de uma cultura, Foucault entende que são “aqueles que regem a sua linguagem, os esquemas perceptivos, as suas permutas, as suas técnicas, os seus valores, a hierarquia de suas práticas”, que “fixam logo de entrada, para cada homem as ordens empíricas com que ele terá que lidar e em que se há de encontrar” (FOUCAULT, 1966, p. 8).

(FISCHER, 1997, p. 790) e a medicina renascentista: cabeça, peito humano, humores, expurgo, remédio, veneno, são alguns exemplos. Sabemos também que, desde a Antiguidade, os filósofos usam vocabulários médicos para abordar temas próprios à cidade, sendo tal tradição usada no Renascimento, pois como observa Parel (1992, p. 103), não somente Maquiavel se apropriou da teoria dos humores, bastante conhecida e usada pela medicina da época. Podemos constatar que outros autores renascentistas também fizeram uso do vocabulário humoral ao escreverem tratados políticos, a exemplo de Francesco Guicciardini (1994, p. 146, tradução nossa)24,

E, embora não tenhamos de buscar um governo imaginário [immaginato] e que seja mais fácil de aparecer nos livros do que na prática, como era, talvez, a república de Platão; mas, considerando a natureza, a qualidade, as condições, a inclinação e, para resumir todas estas coisas em uma palavra, os humores da cidade e dos cidadãos.

Logo, constatamos que era comum entre os pensadores políticos daquele tempo tratar a política com termos emprestados aos da arte médica, especialmente o termo humor, o que os difere dos antigos, tanto dos gregos como dos romanos, cuja analogia ao corpo humano se dava utilizando-se as partes25 ou os órgãos:

No tempo em que o corpo humano não formava como agora um todo harmonioso, mas cada membro possuía sua própria opinião e sua própria linguagem, todas as partes do corpo revoltaram-se porque o estômago obtinha tudo à custa de seus cuidados, seu trabalho e serviços, ao passo que ele próprio, ocioso no meio deles, não fazia outra coisa a não ser gozar dos prazeres que lhe eram dados. Então os membros conspiraram para que a mão não levasse mais o alimento à boca, nem a boca o recebesse, nem os dentes o mastigassem. Mas enquanto, por ressentimento, queriam domar o estômago pela fome, os próprios membros e todo o corpo chegaram a um extremo de esgotamento. Compreenderam então, que o estômago não vivia na ociosidade, que não era apenas alimentado por eles, mas os alimentava também, devolvendo a todas as partes do corpo este sangue que nos dá vida e força, distribuindo-o pelas veias depois de elaborá-lo pela digestão dos alimentos. (LIVIO, 1989, II, 32, p. 150)

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Savonarola também faz uso da teoria humoral, utilizando a noção de temperamento ou compleição, que é uma qualidade derivada da mistura dos humores. As naturezas dos povos são colocadas em analogia às compleições: “Há, pois, alguns povos, cuja natureza é tal que não pode tolerar o governo de um só, sem que haja grandes e insuportáveis inconvenientes. São semelhantes à compleição e aos costumes de alguns homens...” (SAVONAROLA, 1991, I, II, p. 139).

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Aristóteles faz uso analógicos as partes do corpo: a cidade é por natureza anterior à família e a cada um de nós, individualmente considerado; é que o todo é, necessariamente, anterior à parte. Se o corpo como um todo é destruído, não haverá nem pé nem mão, exceto por homonímia, no sentido em que falamos de uma mão feita de pedra: uma mão deste gênero será uma mão morta; tudo é definido segundo a sua capacidade ou função. (...) é evidente que a cidade é, por natureza, anterior ao indivíduo, porque se um indivíduo separado não é autossuficiente, permanecerá em relação à cidade como as partes em relação ao todo. (ARISTÓTELES, 1998, I, 2, 1253 a 20 ss).

Apesar de usual tal emprego na política, gostaríamos de compreender como o termo humor é apreendido por Maquiavel. A primeira menção do florentino à teoria humoral aplicada ao corpo político encontra-se n’O príncipe:

Pois em todas as cidades existem esses dois humores diversos, que nascem da seguinte razão: o povo deseja não ser comandado nem oprimido pelos grandes, enquanto os grandes desejam comandar e oprimir o povo; desses dois apetites opostos nasce nas cidades um destes três efeitos: principado, liberdade26 ou licença (P, IX, p. 45).

Nos Discorsi, por sua vez, o vemos afirmar que “em toda república há dois humores diferentes, o do povo e o dos grandes” (D, I, 4, p. 22). Enunciado semelhante ao do Príncipe encontra-se no início do terceiro livro da História de

Florença: “as graves e naturais inimizades que há entre os homens do povo e os nobres, causadas pela vontade que estes têm de comandar e aqueles de não obedecer, são razão de todos os males da cidade” (HF, III, 1, p. 157). E, além destas três obras, também usaremos nessa dissertação o Discurso sobre as formas de

governo de Florença, que também contém referência acerca da relação entre

república e humores da cidade

Após esse regime [o de Cosimo e Lorenzo de Medici], a cidade quis tomar a forma de república, mas não conseguiu instituí-la de modo que fosse durável, pois suas ordenações não satisfaziam a todos os humores dos cidadãos nem podiam, de outro modo, contê-los (Discurso, 3, p. 61).

Desse modo, observamos que Maquiavel faz referência ao corpo político como constituído de partes, identificadas aos humores, que animam a cidade e cujas disposições ou tendências são diferentes: de um lado temos os grandes que desejam comandar, do outro, temos o povo que deseja não ser comandado nem oprimido. Mas apesar de isso tudo ficar evidente, porque Maquiavel usa esse termo? O que mais está contido nele? Isto é, que ideias podem estar simbolizadas no termo

umori, que talvez não apreendamos porque nossa medicina já é outra? Temos a

hipótese de que a compreensão sobre o uso do termo umore por Maquiavel pode ajudar-nos a compreender melhor seu pensamento político, já que os trechos acima

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Maquiavel, provavelmente inspirado em Tito Lívio, nomeia por liberdade a república, contrapondo-o ao governo de um rei, logo no início do Livro II que inicia os relatos sobre a época republicana: “Tratarei agora dos feitos que o povo romano, livre a partir de então” (LÍVIO, II, 1, p. 105).

sinalizam sua importância para a compreensão das relações internas à cidade e o tipo de regime instaurado.