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C. Konut İhtiyacı Bakımından Özel Şartlar

1. İhtiyacın Şartları

Baseando-se em uma breve pesquisa que realizou entre os Xikrin do Bacajá nos anos 1990, Vidal (2001) descreve em artigo o que nomeia de mapeamento socioambiental das cores. Na ocasião, faz esta proposta de classificação através de uma caixa de 36 lápis de cores que usa em conversas com três informantes, e intenta demonstrar, a partir desse trabalho e dos estudos anteriores com os Xikrin do Cateté, que estes indígenas utilizam os mesmo princípios para explicar e organizar o mundo. Destaca neste sentido que, por um lado, os Xikrin valorizam os princípios de oposições e hierarquizações internas e, por outro, reduzem a

importância das trocas com o exterior96. Portanto, para Vidal (2001), o resultado deste

trabalho é mais um indicativo do sistema de classificação Xikrin.

A antropóloga indica que na conversa com um dos interlocutores a classificação das cores é feita articulada a outras ordenações que os Xikrin fazem da fauna, flora, da geografia e das divisões sociais. A investigação sobre os significados das cores ajuda a entender explicações que são elaboradas sobre diferentes espaços e situações da vida de uma comunidade.

Seguindo os argumentos de Vidal (2001), que demonstra a importância de conhecer as teorias e categorias nativas para conseguir oferecer uma educação de qualidade para os povos indígenas e, inspirada em seu trabalho sobre as classificações que os Xikrin fazem das cores, pretendo relatar brevemente o que presenciei durante as aulas sobre os usos que as crianças faziam das cores que se materializavam neste espaço, principalmente, nos lápis de cores. Entretanto, não desenvolvi uma abordagem semelhante a da antropóloga, que elaborou argumentos que exploravam as categorias Xikrin, procurando esclarecer os nomes usados

para as cores na língua indígena97 e os significados atribuídos a elas ou ao conjunto delas,

dentro de sua lógica de pensamento.

A partir das inúmeras atividades de desenho e pintura que as crianças realizavam na escola quase que diariamente, pude observar certas recorrências nos usos que faziam das diferentes cores que tinham à disposição - que era bem menor se comparada com as levadas por Vidal (2001), pois cada caixa continha apenas 12 lápis -, e, assim, pude perceber algumas

96 Estudos mais recentes como os de Gordon (2006) e Cohn (2005a) questionam o argumento de Vidal sobre a

reduzida importância que as relações de trocas com outros grupos, indígenas e não-indígenas, têm para os Xikrin.

97 Isso chegou a acontecer quando estava tentando aprender a língua Xikrin com um dos homens da aldeia que se

dispôs a me ensinar, e num dos dias começamos a falar de cores. Eu falava o nome das cores em português e ele traduzia para o Xikrin. O resultado foi muito semelhante ao que Vidal (2001) descreve em seu artigo, que será mencionado adiante.

preferências e desaprovações, as combinações que apareciam no papel e a maneira como elas gostavam de manipular e criar a partir desse material.

A dinâmica das crianças menores nas atividades de pintura ocorria da seguinte maneira: no instante em que fosse autorizado o seu início, saíam rápido até a caixa que continha os lápis de cor que normalmente era colocada na mesa do professor, para pegar o maior número possível. Isso fazia com que algumas crianças ficassem com lápis de cor repetido nas mãos, enquanto os últimos a chegar ficavam sem muitas opções. Para tentar resolver o problema, o professor costumava tomar duas medidas: ou dizia que elas só poderiam escolher três cores e só depois que usassem pegariam outras, ou ele mesmo se encarregava de entregar os lápis para os estudantes.

Esta prática deve ser recorrente entre os professores que trabalham nas escolas Xikrin, porque as crianças mais velhas demonstraram já conhecer essa regra, e, sem orientações da professora, pegavam só os materiais que iam usar primeiro e, quando acabavam, trocavam.

O meu interesse pelas cores foi despertado durante uma atividade em que os estudantes do 5º ano estavam fazendo cartazes em grupo sobre as diferentes espécies de plantas e, para isso, copiavam desenhos de livros didáticos. No momento de decorar os cartazes com as cores, as crianças escolheram os lápis na caixa em que eram guardados e, após todos terem feito isso, aconteceu de um grupo ficar esperando o outro, pois queria usar a mesma cor que não tinha em quantidade suficiente para todos. Quando olhei para a caixa, entretanto, vi que os lápis das cores marrom, ocre e rosa claro estavam lá, não tinham sido escolhidos por nenhum estudante. Fiz um comentário surpreso com a professora que me

respondeu dizendo que isso sempre acontecia nas turmas Xikrin98, porque eles não gostam

dessas cores.

Numa outra aula, com a turma do 3º ano, em que estava sendo trabalhadas noções de saúde bucal, o professor elaborou uma seqüencia de desenhos que mostrava como é uma escovação correta, indicando os diferentes movimentos da escova na boca. Ao fim da explicação, os estudantes deveriam pintar a folha com o desenho que lhes foi entregue e, para isso, o professor distribuiu três lápis de cor para cada estudante, sendo que todos receberam a cor rosa claro. Ao olhar para as cores disponibilizadas pelo professor, a reação das crianças foi imediata: levantaram e foram atrás dele para saber o que deveriam fazer com o rosa claro. O professor indicou, assim, que a gengiva da boca era daquela cor e mostrou no papel onde deveriam aplicá-la.

Esta era uma postura que o professor tomava para si nestes momentos das aulas, pois entendia que era sua função ensinar as cores corretas que cada figura deveria ter, para seguir a ordem das coisas da maneira como elas são e existem no mundo, dentro da sua concepção, é claro. Em outros dias, pude presenciar outras indicações semelhantes a esta, como: o céu deve ser pintado de azul claro, o mato com o verde e o tronco da árvore de marrom.

Sobre essas cores especificamente, Vidal (2001) não comenta em seu artigo o significado dado por seus informantes, mas destaca a preferência do Xikrin pelas cores azul- escuro, vermelha e preta, que são expressas na forma de pedido de miçangas. As cores amarelo, verde e branca não são apreciadas, embora ela pontue que com o aumento do contato dos Xikrin do Cateté com a sociedade envolvente isso estava mudando.

Estudos anteriores demonstram que as cores que os Kayapó mais valorizam são o

vermelho e o preto99, usadas na pintura corporal com o jenipapo e urucum, atividade central

na vida Xikrin. Vidal (2001) esclarece, porém, que não existe uma palavra correspondente para cor na língua Xikrin, sendo que utilizam apenas três palavras que correspondem a uma cor específica e outras duas que são mais abrangentes. Preto é tuk, branco é aka, e vermelho,

kamrik. As outras são ngrãngrã, que incluí o verde, azul claro e amarelo, e rörörö que abrange os tons rosa e marrom (2001, p.214).

Em trabalho no Mrotidjãm, pude verificar que a situação descrita por Vidal adquiriu novas dimensões e intensificaram o movimento que começava a se formar. Atualmente os pedidos de miçangas são pelas cores amarelo, laranja, azul-claro, verde, branco, sendo que o preto ainda permanece entre as mais requisitadas, mas o vermelho e o azul-escuro, tendo que

dividir espaço com as novas cores, foram sendo deixadas de lado nos pedidos100. Isso não tira

o apreço que continuam a manifestar por aquelas, especialmente pelo vermelho, fato que foi possível verificar na escola.

No primeiro dia de aula, para citar um exemplo, quando a professora foi distribuir os materiais para a turma do 5º ano, ela entregou uma caneta azul para todos os estudantes como parte do conjunto a que tinham direito. A escola havia recebido também grande quantidade de canetas vermelhas, que eu imagino que tenham sido compradas para serem usadas pelos estudantes junto com a caneta azul, uma vez que é assim que acontece na maioria das escolas, quando as crianças aprendem o que elas devem escrever com cada uma em diferentes situações. Estas cores carregam significados muito específicos e saber onde e quando é

99 Como demonstraram Vidal (2001) e Turner (1995).

100 Algumas mulheres mais velhas da aldeia me pediram para levar miçangas vermelhas, pois queriam fazer

possível usá-las faz parte de um conhecimento que os estudantes devem adquirir. Porém, na aldeia, a professora não distribuiu esta última, mas, antes de terminar a aula, resolveu perguntar se alguém preferia a vermelha no lugar da azul. No final todas as crianças dessa sala estavam com suas canetas vermelhas nas mãos e seus cadernos foram sendo preenchidos ao longo das atividades com textos e exercícios de matemática, grafados com essa cor.

Durante as etapas escolares as crianças vão aprendendo, além da maneira de desenhar do não-indígena, o jeito de pintar e escolher as cores, demonstrando que aprenderam a nova técnica. Isso vai variar entre as crianças, pois umas gostam de fazer as atividades escolares mais do que outras. Mas isso fica bem evidente quando comparado os desenhos das diferentes séries. Se os estudantes das séries iniciais misturavam várias cores no mesmo desenho produzindo no final uma miscelânea colorida, os mais velhos optavam por usar apenas algumas cores, com o cuidado de não sair fora da linha do desenho, produzindo, assim, algo mais próximo dos padrões aprendidos na escola. Os lápis mais concorridos, e que sumiram mais rápido das caixas, eram os laranja, azul (claro e escuro), verde (claro e escuro), rosa escuro, vermelho e preto.

Reproduzir o estilo de desenho e pintura que o professor ensina acaba sendo uma atividade escolar reconhecida por todos e que as crianças devem aprender. As cores que se materializam nos lápis e canetas coloridas são manipuladas pelas crianças ou jovens, que saíram há pouco tempo da escola ou, na maioria dos casos, continuam estudando no curso de Magistério Indígena. Como são poucos os adultos que sabem escrever no Mrotidjãm, estes instrumentos ainda não ganharam outros espaços na aldeia.

No que diz respeito aos pedidos das miçangas, entendo que as mudanças se devem mais pelo contato que eles têm com os Xikrin do Cateté e outros grupos Kayapó do que por uma influência dos materiais coloridos da escola. Nos encontros com outros indígenas, costumam trazer pulseiras e colares de miçangas que acabam virando referências para os próximos pedidos. Isso acontece não só com o gosto por novas cores, mas também pelo tamanho das miçangas que estão ficando cada vez menores devido aos ornamentos que começaram a conhecer de outros grupos Kayapó. Para entender esse colorido que começa a fazer parte dos adornos que embelezam os corpos Xikrin em situações de festas, rituais e reuniões de negociações políticas, é necessário olhar com mais cuidado para as relações que estabelecem com os Kayapó, procurando desvelar possibilidades de interações entre eles.