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2.2. Tipleştirmenin Kuramsal Temeli

2.2.1. İdeal Tipler

Existem duas abordagens da História da Ciência: a internalista e a externalista, que dependendo da linha teórica assumem várias vertentes. De forma geral, a internalista interessa-se pelos fundamentos lógicos do conhecimento científico como a matematização do conhecimento científico, o processo de experimentação; já a externalista é preocupada com as influências sociais, econômicas, políticas e culturais na produção do conhecimento científico.

A abordagem internalista teve grande força no trabalho de físicos, químicos e biólogos que não eram historiadores profissionais, mas que escreveram sobre a História da Ciência. Como exemplo, temos, no século XX, cientistas como Dugas Jammer, Partington, Truesdell e Whittaker que fizeram estudos históricos de campos específicos do conhecimento científico (KUHN, 1977).

De acordo com Kuhn (1977, p. 148-150), as perguntas básicas que um historiador faz na perspectiva internalista são: ao abordar a história de uma teoria científica, o historiador deveria questionar quais os problemas os cientistas formularam? O que pensou o cientista ao ter descoberto algo e o que ele considerou ser o fundamento desta descoberta? Ainda, no processo de reconstrução, o historiador deveria observar os avanços e retrocessos na produção de determinado conhecimento científico.

Segundo Kuhn (1977), a perspectiva externalista tentou várias formas de colocar a ciência na perspectiva cultural, que tomaram três vertentes. Uma delas é o estudo das instituições científicas. Exemplo são os estudos de história das instituições científicas do século XVIII; a Sociedade Lunar de Schofield; a educação científica na França em colaboração com Taton. Para o século XIX, temos o exemplo do estudo de Cardwell sobre a organização da ciência na Inglaterra, o de Dupree sobre a organização da ciência nos Estados Unidos e o de Vucinich sobre a ciência na cultura Russa.

Uma segunda vertente é o estudo dos historiadores sobre a influência da ciência nos outros ramos do conhecimento. Neste bojo, formas de pensar a ciência são utilizadas em outras áreas do conhecimento como a economia, política etc. No entanto, de acordo com Kuhn muitos destes paralelos demonstram pouco aprofundamento,

35 configurando uma má interpretação. Mesmo assim, Kuhn não descarta a possibilidade de influências de teorias científicas na organização política e social dos vários países. Exemplos são: os estudos de Nicolson sobre ciência e literatura dos séculos XVII e XVIII; a discussão de Westfall sobre a religião natural; a relação ciência e iluminismo de Gillispie; o papel das ciências da vida no pensamento francês do século XVIII. A terceira abordagem é o estudo da ciência, numa área geográfica com o objetivo de compreender o papel social e o estabelecimento da ciência.

Em relação à abordagem externalista, Shinn & Ragouet (2008), apresentam três pontos de vista sociológicos sobre a ciência, a inovação e a técnica: a perspectiva diferenciacionista, anti-diferenciacionista e a transversalista.

A perspectiva diferenciacionista tem como característica, a consideração de que a ciência é um modo de conhecimento epistemológico diferente e superior aos outros modos de compreensão da realidade. Nesta vertente, há uma separação clara entre o trabalho da sociologia e da epistemologia. Os principais representantes desta vertente são: Robert Merton, Joseph Bem David, Diana Grane, Derek De Solla Price e Eugen Garfield.

A abordagem diferenciacionista possui algumas limitações na análise sociológica da ciência, porque se reduz a investigar a influência das instituições no conhecimento científico, não se preocupando com o estudo cognitivo do conhecimento científico. Para Merton, a criação de associações como a Royal Society promove a ciência na medida em que participa de sua institucionalização. Além disso, o eminente sociólogo identifica quatro normas, que segundo ele, ajudam garantir a autonomia da ciência e permite à comunidade científica resistir à influência de fatores políticos e econômicos. São elas: o universalismo, o comunalismo, o desinteresse e o ceticismo6. Estas normas são interiorizadas pelos cientistas, durante o seu aprendizado e são elas que fazem da ciência um sistema social diferente dos outros (SHINN & RAGOUET, 2008, p. 18-22).

6 O universalismo: A aceitação e a recusa de trabalhos científicos não podem estar subordinados a

atributos pessoais ou sociais dos seus produtores. O comunalismo: a ciência é uma atividade pública que leva a produção de bens públicos, os resultados pertencem a toda a comunidade; o desinteresse: os cientistas se dedicam a procura da verdade, eles não são movidos por interesses pessoais, ou, motivações externas a ciência; o ceticismo: a preocupação fundamental dos cientistas é não se deixar influenciar por convicções pessoais, autoridade quando avaliam os trabalhos dos colegas cientistas (SHINN & RAGOUET, 2008).

36 Os referenciais teóricos da segunda perspectiva, a anti-diferenciacionista, são os representantes do programa forte da sociologia David Bloor e Barry Barnes; as pesquisas sobre etnografia da ciência de Bruno Latour e Steve Woolgar, Karin Knorr- Cetina, Michael Linchy; a teoria de ator-rede de Bruno Latour e Michel Callon. Apesar de apresentarem diferentes argumentações sociológicas do conhecimento científico, possuem em suas abordagens teóricas pontos comuns, como a visão relativista de ciência e tecnologia, e, contrariamente, à perspectiva diferenciacionista deixam de analisar somente os aspectos institucionais da ciência, passando a se preocupar, também, com os aspectos de construção do conhecimento científico-tecnológico (SHINN & RAGOUET, 2008, p. 59-98).

Nessa perspectiva, há uma recusa da unidade epistemológica da ciência com a justificativa de que o conhecimento científico é o resultado de condições sociais e técnicas heterogêneas. Nesta vertente, as noções de disciplina e de especialidade são criticadas e tendem a desaparecer e serem substituídas pela noção de rede. Em síntese, nesta abordagem sociológica, a unidade e autonomia da ciência e as formas de divisão do trabalho que a caracterizam desapareceriam, pois ao relativizarem a construção do conhecimento científico e tecnológico não há mais divisão entre as dimensões sociais e cognitivas do conhecimento científico.

Por meio de uma dialetização da perspectiva diferenciacionista (a autonomia do conhecimento científico) e da antidiferenciacionista (relativismo científico que culminava na propagação da idéia de anticiência), Shinn e Ragouet (2008) propõem uma terceira perspectiva; a transversalista, da qual há três pontos de interesse:

(1) A autonomia relativa do campo científico, o que significa que ele está dotado, ao mesmo tempo, de mecanismos de regulação que lhes são próprios e que ele estabelece com os outros microcosmos sociais-campos econômico,político etc.- relações de interdependência;

(2) A existência de fluxos migratórios transversais aos espaços disciplinares que concernem tanto aos praticantes quanto aos conceitos e instrumentos-sobre os quais os antidiferenciacionistas se debruçaram, mas para ver neles somente o testemunho de uma desaparição das fronteiras, notadamente disciplinares; (3) A persistência de movimentos de convergência intelectual e de capitalização

cognitiva que transcendem as demarcações disciplinares, bem como a estabilização de subcampos de pesquisa (SHINN & RAGOUET, 2008, p. 123).

37 A perspectiva transversalista tem a intenção de ultrapassar as abordagens estritamente diferenciacionistas, sem cair no antidiferenciacionismo. Baseados em diferentes noções de campo científico defendida por autores como Pierre Bourdieu (1975, 2001) e Richard Whitley (1984), Shinn e Ragouet (2008, p.134- 136), apresentam quatro pontos de vista, que constituem a coluna vertebral da abordagem transversalista:

x A concepção do campo científico, como sendo distinto de outros campos sociais. x A ciência toma a forma de um conjunto de estruturas, de processos

organizacionais e intelectuais. A não aceitação da divisão clássica de tarefas entre a epistemologia e a sociologia.

x A existência das disciplinas, mas a consciência das mudanças dos campos disciplinares, principalmente devido às atividades sociointelectuais das estruturas científicas representadas por estas disciplinas.

x Recusa da idéia de ciência como universo puro de intelectuais desinteressados. Em síntese, esses autores utilizam a noção de campo científico para propor uma abordagem transversalista, que considere não apenas uma análise intrínseca aos campos científicos, mas também como os cientistas se relacionam com os outros campos científicos diferentes daqueles dos quais eles participam e ainda com outros campos sociais, como o político e o econômico.

A sociologia diferenciacionista de Merton, Bem David, que predominou entre os anos de 1940 e 1970, deu uma contribuição para a Sociologia da Ciência, mas colocou a ciência como sendo autônoma em relação aos grupos sociais. Já os sociólogos antidiferenciacionistas colocaram a ciência em pé de igualdade a outros grupos sociais, como a indústria e a política. Alguns sociólogos desta vertente, em uma visão reducionista, defendem que só tem futuro somente o conhecimento científico aplicado, modelado pelas exigências econômicas do mercado (SHINN & RAGOUET, 2008, p. 160-162).

Já a perspectiva transversalista tende a desenvolver uma análise, tanto dos processos sociais que dão à ciência sua autonomia quanto os seus aspectos racionais, que fazem dela um microcosmo social em ligação com os outros microcosmos sociais.

38 Enquanto na perspectiva antidiferenciacionista, a ciência é considerada uma instituição social como as outras, na perspectiva transversalista a ciência é diferenciada, no entanto, os processos de institucionalização são determináveis.

Quanto ao desafio futuro da Sociologia da Ciência, os autores concluem que:

[...] A ambição de uma sociologia da ciência pertinente é tornar inteligíveis as dinâmicas sociais em operação na elaboração dos conhecimentos científicos, mas, igualmente, esclarecer as condições que permitem aos cientistas neutralizar os fatores sociocognitivos suscetíveis de pesar sobre o livre exercício da racionalidade crítica (SHINN & RAGOUET, 2008, p. 163).

.

Entretanto, alguns autores como Moreira Jr. (2009), apontam críticas quanto ao modelo transversalista. A primeira diz respeito à falta de aprofundamento de dados empíricos históricos que deem mais consistência ao modelo proposto pelos autores; a segunda é o reducionismo dos autores quanto ao significado de “campo científico”, definida pelos autores, que no caso, confunde-se com a noção de disciplina.

Apesar dos problemas apontados, esta posição transversalista parece defender um equilíbrio nos estudos sociológicos da ciência entre a abordagem internalista e externalista. Este posicionamento, apesar de ser diferente é corroborado por Kuhn (1977) para quem, o isolamento de uma comunidade científica madura acontece dentro dos conceitos e a estrutura dos problemas desta ciência, mas que existem outros aspectos para o avanço como o financiamento de empreendimentos científicos por empresários e governos. Além disso, Kuhn alerta que apesar das abordagens internalista e externalista terem sua autonomia, elas precisam se complementar com a finalidade de dar um entendimento mais coeso ao desenvolvimento científico.

Esse equilíbrio nas abordagens internalista e externalista nos estudos de HFSC é corroborado por Ludwik Fleck que será utilizado na análise dos trabalhos do cientista James Prescott Joule, no presente trabalho de tese. No bojo desta discussão, um dos focos da revisão bibliográfica deste capítulo é sabermos a quantidade de trabalhos e de que maneira é feita a abordagem externalista e internalista da ciência, nas pesquisas realizadas sobre História, Filosofia e Sociologia da Ciência na formação de professores de Ciências.

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1.3 Algumas considerações acerca da História e Filosofia da Ciência no ensino de