eleva os edifícios escolares à altura da importância atribuída à educação nas primeiras décadas do período correspondente à República Velha. Ao implantarem os primeiros grupos escolares, em níveis diferenciados estão os Estados de São Paulo (1894), Santa Catarina (1911), Rio Grande do Norte e Espírito Santo (1908), Minas Gerais (1906), Paraná (1903), dentre outros.
As primeiras edificações escolares do Estado de São Paulo foram em 1894: a Escola Normal, conhecida por Escola Normal de São Paulo ou Escola Normal Caetano de Campos4 Figura 4, a Escola Normal de Itapetinga e a Escola-Modelo da Luz, todas projetadas por Ramos de Azevedo (1851-1928).
A Escola Normal de São Paulo, construída para funcionar conjuntamente com a Escola-Modelo Preliminar “Antônio Caetano de Campos”, foi posteriormente ampliada com a Escola Complementar e o Jardim de Infância. Atualmente funciona neste prédio a Fundação de Desenvolvimento da Educação de São Paulo ( FDE).
Esta escola, denominada pelos contemporâneos de Escola Normal da Praça, de estilo neoclássico, faz parte de um aglomerado de outros edifícios da cidade, dentre eles: o Teatro Municipal, a Catedral da Sé, a Estação da Luz, o Hotel Esplanada, o Liceu de Artes e Ofícios, o Mercado Municipal.
4 Este edifício foi originalmente implantado no largo 7 de Abril (este espaço era um quadrilátero de
terra batida - futura Praça da República), cujo espaço fora destinado para a nova catedral de São Paulo, na Consolação, com disponibilidade de recursos oriundos de uma loteria. Com a instalação do governo republicano e a separação entre o Estado e a Igreja, o local e o resultado da loteria foram destinados para a referida instituição escolar.
Figura 4. Escola Normal de São Paulo, 1894 Fonte: (MONARCHA, 1999, p. 414)
A Escola Normal de Itapetinga tem composição de um conjunto único: ao centro, a Escola Normal, e, nas laterais, as Escolas Complementar e a Modelo Preliminar Figura 5. A Escola-Modelo da Luz configura “projeto–tipo” para os grupos escolares do Estado, no início do século XX (Figura 6).
Figura 5. Escola Normal de Itapetinga/São Paulo, 1894. Fonte: (FERREIRA et al, 1998, p.37)
Figura 6. Escola Modelo da Luz/SP (1894) - Primeiro Grupo Escolar brasileiro. Fonte: (BUFFA ,PINTO, 2002, p. 55)
Estas edificações representam, nos termos de Monarcha (1999, p.188), a conformação de grandiosidade urbanística e arquitetônica do conjunto praça e edifício-escola. Partilhavam com os pressupostos da burguesia européia do século XIX e transmitiam ao imaginário coletivo a marca da obra de máximo valor social do primeiro governo republicano.
Segundo a tradição ocidental, no contexto das praças, a ocupação deveria ser por instituições representativas da autoridade espiritual, figurada pelas igrejas e catedrais e, por vezes, seminários e conventos; e do poder temporal, pelo Executivo, Legislativo e Judiciário. Por sua vez, poder temporal e autoridade espiritual disputam entre si a condução dos destinos dos habitantes da cidade.
Também a construção do grupo escolar, como uma nova organização administrativa e pedagógica, tornou-se marco arquitetônico na paisagem urbana na capital e demais cidades brasileiras.
Os primeiros projetos arquitetônicos dos grupos escolares paulistas tinham a participação de vários profissionais, na maioria estrangeiros, que utilizaram manuais e publicações técnicas especializadas sobre arquitetura escolar, produzidas principalmente nos países europeus e norte-americanos.
Os projetos executados eram uma mesma planta de “projeto-tipo” para diferentes fachadas. Justificam alguns que a utilização da padronização dos projetos era decorrente de uma decisão econômica do executivo, associada ao volume de obras, o que determinava variar apenas o tratamento formal de suas fachadas.
Em um bloco compacto, as primeiras edificações conservavam uma monumentalidade austera. Eram construções típicas de porão alto, fachadas principais expostas, como um grande plano em um cenário semiclássico (eclético). Em dois pavimentos, contrastava com as habitações e a arquitetura da época, com um programa arquitetônico para oito salas de aula (quatro para cada sexo) e um reduzido número de ambientes administrativos (Figura 7).
As edificações em dois pavimentos prevaleceram até 1902, o que permitia a separação dos alunos por andar, em atendimento às exigências de seus regimentos. Posteriormente, seguem os edifícios térreos com a divisão de sexo por alas. Ao nível de um plano horizontal, uma composição simétrica definida com o acesso social e entradas laterais e dos fundos. Havia um muro divisório até o fundo do lote, separando o recreio masculino do feminino, Figura 8. Ambas as edificações, em relação à rua, são delimitadas por um muro de alvenaria com gradil de ferro.
Figura 7. Grupo Escolar S. João da Boa Vista/SP Fonte: (FERREIRA et al, 1998, p.92)
Figura 8. Grupo Escolar Vaz de Caminha-Iguapé/SP. Fonte: (FERREIRA et al, 1998, p.142)
As edificações dos grupos escolares, nas primeiras décadas do século XX, predominaram na adoção de um ou dois pavimentos, na definição dos acessos independentes e na implantação defronte a uma praça (Figura 9).
Em sua maioria, os prédios localizavam-se, no contexto do núcleo urbano, no centro ou imediações, próximo às edificações representativas do poder local, tais como sede de governo municipal ou estadual, coletoria, câmara municipal, correios, casa bancária, igreja matriz, praça central, dentre outros. Compunham, pois um cenário com um parque público, boulevards, teatros, cinemas, equipamentos e serviços urbanos de modernidade da cidade.
Figura 9. G.E. Barão de Monte Santo - Mococa/SP Fonte: (FERREIRA et al, 1998, p. 148)
De certa forma, a implantação dos grupos escolares no Estado de São Paulo, por relatos de estudiosos, instigou as demais unidades da federação republicana em adotar, em níveis diferenciados, a experiência desse tipo de escola.
Também, o contato de intelectuais e políticos com as “modernas” discussões pedagógicas européias e americanas, inclusive do Rio Grande do Norte, nas primeiras décadas do século XX, contribuiu para a disseminação da nova organização de escola pública primária.
No Paraná, do final do século XIX, segundo Bencostta (2001), o debate sobre a necessidade de projetos específicos para a Instrução Pública fazia parte das preocupações das autoridades de ensino. Neste sentido, em 1890, o Presidente do Estado, Francisco Xavier da Silva, fez publicar um novo regulamento da Instrução
Pública, considerando o atraso do ensino primário, nestes termos: “ os grupos escolares têm provado bem. Adotemos tão útil e proveitosa instituição, principalmente na capital”. Atentava, também, que a bem sucedida experiência paulista do novo modelo apresentava vantagens bem superiores às escolas isoladas, principalmente pela facilidade de fiscalização, associada à vantagem econômica do agrupamento das escolas. Em vez das escolas funcionarem em casas diversas, que custam alto o aluguel, passaram a funcionar em um só edifício, que reúna todas as condições exigidas pela higiene (BENCOSTTA, 2001, p.106)
Visitas comissionadas foram realizadas na tentativa de estabelecer padrões que procurassem se assemelhar àqueles encontrados em São Paulo. No entanto, a consolidação dessa experiência de organização não se efetivou imediatamente em Curitiba. Foram necessários maiores esforços para modificar a realidade escolar, a fim de aproximá-la do discurso dos poderes públicos BENCOSTTA (2001, p.108).
Nesta capital, o primeiro grupo escolar construído, foi o Grupo Escolar Dr. Xavier da Silva, em 1903 (Figura 10). Um outro edifício foi o Grupo Escolar Dom Pedro II, projetado pelo paulista Ramos de Azevedo. De arquitetura eclética, edificado em dois pavimentos, cuja obra foi concluída em 1928 (Figura 11). Ambas as edificações estão no alinhamento da rua. Não há muro divisório.
Figura 10. G.E. Dr. Xavier da Silva - Curitiba/PR.
Fonte: (BENCOSTTA, 2001, p.116)
Figura 11. G.E. Dom Pedro II - Curitiba/PR. Fonte: (BENCOSTTA, 2001, p.135)
Outros exemplos estão nos primeiros grupos escolares implantados nos Estados nordestinos da Paraíba, Piauí e Sergipe, respectivamente: o Grupo Escolar Dr. Thomaz Mindello, em João Pessoa, capital do Estado, inaugurado em 1916 (Figura 12); o Grupo Escolar Douglas Jorge Velho representa um dos exemplares
construídos na capital Teresina, nos anos de 1920, pelo engenheiro Luís Ribeiro Gonçalves (Figura 13); e o Grupo Escolar General Siqueira, em Aracaju, Figura 14).
Figura 12. G.E. Thomáz Mindello - João Pessoa/PB. Fonte: (PINHEIRO, 2002, p.141)
Figura 13. G.E. Douglas J. Velho -Teresina/PI. Fonte: (FERRO, 1996, p.135)
Figura 14. G.E. General Siqueira - Aracaju/SE. Fonte: (AZEVEDO, 2003, p. 41)
Foram estes grupos escolares produtos das reformas educacionais do ensino primário de alguns Estados brasileiros. Nas capitais, Curitiba, João Pessoa, Teresina, Aracaju, como a maioria das cidades o espaço do Grupo Escolar simbolizava o lugar de formação do cidadão republicano e sua arquitetura reproduzia as finalidades da escola primária BENCOSTA (2001).
A reforma do ensino público primário do Rio Grande do Norte, estabelecida em 1908, efetiva o vínculo da proposição educacional e arquitetural. Resta avaliar em que nível foi viabilizada, tomando o Grupo Escolar ”Augusto Severo”, objeto da investigação.
A seguir, desenvolver-se-á a configuração dos grupos escolares, incluindo- se como espaço de controle e vigilância.