2.2. Müslüman Coğrafyacılar ve Seyyahların Gözünden Şam Şehri
2.2.8. İbn Cübeyr, Endülüs’ten Kutsal Topraklara
O contexto é um importante fator a ser considerando na pesquisa sobre o processamento lexical na leitura. Como veremos nesta e na próxima seção, ele atua nos diversos níveis de sentido: lexical, sentencial e global/discursivo, até mesmo pragmático. O contexto pode afetar o processamento lexical de forma automática e inconsciente (MEYER; SCHVANEVELDT, 1971). Essa influência pode ser positiva, gerando facilitação, ou pode ser negativa, gerando inibição. A esse fenômeno denomina-se efeito de priming, o qual é verificado por meio do tempo de resposta (TR) e da acurácia nas tarefas. O priming é um tipo de memória implícita (TULVING; SCHACTER, 1992), pois o participante quando realiza uma determinada tarefa não se dá conta de que seu processamento foi afetado pela apresentação de um estímulo prévio e, não precisa, necessariamente, lembrar-se desse estímulo para que a interferência ocorra.
Os tipos de priming variam de acordo com a natureza da relação entre o contexto (primn) e seu alvo: direto ou indireto, perceptual ou conceitual. No priming direto ou de repetição, a informação do primn e do alvo é idêntica ou quase idêntica. Já no indireto a informação é relacionada. No priming perceptual a facilitação se dá por meio da informação visual ou auditiva; em estímulos linguísticos, o efeito ocorre quando primn e alvo compartilham traços ortográficos ou fonológicos. No priming conceitual ou semântico a influência intercorre através da informação semântica, palavras ou mesmo sentenças cujos significados estão relacionados. Por exemplo: apresenta-se um estímulo prévio (primn) como ‘sede’, seguido de outro estímulo (alvo) como ‘ÁGUA’. As duas palavras compartilham uma
relação semântica de associação, por isso, o processamento de ‘água’ ocorre mais rapidamente quando antecedido de ‘sede’ do que se estivesse antecedido de outra palavra com a qual não tem relação.
As tarefas mais utilizadas nos experimentos de priming são: decisão lexical, nomeação de palavras, julgamento sintático, julgamento semântico, entre outras. Algumas tarefas requerem que a resposta seja dada após a apresentação dos dois estímulos, outras, requerem resposta após a apresentação do primn e do alvo. O intervalo de tempo entre a apresentação do primn e do alvo é denominado SOA (Stimulus Onsnt Asynchrony) e pode ser subliminar, curto ou longo. São três os principais modelos teóricos que buscam explicar o efeito de priming: propagação da ativação (COLLINS; LOFTUS, 1975; ANDERSON, 1983), pistas combinadas (RATCLIFF; MCKOON, 1988; DOSHER; ROSEDALE, 1989) e distribuição da informação (MASSON, 1995; PLAUT; BOOTH, 2000).
As teorias de propagação da ativação preconizam que, ao reconhecermos a palavra por meio de sua forma ortográfica e fonológica, acessamos simultaneamente seus traços semânticos e sintáticos. Esse processo é conhecido como sprnading activation, em português, ativação propagada. Várias teorias de memória como a de Anderson e Pirolli (1984) utilizam- no para explicar de que forma a ativação de uma informação se propaga e provoca a ativação de outros dados a ela relacionados, podendo também reverberar, retornando com fnndback para o seu ponto de origem. Essas teorias sobre memória partem do princípio de que a informação está representada em nós interligados em uma estrutura em formato de rede. A ativação de um nó se espalha aos que estão a ele associados. No caso da informação léxico- semântica, como vimos na Figura 8, a ativação de um dos três componentes da palavra se espalha para os demais, de forma que os acessamos ao mesmo tempo automaticamente.
As teorias de pistas combinadas se diferenciam da teoria de associação distribuída principalmente pelo papel que atribuem à memória de curto prazo e à familiaridade. Não ocorre ativação temporária na memória de longo prazo. Presume-se que os itens apresentados (primn e alvo) se combinem na memória de curto prazo formando, assim, uma pista combinada que será usada no processo de recuperação da memória (MCKOON; RATCLIFF, 1992b). Essa pista funciona como as palavras-chave que usamos para realizar uma busca, sendo contrastada com todos os itens existentes na memória de longo prazo. Quanto maior o grau de familiaridade entre o par apresentado e os pares existentes na memória de longo prazo, maior o efeito de priming, ou seja, mais rápido e correto será o seu processamento. A familiaridade pode ser determinada a partir de fatores como frequência, relação semântica ou associação, e varia em função da força da conexão entre as palavras. Segundo Mckoon e
Ratcliff (1992b, p. 1170), essa visão “enfatiza que uma palavra é compreendida no contexto em que é encontrada”17. Em um dos experimentos descritos pelos pesquisadores, pares de
palavras foram formados com base na sua frequência de coocorrência em corpus de língua escrita. Os pares com alta associação no corpus mostraram efeito de priming, ao contrário dos pares com baixa associação.
Os modelos de informação distribuída, diferentemente dos dois antes descritos, não preconizam a existência de uma localização para a representação léxico-semântica dentro de um sistema de memória. Nesses modelos, os conceitos são representados de forma distribuída por padrões de atividade em uma rede interconectada de unidades de processamento (PLAUT; BOOTH, 2000). O efeito de priming ocorre em função do peso das conexões existentes entre as unidades. Quando a rede processa um estímulo alvo, ela parte do padrão de conexão já produzido pelo primn, assim, se o primn e o alvo tiverem relação semântica, seu processamento será facilitado; se não tiverem, ocorrerá a inibição o que prolongará o tempo de processamento do alvo. Um dos principais pressupostos dos modelos de informação distribuída é que palavras relacionadas, seja por associação, traços semânticos ou coocorrência, possuem padrões de ativação similares na rede de unidades. Essa similaridade é a responsável pela facilitação do processamento da palavra-alvo.
De acordo com Gulan e Valerjev (2010), nenhum modelo é capaz de explicar por completo todos os tipos de priming. As variações nas tarefas: estímulo, SOA, forma de reposta, etc. produzem resultados diferentes de modo que determinados modelos são mais adequados para explicar alguns experimentos e não outros. As teorias geradas a partir das investigações do priming semântico buscam entender a natureza, organização e funcionamento do conhecimento/processamento léxico-semântico, o que interessa a diversos ramos da psicolinguística, entre eles ao do processamento da leitura. Considerando que as informações ortográficas, fonológicas e semânticas são capazes de produzir efeitos facilitadores no processamento dos estímulos que as seguem, podemos deduzir que na leitura de um texto ocorra constantemente a interação e a influência dos diversos níveis de informações contextuais. De fato, há diversos estudos que buscam explicar a relação entre priming e leitura.
No trabalho de McNamara e Heal5 (1988) vemos o exemplo de como o priming pode afetar o tempo de leitura. Eles investigaram três tipos de priming: semântico, fonológico (rima) e mediado. Esse último consistia em apresentar um par de estímulos sem relação
semântica, porém, com relação fonológica mediada pela palavra mais comumente associada ao primn. Por exemplo, no par ‘fechado – PERTO’ a relação se dá através de ‘aberto’, palavra comumente associada a ‘fechado’, e que rima com ‘perto’. Os participantes tiveram a tarefa de realizar a leitura automonitorada (snlf-pacnd rnading) das palavras apresentadas. O tempo de leitura para as palavras com relação semântica foi menor do que o tempo de leitura para as não relacionadas. O mesmo foi observado, embora de forma inconstante, com os pares que compartilhavam informação fonológica. No entanto, com os pares mediados houve efeito de priming inibitório no experimento em que foram apresentados juntamente com pseudopalavras. O resultado sugere que, durante a leitura silenciosa, a informação semântica prevaleça sobre a fonológica. Porém, quando feita oralmente é de se esperar que haja maior atenção do leitor para as características fonológicas da língua, podendo haver, maior efeito de priming fonológico e mediado.
Larkin e colaboradores (1996) exploraram a relação entre priming direto (repetição), priming semântico indireto e leitura em estudantes do 6º ano escolar. Eles encontraram correlação moderada entre priming semântico indireto e desempenho em leitura, porém, não houve relação com o priming direto. Na análise de regressão, o priming indireto contribuiu de forma independente por 26% da variação no desempenho em leitura dos estudantes. Os resultados sugeriram que diferenças individuais na memória semântica implícita podem afetar os processos envolvidos na compreensão leitora, no entanto, não esclareceram quais aspectos da leitura se relacionavam ao efeito de priming. Já na pesquisa de Nobre e Salles (2014), com estudantes de sete a 12 anos de idade, o componente leitura foi dividido em dois: leitura de palavra isolada e compreensão textual, o que permitiu o estudo correlacional entre o efeito de priming semântico indireto e os dois subcomponentes da leitura separadamente. O efeito de priming mostrou correlação negativa tanto com a leitura de palavra quanto com a compreensão leitora. Não houve correlação entre o efeito de priming e a leitura de pseudopalavra. Na análise de regressão, o priming semântico mostrou contribuição significativa mesmo quando controladas as variáveis idade, inteligência e leitura de palavras irregulares. Os autores observaram mediação parcial da leitura de palavra na relação entre efeito de priming semântico e compreensão leitora.
Outros estudos percorrem caminhos diferentes na investigação da relação priming – leitura. Embora ainda sejam poucos, eles investem na comparação de participantes com diferentes níveis de leitura, decodificação e/ou compreensão nas tarefas de priming. A maioria deles avalia a leitura genericamente ou apenas a habilidade de decodificação. Os resultados ainda são controversos, pois enquanto alguns autores encontram menor efeito de priming em
grupos com baixa habilidade de leitura, outros encontram facilitação contextual semelhante ou até mesmo maior em leitores menos habilidosos.
Na pesquisa de Merril e colegas (1980), dois grupos de leitores do 5º ano, que se diferiam na decodificação, compreensão, vocabulário, habilidade de soletração e linguagem mostraram facilitação semelhante em tarefa de nomeação de palavras, figuras e sentenças. Um dado interessante foi a obtenção de maior facilitação para palavras do que para figuras, e maior facilitação quando as palavras eram antecedidas pelo contexto sentencial do que lexical. Os dados demonstraram que diferentes grupos de leitores se beneficiam do contexto durante o processo leitura de palavra e que quanto mais rico for o contexto, maior será a vantagem no processamento.
Estudos mais recentes como o de Assink e colegas (2004) sugerem diferenças no efeito de priming entre participantes com habilidade de leitura distinta. Eles compararam dois grupos de leitores do 7º ano, um com maior e outro com menor habilidade de decodificação, na tarefa de decisão lexical incluindo pares com relação temática e categórica, relação neutra e pares sem relação. Os leitores com menor habilidade de decodificação foram mais lentos que o grupo de bons leitores, porém, a diferença no efeito de priming entre os dois grupos só foi significativa na condição de pares neutros.
Nation e Snowling (1999a), por sua vez, compararam grupos que se diferiam na habilidade de compreensão leitora. Os grupos de aproximadamente dez anos de idade realizaram tarefas de priming semântico de dois tipos: a) categórico: em que os pares de palavras poderiam ou não pertencer a uma mesma categoria, ex.: cão-gato; b) funcional: em que os pares poderiam ou não estar associados por meio de sua característica funcional, ex.: xampu-cabelo. A tarefa de decisão lexical consistiu em escutar dois estímulos auditivos e decidir se o segundo era ou não uma palavra da língua materna. Os dois grupos demonstraram priming significativo nos pares funcionalmente relacionados, entretanto, o grupo de LDC só demonstrou priming categórico quando as palavras do par, além de pertencerem à mesma categoria semântica, também exibiam alta associatividade. As autoras observaram que os pares funcionais tendem a coocorrer, e como aparecem frequentemente juntos, seriam mais facilmente reconhecidos. No entanto, os pares categóricos não associados, ou seja, que não estão listados em normas de associação de palavras, exibem uma relação puramente semântica e não de coocorrência. Sendo assim, a ausência de priming para esses pares pode ser interpretada como uma menor sensibilidade às relações semânticas por parte dos LDC.
As inconsistências encontradas nas pesquisas que comparam diferentes grupos de leitores podem ser explicadas por variações em habilidades cognitivas distintas:
decodificação, compreensão ou processamento léxico-semântico. Vejamos em maior detalhe o que os estudos revelam.
No trabalho seminal de West e Stanovich (1978), alunos do 2º e 4º ano, juntamente com estudantes universitários, realizaram um teste de compreensão leitora e investigaram o priming semântico com sentenças (o primn foi uma sentença, o alvo foi uma palavra que poderia ou não completar a sentença). Três condições foram examinadas: contexto relacionado (sentença congruente), contexto não relacionado (sentença incongruente), ausência de contexto sentencial (alvo antecedido apenas de artigo). A tarefa consistia na leitura em voz alta da sentença e do alvo. As palavras alvo antecedidas de contexto congruente foram lidas mais rapidamente que as demais, confirmando o efeito de priming nos três grupos. O que surpreendeu os pesquisadores foi verificar que os bons leitores usavam menos a informação contextual quando comparados aos leitores menos habilidosos, e mais, o uso do contexto sentencial, ao invés de aumentar, diminuía com o aumento da idade e da habilidade de leitura. Essas evidências somadas às apuradas por outros pesquisadores (BIEMILLER, 1977; PERFETTI; LESGOLD, 1979; JUEL, 1980; PERFETTI; ROTH, 1981) originaram o modelo interativo-compensatório construído a partir do modelo de leitura interativo de Rumelhart (1977) e da teoria de Posner e Sn5der (1975), segundo os quais o contexto afeta o reconhecimento de palavras por meio de dois processos independentes: os automáticos e os estratégicos.
De acordo com Stanovich (2000) a informação contextual pode ser usada de forma automática e estratégica no reconhecimento de palavras, bem como de forma estratégica no processo de compreensão. Em leitores cuja decodificação é lenta a facilitação do contexto ocorre tanto automaticamente por meio da propagação da ativação semântica quanto por processos conscientes de atenção, como previsões, que auxiliam no reconhecimento de palavras. Já nos leitores com decodificação rápida, a facilitação do contexto na leitura de palavra ocorre apenas através da ativação semântica automática, pois o uso estratégico não se faz necessário para o reconhecimento de palavras, podendo, assim, ser utilizado no processo de compreensão. Enquanto os leitores deficitários precisam usar o contexto de forma automática e consciente para compensar suas dificuldades de decodificação, os bons leitores investem seu tempo e capacidade cognitiva no uso estratégico do contexto para a integração, inferência e monitoramento. Há, portanto, uma diferença qualitativa no uso do contexto por esses dois grupos de leitores, um o aplica a processos básicos de leitura e o outro, a processos mais globais de compreensão. Em suma, o modelo interativo-compensatório presume que o
efeito exercido pelo contexto varia conforme a eficiência, do leitor em processos básicos de leitura como a decodificação.
Na pesquisa realizada por Betjemann e Keenan (2008) foram conduzidos experimentos de decisão lexical com estímulos visuais e auditivos. Aos dois grupos de leitores, mais e menos habilidosos em decodificação, incluíram um grupo mais jovem com idade de leitura semelhante à dos leitores menos habilidosos. Isso permitiu a investigação da direção da relação entre priming e leitura. Houve efeito de priming fonológico para todos os grupos, bem como priming semântico e combinado para o grupo de bons leitores e para o grupo mais jovem que, apesar de ser mais lento do que os demais, obteve facilitação proporcionalmente semelhante ao grupo de bons leitores nas tarefas de priming. Entretanto, o grupo menos eficiente em decodificação não exibiu priming semântico nas tarefas visuais e nem mesmo nas auditivas, e apresentou facilitação semelhante na tarefa com estímulos auditivos e combinados (pares com relação fonológica e semântica). Esses resultados sugerem que a ausência do efeito de priming semântico no grupo com baixa decodificação não é causada pela sua habilidade de leitura, já que ele também não exibiu facilitação nos estímulos auditivos; o grupo mais jovem, com decodificação equivalente, mostrou facilitação semântica semelhante à dos bons leitores. Os dados indicam que o efeito de priming não é afetado pela habilidade de leitura, mas sim pela eficiência no processamento léxico-semântico.
Devido ao número limitado de investigações, ainda não é possível afirmar se há ou não reciprocidade na relação entre leitura e priming. Enquanto Stanovich (2000) propõe uma relação recíproca entre priming semântico e leitura: o contexto facilita a leitura e o nível de automatização da decodificação, por sua vez, determina a forma de atuação do contexto, automática e/ou consciente, no reconhecimento de palavras ou na compreensão; Betjemann e Keenan (2008), por outro lado, entendem que não há uma relação recíproca, visto que o priming não é afetado pela eficiência na decodificação e sim pela eficácia do processamento léxico-semântico. Da mesma forma, ainda carecemos de estudos sobre as restrições que outras habilidades cognitivas impõem ao efeito do contexto no processo de leitura.
Como vimos brevemente, o estudo do efeito de priming proporciona possibilidades eficazes de aprofundamento teórico sobre o papel do processamento e conhecimento léxico- semântico para a construção de sentidos na leitura. Não há dúvida de que o contexto, seja ele fonológico/ortográfico, semântico ou sintático contribua de forma significativa para o processamento linguístico, porém, a relação entre leitura e priming ainda carece de maior entendimento. Na próxima seção ingressamos em discussões no nível da sentença e do discurso.