Complementando estas informações, utilizamos o texto Abertura econômica, empresariado e política: os planos doméstico e internacional, de Mancuso e Oliveira (2006), que aborda a mudança profunda ocorrida na década de 1990, no ambiente em que o empresariado atuava no Brasil. Segundo eles, a causa fundamental dessa mudança foi a inflexão liberal na política de estabilização econômica do país, cuja implementação remonta ao início do governo Collor, e que teve como objetivo enfrentar a crise que assolou o Brasil desde o começo da década de 1980 até a primeira metade da década de 1990, crise cujo sintoma mais notável foi a inflação descontrolada, segundo afirmações dos autores.
Eles sinalizam que um elemento-chave da referida inflexão liberal foi o aumento da abertura da economia brasileira ao comércio internacional, processo que envolveu dois movimentos simultâneos, por eles listados: o primeiro foi um movimento de abertura “para dentro”, que resultou em grande expansão da concorrência no mercado interno, em decorrência do crescimento do volume de produtos importados. “[...] Tal crescimento foi favorecido pela queda de barreiras tarifárias e não-tarifárias às importações, assim como pela sobrevalorização do real, que persistiu desde a implantação da nova moeda, em meados de 1994, até o princípio de 1999 [...]” (MANCUSO; OLIVEIRA, 2006, p. 147). O outro movimento apontado pelos autores foi o de abertura “para fora”, marcado pela meta de conquistar novos mercados internacionais. “[...] A expressão “exportar ou morrer” indica o nível de prioridade que o governo e o empresariado passaram a atribuir à integração competitiva do Brasil na economia mundial [...]” (MANCUSO; OLIVEIRA, 2006, p. 147).
Além disso, conforme explicam os autores, os anos 1990 também foram marcados pelo engajamento do Brasil em vários processos de negociações internacionais, dentre os quais se destaca o processo de negociação da Área de Livre Comércio das Américas (Alca). Segundo Mancuso e Oliveira (2006), a integração hemisférica significaria um segundo choque de liberalização comercial, cujo impacto sobre as atividades empresariais nacionais dificilmente pode ser subestimado.
Além da abertura comercial, os autores indicam que a inflexão liberal também abrangeu outras medidas que foram, e continuam sendo, introduzidas no país com ritmo e profundidade variados, tais como as privatizações, as concessões de serviços públicos
para a iniciativa privada, a maior abertura para o investimento direto estrangeiro, a liberalização financeira, a desregulamentação da atividade econômica, a disciplina fiscal, a reforma administrativa, a reforma tributária e a revisão de prioridades para os gastos públicos.
Não é à toa que Mancuso e Oliveira (2006) salientam que o efeito da integração hemisférica seria heterogêneo. “[...] Para segmentos empresariais internacionalmente competitivos, a ampliação da abertura no âmbito da Alca traria oportunidades de ganhos, tais como acesso a novos mercados, ampliação de escalas de produção, dentre outros [...]” (MANCUSO; OLIVEIRA, 2006, p. 148).
Entretanto, sob a perspectiva dos autores, a situação seria inversa para os segmentos que possuíssem sérias deficiências concorrenciais, para os quais o aumento da abertura comercial e das importações ocasionaria riscos de perdas, com as graves consequências como o fechamento de empresas, aquisições e desemprego, conforme salientam. Esta realidade foi em partes vivenciada pelo setor calçadista, conforme explicitado na seção que aborda a reestruturação do setor, assim como nos trechos em que trazemos informações acerca das crises vividas por ele.
Depoimentos e analises de autoridades do setor e especialistas ligados a este ramo de atuação contribuiram para a complementação das informações e da compreensão de aspectos que interferiram diretamente no setor calçadista do país como a abertura econômica e a globalização, a ação do governo federal em termos de políticas de exportação e políticas de juros, a tributação excessiva e o comprometimento do empreendedorismo, assim como parcerias do governo com a iniciativa privada, a sua possível colaboração para a mudança do perfil produtivo do país e questões que envolvem as pequenas e médias empresas.
Outrossim, Mancuso e Oliveira (2006) analisam que esses eventos de natureza econômica, como a abertura comercial efetivamente realizada e a perspectiva de uma abertura ainda maior, via integração hemisférica, tiveram importância crucial para desencadear um grande processo de organização e mobilização política do empresariado.
[...] No plano doméstico, o desafio da concorrência elevou a competitividade ao patamar de objetivo prioritário a ser perseguido pelas empresas. Por causa disso, a redução do custo Brasil tornou-se a bandeira sob a qual o empresariado se reuniu. Custo Brasil é uma expressão que sintetiza o conjunto de fatores que prejudicam a competitividade das empresas do país diante de empresas situadas em outros países. Já no plano externo, o empresariado criou a Coalizão Empresarial Brasileira (CEB), entidade multisetorial formada para participar de processos de negociação
internacional em curso – como é o caso da Alca [...] (MANCUSO; OLIVEIRA, 2006, p. 149).
Entretanto, conforme as afirmações dos autores, o boom de organização e mobilização do empresariado brasileiro na década de 1990 não pode ser interpretado como um desdobramento espontâneo daqueles eventos de natureza econômica. “[...] O processo econômico dimensiona o provável impacto que novas rodadas de abertura comercial exerceriam sobre a situação de 17 cadeias produtivas que, em 2000, representavam 53% do faturamento industrial, 63% das exportações e 67% das importações do país [...]” (MANCUSO; OLIVEIRA, 2006, p. 150).
Em contrapartida, se analisarmos o setor calçadista, observamos que esta mobilização do empresariado não se deu da mesma forma e na mesma intensidade. Ao analisarmos o discurso de empresários e ex-presidentes do sindicato da indústria, é notória a falta de engajamento e envolvimento político, como demonstra o ex-presidente do Sinbi, Carlos Alberto Mestriner que declara que “[...] o empresariado calçadista é muito ausente das questões políticas. Poderia ter uma participação mais efetiva, poderia ter uma representatividade maior [...]” (CARLOS ALBERTO MESTRINER, Anexo XX, p. 2).
Neste sentido, os autores Mancuso e Oliveira (2006) fazem algumas considerações conclusivas sobre abertura econômica, empresariado e política: “[...] os planos doméstico e internacional devem ser tomados como uma causa necessária, mas não suficiente, para a referida mudança de postura do empresariado [...]” (MANCUSO; OLIVEIRA, 2006, p. 150). Além disso, também destacam a ação política intencional que viabilizou avanços substantivos em termos de capacidade organizativa e mobilização.
Enquanto tudo isso acontecia no país, os autores Cano e Silva (2010) chamam a atenção para o movimento que a Coréia do Sul e, principalmente, a China faziam, no sentido de adotarem políticas radicalmente distintas, enfrentando de forma agressiva a concorrência internacional, apoiando-se em ativas políticas de desenvolvimento industrial. Isto se aplica fortemente no setor calçadista daqueles países, que rapidamente conquistaram seu espeço no mercado mundial e passaram a configurar uma ameaça constante à indústria calçadista brasileira, assim como de outras nações.
Por tudo isso, Cano e Silva (2010) afirmam que concretamente, as novas diretrizes para o setor industrial, combinadas com a recessão decorrente da política de estabilização, impuseram às empresas severos ajustes, com efeitos perversos sobre os
níveis de produção, emprego e renda, além de desnacionalização de setores industriais, falência de muitas empresas e destruição de várias empresas e segmentos do parque industrial brasileiro, a exemplo disto citamos o setor calçadista.
[...] Redução de tarifas de importação, sobrevalorização da moeda, constrangimento do crédito e ausência de mecanismos de proteção contra práticas desleais de comércio internacional levaram à substituição da produção local por importações inclusive em setores nos quais o Brasil dispunha de condições de competitividade [...] (CANO; SILVA, 2010, p. 4).
Como já citado anteriormente, os autores salientam a gravidade da crise resultante do fracasso do Plano Collor, ainda na primeira metade dos anos 1990 e enumeram algumas medidas que foram tomadas como a instalação de Câmaras Setoriais que funcionaram como espaços de negociação entre empresários, trabalhadores e governo para a reativação de setores; a concessão de um tratamento preferencial à abertura comercial no plano regional pelo Mercosul; a aplicação de regimes especiais de proteção para promover a produção local e o investimento em alguns setores industriais, com destaque para o automobilístico.
No levantamento das fontes de pesquisas propostas neste trabalho, observamos alguns movimentos, ou tentativas de movimentos em prol do setor em evidência nesta tese. Prova disso foi a iniciativa do governo federal e do estado de São Paulo, juntamente com o setor calçadista de criação de uma câmara setorial, em meados de 1995. O objetivo da câmara setorial seria viabilizar políticas de desenvolvimento do setor calçadista.
[...] a estruturação das câmaras estadual e federal é diferente. A primeira ligada ao Ministério da Indústria e Comércio, pretende reunir todos os integrantes da cadeia produtiva representados em nível nacional. A segunda, que está sendo coordenada pela Secretaria de Ciência e Tecnologia do Estado de São Paulo, é regionalizada, ou seja, São Paulo será dividido em regiões e cada uma contará com a sua câmara setorial, conforme a vocação econômica que apresentar [...] (EXCLUSIVO, 03 a 09/04/1995, nº 1602, p. 19).
Segundo reportagem desenvolvida pelo jornal Exclusivo, Franca foi escolhida pela importância da indústria do calçado, assim como Americana sediaria as discussões na área têxtil. Mas, conforme Norton Godoy, assessor de imprensa da secretaria paulista, essa experiência poderia ser repetida em outros polos como Jaú e Birigui. O diretor-executivo do Sindicato da indústria do calçado de Franca, Ivânio Batista, salienta que essas iniciativas foram relevantes e configuravam uma reivindicação antiga da Associação Brasileira das Indústrias de Calçados – Abicalçados.
crise econômica brasileira em 1999, no segundo mandato de FHC, que voltou a abrir espaço para mais uma ação isolada baseada na experiência do “Fórum de Competitividade”, implementado pelo Ministério da Indústria e do Comércio, entretanto, conforme Cano e Silva (2010), isto se deu contra a orientação do Ministério da Fazenda, que seguia vetando qualquer iniciativa de Política Industrial e assim se manteve até o final do governo FHC. Mais uma vez, segundo eles, tratava-se de um esforço de coordenação entre atores em uma tentativa de fortalecer cadeias produtivas. Também neste contexto, eles revelam que foram criados a partir de 1999 os Fundos Setoriais de Desenvolvimento Científico e Tecnológico, com base em contribuições do setor privado.
Neste sentido, Cano e Silva (2010) chamam a atenção para uma consequência do modelo adotado nos anos 1990, especialmente após o Plano Real: o aumento da vulnerabilidade externa do país, com a ampliação do déficit em transações correntes (efeito do longo período de valorização do real) e o aumento do passivo externo acumulado. “[...] Na área fiscal, com o elevado endividamento público, altas taxas de juros tornavam a situação ainda mais grave [...]”, especificam e complementam: “[...] Ademais, a combinação câmbio sobrevalorizado e juros altos são fortes inibidores do investimento produtivo e da retomada do crescimento econômico [...]” (CANO; SILVA, 2010, p. 5).
O reflexo desta realidade pode ser observado no discurso do empresário Élcio Jacometti, então vice-presidente do SindiFranca. Em entrevista ao jornal Exclusivo, em abril de 1995, Jacometti sinaliza que a cidade de Franca estaria entrando em colapso econômico. Para ele, o desempenho negativo dos negócios externos refletiria da mesma maneira no comportamento das empresas no mercado interno. Diante disso, o empresário apontou duas alternativas para superar aquela conjuntura. A primeira seria a abertura de uma linha de crédito para as empresas do setor a juros internacionais. A outra seria a pressão sobre o governo para que se promovesse uma redução de impostos.
Não é à toa que os autores Cano e Silva (2010) consideram que os primeiros anos do século XXI transcorreram sob intenso debate acerca da viabilidade do modelo de inserção internacional escolhido para a economia brasileira.
[...] Elevado passivo externo e crescente dívida interna reforçavam a necessidade de coordenação e articulação de uma política de desenvolvimento nacional, incluindo o resgate de uma Política Industrial efetiva. Neste contexto de impasses, a acirrada campanha eleitoral em 2002 aduz ainda o componente de especulação no mercado financeiro, suscitada pelo fantasma do que representaria um governo de esquerda na condução do
país [...] (CANO; SILVA, 2010, p. 5).
Esta realidade podia ser claramente notada no discurso dos empresários do setor calçadista, principalmente quando houve um resultado efetivo das urnas divulgado. Conforme analisamos em reportagem do jornal Exclusivo, o setor se posicionou diante o novo presidente empossado, deixando claro que esperava mudanças com o novo governo no poder. O então presidente da Abicalçados, Élcio Jacometti, revelou que a entidade possuía uma filosofia de não se aliar ou defender partidos políticos, por isso se colocavam numa posição de torcida para que o vencedor atuasse nas áreas que resultassem em desenvolvimento para o setor, enfatizando que o calçado precisava, naquele momento, das reformas tributária e fiscal. “[...] Isso desoneraria o processo produtivo, o que permitirá maior produção, exportação e, consequentemente, empregos. [...] Por isso torcemos para que o novo governo (Lula) cumpra as promessas que fez [...]” (EXCLUSIVO, 04 a 10/11/2002, nº2104, p. 21).
Eduardo Knust, então presidente da Assistencal também se manifestou acerca do novo governo, esclarecendo que a entidade tinha a preocupação de que o governo conseguisse realizar as reformas necessárias e urgentes para que o país mantivesse a estabilidade econômica e retomasse o processo de crescimento. “[...] O apoio às exportações também deve continuar e é preciso que o novo governo apoie ainda mais as ações de desenvolvimento de produtos brasileiros no mercado internacional [...]” (EXCLUSIVO, 04 a 10/11/2002, nº2104, p. 21).
Não é à toa que os autores Cano e Silva (2010) consideram que o grande mérito da Política Industrial, Tecnológica e de Comércio Exterior (PITCE), como veremos mais adiante, foi reintroduzir na agenda de políticas públicas o tema da política de desenvolvimento industrial como um instrumento fundamental de desenvolvimento econômico. Além disso, Cano e Silva (2010) consideram que a Política de Desenvolvimento Produtivo (PDP) avançou ao ampliar o conjunto de instrumentos e de setores contemplados e ao tentar aprofundar a capacidade de planejamento, coordenação e gestão da política. “[...] Apoiou-se em medidas horizontais, porém sem abrir mão, corretamente, de políticas setoriais, de modo a considerar diferenças e objetivos distintos entre os setores e exercer a necessária definição de prioridades [...]” (CANO; SILVA, 2010, p. 19).
Não por acaso que os autores afirmam que depois de 20 anos de crescimento mediano, o esforço dos dois governos Lula no sentido de implementar uma Política