No ano de 2001, o Município de Guaramiranga foi contemplado com recursos do Projeto de Desenvolvimento Urbano e Gestão de Recursos Hídricos(PROURB)4 e iniciou-se o processo de elaboração do PD e de requalificação urbana do município. De modo geral, a requalificação é basicamente a construção de instrumentos urbanísticos com fins turísticos, sociais, ambientais voltados à melhora da infra-estrutura local para se proporcionar à comunidade local e aos turistas uma melhor qualidade de vida. O PD é um trabalho que visa o zoneamento urbano, o controle ambiental, o regramento do uso e ocupação do solo no município e culmina na aprovação de leis que irão ditar estas normas e seu funcionamento.
Na elaboração do Plano Diretor trabalha-se por etapas e há uma infinidade de atores representantes dos mais diversos segmentos, tais como: Prefeitura Municipal, Câmara Municipal, SEMACE, sociedade civil, sindicatos e outros, no caso específico de Guaramiranga, a extinta Secretaria de Desenvolvimento Local e Regional do Estado do Ceará (SDLR) e a Secretaria de Turismo do Estado do Ceará (STEC).
Consoante estabelecido, a elaboração do plano prevê considerar a participação popular por meio de audiências públicas e outros instrumentos que permitam ao cidadão saber
4 Ser instrumento viabilizador da estruturação urbana de um conjunto de 50 cidades cearenses visando dar suporte
ao desenvolvimento econômico, social e ambiental sustentado, melhorando a qualidade de vida da população e tornando as cidades competitivas para atrair indústrias, impulsionar a agricultura irrigada e incrementar o turismo (Secretaria de Desenvolvimento Local e Regional do Estado do Ceará).
49 o que está sendo programado para a sua cidade. No caso específico de Guaramiranga, o que deveria durar uns noventa dias prolongou-se por dois anos, até se chegar a um lugar comum sobre as normas a serem aprovadas, como dispõe:
“Exato uma mobilização, para que se pressione o Governo do Estado e a Prefeitura para que se finalize o processo e se atenda aos interesses da população. No meu entender esta legislação foi fruto de uma negociação muito longa, uma queda de braço, e todos queriam na verdade algo mais, mesmo assim acho que ela foi um consenso onde eu acho que todos foram atendidos, e a população, depois que viu a importância para eles passou a fazer uma pressão junto à Prefeitura e vereadores para que ela fosse aprovada e conseqüentemente junto ao governo do Estado. Aí é tanto que eu coloco que questões técnicas em um processo como esse, muitas vezes, elas são secundárias” (Alexandre Landin)5.
As atas de reuniões e outros instrumentos balizam o funcionamento da participação popular e em certos casos poderiam até nortear algumas negociações que estavam emperradas e, assim, trazer demoras ao processo impedindo que as políticas fossem rapidamente apresentadas, conforme considera um técnico:
“Eram feitas atas. Então quando a situação ficava difícil. No caso de Guaramiranga houve, mas não tanto, em outros municípios a coisa foi pior, mas em Guaramiranga também houve. Quando a gente via que a coisa ia fugir do interesse da comunidade, a gente ameaçava e dizia o seguinte:’ Se não for atendido a vontade popular, junto com a Legislação Federal, se não for atendido os nossos conceitos pelos quais ganhamos a licitação, nós vamos levar esta ATA, que está assinada por 100, por X pessoas aprovando nosso trabalho, vamos levar ao BIRD, vamos dizer que vocês não estão seguindo a determinação do BIRD e que se escute a comunidade’, o interesse que deve prevalecer é o da comunidade” (Alexandre Landin).
Como podemos observar, a participação dos entes estaduais é ressaltada ainda mais no seguinte depoimento, demonstrando inclusive o longo trâmite do processo:
“Na gestão anterior, nós discutimos muito com o Arquiteto da Prefeitura, que fazia parte da Administração anterior, e toda a discussão era em cima de uma Lei que viria. Quer dizer, a gente não tinha uma legislação ainda, a gente tinha um esboço, um Pré Projeto de Lei e esse Projeto de Lei estava sendo discutido dentro da Secretaria SDLR, junto com a SEMACE e com a Secretaria de Turismo também. Então, em cima do que a Lei viria é que a gente passou a discutir algumas coisas. Quer dizer, o processo foi lento, porque ninguém poderia aprovar ou não, antes desse processo estar mais ou menos concluído”(Airton Barbosa).6
5 Arquiteto e responsável pela equipe técnica que elaborou o Plano Diretor do Município de Guaramiranga. Em
entrevista realizada no dia 10 de Março de 2007.
6 Arquiteto responsável pelo projeto e implementação do Condomínio Moradas da Serra, no Município de
50 A participação social é que define a forma como o processo de criação e implantação de um Plano Diretor se aplica. Durante dois anos de trabalho, desempenhando o cargo de Secretário Executivo de Meio Ambiente de Guaramiranga, nos deparamos com várias situações que nos faziam refletir sobre as reais discussões advindas desta participação social. Conforme consta nas nossas anotações, abordamos temas importantes da legislação de forma profunda e ampla. Muitas propostas, segundo a população, já vinham prontas do governo do Estado, o qual apenas as apresentava à sociedade de uma forma branda. Desse modo, tratava- se não de realizar o interesse local, mas sim de aplicar as idéias impostas à comunidade.
Nesse contexto, alguns instrumentos de gestão, como o Conselho de Gestão Ambiental e o Banco de Terras, foram implantados e passaram a existir e funcionar. Estes instrumentos devem ser de interesse da população local, da SEMACE, IBAMA e outros atores. Contudo, ao serem convidados por fax e telefone para a reunião inaugural destes instrumentos, não compareceram. Como podemos perceber, a participação não é algo fácil de conquistar. Tais como estes, outros conselhos tiveram problemas para serem compostos no município.
Como observamos, um impasse era freqüente, qual seja, a Prefeitura sentia dificuldade com a utilização e implementação das leis criadas pelo Plano Diretor. Como os instrumentos legais são específicos e trabalham uma política ampla e bem estruturada, precisa- se de um técnico que conheça o tema e possa implantar as idéias propostas.
Outra dificuldade é o acesso da comunidade a esta lei e o baixo grau de formação e crítica da população local para discutir o plano e absorver as normas criadas. Isso não é uma dificuldade apenas de Guaramiranga. Grande parte dos ordenamentos jurídicos instituídos em municípios não são utilizados, embora os empreendedores e o governo de Estado conheçam a lei de forma profunda e bem detalhada.
Em sua concepção participativa, o PD ainda deverá amadurecer ao longo do tempo. Enquanto muito se tem apresentado aos interesses dos empreendedores, excluem-se as vontades das pessoas menos privilegiadas. As diferenças sociais se interpolam de forma diferente para se chegar sempre à mesma conclusão: apenas os que sabem o que fazem é que
51 poderão ter participações ditas efetivas e suas vontades registradas. Aqueles que pouco conhecem e nada têm pouco farão a seu favor (VILLAÇA, 2001).
Elaborar um PD já representa um grande desafio para um município. Implementá-lo é um dilema ainda maior, pois exige dispor de pessoal capacitado, dar à comunidade conhecimento dos reflexos destas leis, aplicá-las junto aos empreendedores, objetivando-se a correta utilização do solo. No próximo capítulo trataremos da temática dos loteamentos e/ou condomínios fechados, sob a ótica da necessidade da regularização destes mediante legislação pertinente, salientando a regulamentação da matéria como a única forma de solver o problema.
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CAPÍTULO 2 CONDOMÍNIOS E LOTEAMENTOS FECHADOS: ENTRE A