No bojo dos apontamentos de Powell et. al. (2005), Baldi (2006) sugere, além da análise de redes, a inclusão da noção de territorialidade para compreender de forma mais robusta a dinâmica dos campos organizacionais, pressupondo que essa união permitirá uma melhor compreensão das transformações do campo e de sua evolução. Embora a autora assuma o caráter exploratório de sua empreitada, sua proposta parece bastante frutífera no sentido de permitir a superação de práticas subordinadas e descontextualizadas que perturbam a análise organizacional, ainda mais, se compartilharmos de que: “não existe ator sem espaço, nem espaço sem ator, e que tanto o espaço como o ator são construções sociais” (BALDI, 2006. p.84).
Além disso, a consideração do espaço como categoria analítica parece fazer frente a um dos conflitos que permeiam o novo institucionalismo, o nível social de ocorrência do processo de institucionalização (CRUBELLATE, 2007). Ao resgatar Maurice (2000), para quem, o conceito de espaço supera a retórica dos níveis (macro e micro), pois provém uma análise dos “processos e da qualidade das relações entre atores e as formas de socialização as quais eles estão sujeitos” (MAURICE, 2000:19) apud (BALDI, 2006. p.84), a proposta da autora atenderia à dissonância entre a visão macro de DiMaggio e Powell (1991, p.15), onde “instituições são abstrações no nível macro social” - seguindo a orientação de Meyer e Rowan (1977) - e a visão de Zucker (1991), que enfatiza as microfundações das instituições, das quais fala Crubellate (2007).
Vale ressaltar, que as atenções voltadas para esse ponto conflitante não datam de hoje e parecem impactar fortemente na limitação atribuída à Teoria Institucional relacionada ao conformismo com o ambiente. Identificando-a como o terceiro conflito do Neoinstitucionalismo, Crubellate (2007) afirma que:
“há um conflito na teoria institucional em organizações a respeito do plano social adequado para a análise dos processos de institucionalização e que tem como uma de suas importantes conseqüências a própria definição dos possíveis efeitos desse processo, com reflexo na coerência ou não da suposição de algum espaço de autonomia individual (e ação estratégica) em relação a padrões altamente institucionalizados (...)” (CRUBELLATE, 2007. p.6).
Outra contribuição foi feita por Machado-da-Silva, Guarido Filho e Rossoni (2006), no mesmo estudo em que os autores sintetizaram as “diferentes leituras” do conceito de campo. Inquietos com a desproporção observada entre as dimensões estrutural e simbólica, os autores procuram meios que equilibrem essa relação, alegando que o significado das relações também merece atenção - pois valores e crenças ajudam a entender a ação coletiva - e que os fins racionais não possuem sentido sem a consideração das categorias culturais.
Não obstante, é o equilíbrio entre as dimensões estruturais e simbólicas que diferencia o conceito de Campo Organizacional de um simples agrupamento de organizações (MACHADO-DA-SILVA, GUARIDO FILHO e ROSSONI, 2006), tornando-o assim, imprescindível para que a teoria institucional supere a dificuldade na apreensão dos processos de mudança. A proposta dos autores leva a crer que, a partir do equilíbrio entre as duas dimensões, o conceito de campo passaria de “vilão” para “herói” no que tange o entendimento da mudança; conforme ilustra o trecho abaixo:
“(...) o processo de estruturação dos campos envolve mutuamente agência e estrutura. Assim, a ação intencional, seja por disputa de poder ou alcance de objetivos, está enquadrada em uma dinâmica que não separa diferentes dimensões da interação social. Os relacionamentos dispostos num campo, mesmo que se submetam em primeira instância àqueles aspectos associados, por exemplo, a recursos ou dominação, não estão desvinculados de outras ordens sociais ligadas à sua legitimação e significação. Além disso, enquanto arena institucional recursivamente definida, um campo representa parâmetros para a ação, ou sistemas de referências em constante elaboração, significativo para os atores sociais” (MACHADO-DA- SILVA, GUARIDO FILHO e ROSSONI, 2006. p.29).
Frente à desproporção que os inquieta, e a qual, atribuem as lacunas do conceito de campo, Machado-da-Silva, Guarido Filho e Rossoni (2006) sugerem a Teoria da Estruturação de Giddens, que como os autores acertadamente relembram, já estaria presente no cerne das formulações de DiMaggio e Powell (1991b). Fazem isso, contudo, por julgar que através de um aprofundamento da obra de Giddens, pode-se entender a dinâmica do campo sob uma lógica de recursividade entre agência e estrutura. A base de seus esforços repousa na idéia de que as relações entre organizações e outros atores sociais não representam apenas uma estrutura resultante de suas atividades, mas também definem e delimitam suas possibilidades para a ação, numa perspectiva mais interativa e recíproca do processo de institucionalização (MACHADO-DA-SILVA, GUARIDO FILHO e ROSSONI, 2006).
Com base na noção de estruturação, o conceito de Campo Organizacional permitiria a incorporação de uma lógica de recursividade na análise da relação entre agência e estrutura em um contexto espaciotemporalmente delimitado, reposicionando-se nos estudos organizacionais e evitando imprudências epistemológicas e teóricas favorecedoras da ontologização, reificação, voluntarismo, funcionalismo e do normativismo (MACHADO-DA- SILVA, GUARIDO FILHO e ROSSONI, 2006).
Todavia, o retorno às contribuições de Antony Giddens parece um pouco duvidoso, principalmente, se observarmos críticas feitas a este autor. Mizoscky (2003) acusa que, em diversos momentos, Giddens (1989) revela influências da sociologia de Parsons, a quem a autora atribui, de forma convincente, boa parte das dificuldades encontradas na apreensão de processos socialmente construídos e, em grande medida, processos de mudança.
Embora não despreze a importância de Giddens na problematização da relação estrutura-agência, Mizoscky (2003, p.2) aponta que:
“Giddens (1989) parece não perceber a necessidade de alguma noção de “estrutura objetiva” para uma resolução coerente da problemática agente-estrutura. É como se os agentes atuassem em situação ideal, não constituída a partir de interesses. Além disto, este autor incorpora a concepção parsoniana do poder como a capacidade de atingir resultados, como meio, ignorando que a obtenção de recursos de poder pode ser também um fim” (MIZOSCKY, 2003. p.10-11). Resgatando outro teórico que também influenciou as formulações de DiMaggio e Powell (1991b), Mizoscky (2003) propõe as contribuições de Pierre Bourdieu, acreditando que elas proporcionariam um olhar diferenciado da compreensão dos fenômenos organizacionais, em especial, para o conceito de campo, caracterizado em Bourdieu, como arenas marcadas pela disputa por recursos e poder (LOPES, 2007). A autora justifica escolha de Bourdieu alegando que:
“Bourdieu (1996a) desenvolve uma filosofia da ação cujo ponto central é a relação, de mão dupla, entre as estruturas objetivas (dos campos sociais) e as estruturas incorporadas (do habitus). Preocupa- se, portanto, com as relações, e não com realidades fenomênicas nas quais elas se manifestam. Opõe-se tanto à ênfase antropológica na linguagem quanto ao estruturalismo, recusando-se a reduzir os agentes (eminentemente ativos e atuantes) a simples fenômenos da estrutura” (MIZOSCKY, 2003. p.11).
Alinhando-se à Mizoscky (2003), Emirbayer e Johnson (2004) também advogam pelas contribuições que Bourdieu pode trazer para a análise organizacional, principalmente, por que há uma demanda nos estudos organizacionais de uma perspectiva relacional mediante o mundo social, e o conceito de campo social parece fazer frente a essa carência. Contudo, faz- se necessário o acoplamento com a noção de habitus e de capital, pois, ao que parece, é justamente o negligenciamento desses dois conceitos que caracteriza a forma como o conceito de campo foi apropriado pelos neoinstitucionalistas (EMIRBAYER e JOHNSON, 2004).
Por sua vez, o artigo resultante da tese de doutorado de Alketa Peci (PECI e VIEIRA, 2005) buscou apreender a circularidade entre os campos social, político, científico e organizacional através do resgate de Michael Foucalt, mais especificamente, utilizando a noção desse autor sobre o discurso como um recurso de poder, por crer que isto possibilitaria um melhor entendimento da dinâmica dos campos organizacionais.
Segundo Peci e Vieira (2005):
“Não é por acaso que o conceito de discurso é introduzido como base à compreensão dos processos de formação de campos. Discurso que, para Foucault, supera esta mesma dicotomia, dá mais dinamicidade ao estudo dos processos de institucionalização, reúne a dimensão temporal e espacial por meio do conceito do campo discursivo, e aglomera todas as dimensões, abordadas e negligenciadas, na análise dos processos de construção da realidade: normativa, cognitiva e do poder. Os discursos não são um puro entrecruzamento de coisas e de palavras (PECI e VIEIRA, 2005. p.16).
A partir das críticas expostas, e, posteriormente, das contribuições que vêm sendo propostas, pode-se depreender que o conceito de campo organizacional carece de maiores esclarecimentos e possui algumas limitações, até mesmo pelo seu entrelaçamento com os outros conceitos centrais da teoria institucional. Entretanto, apesar dessas limitações, esse conceito aparenta ter um valioso potencial explicativo para a realidade organizacional, e por isso, recorre-se a ele como um dos pilares deste estudo.
Aparentemente, os críticos mais ferrenhos também compartilham da sua adoção, e paralelamente as críticas, têm acreditado no seu potencial explicativo. Pode-se inferir inclusive, que o desenvolvimento da noção de campo organizacional tem perpassado o trinômio: (utilização – críticas - aportes teóricos), e, talvez, que seja justamente esse ciclo o grande responsável pela sua popularização e pela permanente inquietação de diversos pesquisadores no sentido de lapidá-lo e clarificar os “pontos cegos” existentes.
Propondo-se a somar aos ensaios de cunho crítico e às próprias investigações empíricas, este estudo parte do pressuposto de que a análise de diferentes contextos pode revelar tanto novas potencialidades, como fraquezas agregadas ao uso do conceito de campo, sobretudo, se novas interfaces forem exploradas, como aqui se propõe.