Como descrevemos, no início deste capítulo, o conflito tem atingido todo o país – em maior ou menor grau. Desde as zonas afastadas de colonização às áreas social e economicamente integradas, desde as áreas rurais até as grandes cidades, desde as zonas de montanha até as planícies e florestas.
Particularizando os grupos armados, verificamos que cada um deles conserva uma região de domínio geralmente ligada à origem ou zona de maior expansão do respectivo grupo. Desta forma, as FARC consideram Tolima, Huila, Caquetá – no sul do país – seu território raíz; o ELN, a região do Magdalena Medio correspondente ao departamento de Santander, assim como o departamento de Arauca; e os paramilitares, a região de Urabá e o departamento de Córdoba.
Segundo o IDH-2003, as zonas de expansão das FARC – tendo em conta que este grupo chegou a quase todo o território nacional, algumas vezes com sucesso outras com maiores dificuldades –, têm correspondido mais ou menos de maneira sucessiva com as seguintes áreas: depois da zona que lhes deu origem, passaram a outras áreas de colonização como Amazônia, Orinoquia e Magdalena Medio; logo conseguiram se inserir nas partes altas das cordilheiras, sobretudo, da cordilheira central, formando corredores até os centros urbanos, agrícolas e de mineração; posteriormente, nas áreas de economia extrativa e agrícola, como banana (Urabá), coca (sul do país), papoula (sudeste do país), e petróleo (Magdalena Medio, Casanare e Arauca); em seguida, nas regiões de minifúndio em crise, nos departamentos de Cauca, Nariño, Boyacá, e na área cafeeira de Quindio, Risaralda e Caldas; e, finalmente, nos centros urbanos, mediante milícias e ações de comandos urbanos.
Durante os anos 1970, o ELN se localiza na serrania de San Lucas (sul do departamento de Bolívar), epicentro entre as regiões de Magdalena Medio e a foz do rio Cauca, no norte de Antioquia e Córdoba. Adiciona-se o eixo vertical na fronteira com
Venezuela, nos departamentos do norte de Santander, Arauca e César. Estas regiões coincidem com a geografia do petróleo e do carvão, dos quais o ELN obteve seus recursos. Nos anos 1980 foram ganhando presença na costa caribe, em Urabá, e no sul do país – principalmente nos departamentos de Valle, Cauca e Nariño. Na década de 1990, produto dos confrontos com as FARC e, sobretudo, da arremetida paramilitar, apresentam uma presença regular em apenas seis departamentos do país – norte de Santander, Cesar, Arauca (na fronteira com Venezuela), Casanare e Magdalena Medio, nos departamentos de Santander e Antioquia (PNUD, 2003).
Os paramilitares, por sua vez, ligados ao negócio das esmeraldas nos anos 1980, dominam o Magdalena Medio em Santander e Antioquia. Os posteriores grupos ganham a Sierra Nevada de Santa Marta, no departamento de Magdalena, e a região sudeste, nos departamentos de Meta, Caquetá, Guaviare e Putumayo. No final da década, conseguem consolidar o eixo Urabá, Córdoba, foz do Rio Cauca, no departamento de Antioquia, Magdalena Medio e Meta, formando um corredor no qual atravessam o país de leste a oeste. Na década de 1990 consolidam ainda mais este corredor e, em 2001, expulsam o ELN de Barrancabermeja, capital petroleira do Magdalena Medio (PNUD, 2003).
O alto dinamismo e mobilidade dos grupos armados fazem com que muitas regiões passem a ser de domínio de todos os atores, alternadamente, em diferentes períodos de tempo, e que, além dos territórios “próprios” de domínio específico de um ator, se configurem outras formas de apropriação do território – conhecidas como corredores. Assim, dependendo da relação que têm os objetivos do grupo com a segurança de áreas consideradas chave – garantindo a saída de narcóticos ou a entrada ilegal de armas – formar-se-ão os chamados corredores estratégicos. Em territórios onde, ao contrário, o objetivo seja acabar com a influência de um ator sobre uma região e sua população, se configuram as chamadas zonas de disputa territorial. Outras vezes, o propósito é afetar as posições do inimigo com o fim de interromper as ligações entre corredores logísticos que configuram a passagem entre territórios de domínio de um ator armado ou entre estes e os corredores estratégicos. O mapa da figura 5 apresenta as formas de apropriação do território entre 2000 e 2004, que configurava um panorama da guerra para esse período.
Figura 5. Mapa geografia da guerra na Colômbia. 2000-2004.
Fonte: Sistema de Información Georeferenciada – SIG –, Cinep – Justicia y Paz, em
http://www.cinep.org.co/mapageoguerra.htm, acesso realizado em 03/09/2007.
Embora o mapa seja uma amostra das formas de apropriações do território por parte dos atores armados, é estático demais para ilustrar a dinâmica da guerra em termos de sua intensidade. A figura 6 apresenta três mapas com o registro das ações bélicas e a resposta da força pública nos anos de 1998, 2002 e 2006, facilitando a observação dos territórios atingidos e a intensidade da guerra (em gradações de verde e azul) para o período.
Através destes mapas é possível observar como o conflito aumenta em termos de cobertura territorial e confrontação armada. Destaca-se, também, que, apesar da desmobilização dos grupos paramilitares e da recolhida estratégica das FARC, as ações armadas, em 2006, continuam crescendo e se expandindo pelo território nacional – se comparado com os dois anos anteriores. Isso poderia ser conseqüência do incremento da ofensiva estatal no marco da política de segurança democrática, ou efeito da ação dos grupos que surgem após a desmobilização dos paramilitares.
O conflito nas cidades é outro sintoma da expansão territorial da guerra. A este respeito, o IDH-2003 destaca cinco fases – mais ou menos sucessivas – da forma como o conflito se integra à dinâmica urbana, advertindo que, não obstante a presença de atores armados e ações terroristas nas urbes colombianas, seria um erro afirmar que o conflito se está deslocando para as cidades, já que este continua a se desenvolver nas regiões rurais do país.
Assim, em um primeiro momento, aparecem as “redes de apoio” que provêem propaganda, recrutamento, informação, assistência médica, compras, manejo de recursos, etc. Com isso, entre as décadas de 60 e 70, as FARC e o ELN montaram suas organizações com simpatizantes de diferentes origens sociais e políticas.
Uma segunda etapa, nos anos 1980, faz referencia à “guerra suja” – entre grupos de narcotraficantes e entre estes e as guerrilhas – que se desloca do campo ou se exerce sobre personalidades da vida pública. A guerra suja foi se agravando com o surgimento dos grupos paramilitares, que incluíram batalhas para o controle de capitais regionais como Apartadó (região de Urabá), Montería (Córdoba), Buenaventura (Valle, porto da costa pacífica), Cúcuta (divisa com Venezuela) e Barrancabermeja (centro urbano do Magdalena Medio).
Figura 6. Mapas dos focos e da intensidade da confrontação armada na Colômbia – 1998, 2002, 2006.
Fonte: Observatorio del Programa Presidencial de Derechos Humanos y Derecho Internacional Humanitario, Vicepresidencia de la República, em
O terceiro momento consiste na fragmentação de algumas áreas das cidades, como subprefeituras, bairros e até quarteirões, sob o controle de uma força guerrilheira ou paramilitar com práticas de limpeza social, absorção de grupos urbanos de delinqüência e a imposição de uma ordem a ser respeitada pelos moradores.
A quarta fase se estabelece a partir de combates abertos em áreas periféricas das cidades, das quais foi exemplo, em 2002, o bairro El Salado – comuna 13 de Medellín –, onde ocorreram confrontos entre as Milícias Bolivarianas das FARC e os Comandos Armados del Pueblo – CAP – de um lado, e os blocos Metro e Cacique Nutibara das AUC, de outro.
A quinta e última etapa contempla o terrorismo e as ações psicológicas para ganhar visibilidade nacional e internacional. Esta fase começou no final da década de 1990 e se estende até o presente, com seqüestros massivos em Cali (Igreja da Maria) e Neiva (Edifício Torres de Miraflores), e atentados em Bogotá (Club El Nogal), Neiva (casa bomba) e Cúcuta (bombas em áreas comerciais da cidade).
Assim, o conflito não só se expande territorialmente das regiões rurais às áreas urbanas, mas também em variedade de formas – que vão desde o domínio de territórios, seu uso como corredores ou fontes de finanças até apropriações pontuais com objetivos de desestabilização ou geração de amplos impactos na opinião pública nacional e internacional. As áreas afetadas pelo conflito, assim como a intensidade dos confrontos, permitem conferir a seletiva e crescente expansão da guerra pelo território nacional.