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Luis Eduardo Pérez (2002) faz uma síntese dos principais fatores associados à ocorrência de deslocamentos forçados, de acordo com uma revisão da literatura existente entre 1992 e 1999 sobre o tema.

Assim, na análise de Pérez, um primeiro bloco de pesquisadores considera o deslocamento uma conseqüência do conflito armado e, mais especificamente, das ações de combate e de fustigação por parte dos atores armados à população civil. Para outro grupo, este é um bom marco de análise, mas “insuficiente” para entender a dinâmica e os determinantes de um fenômeno que eles consideram um problema nacional que obedece a causas de tipo estrutural – em razão de que o deslocamento passa por múltiplos e complexos problemas

sociais relacionados, em grande parte, com o processo histórico de estruturação da propriedade e uso da terra, e da violência como mecanismo de expropriação.

Assim, para estes autores, é a partir da década de 1990 que se acentua o já antigo processo de formação da grande propriedade rural. Segundo a análise de Peña, as propriedades rurais que mediam entre 0 y 100 hectares ocupavam, em 1984, 40% da área, e as que mediam mais de 500 hectares ocupavam 32.5% da superfície. Treze anos depois, em 1997, as primeiras tinham-se reduzido a 34.5% da área, e as segundas, tinham-se ampliado em 45%. Em outras palavras, de cada 100 camponeses que possuíam terra, 97 eram donos de fazendas que não excediam 100 hectares. No entanto, os 3 proprietários restantes tinham fazendas de mais de 100 hectares que ocupavam quase a metade da superfície rural (Peña, 2001, p.8).

Adiciona-se o fato de que, desde meados dos anos 1980 e na década de 1990, os narcotraficantes contribuíram de forma importante à concentração da terra e à generalização da violência. Segundo dados da Fundación Social (1998), os narcotraficantes têm comprado terras em 42% dos municípios do país, e em suas mãos está concentrada a definição das pautas de investimento rural de muitas regiões e uma parte importante da seguridade agro-alimentar do país.

O conflito armado das últimas décadas não tem se desligado desta tendência, pois tem gerado processos de acumulação e concentração da terra. Assim, segundo pesquisa de 2004 desenvolvida por Codhes e Pastoral Social, nos últimos 15 anos, grupos armados ilegais e narcotraficantes têm expropriado camponeses e colonos em, aproximadamente, 5 milhões de hectares – um terço da terra na Colômbia. A pesquisa também estabelece que 54% das famílias deslocadas eram proprietárias de suas terras, 72% as abandonaram e só 13% conseguiram vendê-las a preços insignificantes (Codhes, citado em Piupc-UN, ACNUR, 2006b, p.13).

Além das cifras, o mapa do deslocamento confirma a relação entre concentração da propriedade sobre a terra e desterritorialização. Assim, os departamentos onde têm se apresentado, com maior intensidade, fenômenos de despojo e deslocamento são Tolima, Putumayo, Chocó, Antioquia, Caquetá, Cauca, Norte de Santander, Guaviare, Cesar e Bolívar; departamentos caracterizados por altos índices de concentração da terra, além de

baixo crescimento econômico e baixo nível salarial (Machado, 2004 citado em Piupc-UN, ACNUR, 2006b, p.13)

De outro lado, está o tema da posse da terra por parte de comunidades tradicionais, como indígenas e afro-descendentes, e a existência de interesses econômicos transnacionais sobre seus territórios. Jaime Arocha, em seus diversos trabalhos sobre comunidades afro-descendentes, sublinha a estreita relação entre titulação coletiva da terra e o incremento do conflito e do deslocamento nos territórios destas comunidades. Assim, segundo o autor, têm-se desenhado projetos econômicos multinacionais e multimilionários, como o cultivo massivo da palma africana, a construção de um gasoduto – em sociedade com a Venezuela – e de um canal interocêanico, que aproveita o caudal do rio Atrato, além da saída e entrada de mercados legais e ilegais – de armas e narcóticos – nos quais o denominador comum é o estabelecimento de conexões terrestres e fluviais entre os portos do pacífico e as regiões da Orinoquia, a Amazônia e a Cordilheira dos Andes. Assim, os atores – armados ou não –, com estes interesses, identificam, na presença de comunidades tradicionais exercendo seus direitos patrimoniais e culturais, um obstáculo para o desenvolvimento de seus projetos47.

Arocha faz parte de um bloco de autores que considera que o problema atual não obedece, unicamente, à pressão que tradicionais fazendeiros ou narcotraficantes exercem sobre os modelos de uso e propriedade da terra. Como também sublinhado por Bello e Peña (2001), o modelo neoliberal adotado, no início dos anos 1990, exige uma infra-estrutura que o país mal começa a construir, a custos sociais e econômicos ainda não calculados: parte dos novos investimentos se constitui de portos e aeroportos, rodovias nacionais e regionais, zonas francas, hidroelétricas, sistemas de comunicação e equipamentos urbanos.

Nas hipóteses elaboradas por este segundo bloco de autores, inicia-se um processo de construção que permite reconhecer, no deslocamento, uma estratégia de guerra em que os atores armados e não armados agem sobre a base de referentes políticos, militares e, especialmente, econômicos.

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Arocha, Jaime, “Desterrar Afrocolombianos para patentar chontaduros”, em UN periódico, nº. 71, Bogotá, 27 de fevereiro de 2005, em http://unperiodico.unal.edu.co/ediciones/71/02.htm, acesso realizado em 19/09/2007.

Um terceiro grupo de pesquisadores chega a conclusões similares, mas seu ponto de partida é diferente. Este grupo tenta superar “velhas” hipóteses sobre a relação violência-pobreza e, para tanto, analisam, a fundo, os dados de expulsão de população por regiões. Assim, constatam que os deslocamentos concentram-se, fundamentalmente, nas zonas de maior dinâmica econômica: de concentração de recursos estratégicos – como a terra ou bens primários, como o petróleo –, metais preciosos e cultivos ilícitos ou em territórios que experimentam rápidas transformações econômicas, e nos que existem e se desenvolvem mecanismos de exclusão por parte de diferentes grupos de interesses (latifundiários, narcotraficantes, grupos armados, autoridades locais e regionais, etc.).

É precisamente nos processos históricos de exclusão social de amplos grupos dentro dos quais estão indígenas, afro-colombianos, colonos e camponeses, que este bloco de pesquisadores explica o deslocamento. Nas reflexões de Maria Aparecida de Moraes Silva (2007), o campesinato – e as comunidades tradicionais – incomodam por sua força, organização, modo de vida, resistência e especial vínculo com a terra. Isto gera uma constante tensão entre estes e aqueles que procuram, por todos os meios – incluída a violência –, desterrar e despojar as comunidades da terra que lhes dá sustento, sentido vital, identidade e sentido de luta.

Assim, a exclusão se expressa não somente pelas múltiplas carências e privações em termos de bens, serviços e oportunidades econômicas que vivenciam estas comunidades senão também, e especialmente, pela impossibilidade de exercer seus direitos, pelas dificuldades para serem reconhecidos como cidadãos e cidadãs de um país e pelas restrições para viver da maneira por eles desejada. Desta forma, com o deslocamento forçado, grupos socialmente excluídos passam de vítimas históricas dos processos de exclusão a vítimas dos processos de desterritorialização e despojo (Piupc-UN, ACNUR, 2006a).

Conseqüentemente, a partir destes múltiplos olhares, podemos concluir que os processos que geram o deslocamento, assim como aqueles que resultam no conflito armado interno na Colômbia, são variados e complexos, e vinculam o uso da violência a interesses políticos e econômicos locais, regionais e, também, transnacionais.