BÖLÜM 2: KUTSAL KĐTAPLARDA IŞIK KÜLTÜ
2.1.3. Işık-Ay, Güneş ve Yıldızlar
Para compreender a natureza da horizontalidade presente no subespaço Tabatinga- Leticia e inferir sobre sua atual importância para o desenvolvimento econômico, social e cultural das cidades gêmeas, torna-se fundamental buscarmos a gênese das relações de vizinhança que se estabelecem entre essas populações fronteiriças, tanto na história das relações socioespaciais preexistentes adjuntas às respectivas formações socioespaciais, como na própria manifestação empírica do fenômeno. Acreditamos ainda ser necessário fazer algumas considerações de ordem conceitual para melhor elucidar as circunstâncias particulares do próprio lugar no contexto da Amazônia. Nessa direção, começamos pela caracterização das cidades amazônicas.
José Aldemir de Oliveira (2006) ao definir as cidades amazônicas, cita entre as características que as definem:
A baixa articulação com as cidades do entorno; atividades econômicas quase nulas; predomínio do emprego relacionado ao serviço público; pouca capacidade de oferecimentos de serviços básicos e base econômica assegurada pelo repasse de recursos públicos (p. 27).
Peculiaridades que as caracterizam, sobretudo, como cidades locais, cuja atuação é restrita e sua articulação imediata se dá com outros centros subordinados ao nível hierárquico superior (SANTOS, [1979b], 2008).
Outra peculiaridade das cidades amazônicas em que podemos enquadrar Tabatinga e Leticia refere-se a sua gênese locacional: situadas à margem de rio o que as caracteriza como cidades ribeirinhas, definida por Oliveira (2003) como “aquelas situadas à margem dos rios amazônicos cuja rede de circulação e articulação com o entorno e com o distante tem por base o rio [e também dele] retira os recursos de sua alimentação e vivência” (p. 63).
Igualmente no que se refere ao núcleo urbano, o povoado civil de Tabatinga se instalou inicialmente nas adjacências da desembocadura do igarapé Santo Antônio no rio Solimões, que corresponde ao limite internacional aglomerando-se com Leticia. Nas proximidades passaram a ancorar embarcações que deram origem ao porto e ao mercado “forma espacial [que] repete-se em inúmeras cidades na Amazônia e fora dela” (NOGUEIRA, 2008, p. 184), dispondo igualmente, Leticia do mesmo sistema porto-mercado.
Esta caracterização – cidade local ribeirinha - muito bem podia definir tanto Tabatinga como Leticia até a década de 1980. No entanto, de lá para cá, mudanças de caráter político e técnico (modernizações) vêm trazendo uma nova ordem ao subespaço. A elevação do status político de Letícia à Capital de Departamento (1991) e os investimentos correlatos no nível de institucionalização e modernização a elevou para uma categoria superior. Não muito diferente disso, Tabatinga também, nesse período recebeu uma atualização significativa quanto à institucionalização e a modernização. O subespaço como um todo, nos últimos 20 anos (Leticia desde 1991 e Tabatinga desde 2000), vem ganhando um aporte de infraestrutura (fixos) e instituições (normativas, serviços púbicos, financeiras, comunicações, educativas, recursos humanos) ao nível de investimentos federais que abriu novas possibilidades de conexão. Seria um incremento da conectividade territorial, passando o subespaço a estabelecer links para fora de sua hierarquia urbana imediata e se relacionando em rede com lugares distantes iniciando uma inserção na economia mundial.
A cultura particular e específica desse subespaço vem de séculos, sendo pretérita à própria fronteira. A presença de numerosos contingentes indígenas localizados entre os rios Solimões (Amazonas/Marañon), Içá (Putumayo) e Japurá (Caquetá), em ambos os lados da fronteira (BECKER, [2004], 2009) é muito antiga. Estas populações nativas tradicionais estabeleceram laços de convivência ao longo da história desde muito antes da consignação dos limites internacionais ou mesmo da chegada dos brancos europeus. Isso evidencia as raízes históricas da horizontalidade, denotando ser algo intrínseco, genético, estabelecidos desde os tempos remotos quando as populações indígenas locais e regionais dividiam livremente esse território. Essa particularidade social transpôs a barreira política estabelecida pela fronteira posterior e conduziu ao “movimento mútuo dos fronteiriços [que] consolidou laços que hoje se revelam no parentesco binacional, por exemplo, com a constituição de famílias pertencentes a nacionalidades distintas” (NOGUEIRA, 2008, p. 174) e ao mesmo tempo serviu de suporte a economia local.
O isolamento geográfico do subespaço em meio à grande floresta Amazônica Sul Americana com acesso restrito ao transporte fluvial, a uma distância aérea de aproximadamente 1.000 km de suas respectivas cidades regional, contribuiu para essa aproximação desde os tempos mais remotos. A necessidade de trocas para a própria sobrevivência conformou uma economia horizontal genética particular, pretérita às últimas definições fronteiriças desde antes mesmo de Leticia pertencer ao Peru. A institucionalização da fronteira Brasil-Colômbia enquanto limite interestatal (1907-1938), por esse ponto de vista, se constituiu numa severa verticalidade.
Esta, porém, não rompeu as relações preestabelecidas, pelo contrário, foi justamente essa díade fronteiriça, calcada sobre relações cotidianas de convívio territorial anterior que possibilitou uma imediata, senão contínua, economia de vizinhança, característica de cidades gêmeas. Contraditoriamente, o que era hábito, a partir de então, por força da norma, torna-se “contrabando cotidiano” (DORFMAN, 2009).
Esse prisma de análise nos remete a duas considerações convergentes. As contraracionalidades, ou racionalidades criadas a partir do território que se expressam no cotidiano, apontadas por Santos ([2000], 2010) como as “formas de convivência e de regulação criadas a partir do próprio território e que se mantém [...] a despeito da vontade de unificação e de homogeneização” (p. 110). E as observações de Bertha Becker ([2004], 2009) quanto às cidades gêmeas, quando observou que estas se configuram como lugar de rede de relações que rompe com as delimitações fronteiriças oficiais baseadas nas soberanias nacionais, sendo mais ativas quando localizadas em tríplices fronteiras como é o caso do subespaço em estudo.
Também Lia Osorio (2005) em sua proposta de tipologia das cidades gêmeas situadas ao longo das fronteiras brasileiras considerou Tabatinga-Leticia como de interações do tipo sinapse, por possuir essa especificidade, que a nosso ver, está relacionada exatamente com a horizontalidade desenvolvida ao longo da história territorial do subespaço. Ainda Nogueira (2008), a esse respeito considera que a partir dos anos 1980, quando Tabatinga se emancipou, esta passou a consolidar juntamente com Leticia “uma cidade gêmea com fronteira seca [...] aglomerado urbano de maior dinâmica na fronteira da Amazônia, sendo impossível isolar em qualquer análise uma cidade da outra” (p. 170). Esses elementos evidenciam a forte coesão presente entre as duas cidades locais que formam o subespaço fronteiriço.
Para o entendimento dessas considerações a categoria lugar torna-se fundamental, sendo esse, segundo Santos ([1996], 2009) o lócus privilegiado de referência pragmática do mundo, ele tanto recebe ordens de ações condicionadas distantes como também é o “teatro insubstituível das paixões humanas” (p. 322) onde se dão as mais diversas manifestações de espontaneidade e criatividade. No lugar se realiza um “cotidiano compartido entre as mais diversas pessoas, firmas e instituições; cooperação e conflito são a base da vida em comum” (Ibid.). Os lugares permitem a historicização, geografização e empirização do mundo (SANTOS, [2000], 2010). O lugar é enfim “o encontro entre possibilidades latentes e
oportunidades preexistentes ou criadas. Estas limitam a concretização das ocasiões” (SANTOS, [1994], 2008, p. 40).
Com a modernização contemporânea, difundida pelo fenômeno das redes, os lugares vêm se mundializando, originando lugares globais complexos e simples. “A rede conecta diferentes pontos ou lugares mais ou menos distantes e permite hoje a ampliação da escala da ação humana até a dimensão global” (DIAS, 2007, p.23). Lugares globais Os primeiros seriam as metrópoles, e os segundos os lugares onde apenas alguns vetores da modernidade se instalaram. Todos igualmente passam a participar do grande teatro de fluxos em diferentes níveis de intensidade e orientação, compondo um subsistema do espaço global (SANTOS, [1994], 2008).
O subespaço Tabatinga-Leticia vem passando exatamente por esse processo de modernização, logrando paulatinamente a posição de lugar global simples, na medida em que se insere no teatro de fluxo e passa a participar da economia global, ainda que de forma incipiente. Tal ação tem provocado mudanças de ordem econômica, social, política e cultural, além de produzido contrastantes temporalidades. O velho e o novo passaram a conjugar uma vida urbana particular alimentada pelas relações de vizinhança e pela contradição da exclusão que marca o legado das cidades ribeirinhas amazônicas.
Essa verticalidade que se instala, entretanto, não exclui uma resistência advinda da cultura precedente. A esse respeito Oliveira (1998) chama atenção para se evitar o que tem sido visto nas análises geográficas do espaço amazônico, que se trata da desconsideração do “vivido” na produção do urbano, assim como da cultura particular do lugar que advém do rebatimento da respectiva formação socioespacial sobre o mesmo. Para ele:
O homem não mora no mundo, ele mora no lugar. Este lugar pode escapar às tendências da homogeneização colocada pela globalização, pois as forças que criam a globalização podem criar seu contrário. O lugar tem um tempo e um espaço que são muito menos global, pois preenchem de significados. No lugar emerge a diferença e brota a luta e um lugar privilegiado dessas lutas são as cidades (OLIVEIRA, 1998, p. 35).
Por esse prisma de observação, tem-se que a expansão da fronteira na Amazônia acontece dentro de um processo contraditório de destruição, resistência e reconstrução. Tanto surgem as novas formas-função, quanto novos conteúdos espaciais dotados de dimensões, significados e psicosfera particulares (OLIVEIRA, 1998), formando um novo sem excluir o velho. Nesse caminho, as pessoas do lugar são participantes ativas do processo de mudança, não significando que deixem por isso de estar na condição de excluídos, haja vista que, não
participam das decisões tomadas em instâncias superiores e lugares distantes. Pois que “as verticalidades agrupam áreas ou pontos a serviços de atores hegemônicos, não raro distantes [...][e esses se expressam] pela imposição de políticas desvinculadas da realidade local” (SANTOS, [1994], 2008. p. 18).
Geralmente o padrão de circulação imposto pela modernização determina o desaparecimento de algumas atividades e o surgimento de outras e seus impactos decorrentes desarticulam atividades e modos de vida a elas ligados, fazendo surgir novos, mais elaborados, que demandam uma adaptação cultural, conseqüentemente uma tecnosfera e psicosfera adaptada.
As novas temporalidades e espacialidades verticalmente impostas sobrepujam a experiência, a vivência, a cultura e a história enraizada nos lugares. Em decorrência disso, nelas podemos ter acesso a avançadas tecnologias e, simultaneamente, não se têm sequer as necessidades básicas atendidas. As pequenas cidades amazônicas têm essa contradição, são articuladas a relações pretéritas caracterizadas pela inércia (OLIVEIRA, 2006), que até certa medida realiza-se como resistência e denota uma rara permanência. Há nesses aglomerados a inércia caracteriza pelos tempos lentos e, simultaneamente, a velocidade dos tempos rápidos, tal é a forma de inserção da Amazônia no mundo, especialmente nos confins dos espaços fronteiriços da Amazônia ocidental.
Estabelece-se assim, um convívio conflituoso de diferentes temporalidades dentro do mesmo subespaço/sociedade, na medida em que a realidade do tempo social vivido pelos grupos e indivíduos é diferente. Convivem superpostamente como que em camadas de diferentes densidades, os jovens universitários com acesso ao conhecimento, à informática, à internet, às tecnologias e os indígenas e as pessoas da geração passada quase analfabeta. Tudo vem como avalanche e implanta-se como prótese sobre o velho. Deveras que o espaço se apresenta maleável, poroso, flexível e, as mudanças decorrentes são muito rápidas.
As cidades amazônicas são, contudo, lugar de possibilidades concretas de um dado tempo e de uma dada sociedade. A possibilidade que se nos apresenta é advinda das relações específicas do cotidiano compartilhado, imbricado na história territorial e na cultura construídas ao longo do tempo. As relações horizontais de vizinhança representam para esse subespaço a possibilidade concreta da vida e, ao mesmo tempo, o ingrediente fundamental ao desenvolvimento social de ambas as partes.