A responsabilização constitui no aspecto mais contundente da LRF e deverá ocorrer, sempre, que houver descumprimento das regras nela estabelecidas. Assim é que, para assegurar a efetividade da LRF, foram criadas as sanções institucionais (aquelas que recaem sobre o ente público) e pessoais (que recaem sobre o agente que der causa ou infração administrativa), e através da Lei 10.028/00, de 19.10.00, denominada Lei de Crimes de Responsabilidade Fiscal, alterações foram processadas no Código Penal Brasileiro para Responsabilidade Fiscal, alterações foram processadas no Código Penal Brasileiro para garantir a responsabilização dos seus transgressores. Os quadros ilustrativos, elaborados por Khair (2001) e abaixo reproduzidos demonstram as punições fiscais que recaem sobre os que incorrem no descumprimento das regras estabelecidas na LRF:
Tabela 2 – Punições ao descumprimento da lei
INFRAÇÃO PUNIÇÃO AO ENTE PÚBLICO
Não instituir nem efetuar a previsão e arrecadação de todos os impostos de sua competência.
Vedadas as transferências voluntárias. Não eliminar no prazo estabelecido o excedente da
despesa com pessoal.
Vedadas, enquanto perdurar o excesso: as transferências voluntárias, obtenção de garantia e contratação de operações de crédito, ressalvadas a destinada ao refinanciamento da dívida mobiliária e as que visem à redução da despesa de pessoal.
Não se adaptar aos limites da despesa de pessoal no prazo.
Suspensão, enquanto perdurar o excesso, de todos os repasses de verbas federais e estaduais
Não eliminar no prazo o excedente da dívida consolidada ou mobiliária e das operações de crédito.
Proibida operação de crédito. O ente deverá obter resultado primário necessário à recondução ao limite, promovendo limitação de empenho. Vencido o prazo, e enquanto perdurar o excesso, ficará sem transferências voluntárias. As restrições aplicam-se imediatamente se a dívida exceder ao limite no primeiro quadrimestre do último ano de mandato. Não honrar a garantia Ficam condicionadas as transferências constitucionais
ao ressarcimento do pagamento.
INFRAÇÃO – Lei 10.028/2000 PUNIÇÃO AO AGENTE Contratação irregular de operação de crédito ou se a
dívida consolidada ultrapassar o limite máximo autorizado por lei.
Inscrição irregular ou acima do limite de restos a pagar.
Detenção de 6 meses a 2 anos Assunção irregular de obrigação nos últimos oito
meses de mandato.
Reclusão de 1 a 4 anos. Ordenação de despesa não autorizada Reclusão de 1 a 4 anos Não cancelamento de restos a pagar Detenção de 6 meses a 2 anos Aumento da despesa de pessoal no último semestre
do mandato
Reclusão de 1 a 4 anos Oferta pública ou colocação de títulos irregulares no
mercado
Reclusão de 1 a 4 anos Deixar de divulgar ou de enviar ao Poder Legislativo
e ao Tribunal de Contas o Relatório da Gestão Fiscal, nos prazos e condições estabelecidos em lei; propor Lei de Diretrizes Orçamentárias que não contenha as metas fiscais na forma da lei; deixar de expedir ato determinando limitação de empenho e movimentação financeira, nos casos e condições estabelecidos em lei; e deixar de ordenar ou de promover, na forma e nos prazos da lei, a execução de medida para a redução da despesa total com pessoal que houver excedido à repartição do limite máximo por Poder.
Trinta por cento dos vencimentos anuais, sendo o pagamento da multa de sua responsabilidade pessoal.
CRIMES DE RESPONSABILIDADE
DOS PREFEITOS - Lei 10.028/2000 PUNIÇÃO
Deixar de ordenar, no prazo, a redução da dívida consolidada; ordenar ou autorizar a abertura de crédito em desacordo com os limites; deixar de promover ou de ordenar a anulação de operação de crédito com inobservância de limite, condição ou montante; deixar de promover ou de ordenar a liquidação integral de ARO até o encerramento do exercício financeiro; ordenar ou autorizar refinanciamento ou postergação de dívida contraída anteriormente; captar recursos a título de antecipação de receita de tributo ou contribuição cujo fato gerador ainda não tenha ocorrido; ordenar ou autorizar a destinação de recursos provenientes da emissão de títulos para finalidade diversa da prevista na lei que a autorizou; e realizar ou receber transferência voluntária em desacordo com a lei.
Perda do cargo, com inabilitação, por até cinco anos, para o exercício de qualquer função pública.
Fonte: adaptado de KHAIR (2001: 87-89)
A prestação de contas dos Chefes do Poder Executivo incluirá, além das suas próprias, as dos Presidentes dos órgãos dos Poderes Legislativo e Judiciário e do Chefe do Ministério Público. Serão objeto de ampla divulgação dos resultados, inclusive na internet, as contas julgadas ou tomadas, e evidenciarão o desempenho da arrecadação em relação a: previsão, destacando as providências adotadas no âmbito da fiscalização das receitas e do
combate à sonegação; ações de recuperação de créditos nas instancias administrativa e judicial; e demais medidas, para incremento das receitas tributárias e de contribuições.
Entretanto, Lino (2001, p. 186) aponta para o fato que o legislador não se preocupou em exigir um orçamento planejado e dinâmico, mas uma estática prestação de contas, que limita a ênfase que deveria ser dada à demonstração do correto implemento das políticas públicas autorizadas, ao mero destaque de providências, que visam à melhoria do sistema arrecador ou, no máximo, de contenção do déficit público.
De acordo com Filho (2001, p.17), a imposição de regras que se aproximam da idéia de restrição orçamentária rígida e a imposição de regras orçamentárias e de apresentação de contas e resultado que, além de homogeneizar as contas municipais, dão a elas maior transparência, elemento fundamental para a constituição de mercado de títulos municipais é fato para consolidação da disciplina de mercado.
A prestação de contas dos Municípios ocorre num fórum denominado Audiência Pública, que para Ramos (2005, p.10), é um local onde os usuários de serviços públicos participam, efetivamente, da vida política de seu bairro e de sua cidade, quando argumentam da necessidade da manutenção e ampliação dos serviços públicos e de melhoria em sua qualidade.
Convém acrescentar que os arts. 70 e 75 da CF ampliaram, significativamente, a participação do Poder Legislativo na ação de fiscalização contábil, financeira e orçamentária do Setor Público, através do controle externo, exercido com o auxílio dos Tribunais de Contas, e pelo sistema de controle interno de cada Poder. Trata-se de condicionamento vigente desde a promulgação de CF, aplicável independentemente da vigência da LRF.
Ainda segundo Ramos (2005, p.10), o espaço das Audiências Públicas ao mesmo tempo em que pode significar um instrumento de controle do poder público, serve também
como um local de conhecimento e troca entre os atores presentes, além de momento em que ocorre o aprendizado da cidadania e da participação cidadã.
Como definiu Abrucio (2001, p.188), “cidadania está relacionada com o princípio da accountability, que requer participação ativa na escolha dos dirigentes, na formulação das políticas e na avaliação dos serviços públicos”. Para tanto, este controle dos cidadãos sobre as ações dos governantes ocorre tanto ex-ante, na definição das políticas, como ex- post na avaliação dos resultados.
Assim, a Audiência Pública é um canal de accountability tanto vertical (controle do cidadão) quanto horizontal (controle do Poder Legislativo), ainda assim, é neste fórum que a transparência e a responsabilização são “acordadas”, ou seja, adquirindo um aspecto contratual, os agentes políticos assumem compromissos com a população.
Para identificar a influência da LRF na responsabilização das Contas Públicas, sob a ótica da accountability, considerou-se o comprometimento dos agentes políticos com suas ações e, principalmente, a relevância demonstrada com o atendimento das demandas dos cidadãos.