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BÖLÜM 1: HUKUK DEVLETİ VE YARGI BAĞIMSIZLIĞI KAVRAMLARI:

1.1. Hukuk Devleti Kavramı

1.1.2. Hukuk Devleti Kavramının Tarihsel Gelişimi

Entre maio de 1968 a outubro de 1969, Clarice Lispector colaborou para a revista Manchete30 na seção intitulada Diálogos Possíveis com Clarice Lispector.

Todos os sábados, a revista publicava as entrevistas que ela realizava com personalidades de variada atividade: cantores, músicos, pintores, atores, escritores, jornalistas, teatrólogos, técnicos de futebol, entre outros.

O texto da entrevista iniciava-se sempre com o nome e uma citação do entrevistado. Se as pessoas eram conhecidas ou não, Clarice sempre as apresentava para o leitor no parágrafo introdutório.

Entrevistou amigos famosos que conheceu quando ainda era casada e vivia no exterior e pessoas com as quais não tinha proximidade, por exemplo, na coluna do dia 22 de março de 1968, a entrevista era com o Governador do Estado da Guanabara, Negrão de Lima que respondeu sobre os problemas das favelas do Rio de Janeiro. No dia 5 de abril de 1969, a entrevistada era a primeira dama D. Yolanda Costa e Silva, que tratou sobre suas viagens pelo mundo e pelo Brasil. O Ministro dos Transportes, Mario Andreazza, também foi entrevistado no dia 10 de maio de 1969.

O tom das entrevistas variava em relação ao entrevistado. Algumas eram mais sérias, outras eram conduzidas em tom de conversa íntima. Os papéis de

30 Em 1975, Clarice Lispector publicou o livro de Corpo Inteiro que reuniu parte dessas entrevistas.

Ela incluiu nessa coletânea a entrevista com o Ministro da Educação Ney Braga que foi realizada posteriormente ao trabalho da Revista Manchete porque entre os anos de 1968 e 1969, o Ministro da Educação era Tarso Dutra.

entrevistador e entrevistado se invertiam no momento em que os entrevistados passavam a fazer perguntas para Clarice.

Os temas eram os mais diversificados, quando os entrevistados eram escritores, costumava perguntar-lhes sobre o método de criação, de inspiração para o trabalho, os livros que gostavam de ler. Procurava saber se estavam escrevendo algum livro, perguntas essas que tinham muita relação com o seu próprio trabalho, afinal Clarice era também escritora e compartilhava suas experiências com os entrevistados. Com os atores e artistas de teatro procurava saber sobre as peças que encenavam, sobre a rotina do trabalho, questões relacionadas à profissão.

Com as leituras de suas entrevistas, pudemos notar que Clarice tinha muito conhecimento sobre teatro, música, artes. No entanto, este trabalho sempre foi muito criticado por profissionais do jornalismo, principalmente pelo modo como conduzia as entrevistas.

Ainda hoje há aqueles que criticam o trabalho de Clarice Lispector realizado para a Revista Manchete. O colunista da Folha de S. Paulo, Marcelo Coelho31 é um deles. Em sua coluna do dia 5 de maio de 2007, sua crítica já está marcada no título, “Clarice ‘repórter’ inibe entrevistados”:

[...] Trabalhando como repórter para o “Jornal do Brasil” e para as revistas “Fatos e Fotos” e “Manchete”, a autora de “Perto do Coração Selvagem” era capaz de perguntas de adolescentes, que costumava repetir a cada entrevistado: “o que é o amor?” ou “qual a coisa mais importante do mundo?”

Poucos autores conseguem ser originais diante de indagações desse tipo. “Amor é dádiva, renúncia de si mesmo na aceitação do outro”, responde Fernando Sabino. Sem muita paciência, Neruda responde que “o amor é o amor”. Chico Buarque sai pela tangente: “não sei definir, e você?” Ao que Clarice Lispector responde: “nem eu”. Zagallo, depois de pensar um tempo, dá sua versão: “é um sentimento recíproco”. “É bom estar apaixonada?”, pergunta Clarice, banalmente, a Elis Regina. Banalmente, a cantora responde: “Bem melhor do que não sentir nada!”

Clarice Lispector não era uma entrevistadora comum, mas não seria possível avaliar seu trabalho apenas por essas perguntas que Marcelo Coelho apresentou em sua crítica. Na entrevista com Chico Buarque, a entrevistadora fez outras perguntas que o jornalista não as considerou em sua crítica.

31 Nesse momento havia sido lançado, pela editora Rocco, o livro Entrevistas, nova coletânea do

trabalho realizado por Clarice Lispector para a Revista Manchete. Marcelo Coelho fez crítica a Clarice e ao livro, classificando-o como regular.

Assim, acrescentamos outro trecho da entrevista para que possamos fazer as nossas observações. Clarice pergunta: “- vi você na primeira passeata pela

liberdade dos estudantes. Que é que você pensa dos estudantes do mundo e do Brasil em particular?” e Chico Buarque responde: “- No mundo é para mim difícil de falar, mas aqui no Brasil eu sinto em todos os setores um apodrecimento e a impossibilidade de substituição senão por mentalidades completamente jovens e ainda inatingidas por essa podridão. Aqui no Brasil só vejo esta liderança

[...]”(LISPECTOR, 1999b, p.68)

Em outra entrevista, realizada com Paulo Autran:

- Paulo Autran é pseudônimo?

- É meu nome mesmo. Nunca usei pseudônimo.

- Boa sorte a sua com um nome belo destes, que prometem tanto, e que soa aos ouvidos como um nome de alguém como você, que está cumprindo os desígnios de um grande ator. Até que ponto Morte e Vida Severina nos representa?

- João Cabral nos apresenta o subdesenvolvimento, e a peça, sendo profundamente brasileira, é universal na medida em que esse tema tem interesse mundial.

- Você refere aos países chamados subdesenvolvidos ou à condição humana e o fruto da falta de justiça social?

- O poema de João Cabral mostra o homem desamparado diante de uma natureza hostil e de condições sociais adversas. É o subdesenvolvimento com todas as suas implicações humanas e sociais [...] (LISPECTOR, 2007, p.133)

Extraímos esses trechos das entrevistas de Chico Buarque e de Paulo Autran para demonstrar que Clarice não fazia perguntas imaturas ou superficiais. Ela tinha preocupação em relacionar suas perguntas não só com o entrevistado como também com as situações da realidade política e social do nosso país.