89 Tandoğan, s 24 Bkz Tandoğan, RWZ, s 28 – 29.
B) Hukukça Korunan (Diğer) Menfaatlerin Veya Özel Koruma Normlarının İhlâl
A teoria das redes contratuais ou contratos coligados constitui-se em uma implicação da função social do contrato, no que se refere à extensão dos pactos para atingir partes não diretamente ligadas à avença original, mas muitas vezes, celebrantes de outro liame obrigacional que guarda certa conexão com o primeiro contrato.
Para Orlando Gomes123, “Os contratos coligados são queridos pelas partes contratantes como um todo. Um depende do outro de tal modo que cada qual, isoladamente, seria desinteressante. Mas não se fundem. Conservam a individualidade própria, por isso se distinguindo dos contratos mistos”
Godoy124 conceitua tal fenômeno como sendo “ajustes interdependentes e inter-
relacionados que podendo vincular pessoas diversas, podem bem fazer-lhes oponível um contrato de que não fizeram parte. Varela125, por sua vez, destaca, entre as características dos contratos coligados, o fato de que pactos individuais, mas não autônomos, estão vinculados por um nexo funcional, de forma que um depende do outro, ou no dizer de Godoy126 tornando-se condição, contraprestação ou motivo um do outro.
Nelson Rosenvald127 assevera que o assunto recebe diferentes denominações no direito comparado:
Nos ordenamentos italiano e português a interligação econômica e funcional entre contratos estruturalmente diferenciados tem sido tratada sob a expressão contratos coligados - enquanto no direito espanhol é utilizada a locução contratos conexos. Já no direito argentino, prestigia-se a expressão redes contratuais.
123 GOMES, Orlando. Contratos. Atualizadores Antonio Junqueira de Azevedo e Francisco Paulo de Crescenzo
Marino. Coord. Edvaldo Brito. Rio de Janeiro: Forense, 26ª Edição, 2007, p. 121.
124
GODOY, Claudio Luiz Bueno de. Função social do contrato. São Paulo: Saraiva, 2004. p. 147.
125 VARELA, João de Matos Antunes. Das obrigações em geral. Coimbra: Livraria Almedina, 1990. p.
281/284.
126
GODOY, op. cit., p. 147.
127 ROSENVALD, Nelson. As redes contratuais. Disponível em
Os contratos coligados não são regulamentados por uma determinada disposição expressa do Código Civil, mas decorrem da autonomia privada que têm as partes para estabelecerem contratos atípicos. Quanto à essa liberdade para celebração de contratos que não estejam literalmente tipificados no Código Civil, o próprio Código disciplina ao menos essa permissão, condicionando, todavia essa autonomia ao atendimento de normas gerais contratuais, entre as quais entendemos que estão incluídos os princípios instrutores lei civil codificada, dentre eles, a função social do contrato.
Dessa forma, estabelece o art. 425 do Código Civil: “É lícito às partes estipular
contratos atípicos, observadas as normas gerais fixadas neste Código”.
Tal dispositivo deve ter interpretação extensiva, considerando-se que, além das normas gerais fixadas no Código Civil, a elaboração de contratos atípicos também deve observância aos princípios constitucionais que protegem os direitos e garantias fundamentais, os quais muitas vezes poderão dar contornos a essa liberdade contratual, de forma que em alguns casos, a liberdade será limitada por outros valores constitucionais.
Em outras hipóteses, para se garantir verdadeiramente a liberdade constitucional, deverão ser realizados alguns ajustes contratuais, reequilibrando as partes na avença. Por fim, em outros momentos, a liberdade de contratar (que também tem amparo constitucional) deverá prevalecer sobre outra garantia fundamental, que, embora possa ser plenamente oponível contra o Estado, não poderá em algumas hipóteses ser exigida em face do particular, sob pena de tolher desproporcionalmente a sua liberdade.
Voltando mais especificamente sobre a questão dos contratos coligados, a jurisprudência contém vários casos de aplicação dessa teoria para o fim de promover função social ao contrato.
O Superior Tribunal de Justiça, tratando de um conflito de competência entre a Justiça Comum e a Justiça do Trabalho, julgou um caso em que ocorriam dois contratos: o primeiro
consistia num contrato de trabalho, entre um jogador e um clube de futebol; o outro contrato referia-se à exploração comercial da imagem do jogador.
Na hipótese o STJ entendeu pela competência da Justiça do Trabalho para o julgamento das ações referentes aos dois contratos, afirmando expressamente tratar-se de contratos coligados, no qual o contrato de trabalho funciona como principal, configurando-se, então, o contrato de imagem como um pacto acessório, o qual deve ser analisado à luz da avença principal e seus princípios:
Conflito de competência. Clube esportivo. Jogador de futebol. Contrato de trabalho. Contrato de imagem. Celebrados contratos coligados, para prestação de serviço como atleta e para uso da imagem, o contrato principal é o de trabalho, portanto, a demanda surgida entre as partes deve ser resolvida na Justiça do trabalho. Conflito conhecido e declarada a competência da Justiça Trabalhista128.
O fato de poderem existir nos contratos coligados (como o próprio nome sugere) a junção de vários tipos contratuais distintos gera a necessidade de se utilizar regras gerais que sirvam para resolver problemáticas em razão da falta de regra expressa que se aplique a todos os contratos unidos. Daí a necessidade, conforme bem assevera Luciano Penteado129, de se
“atentar para a concretização de cláusulas gerais, especialmente de boa-fé objetiva, e à função social dos contratos, bem como para os fins sociais da norma e do bem comum.
É preciso salientar, conforme ressalva Vasconcelos, que a aplicação de cláusulas gerais para solucionar controvérsias surgidas a partir de contratos coligados não se trata do uso de casuísmos sem critérios ou (como diz o autor) “criar solução jurídica ad hoc para um
problema isolado”, mas sim se deve atentar que “essa concretização é feita sempre a partir
128
BRASIL. Superior Tribunal de Justiça. Conflito de Competência. Clube esportivo. Jogador de futebol. Contrato de trabalho. Contrato de imagem. Celebrados contratos coligados, para prestação de serviço como atleta e para uso da imagem, o contrato principal é o de trabalho, portanto, a demanda surgida entre as partes deve ser resolvida na Justiça do Trabalho. Conflito conhecido e declarada a competência da Justiça Trabalhista. CC 34504, Luís Mário Miranda da Silva e Juízo da 53ª Vara do Trabalho de São Paulo – SP. Rel. p/ac. Min. Ruy Rosado de Aguiar, Brasília-DF. j. 12.03.2003, DJU 16.06.2003. Disponível em: http://www.stj.jus.br/SCON/jurisprudencia/toc.jsp?tipo_visualizacao=null&livre=CC+34504&b=ACOR&thesau rus=JURIDICO#DOC4. Acesso: 29 jun 2013.
129 PENTEADO, Luciano de Camargo. Efeitos contratuais perante terceiros, São Paulo: Quartier Latin,
do próprio contrato e atentas as circunstâncias do caso, num processo de interpretação complementadora”. 130
Entre várias possibilidades de arranjos formadores de contratos coligados, podem-se encontrarem três ou mais sujeitos, de contratos diversos, como, por exemplo, na venda com alienação fiduciária em garantia131, onde há dois contratos: um de compra e venda (celebrado entre uma loja e o adquirente do bem) e outro contrato de empréstimo (celebrado entre o adquirente do bem e uma instituição financeira), funcionando o bem adquirido como garantia do financiamento.
Nesses contratos com alienação fiduciária, apesar da interligação entre os mesmos, a jurisprudência do Superior tribunal de Justiça tem entendido que um não é acessório do outro, sendo, pois, contratos autônomos.
Dessa forma, no julgamento do RESP 1014547/DF132, a Quarta Turma entendeu que o defeito apresentado no veículo financiado não pode autorizar o desfazimento do financiamento realizado para a aquisição do carro.
A rede contratual pode ser entendida em torno da marca de um produto, sendo a marca o elemento comum de causa da rede, que em torno dela se estabelece. Assim, vários contratos
130 VASCONCELOS, Pedro Pais de. Contratos Atípicos, Coimbra: Almedina, 1995. p. 239. 131
KONDER, Carlos Nelson. Contratos conexos: grupos de contratos, redes contratuais e contratos coligados. Rio de Janeiro: Renovar, 2006. p. 113.
132 BRASIL. Superior Tribunal de Justiça. DIREITO CIVIL. CONTRATO DE COMPRA E VENDA DE
VEÍCULO. ALIENAÇÃO FIDUCIÁRIA EM GARANTIA. CONTRATO ACESSÓRIO. CÓDIGO DE DEFESA DO CONSUMIDOR. DEFEITO NO PRODUTO. RESPONSABILIDADE DO FORNECEDOR. 1. O Código de Defesa do Consumidor é aplicável às instituições financeiras (Súmula n. 297), mas apenas em relação aos serviços atinentes à atividade bancária. Por certo que o banco não está obrigado a responder por defeito de produto que não forneceu tão somente porque o consumidor adquiriu-o com valores obtidos por meio de financiamento bancário. Se o banco fornece dinheiro, o consumidor é livre para escolher o produto que lhe aprouver. No caso de o bem apresentar defeito, o comprador ainda continua devedor da instituição financeira. 2. Não há relação de acessoriedade entre o contrato de compra e venda de bem de consumo e o de financiamento que propicia numerário ao consumidor para aquisição de bem que, pelo registro do contrato de alienação fiduciária, tem sua propriedade transferida para o credor. 3. Recurso especial conhecido e provido. REsp 1014547/DF, Rel. Ministro JOÃO OTÁVIO DE NORONHA, QUARTA TURMA, julgado em 25/08/2009, DJe
07/12/2009. Disponível em:
http://www.stj.jus.br/SCON/jurisprudencia/toc.jsp?tipo_visualizacao=null&livre=financiamento+ve%EDculo++ defeito&b=ACOR&thesaurus=JURIDICO#. Acesso em: 13 ago 2013.
podem se formar em torno de uma marca, como, por exemplo, os contratos de franquia, distribuição e venda.
Nesse raciocínio, o Superior Tribunal de Justiça, no julgamento do REsp 63981/SP133,
considerando a marca como causa comum de uma rede de contratos, bem como atentando para ao fato de que a economia atualmente se desenvolve de forma globalizada, onde a propaganda de produtos internacionais exerce grande influência no mercado interno, considerando ainda que, se as filiais brasileiras beneficiam-se da fama mundial dos produtos fabricados simultaneamente no Brasil e no exterior, devem então as sucursais brasileiras compartilharem da responsabilidade por defeitos de produtos da mesma marca, ainda que adquiridos em filiais estrangeiras, como forma de devida proteção ao consumidor.
Assim, o STJ estendeu os efeitos de um contrato (mais precisamente a responsabilidade civil contratual) para atingir fabricante nacional de um produto que foi fabricado e adquirido no exterior, obrigado a empresa nacional a sanar o vício do produto.
Sobre a questão deve ser ressaltado, como foi no decorrer do voto do relator bem como nos votos dos demais ministros, que a globalização amenizou as fronteiras, tendo a
133BRASIL. Superior Tribunal de Justiça. DIREITO DO CONSUMIDOR. FILMADORA ADQUIRIDA NO
EXTERIOR. DEFEITO DA MERCADORIA. RESPONSABILIDADE DA EMPRESA NACIONAL DA MESMA MARCA ("PANASONIC"). ECONOMIA GLOBALIZADA. PROPAGANDA. PROTEÇÃO AO CONSUMIDOR. PECULIARIDADES DA ESPÉCIE. SITUAÇÕES A PONDERAR NOS CASOS CONCRETOS. NULIDADE DO ACÓRDÃO ESTADUAL REJEITADA, PORQUE SUFICIENTEMENTE FUNDAMENTADO. RECURSO CONHECIDO E PROVIDO NO MÉRITO, POR MAIORIA. I - Se a economia globalizada não mais tem fronteiras rígidas e estimula e favorece a livre concorrência, imprescindível que as leis de proteção ao consumidor ganhem maior expressão em sua exegese, na busca do equilíbrio que deve reger as relações jurídicas, dimensionando-se, inclusive, o fator risco, inerente à competitividade do comércio e dos negócios mercantis, sobretudo quando em escala internacional, em que presentes empresas poderosas, multinacionais, com filiais em vários países, sem falar nas vendas hoje efetuadas pelo processo tecnológico da informática e no forte mercado consumidor que representa o nosso País. II - O mercado consumidor, não há como negar, vê-se hoje "bombardeado" diuturnamente por intensa e hábil propaganda, a induzir a aquisição de produtos, notadamente os sofisticados de procedência estrangeira, levando em linha de conta diversos fatores, dentre os quais, e com relevo, a respeitabilidade da marca. III - Se empresas nacionais se beneficiam de marcas mundialmente conhecidas, incumbe-lhes responder também pelas deficiências dos produtos que anunciam e comercializam, não sendo razoável destinar-se ao consumidor as consequências negativas dos negócios envolvendo objetos defeituosos. IV - Impõe-se, no entanto, nos casos concretos, ponderar as situações existentes. V - Rejeita-se a nulidade arguida quando sem lastro na lei ou nos autos. REsp 63981/SP, Plínio Gustavo Prado Garcia e Panasonic do Brasil Ltda. Rel. Min. Sálvio de Figueiredo Teixeira. Brasília-DF. j. 11.04.2000. DJ
20/11/2000. Disponível em:
http://www.stj.jus.br/SCON/jurisprudencia/toc.jsp?tipo_visualizacao=null&livre=63981&b=ACOR&thesaurus= JURIDICO#DOC3. Acesso em: 29 jun. 2013.
aquisição de produtos no exterior se tornado muito mais fácil com o advento dos instrumentos de informática voltados para o comércio eletrônico. Outro ponto que também foi individualizado nos votos foi a questão da imagem comum (através da mesma marca e propaganda), gerando um benefício mútuo para a empresa nacional e para estrangeira. Dessa forma, foi entendido no referido julgado que os riscos da atividade também devem ser compartilhados, evitando-se que a parte mais fraca da relação (o consumidor) seja prejudicada.
A par do exemplo acima, pode-se dizer que a função social do contrato não elimina a relatividade dos efeitos contratuais, mas ameniza esse princípio, em alguns casos, como bem estatuiu o Conselho da Justiça Federal, através do Enunciado 21, elaborado durante a I Jornada de Direito Civil. Eis o teor do referido Enunciado:
A função social do contrato, prevista no art. 421 do novo Código Civil, constitui cláusula geral, a impor a revisão do princípio da relatividade dos efeitos do contrato em relação a terceiros, implicando a tutela externa do crédito.134
Essa extensão dos efeitos do contrato para além das partes foi bem aplicada em julgado do Superior Tribunal de Justiça, citado por Luciano Camargo Penteado, no qual o STJ, analisando a possibilidade de vítima de acidente de trânsito acionar direitamente a seguradora perante o qual o motorista causador do acidente mantém contrato de seguro, em virtude da recusa do motorista acionar a seguradora, entendeu devido o ajuizamento de ação diretamente da vítima contra a seguradora, embora essas partes não tenham celebrado diretamente um contrato de seguro. No corpo da decisão, a Ministra Nancy Andrighi fundamenta sua decisão com base expressamente na função social do contrato, como se pode observar.
134 AGUIAR JÚNIOR, Ruy Rosado de (Coord). Jornadas de direito civil I, III, IV e V: enunciados aprovados. Disponível em: http://www.jf.jus.br/cjf/CEJ-Coedi/jornadas-cej/enunciados-aprovados-da-i-iii-iv-e-
v-jornada-de-direito-civil/compilacaoenunciadosaprovados1-3-4jornadadircivilnum.pdf/view. Acesso em: 04 jun. 2013.
A visão preconizadora nestes precedentes abraça o princípio constitucional da solidariedade (art. 3º, I da CF), em que se assenta o princípio da função social do contrato, este que ganha enorme força com a vigência do novo código Civil (art. 421). De fato, a interpretação do contrato de seguro dentro desta perspectiva social autoriza e recomenda que a indenização prevista para reparar os danos causados pelo segurado a terceiro seja por este direitamente reclamada da seguradora. Assim, sem se afrontar a liberdade contratual das partes – as quais quiseram estipular uma cobertura para a hipótese de danos a terceiros -, maximiza-se a eficácia social do contrato com a simplificação dos meios jurídicos pelos quais o prejudicado pode haver a reparação que lhe é devida. Cumpre-se o princípio da solidariedade e garante-se a função social do contrato135.
Esse raciocínio também foi desenvolvido, de certa forma, no Código de Defesa do Consumidor, com o art. 17 do CDC136, segundo o qual também se equipara ao consumidor para os efeitos da proteção que lhe devida, a denominadas vítimas do acidente de consumo, ou seja, pessoas que não celebraram um contrato de consumo, mais que foram atingidas por um defeito de um produto ou de um serviço, adquirido pelo consumidor.
Aí já há uma mentalidade de extensão de efeitos contratuais, muito embora reconheçamos que tal regra se aplica de forma mais precisa aos casos de vício pelo fato do produto, como na hipótese de responsabilidade direta do fabricante perante a vítima de acidente de veículo adquirido pelo atropelador.
Ainda sobre redes contratuais, confira-se o que foi abordado no tópico 4.2 supra, quando falamos da boa-fé e trouxemos a lume a questão da Súmula 308 do STJ, a qual analisa dois contratos interligados: um de promessa de compra e venda e outro de financiamento garantido por hipoteca. No precedente jurisprudencial, restou consignado que a hipoteca oferecida pelo construtor perante a instituição financeira não tem eficácia contra aqueles que adquiriram as unidades imobiliárias do construtor.
135 REsp. 444.716/BA, rel. Min. Nancy Andrighi, j. 11.05.2004. apud PENTEADO, Luciano de Camargo. Efeitos contratuais perante terceiros, São Paulo: Quartier Latin, 2007. p. 60.
136 BRASIL. Lei nº 8.078, de 11 de setembro de 1990. Dispõe sobre a proteção do consumidor e dá outras
providências. Art. 17. Para os efeitos desta Seção, equiparam-se aos consumidores todas as vítimas do evento.
Diário Oficial da União, Brasília, DF, 12 set. 1990. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/L8078compilado.htm. Acesso em: 02 abr 2013.
Por fim, nos contratos coligados, deve-se, quando necessário, relativizar o relativismo contratual, como forma de se conferir função social ao contrato, nas hipóteses em que a simples aplicação das regras dos contratos típicos isoladamente considerados não for suficiente para dotar as avenças de sua função social.
4.4 O PRINCÍPIO DA CONSERVAÇÃO DOS CONTRATOS COMO DECORRÊNCIA DA