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A pretensão em compreender o trabalho policial requer inicialmente uma breve revisão nos construtos históricos da organização policial no Brasil, perpassando pelas concepções de segurança pública recém-inaugurada com a Constituição de 1988 e a inserção do debate sobre segurança pública como agenda política da sociedade civil organizada em rejeição a uma polícia reativa, repressora e violadora de direitos.

Segundo alguns autores Bayley (2006), Mariano (2004), Minayo, Souza e Constantino (2008). Batittuci (2010), entre outros, o desenvolvimento da instituição policial se dá em meados do século XIX, com o período da consolidação da revolução industrial na Europa e Estados Unidos da América do Norte, no intuito de enfretamento ao crime e à desordem social como um instrumento de opressão sobre as classes trabalhadoras, construindo duas polícias, uma investigativa e outra de policiamento ostensivo, e que, mesmo com a transição democrática, continuaram a manter regras e culturas do século XIX.

No Brasil, com a consolidação da mineração a partir do século XVIII, as autoridades coloniais desenvolveram instrumentos de manutenção da ordem pública e monopólio do exercício legítimo da violência. Nessa época, surgem as ordenanças e milícias, que tinham como atividade a proteção do ouro e das instalações coloniais, bem como a perseguição de escravos. A primeira tropa era designada pelo rei, e a segunda, corpos de militares vassalos, não pertencentes às forças do exército português. Por volta do século XIX, com a chegada da coroa portuguesa, institui-se a intendência geral de polícia, restrita à cidade do Rio de Janeiro, em que o intendente ocupava o cargo de desembargador, detinha o poder de decidir sobre os comportamentos a serem considerados criminosos e estabelecer punições. A Guarda Real de Polícia era o principal instrumento à disposição do intendente, no exercício do controle social nas ruas do Rio de Janeiro, formados por homens pagos, egressos dos regimentos de linha do exército imperial, com a função de reprimir e subjugar, mantendo o nível aceitável de ordem e tranquilidade (BATITTUCI, 2010, p. 38).

Em 1831, as milícias e ordenanças são substituídas para dar lugar à Guarda Nacional (GN), instrumento paramilitar que servia aos grandes proprietários, tinha como missão defender a constituição, a pátria, ajudar o exército na defesa das fronteiras, preservar e estabelecer a

ordem pública. Em nível federal, estava subordinada ao ministro da justiça e, nos estados, ficava sob controle de autoridades políticas e judiciárias locais. Seu efetivo era formado por cidadãos eleitores, composta de oficiais e praças, os oficiais vinham sempre de classe mais abastadas (políticos, letrados e donos de terra) e as praças (Soldados) eram artistas, operários e “homens de cor”.

Nesse período, a propriedade e a riqueza eram o que definia os direitos políticos. Como não se tratava de serviço remunerado, e sim uma extensão das responsabilidades pela defesa da propriedade e da ordem social aos membros da sociedade, as juntas locais decidiam sobre o alistamento, formadas pelos juízes de paz e autoridades locais. Em 1873, a GN perde suas funções policiais e é substituída pelo Corpo de Guarda Municipal Permanente, instituição que originou as polícias militares contemporâneas, permitiu que outras províncias criassem seus próprios Corpos de Guardas, assim várias outras instituições de estrutura militar foram criadas durante o império, que se organizaram por patrulhas em serviço de 24 horas (BARTITTUCI, 2010, p.41).

Mariano (2004, p.20-21) chama a atenção para o fato de que, enquanto em outros países, as instituições policiais já nasceram exercendo o ciclo completo da atividade policial, o sistema de segurança pública no Brasil estruturado no Império institucionalizou duas policias: uma investigativa, que surgiu com a intendência de polícia (Polícia Civil), em que cabem os crimes mais violentos, a resolução de conflitos mais graves, e outra, para policiamento ostensivo, responsável pela manutenção da ordem pública (Polícia Militar), com a vigilância das ruas e da tranquilidade pública, para o controle social sobre escravos, pobres, desviantes, bêbados e prostitutas4. Constituía-se de uma polícia militar aquartelada, com disciplina, estrutura e regras das forças armadas, o que ocasionou conflitos de competência e distanciamento das direções policiais, bem como a duplicidade de equipamentos e de gerenciamento de operações. Segundo o autor, essas características, que não foram alteradas, marcaram a lógica repressiva do policiamento.

De acordo com o autor, no período da República, o sistema de segurança pública foi centralizado nos estados federativos, com as guardas civis. Em 1967, uma fusão entre força pública e a guarda civil deu origem à polícia militar, influenciada diretamente pelo exército,

4 Para Mariano ( 2004, p.20), a ação do aparelho repressivo recém-estruturado se daria contra os excluídos

com a coordenação e controle das policias militares. As secretarias de segurança pública dos estados se incumbiam apenas das orientações e do planejamento, evidenciavam uma dicotomia de estrutura, organização, de comando e de responsabilidade, obedeciam a duas autoridades distintas e de esferas administrativas diferentes, estadual e federal. No planejamento, reportavam-se à Secretaria de Segurança Pública, mas, no controle e na coordenação, reportam-se ao Exército. O autor reforça que “não é por acaso que os regulamentos disciplinares das policiais militares preocupam mais com o comportamento do policial dentro do quartel do que na rua.” (2004, p. 20). Regulamentos que refletem a natureza militar da instituição e não sua natureza civil, que é o policiamento.

No período de 1968 a 1974, sob comando do governo central, passa-se a estabelecer uma integração do setor de polícia civil com as polícias militares na repressão política, período marcado por prisões arbitrárias, cassação de mandatos eletivos, torturas, esvaziamento intelectual das principais universidades, exílio e perseguições às organizações populares e culturais. O policiamento ostensivo, em que a força militar esteve quase sempre presente, foi fortalecido pela lógica da repressão e a concepção de ‘inimigo interno’ (MARIANO, 2004, p.31).

De acordo com Minayo, Souza e Constantino (2008, p. 55), “o regime ditatorial implantado em 1964 aprofundou ainda mais a cisão entre população e a polícia.” Segundo os auotores, as corporações policiais no Brasil vêm passando por muitos questionamentos ao longo da história, um deles é a necessidade de integração das policias (civil e militar), bem como a própria forma de organização militar e hierarquizada. A transformação institucional e dos policiais fazem parte do longo processo de democratização do país.

Os valores construídos por essas instituições ao longo de séculos parecem permanecer vivos no imaginário da população, em que, ainda gravita certo resquício do papel das polícias do período ditatorial, como autoritária, despreparada, corrupta, envolvida em frequentes crimes organizados de extorsão, tráfico, agressão, sequestros e assassinatos, e que não consegue responder às exigências do contexto social atual. O que se sabe é que as instituições policiais, apesar dos esforços em inovação tecnológica, adesão às políticas nacionais e estaduais de segurança pública e da aproximação com a comunidade local, ainda não são bem vistas aos olhos da população. Para Bayley (2006, p.18), “[...] o policiamento pode ter sido

negligenciado porque é repugnante moralmente, a coerção, controle e opressão podem ser necessários a uma sociedade, mas não são agradáveis.”

No diálogo com policiais durante a realização da pesquisa de campo, quando perguntados de como consideravam a percepção da população em relação ao seu trabalho, eles foram categóricos em afirmar que a condição de militar os remete aos olhos da população para o período da ditadura. “[...] O militarismo nos identifica com o período da ditadura e mesmo agente que nem viveu essa época, paga pelo que não fizemos e, por sermos policiais, somos vistos como aqueles que fizeram o que fizeram.” (trecho da entrevista com a equipe de policias).

Na visão dos estudiosos da segurança pública, no Brasil, a transição democrática e os avanços da Constituição de 1988, direitos e deveres individuais e coletivos, os direitos sociais, não asseguraram um novo modelo de polícia no país. A constituição manteve a vinculação das Policiais Militares ao Exército, conforme descrito no artigo 144, inciso 6º da Constituição Federal (BRASIL, 1988): “[...] As Polícias Militares e os Corpos de Bombeiros Militares, forças auxiliares e reservas do Exército [...]”.

Esse novo arranjo social incentivou tensas discussões em torno das mudanças na política nacional de segurança pública e, consequentemente, das agências policiais, o que possibilitou retirar as instituições policiais do isolamento, enquanto organizações fechadas, para se tornarem objeto de estudo de pesquisadores desvelando o descompasso das ações policiais, como agentes da segurança pública, com o momento histórico da construção democrática e os desafios crescentes de uma sociedade marcada pela desigualdade, em que o papel da polícia é proteger direitos e liberdade de todos.

Novas formas de policiamento passam a ser adotadas pelas instituições policiais ao incorporar em suas instâncias o policiamento comunitário e a filosofia de direitos humanos, com vistas à maior proximidade com a sociedade.

2.2 Concepção de Segurança Pública: as políticas de segurança pública construídas no