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Ainda que o policiamento escolar esteja nitidamente definido nas Diretrizes da PMMG, sua eficácia só se concretiza na medida em que se estende até as extremidades da vida social, na medida em que se ramifica e se torna capilar. Ou seja, quando se manifesta no interior da sala de aula, comunicando-se diretamente com os estudantes e os docentes, interferindo na organização e na dinâmica da escola e infiltrando-se por toda parte, em todo lugar. Em suma, quando instala olhos e ouvidos que captem situações e eventos criminosos em vigor ou na eminência do vir-a-ser. Táticas e estratégias adotadas pela polícia com o intuito de penetrar o coração das instituições escolares há muito vêm sendo tentadas. No início, entretanto, tratava-se de eventos esporádicos, de iniciativa deste ou daquele comandante de batalhão. Ainda que se organizassem em termos efetivos, a presença da polícia dentro das escolas era concebida como um ato voluntário.

Será, portanto, a análise dessas pulverizações, dessa extensão de tentáculos, que permitirá conhecer melhor a dimensão desse poder que age sobre os corpos, os gestos e os impulsos.

Na análise, a seguir, dos dados relativos aos programas de policiamento escolar, busca-se seguir os “cuidados metodológicos” sugeridos por Michel Foucault (1982, p. 182- 191), exatamente porque o objetivo de examinar os documentos e de analisar os relatos tinha o objetivo não apenas de orientar-se pela questão da soberania e da obediência dos indivíduos, mas também, e principalmente, de fazer emergir o problema da dominação e da sujeição.

O primeiro cuidado sugerido pelo autor é, como confirma a leitura dos documentos, com os fatos e práticas discursivas, isto é “[...] captar o poder em suas extremidades, em suas ramificações, lá onde ele se torna capilar [...]” (FOUCAULT, op. cit, p. 182).

O ordenamento do policiamento escolar está nitidamente definido nas Diretrizes da PMMG de 2002. Sua existência e sua legitimidade estão totalmente garantidas nos princípios da lei. Mas não se esgota aí. No emaranhando de dispositivos de polícia, há um conjunto de mecanismos que viabilizam sua penetração nas extremidades da vida social. No caso da PMMG, ele ramifica-se por meio dos comandos regionais, e destes para os batalhões, até chegar nas companhias. Nestas, estabelecem-se todos os procedimentos operacionais materialmente concretos. Definem-se quantos soldados estarão envolvidos na operação, se estarão a pé ou em viaturas e qual o armamento adequado para entrar nas escolas. Há um intrincado sistema de escalas de serviço, que possibilita o revezamento do policial nas escolas, de forma que essas nunca fiquem desprovida de vigilância, e ainda o número de escolas que terão de ser observadas e integradas nesse poder a partir da base.

O direito de punir, atribuído à polícia pelo princípio da soberania, materializa-se nas instituições escolares, seja por meio de suplícios, de encarceramento (ficar detido na sala da diretora, não poder sair da sala no horário do recreio ou ficar após o término das aulas cumprindo uma tarefa específica), seja também por meio da humilhação ou, mesmo, pela difusão do medo, baseado em fato concreto ou imaginado que aumente, de forma singular, a insegurança dos atores no interior das escolas.

Quando há suspeitas (aliás, um dos princípios que orientada a ação policial) em relação a alunos considerados perigosos ou desvirtuadores de ordem, estes podem sofrer interrogatório pela diretora e/ou pela supervisora, com vistas a penetrar em suas intenções, para apurar o que fazem quando estão sob os nossos olhos (da escola e da polícia).

Na medida em que este estudo pôde captar esse intrincado modelo controlador, foi possível compreender que o poder exercido na extremidade da vida social, no caso nas escolas, é cada vez menos jurídico no seu exercício.

O segundo cuidado sugerido por Foucault, do qual, também se, apropria aqui, foi não satisfazer em “[...] analisar o poder não no plano da intenção ou da decisão, ou seja, não abordá-lo pelo lado interno [...]” (op. cit., p. 182).

O autor propõe que se estude o poder na sua relação direta com “[...] o seu objeto, com o seu alvo, com seu plano de aplicação [...] onde ele se implanta e produz efeitos reais [...]” (idem). O policiamento escolar, por meio de seus diagnósticos (outro procedimento cuidadosamente definido nas operações de polícia), tem reconhecido, como se verá mais à frente, ao analisar os relatórios produzidos pelos policiais, que há nas escolas uma multiplicidade de indivíduos e de vontades. Entretanto, esse reconhecimento não tem sido visto como a expressão de uma sociedade democrática que, se não interrompida por golpes autoritários, não cessará de produzir essa multiplicidade. No lugar de potencializá-la, o policiamento escolar tem agido no sentido oposto, tradicional, buscando nos seus esforços aquilo que Foucault identificou nos procedimentos juristas do mundo moderno, como uma tendência de, a partir da multiplicidade “[...] formar uma vontade cívica [...] um corpo único, movido por uma alma que seria a soberania [...]”. Tal esforço, como veremos mais a frente, aparece nas palestras ministradas por policiais na escola, nas quais eles buscam suscitar o espírito patriótico dos estudantes, acreditando que por aí podem conseguir afastá-los das drogas e dos traficantes.

O terceiro cuidado metodológico proposto por Foucault é não analisar o poder como algo maciço e homogêneo, que vai de um indivíduo para outro, mas como algo que circula em rede. O autor descreve essa circularidade da seguinte forma:

[o poder] nunca está localizado aqui ou ali, nunca está nas mãos de alguns, nunca é apropriado com uma riqueza ou um bem [...]. Nas suas malhas os indivíduos não só circulam mas estão sempre em posição de exercer este poder e de sofrer essa ação; nunca são o alvo inerte ou consentido do poder, são sempre centros de transmissão. Em outros termos, o poder não se aplica aos indivíduos, passa por eles (op. cit, p. 183)

Essa talvez seja uma das precauções metodológicas mais difíceis de observar no processo de investigação e talvez seja um dos aspectos mais controversos da teoria do poder focaultiana. Imaginar o indivíduo como um efeito do poder não é algo simples, até porque cada um é obrigado, enquanto indivíduos, a pensar em si dessa forma. Circular-se nessa rede como alguém que sofre a ação do poder, mas que está, ao mesmo tempo, em condições de exercê-lo. Ao identificar aquilo que chamou a “perda de limites das crianças e dos adolescentes”, os docentes sentem-se de pés e mãos atados, quando pouco podem fazer para controlar ímpetos e gestos agressivos advindos deles. Ao relatarem esses episódios, têm a sensação de que estão sendo dominados por eles, Mas isso não quer dizer que tenham perdido a posição de exercício de poder sobre seus alunos. Da mesma maneira, quando os policiais criticam os diretores de terem ultrapassado seus limites decidindo coisas que, segundo eles, não lhes competiam, então também manifestando o

reconhecimento de que o poder passa de mão em mão e de que, em alguns momentos, vem a sensação de tê-lo perdido. Entretanto, isso não significa, como no caso dos docentes, que o tenham perdido. Nos dois casos, está-se sugerindo que o poder se negocia e que tal procedimento tem sido adotado com freqüência nas escolas, embora nem sempre seja visível, porque está encoberto por uma grossa camada de pessimismo pedagógico que acredita que tudo está perdido, que vivemos sob a pura barbárie, que se abandonou de vez o projeto civilizador do mundo ocidental. Mas a circularidade do poder está lá. Há arranjos e concessões. Ora, para não se perder totalmente o controle da turma, os docentes, diretores e, também, os policiais do policiamento escolar cedem, provisoriamente, suas posições de mando, em determinadas situações, mas as retomam em outras, fortemente. Antes perder os anéis do que os dedos.

A quarta precaução metodológica refere-se, segundo Foucault, aos cuidados de não se pensar o poder como algo que vai de cima para baixo. O autor sugere que se faça uma análise ascendente do poder, destacando, entre outros, os seguintes aspectos:

[...] creio que deva ser analisada a maneira como os fenômenos, as técnicas e os procedimentos do poder atuam nos níveis mais baixos, como estes procedimentos se deslocam, se expandem, se modificam, mas sobretudo como são investidos e anexados aos fenômenos mais globais[...] (FOUCAULT, 1982, p. 184).

Examinando os procedimentos (intervenções, relatórios etc) do policiamento escolar, fica evidente que estes não são os únicos mecanismos de controle que funcionam na exclusão dos adolescentes infratores ou dos invasores (sujeitos estranhos ao ambiente escolar) na escola. Fazendo uma analise ascendente desse fenômeno, fica claro que as exclusões desses indivíduos se dão, também em nível familiar, da vizinhança, em células ou nos níveis mais elementares da sociedade.

Ao refletir sobre essa necessidade de buscar os mecanismos de exclusão em outras instâncias, Foucault está entrando num tipo de interpretação social que atribuía esse procedimento à dominação da burguesia. Para o autor, o que ocorreu foi que os mecanismos de controle foram desenvolvidos em diferentes níveis de sociedade, por diferentes agentes sociais, não necessariamente policialescos. A delinqüência, ou a infração juvenil, foi medicalizada. Criaram-se clínicas de tratamento por esses grupos. Hoje, tem-se um número assustador de organizações não-governamentais que replicam projetos internacionais de combate e resistências às drogas, com recursos fabulosos que têm por objetivo controlar esses segmentos. Uma fração significativa de psicopedagogos lançou-se avidamente no desenvolvimento de técnicas de controle. O pipocar de consultorias, o poder

de convencimento de especialistas no assunto, é algo que ainda precisa ser amplamente investigado. Em todo caso, para a presente tese, basta destacar esse aspecto do problema na lógica de Foucault. Segundo ele, esses mecanismos de controle, esses aparelhos de vigilância, que aumentaram os muros das escolas, equiparam-se com detectores de metal e cercas elétricas, essas técnicas de medicalização e de psicopedagogia terapêutica da delinqüência juvenil que, segundo, Foucault “[...] evidenciaram, a partir de determinado momento e por motivos que é preciso estudar, um lucro econômico e uma utilidade política, tornando-se, de repente, naturalmente colonizados e sustentados por mecanismos globais de sistema de Estado” (op. cit, p. 185).

Dito de outra forma, Foucault reafirma algo que já os críticos da sociedade capitalista diziam com muita clareza. Não esperem dos que têm poder econômico que estes se importem com os delinqüentes com sua punição ou reinserção social, porque a delinqüência, para eles, não tem o menor interesse econômico, mas, em compensação, “[...] o conjunto de mecanismos que controlam, seguem, punem e reforma o delinqüente, esta, sim, os interessa, e muito [...]” (idem).

Por fim, incorpora-se a quinta precaução metodológica sugerida por Foucault, que tende a afastar da tentação de ler os mecanismos de controle apenas como resultado de uma produção ideológica. Para o criador de Microfísica do Poder, tais mecanismos são mais do que isso:

[...] são instrumentos reais de formação e de acumulação de saber: métodos de observação, técnicas de registro, procedimentos de inquérito e de pesquisa, aparelhos de verificações. Tudo isso significa que o poder, para exerce-se nestes mecanismos sutis, é o obrigado a formar, organizar e por em circulação um saber, ou melhor, aparelhos de saber que não são construções ideológicas (FOUCAULT, 1982, p. 186).

Ao examinar a implantação das diversas iniciativas do Policiamento Escolar, busca-se, exatamente, identificar esses instrumentos reais a tentar captar, na medida do possível, os saberes que neles circulam e explicitar coerência que mantinham entre si, uma vez que eram produzidos em circunstâncias muito diferentes.

Usa-se o termo genérico Policiamento Escolar porque é assim que é identificado pela PMMG, em qualquer uma de suas formas. Vários têm sido o formato por ele assumido nos últimos vinte anos: “Anjos da Guarda”, “Anjos da Escola”, “Policiamento em Escolas e Centros de Saúde”, “Programa de Resistência às Drogas e à Violência” (PROERD), “Patrulhamento Escolar”, entre outros. As denominações mudam, mas representam iniciativas diferentes com um único objetivo: combater o crime organizado.

A seguir, analisam-se algumas dessas iniciativas, tratando-as em separado. Isso se faz necessário tendo em vista que ocorrem em momentos e espaços diferentes. Em cada uma delas, busca-se destacar os cuidados metodológicos sugeridos por Foucault. É claro que muitos traços são comuns, pois não deixam de ser ações da PMMG, o que significa dizer que, embora transpareçam autonomia e criatividade dos comandantes regionais e/ou de batalhões, a hierarquia se mantém intacta. Estes nada fazem sem o consentimento e autorização do comandante-geral. Logo, os traços mais salientes da corporação envolvendo princípios, valores e cultura institucional aparecem em todas elas. Entretanto, existem diferenças sutis que esclarecem bastante acerca dos saberes que são produzidos nessas ações.

A análise aqui empreendida baseou-se em documentos que refletem o que deveria nortear o espírito da ação. Algumas dessas ações ou já não existem mais ou foram incorporadas a outras com os mesmos fins. Há casos que se envolvem novos parceiros ou mudam-se as táticas de aproximação, mas a missão permanece a mesma: penetrar o coração das instituições escolares.