5. TARTIŞMA
5.3. Hemşirelerin Hastalara Karşı Genel Tavır ve Yaklaşımları
A noção—teológico-filosófica—da Bíblia como unidade e como presença de revelação é de especial interesse para o que aqui nos ocupa. Dela, e da filosofia da linguagem nela implícita que buscaremos reconhecer, decorrem duas técnicas tradutórias extremamente inovadoras, a das Leitwörter e a das cola, que constituem a grande contribuição de Buber e Rosenzweig para a prática da tradução.
Iniciemos com a presença da revelação. Como visto na seção anterior, Rosenzweig, ao contrapor sua situação histórica e teológica à de Lutero, reconhece um “potencial de revelação” que é ubíquo: qualquer trecho da Bíblia (por mais prosaico
que seja), qualquer termo na Bíblia (por mais “profano”) pode, a qualquer tempo, ser portador de revelação. A argumentação, entretanto, teve o caráter de uma definição
por negação: como seu tempo perdeu (não tem mais) a noção de revelação, como sua
teologia não tem o guia infalível (a “analogia da fé” de que dispunha Lutero), cabe a Rosenzweig adotar a diretriz da cautela: não privilegiar qualquer ponto do texto. Admitir a possibilidade de a revelação irromper de qualquer trecho.
No entanto, um outro texto, de Buber, coloca a “Bíblia como presença” de forma direta e positiva. Nele o “ser presença” é intrínseco à Bíblia, e a revelação não é “pontual”:
[...] como deve ser lida a Bíblia: em presença viva. Seqüências de sons, de palavras, de grupos de palavras recorrem [reaparecem, re-ocorrem] em específica relação com as diversas partes de uma passagem, com várias passagens, com vários livros; reaparecem de forma a constituir uma unidade discernível, [uma ocorrência] significativamente desenvolvendo [um]a outra [ocorrência], clarificando-se uma à outra, suplementando-se uma à outra. Devemos aprender de cada recorrência [específica] a lição que ela ensina. O ensinamento bíblico menos apresenta suas maiores verdades do que deixa que elas se revelem [lets them be opened up]—que se revelem não pela quebra de um código ou deciframento de uma alegoria, mas por esses arcos de repetição significante, ligando passagem a passagem de forma perceptível a todo leitor atento e de mente aberta. (Buber, 1926a in Buber e Rosenzweig, 1994, p. 14, negritos meus, itálicos de Buber).
E no trecho abaixo de um outro artigo de Buber também escrito em 1926, a Bíblia, positivamente, é “Mensagem” [Botschaft]. E a mensagem (i.e., presença de revelação) é aqui, expressamente, entendida como algo não pontual, algo que pervade o texto. Mais ainda, trata-se de algo que transcende a dicotomia forma-conteúdo:
A Bíblia, tal como a temos, é Mensagem [Botschaft] em cada membro de seu corpo8 [...] Constituir-se-ia num fundamental mal-entendido quanto à natureza
da Bíblia o assumir-se que ela aborda, aqui ou acolá, a questão da Mensagem, de forma similar à que a moral é tratada nas parábolas de má qualidade. Não existe um “conteúdo” a ser extraído a partir do minério bíblico [to be smelted
from the biblic ore]; cada conteúdo bíblico existe em seu unitário e indissolúvel Gestalt, um Gestalt tão indissolúvel quanto o de um bom poema; não há o
retorno a um “O Quê” original que concebeu este “Como” mas que poderia ter produzido um outro “Como”. tudo na Escritura é fala genuína [genuine
spokenness], em comparação com a qual conteúdo e forma aparecem como
o resultado de uma falsa análise.[...] A Mensagem [...] entra na forma, ajuda
a determinar a forma, transforma-a, e se transforma por [for] ela—mas sem com isso afetar-nos, nem um mínimo que seja, como algo que possa vir-nos distorcido, confundido, didatizado. [...].
8 A alusão é a Sl 35: 10 (“Digam todos os meus ossos [sic]: ‘Senhor quem é semelhante a ti...’” na
trad. da CNBB), e a um antigo hino judaico (sabático e das manhãs festivas) que culmina com esse versículo, e que por sua vez inspirou um dos poemas de Yehuda Halevi traduzidos por Rosenzweig. Vide Rosenzweig, 1995, pp. 22, 190.
O princípio através do qual isso é alcançado deve ser, justamente, um princípio formal. Esse princípio formal é o ritmo—mas ritmo tanto num sentido amplo, quanto num bastante específico. (Buber, 1926b in Buber e Rosenzweig, 1994. pp.28, grifos meus).
É de se notar, nesses dois últimos trechos de Buber, o teológico-filosófico fazendo-se “filosofia da linguagem”. Como se vê, o embasamento (e a confiança) na linguagem é bem profundo. Daqui, de fato, emergem as técnicas para a da tradução dialógica. Antes, porém, de considerarmos essas técnicas, é preciso considerar um último texto. Desta feita um trecho de Rosenzweig, cujo objeto não é a “presença”, mas a “Bíblia como unidade”.
“Nossa diferença com a ortodoxia”, diz Rosenzweig acerca do que denomina a “unidade da Bíblia”,
deve-se a não podermos, dada a nossa crença no status sagrado e portanto especial da Torah, tirar quaisquer conclusões com relação tanto ao processo de sua gênese literária, quanto ao valor filológico do texto [na forma em que] chegou até nós. [Se as teorias da crítica de fontes] estiverem corretas, se os samaritanos [de fato] dispuseram de um texto superior [em qualidade] ao massorético, isso em nada afetaria nossa crença. [...] traduzimos a Torah como um livro
único. Para nós ela é o produto de uma mente única. Não sabemos a quem
pertenceu essa mente; não podemos crer que tenha sido Moisés. Designamos essa mente entre nós [Rosenzweig e Buber], pela [mesma] abreviatura com que a Alta Crítica da Bíblia indica o presumido redator final do texto: R. Para nós entretanto ela não se refere a redator, mas a rabenu [nosso mestre]. Por que ele, quem quer que tenha sido, e seja qual for o texto que tinha à sua frente, ele é o nosso mestre, e sua teologia é o nosso ensinamento. (Rosenzweig, 1927, in Buber e Rosenzweig, 1994. pp.22-23, grifos meus).
Dessa opção por uma “teologia”, que Rosenzweig reconhece como presente nessa “Bíblia una”9, decorre uma outra “tarefa do tradutor: lutar pela precisão verbal
na tradução da terminologia bíblica”. Terminologia aqui entendida num sentido “que é mais amplo e mais profundo que o usual” (id., p. 24).
Mais amplo porque envolve também a atenção a “palavras não teológicas”, na
linha da diretriz que viemos de reconhecer na seção anterior. Não apenas conceitos como “compaixão” [rahamim], mas também termos como [reiqam] (o juro de um empréstimo, ou numa outra acepção, algo como “de mãos vazias”), devem ser
consistentemente traduzidos ao longo da Bíblia. No caso desse segundo exemplo—o
de uma palavra, convenhamos, nada “teológica”—Rosenzweig ressalta que “uma única expressão deve ser consistentemente empregada” (no caso, “de mãos vazias”) em Gen 31:24, Ex. 3:21 e Deut. 15:13, pois “só assim a notória passagem do Livro do Êxodo pode ser corretamente entendida” (id.).
9 Rosenzweig se refere a: “A unidade da Torah escrita e a unidade da Torah oral—ou poder-se-ia dizer
O sentido “mais profundo que o usualmente empregado” para “terminologia”, diz respeito, por sua vez, ao fato de que a precisão se estende ao nível da “raiz das palavras” (id., p. 25). E nisso tudo, “o objetivo não é a beleza, mas a verdade” (id.).