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5. TARTIŞMA

6.2. Öneriler

Logo ao início de sua obra-prima, A Estrela da Redenção, Rosenzweig faz uma reflexão “Acerca da Possibilidade da Cognição do Todo”, título que dá à Introdução da Parte I da obra. Nessa introdução Rosenzweig menciona, numa frase que se tornou famosa, “o desafio que é lançado a toda a honorável companhia dos filósofos, da Jônia a Iena,” por todo aquele que—como ele Rosenzweig—“nega a unidade da razão” ao “negar a totalidade do ser” (Rosenzweig, 1970, p. 12).

Por “da Jônia a Iena” entenda-se “de Parmênides a Hegel” (id., p. 13), um período, portanto, que vai do séc. VI a.C. na Grécia Antiga ao início do séc. XIX. Dessa forma Rosenzweig inicia o que é bem mais do que uma mera crítica ao Idealismo que com Hegel alcançara sua completação. Como explicar, pergunta Rosenzweig, a contingência que se constata no mundo, se esse mundo deve supostamente ser concebido como necessário? (id., p. 12). Trata-se, na realidade, de um ataque a todo o mainstream da filosofia ocidental no qual a razão sempre imperou, única e totalizadora.

Esse “império da razão” nada mais é do que o fato, corriqueiro de resto para a cultura ocidental, de que a razão é o ferramental do pensamento. A (quase) tautologia de que na cognição (lógica) está o conhecimento. E a insistência numa visão da linguagem como a expressão do pensamento (que vem antes), por meio de palavras (que vêm depois). Essa é uma visão que relega a linguagem e a fala (elocução, enunciação, voz, discurso) a um segundo plano, e a um segundo momento.

O que Rosenzweig busca resgatar é uma tradição que dá uma resposta diferente à questão acerca de qual vem a ser a fonte do conhecimento que nos chega à mente. Uma tradição que sobreviveu “subterrânea” durante o longo período que transcorreu da “Jônia a Iena” e que começa a emergir a partir de Johann Georg Hamann (1730-1788), amigo e conterrâneo de Kant em Königsberg, e seu feroz adversário filosófico.

Com Hamann iniciou-se um dos três linguistic turns na filosofia que listamos brevemente no Cap. 1 (sec 7, pp. 34-35), justamente aquele ligado à chamada tradição Hamann-Herder-Humboldt na filosofia hermenêutica alemã (Lafont 1999, p. x, ). Ernst Cassirer, discipulo maior e sucessor de Hermann Cohen em Marburg (Cohen foi, como vimos, o primeiro mestre de “judaísmo” de Rosenzweig), disse a respeito desse

approach filosófico: “Se deixarmos de encontrar tal enfoque—o enfoque através do

médium da linguagem em lugar dos fenômenos físicos—perderemos o portal para a

filosofia” (Cassirer, apud Stahmer, 1968, p. 36, grifo meu). E Ernst Hoffman (em 1925) coloca a questão de forma bem mais explícita:

À filosofia natural e à filosofia cultural corresponde um tertius—a filosofia da linguagem. Tanto quanto é possível olhar-se retrospectivamente [...] a partir de Pitágoras e Heráclito o objeto da filosofia grega não é só o mundo, mas também a fala humana acerca do mundo. [...] Pode acaso a fala humana ser

a nau para a verdade? (Hoffman, id.).

Esse poder, ou primazia que a fala tivera na Grécia Antiga é mencionada também por Michel Foucault—um dos artífices de um outro linguistic turn, o de tradição francesa. Diz Foucault em sua A ordem do discurso:

Pois, ainda nos poetas gregos do século VI [a. C.], o discurso verdadeiro—no sentido forte e valorizado da palavra—o discurso verdadeiro pelo qual se tinha respeito e terror, ao qual era necessário submeter-se, [...] era o discurso que dizia a justiça e atribuía a cada um a sua parte; era o discurso que, profetizando o futuro, não apenas anunciava o que havia de passar-se, mas contribuía para a sua realização, obtinha a adesão dos homens e desse modo se entretecia com o destino (Foucault, 1997, pp. 7-8).

As palavras, serventes do pensamento na ótica do mainstream da filosofia, ganham sob esse enfoque do linguistic turn alemão um caráter que é primordial e eminentemente dialógico. é a fala que precede o pensamento e o suscita, e não o contrário: “nossos intelectos sempre foram serventes da fala (speech) e não vice-versa.

Pensamos, falamos, porque nos foi falado, porque alguém se dirigiu a nós”, diz-nos

Harold Stahmer (1968, p. 4), o primeiro autor de língua inglesa a estudar o pensamento de Rosenzweig e de outros pensadores da palavra que Rosenzweig cita em “O Novo Pensamento” (Rosenzweig, 2000a, p. 128, vide Cap. 1, sec. 1, p. 21 acima).

Ou, como dissera Hamann, o relançador dessa idéia no séc. 18, numa carta de 1787 a F. H. Jacobi: “Você entende agora [...]o meu princípio lingüístico da razão, e que com Lutero eu faço de toda filosofia [uma] gramática, uma cartilha (primer) do nosso conhecimento.” (apud Stahmer, 1968, p. 98, grifo meu).

Trata-se então de um retorno à valorização da fala e do dialógico como instrumento de compreensão do mundo, ante a razão monológica que passara a viger a partir de Parmênides e Platão.

Mais que um linguistic turn, portanto. Um “linguistic return”.

2.1 Falando a realidade

Mas o que vem a ser (ou o que foi) essa visão de mundo que Stahmer chama de “speech-dependent view of reality” (Stahmer, 1968, p.3), uma realidade que é

constituída na elocução—na fala exortativa e dialógica—, e que não é a realidade

“Durante vários períodos históricos”, diz-nos Stahmer, “os homens consideraram determinados eventos como cruciais ou sagrados porque neles uma fala significativa se dera” [“significant speech had taken place”]) (id.).

A forma como esses eventos vocais passaram pela experiência humana de quem os vivenciou, e a forma como passaram depois pela experiência das gerações a quem os relatos desses eventos foram transmitidos—de maneira profundamente marcada pela oralidade e pelo diálogo—, foi o que constituiu para essas comunidades a fonte para a compreensão da realidade (vide sobre isso, mais adiante, a nota 4 do Cap. 5). Desse enfoque “vocal” (que se contrapõe ao nosso, “racional”) algumas conseqüências decorrem.

Antes de mais nada, essa forma é primordialmente “gramatical”. Nela não se valorizam relações lógicas e racionais—como as de “implicação” ou de “causa- e-efeito”—que são voltadas para um acúmulo de conhecimento, e através das quais uma verdade única ou uma dada informação são estabelecidas de forma essencial e definitiva.

Enfocam-se, no “gramatical”, principalmente “tempos” e “modos” pelos quais um mesmo evento acontece na experiência humana, torna-se vivência de alguém. Um evento que se dá num dado tempo (p.ex., o histórico) e num dado modo (p. ex., uma ação tomada), pode repetir-se num outro tempo (p. ex., o litúrgico) e num outro modo (p. ex., a comemoração, a narração, o ritual ou a encenação), e tratar-se—para todos os fins relevantes a uma dada circunstância—do mesmo evento.

Ademais, nesse enfoque, a realidade é “impregnada” de categorias gramaticais, e não da noção de causa-e-efeito. Posso “amar”, posso “estar amando”, mas não posso, por exemplo, “ser amar”. Eu sou porque tenho um nome, sou chamado pelo nome, e respondo. O outro, que me chama pelo nome é minha constatação primeira, e é através dele que eu me constato e me constituo como um eu que tem um nome. “Não amo, amas, amat, mas amas, amo, amat é a ordem correta da postura gramatical que nos é mais apropriada.” (Stahmer, 1968, pp. 137-138).

É a esse enfoque que Rosenzweig busca retornar. Recordemos o seguinte trecho de “O Novo Pensamento”, o ensaio que pode ser tido como um manifesto do linguistic

turn de Rosenzweig, a sua “nova filosofia” do speech thinking [Sprachdenken]:

Assim, o método do novo pensamento origina-se de sua temporalidade. [...] O [velho] pensamento é atemporal e quer ser assim; quer estabelecer mil conexões de um só golpe; [para esse velho pensamento] o derradeiro [the ultimate], o objetivo final [the goal], vem em primeiro. A fala [i. e., o speech thinking], ao contrário, é presa ao tempo e se alimenta do tempo; não pode e nem nunca há de abandoná-lo, é ele o seu ambiente; não sabe de antemão onde vai dar; deixa- se guiar por outrem. Vive, geralmente, da vida de outrem, seja a da audiência de uma narrativa, ou a de quem lhe responde num diálogo, ou a de quem [com ela] co-entoa em coro. (Rosenzweig, 2000a, pp. 125-126).

Disso resulta, já se vê, uma compreensão da realidade que é bem mais multifacetada, voltada para o inter-pessoal, e que abarca aspectos existenciais que o mainstream “racional” e ensimesmado da filosofia “da Jônia a Iena” não inclui.

No que vai acima vários conceitos aparecem: a “fala” como primordial em determinados períodos da história; o sagrado (e o não-sagrado); o “gramático” versus o “racional” ou “lógico”; o “nome”; o “outro” e “eu”; linguistic turn e linguistic turns. Esses pontos merecem um aprofundamento e suscitarão algumas reflexões.

Benzer Belgeler