Atualmente as legislações mais recentes a respeito das Diretrizes Nacionais para o Curso de Pedagogia (BRASIL, 2006) ainda que timidamente, já trazem referências a respeito do estudo dos meios de comunicação. Essa tendência pareceu ganhar fôlego no relatório da Conferência Nacional de Educação realizada
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Para saber mais sobre as políticas de informática nesse período ver Teruya e Moraes (2009) disponível em: <http://www.histedbr.fae.unicamp.br/acer_histedbr/seminario/seminario8/_files/Ovwtr QCR.pdf>.
no primeiro semestre de 2010 que deveria servir de base para o próximo Plano Decenal de Educação. O Relatório da Conferência ao tratar da democratização, do acesso, da permanência e do sucesso escolar, destaca:
A garantia de uso qualificado das tecnologias e conteúdos
multimidiáticos na educação implica ressaltar o importante papel da
escola como ambiente de inclusão digital, custeada pelo poder público, na formação, manutenção e funcionamento de laboratórios de informática, bem como na qualificação dos/das profissionais. Numa sociedade ancorada na circulação democrática de informações, conhecimentos e saberes, por meio das tecnologias de comunicação e informação, propõe-se a disseminação do seu uso para todos os atores envolvidos no processo educativo, com ênfase nos professores/as e estudantes, sendo necessária uma política de formação continuada para o uso das tecnologias pelos/as educadores/as. (CONAE, 2010, p. 71, destaque no original).
Além disso, foram feitas recomendações a respeito da formação do professor em modalidades presenciais e a distância dando ênfase tanto às habilidades no uso das tecnologias quanto à “reflexão crítica sobre as diferentes linguagens midiáticas, incorporando-as ao processo pedagógico, com a intenção de possibilitar o desenvolvimento de criticidade e criatividade.” (CONAE, 2010, p. 81, destaques no original).
O Plano Nacional de Educação (2011-2020) 46 – PNE apresentado pelo Ministério da Educação está organizado em 20 metas seguido de diversas estratégias, no entanto, não faz referência a um estudo das mídias como sugere o relatório da CONAE. Abordou apenas o acesso à rede de computadores em banda larga de alta velocidade e aumento da relação computadores estudantes como estratégia a ser adotada no ensino fundamental e médio.
A forma como o PNE privilegia o acesso às Tecnologias de Informação e Comunicação confirma a sobrevalorização do aspecto tecnológico que apaga as questões comunicacionais ou as reduz ao patamar instrumental. Esse determinismo tecnológico reforça um projeto social que vem orientando as políticas educacionais de vários países através da internacionalização de argumentos e procedimentos
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Em julho de 2011 quando esta pesquisa foi encerrada, a discussão sobre o Plano Nacional de Educação estava em curso no Congresso Nacional, acontecendo concomitantemente audiências públicas para agregar contribuições de diferentes setores da sociedade civil. A União Nacional dos Dirigentes Municipais de Educação - UNDIME disponibilizou através do seu site <http://www.undime.org/pne/index.php> as emendas parlamentares para o PNE.Até julho de 2011 as emendas parlamentares apresentadas também não trataram desta questão.
legislativos que interessam aos segmentos locais e externos relacionados às indústrias de comunicação, de produção de materiais e suportes midiáticos/educativos que estão alinhados à manutenção e sofisticação do sistema capitalista vigente.
Robertson e Dale (2009) descrevem como esse tipo de ação ocorre no âmbito das políticas educacionais no Reino Unido:
O discurso da política oficial que ligou a tecnologia ao aprendizado estava caracterizado por um alto grau de determinismo tecnológico. Isto fica bastante evidente na política para aprendizagem do Currículo Nacional do Governo Britânico de 1997 que custou um bilhão de libras para a criação de uma sociedade conectada. Isso se deu através da implantação de hardweres, conectando mais de 30.000 escolas à Internet, criando recursos on-line para professores, e oferecendo programas em larga escala para o desenvolvimento profissional do professor a política estava direcionada para colocá-lo frente a frente com a revolução tecnológica. A fórmula era relativamente simples. Adicione TIC às escolas e haverá uma transformação na aprendizagem. O problema com este determinismo tecnológico simplista é que ele pretende funcionar da seguinte forma: . T(tecnologia) + A (Aprendiz) = At (Aprendiz transformado) . O que
faz o determinismo é que esse T - quando aplicado a A, é considerado como suficiente causar o .At . (ROBERTSON; DALE,
2009, p. 6, destaques dos autores)47.
Os autores chamam a atenção para o fato de esta formulação considerar tanto as tecnologias como os alunos de forma homogeneizada. Além disso, não há uma teoria que auxilie aos professores a pensar sobre as capacidades que as TIC oferecem e então usar esses conhecimentos para elaborar lições de forma diferente. Por outro lado o professor está ausente dessa formulação.
Não é dada força ao professor nem ao aluno, nessa crua formulação causal com o resultado, nem há um reconhecimento da contingência (não podendo prever exatamente o que é que o estudante aprenderá) nem a possibilidade de complexidade (não podendo prever a escala dos resultados ou dos efeitos). Aqui nós precisamos questionar que variedade de atividades significativas está ocorrendo? Como e para que finalidade estes recursos são mobilizados? Que tipos dos desempenhos/conhecimentos estão sendo produzidos? E assim por diante. (ROBERTSON; DALE, 2009, p. 6).
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Os autores alegam ainda que não são levados em consideração o ambiente político e a gestão escolar que limitam as reais oportunidades de experimentação em sala de aula. Por exemplo, quando se atrela a promoção na carreira ao valor agregado das TIC embasando o ensino oferecido. Os sistemas de avaliação e controle por sua vez funcionariam como limitadores para a experimentação e a aprendizagem que pode ser adquirida com o erro tanto por alunos como por professores. Ou seja, “os contextos sociais e políticos mais amplos que dão forma às realidades diárias dos professores e seu trabalho em salas de aula inglesas são apagados em tais formulações.” (ROBERTSON; DALE, 2009, p. 7).
Nota-se aí uma semelhança com o contexto brasileiro. Aqui, porém, as vozes dos estudiosos das mídias não têm sido suficientemente fortes para sustentar a discussão dessas formulações. Tanto que no documento Por Um Plano Nacional de Educação (2011-2020) Como Política de Estado divulgado pela Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Educação – ANPED, não há menção à questão midiática como havia ainda que timidamente na proposta do Relatório da CONAE. Isto é sintomático de que no próprio contexto da pesquisa em
educação e comunicação não há um cenário definido a respeito de quais seriam as demandas e projetos sociais em termos de estudo das mídias.
A entrada das TIC no ambiente escolar necessita ser assumida tanto pelas políticas educacionais como pela comunidade científica de forma a privilegiar a criação de uma cultura das TIC/mídias. Isto é, de proporcionar um espaço de apropriação, experimentação, e circulação de novos possíveis que não estejam atrelados a sistemas de controle, ou pelo menos que os sistemas de avaliação sejam postos como orientadores de diagnósticos e não de fixação de padrões e metas em uma lógica da disputa e da exclusão.
No desenvolvimento da pesquisa junto às participantes procurarei demonstrar de que forma essas questões se materializam no cotidiano escolar e com que consequências.