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As características que definem, basicamente, o herói, são a força física descomunal e a estatura sobre-humana, a ascendência divina e os grandes feitos os quais está destinado a realizar. Para ser reconhecido como tal, é essencial sofrer o rito iniciático. É o que relata

Atena a Odisseu, quando ele a questiona sobre ter permitido Telêmaco sair em viagem, navegando pelo mar desconhecido, mesmo tudo sabendo a respeito da volta do filho de Laerte para Ítaca (Odisseia, XIII, 420-428). A deusa diz ter promovido a viagem para que Telêmaco pudesse granjear fama excelente. Da mesma forma, essa viagem lhe traz a preparação necessária para posteriormente auxiliar Odisseu na luta contra os pretendentes.

Zeus é o primeiro héroi e guerreiro, pois porta a égide - - em todas as batalhas, ao enfrentar o adversário. Ele, ao nascer, é afastado a fim de ser nutrido e preparado para cumprir a sua missão, estabelecer a nova ordem do universo e fazer valer a justiça. Assim como o Cronida, Heraclés, Aquiles e Eneias sofrem o mesmo processo para, enfim, após o burilamento necessário, assumir a sua condição de herói. Eles têm em comum, além do processo de formação, a grandeza do seu escudo, peça principal na composição da sua armadura de combatentes guerreiros.

Heraclés tem como pai mortal Anfitrião e Alcmena como mãe. Certa noite, em que Anfitrião se ausentara para ir a uma expedição contra os Teléboas, Zeus toma o seu lugar, assumindo as suas feições e apresentando-se a Alcmena, com o intuito de enganá-la, e assim obter o que viera buscar, e enlaço amoroso com ela. Após passarem juntos uma noite de amor, prolongada por Apolo a pedido do deus, engendrou Heraclés, sendo ele, portanto, o seu verdadeiro pai. Logo, trata-se de um semideus, tendo em vista a sua filiação divina e mortal. Seu processo de formação como herói começa antes mesmo do seu nascimento, visto que é perseguido por Hera, a esposa de Zeus, que, enciumada por causa da relação do marido com a mortal, busca infligir sofrimentos ao herói. Já adulto, a deusa envia-lhe a , enlouquecendo-o momentaneamente, fazendo-o matar a esposa e os filhos. A fim de limpar a mancha do assassínio, ele procura o oráculo de Delfos, que lhe revela ser preciso cumprir a vontade de Hera. A partir desse episódio, o herói, cujo nome era Alcides, passa a se chamar Heraclés [ (a glória de Hera) = + ], para glorificar a deusa, visto que se submeterá a cumprir as determinações dela, imputadas a ele por intermédio de Euristeu, que lhe impõe Doze Trabalhos, ao fim dos quais obterá a imortalidade, pois será divinizado, indo partilhar, no Olimpo, dos banquetes dos deuses. São eles: O Leão de Nemea – monstro filho de Ortro e de Equidna, é irmão da Esfinge de Tebas. Criado por Hera, assolava a região de Némea, devorando os habitantes e os rebanhos. Heraclés o matou, sufocando-o, pois sua pele era tão hirtusa que não se conseguia perfurar. Após matá-lo, o herói tira a pele do leão, usando as próprias garras do animal. A Hidra de Lerna – serpente filha de Tífon e de

Equidna, foi criada por Hera para pôr Heraclés à prova. O seu hálito era tão mortal, que quem o aspirasse, morria. Provocava devastação nas colheitas e nos rebanhos. O filho de Zeus corta as cabeças do monstro e queima as feridas, pois cresciam novamente logo que eram cortadas.

O Javali de Erimanto – o herói tinha a incumbência de trazer vivo, um javali enorme que vivia no cimo do Erimanto. Para capturá-lo, fatigou o animal, perseguindo-o com seus gritos.

A Corça de Cerineia – animal consagrado a Ártemis, possuía chifres de ouro e se refugiava no monte Cerínio. Só foi capturada por Heraclés após um ano, pois ela era muito veloz. O animal, por aquiescência dos deuses Apolo e Ártemis, foi levado para Euristeu. Os Pássaros

do Lago Estínfalo – pássaros que viviam numa espessa floresta nas margens do lago Estínfalo, na Arcádia. Devoravam as colheitas das regiões vizinhas. Euristeu ordenou que Heraclés os matasse, conseguiu a realização desse feito utilizando castanholas de bronze fabricadas por Hefesto, visto que os animais se escondiam na floresta, dificilmente de lá saindo. As Cavalariças do rei Augias – Augias era um rei da Élide, no Peloponeso. Filho de Hélio, o Sol, cuidava de numerosos rebanhos de seu pai, mas descuidava da limpeza do estábulo, o que provocou um enorme acúmulo de estrume, trazendo a esterilidade às terras. Heraclés os limpou, desviando a corrente dos rios Alfeu e Peneu para o pátio do estábulo. O

Touro de Creta – touro enfurecido por Poseidon, pelo fato de Minos, rei de Creta, não haver cumprido o juramento de sacrificar o animal ao deus. Heraclés é incumbido de levar o animal vivo para Euristeu. As éguas de Diomedes – Diomedes era um rei da Trácia possuidor de éguas que se alimentavam de carne humana. Heraclés entrega o próprio rei como alimento para os animais, acalmando-os, o que permite conduzi-los. O Cinto da Rainha Hipólita – Heraclés parte para o reino das Amazonas a fim de conquistar o cinto da rainha Hipólita, a quem havia sido dado por Ares para simbolizar o poder que ela tinha sobre o seu povo. A rainha entrega de boa vontade o cinto ao herói, no entanto, Hera, disfarçada, suscita uma desavença entre os companheiros de Heraclés e as Amazonas. Ele, pensando ter sido traído, mata Hipólita. Os Bois de Gérion – Gérion possuía enormes rebanhos de bois, que eram pastoreados no extremo ocidente por Eríton, auxiliado por Ortro, seu cão, filho de Tífon e Equidna. Heraclés atravessa o Oceano na taça do Sol, usada pelo astro para voltar ao seu palácio depois de realizar o ocaso. Trouxe, na taça, os animais, após matar Ortro, Eríton e o próprio Gérion, levando-os a Euristeu. O Cão Cérbero – Heraclés desce ao Hades a fim de capturar Cérbero, o cão porteiro do mundo dos mortos. Zeus manda que Atena e Hermes o auxiliem nessa empreitada. Hades permite que Heraclés leve o cão desde que o domine sem

suas armas. Ele consegue domar o animal usando simplesmente a sua pele de leão. Ele leva o animal à presença de Euristeu, que se esconde dentro de um vaso, com medo. As maçãs de

ouro das Hespérides – Hera recebera de Geia, como presente de casamento, maçãs, as quais, por serem tão belas, foram plantadas no seu jardim. Mas as filhas de Atlas as roubavam frequentemente. Para evitar o furto, a deusa colocou um dragão para protegê-las, assim como as ninfas Hespérides. Heraclés recebeu instruções de Prometeu a respeito de como colher as maçãs. Atlas teria de recolhê-las. Heraclés levou-as a Euristeu, que não soube o que fazer com os frutos. O herói as entregou a Atena, que as devolveu às Hespérides.

Os feitos de Heraclés promovem a lapidação necessária ao herói para que obtenha a glória imperecível e a consequente apoteose, com a sua deificação. Assim como Zeus mata Tifon, Heraclés mata a Hidra de Lerna, Belerofonte, a Quimera, Édipo, a Esfinge, Apolo, a Píton, Teseu, o Minotauro, e Perseu, a Górgona. Esse fato os aproxima e os caracteriza como heróis pertencentes a um mesmo grupo, que, em um dado momento, enfrentam e aniquilam um monstro ctônico, ligado à força primordial existente antes do estabelecimento da nova ordem cosmogônica, por Zeus. Essa característica aproxima o filho de Crono desse grupo de heróis, que pertencem a uma fase anterior ao ciclo de Troia, o que reitera o perfil de herói do deus.

Quando criança, Heraclés fora nutrido e educado pelo centauro Quíron, o que simboliza o rito de iniciação do herói. A cada grande trabalho, Heraclés aumenta a sua honra e, consequentemente, a sua glória, . Ao cumprir o seu lote, os trabalhos a ele imputados, faz juz à sua linhagem divina, pois é filho de Zeus, e desse modo cumpre a missão a que está destinado: fazer valer a Justiça, , que, neste contexto, está filiada diretamente à Justiça Divina, , sua mãe.

Benzer Belgeler