1. Eneias, herói homérico
Eneias é filho de um mortal e de uma deusa. Anquises, troiano da família real, estava a pastorar o gado real nas plagas troianas, quando Afrodite lhe aparece. Metamorfoseada em princesa frígia, ela, naturalmente sedutora, insufla-lhe um desejo ardente. Os dois se amam, e após um sono restaurador em que mergulha Anquises, a deusa o desperta e lhe revela a sua real identidade. Desvela-lhe o porvir. Teria um filho que, nos primeiro anos de vida, seria nutrido e educado pelas ninfas do monte Sileno. Depois, seria conduzido até ele pela própria deusa, não devendo revelar de modo algum a verdadeira origem da criança. Diria a quem perguntasse, que era filho dele com uma ninfa. De outro modo, Zeus, em sua cólera, lançaria sobre ele o seu raio flamejante.55 Eneias passa os primeiros cinco anos de vida nas montanhas, aos cuidados das ninfas. Após esse período, Anquises o leva para a cidade, deixando-o aos cuidados de Alcátoo, marido da usa irmã Hipodamia, que se encarrega da sua educação. Assim como Zeus, Heraclés e Aquiles, Eneias também sofre o rito iniciático de ser afastado da família nos primeiros anos da existência. A missão de Eneias é dar continuidade à raça troiana, em plagas longínquas, após a destruição de Troia pelos gregos. Essa afirmação é feita pelo deus Posídon, quando, em meio à guerra, Eneias é insuflado por Apolo a enfrentar Aquiles, o que anteciparia, assim, a sua moira, tendo em vista que facilmente pereceria pela mão do Pelida: ... έ ᾽ ἰ ὶ ῶ ῖ ί ὶ ὐ ὸ ὐ ὺ ; ἀ ᾽ ᾽ ἡ ῖ έ ὑ ὲ ά ἀ ά , ή ὶ ί ώ , Ἀ ὺ ό ί · ό έ ἵ ἐ ᾽ ἀ έ ,
55 "Hino a Afrodite". In: Hinos homéricos. Tradução de Flávia R. Marquetti et al. Org. Wilson Alves Ribeiro Jr. -
ὴ ὴ ὶ ά , ί ὶ ά ί ί ἕ ἐ έ ῶ ά . ὰ ά ὴ ί · ῦ ὲ ὴ Αἰ ί ί Τ ώ ἀ ά ὶ ί ῖ , ί ό έ . (Ilíada, XX, 298-308)
Sempre oferece dádivas que agradam aos deuses, a eles que habitam o vasto céu, mas, vamos! Levemo-no nós para longe da morte, de modo que o Cronida não se enfureça, se Aquiles o matar; a ele escapar está destinado, para que a raça de Dárdano sem posteridade e destruída não pereça, que o Cronida, dentre todos os filhos, mais amava, os quais dele foram gerados por mulheres mortais, pois eis, o Cronida odeia a raça de Príamo; e agora a força de Eneias reinará sobre os Troianos, também os filhos de seus filhos que venham a existir no futuro.
Eneias é escolhido para a missão de continuar a raça troiana pelo fato de ser piedoso. Conforme a fala de Poseidon, ele nunca faltou aos deuses na oferenda de dádivas. Além disso, sua linhagem é cara a Zeus, por ser imaculada. O próprio Aquiles reconhece a predileção dos deuses a Eneias, no instante em que Poseidon intervém a favor do herói, embaçando a vista do Pelida a fim de livrar o troiano da sua lança: 'ἦ ῥα αὶ Αἰ ίας φί ος ἀθα ά οισι θ οῖσι ἦ ' (Ilíada, XX, 347): 'na verdade, era Eneias querido aos deuses imortais'. Na Ilíada, Eneias é o herói individual, cuja excelência guerreira visa à glória pessoal. No decorrer da narrativa, ele está presente nos momentos cruciais da guerra. Sua primeira aparição ocorre no Canto II, concomitante à primeira aparição de Heitor, após o catálago das naus. Ambos são mostrados, pela voz do poeta, em uma posição de comando, à frente dos troianos. É importante mencionar que, desde o início, é colocada em evidência a excelência de Eneias: 'Δα α ίω αὖ ᾽ ἦ χ ἐῢς άϊς Ἀ χίσαο Αἰ ίας' (Ilíada, II, 819): 'dentre os dardânidas, o notável filho de Anquises, Eneias, estava à frente'. No Canto V, na de Diomedes, Eneias atua significativamente, contrapondo o seu ataque aos aqueus. Ele o enfrenta juntamente com Pândaro, que é morto pelo Tidida. O filho de Anquises luta bravamente para defender o corpo do amigo. Neste momento ele tem a sua exaltada. A sua força e a sua destreza guerreira é posta em evidência, sendo ele comparado a um leão, em relação à voracidade da sua intrepidez:
ἀ φὶ ᾽ ἄ ᾽ αὐ ῷ βαῖ έω ὣς ἀ ὶ οιθώς, όσθ έ οἱ ό ᾽ ἔσχ αὶ ἀσ ί α ά οσ᾽ ἐΐση , ὸ ά αι αὼς ὅς ις οῦ ᾽ ἀ ίος ἔ θοι σ α έα ἰάχω
(Ilíada, V, 299-302)
Assim como um leão confiado na própria força, lançava-se em ambos os lados, e diante dele, segurou a lança e o escudo bem torneado, ansioso por matar aquele que contra (o corpo) viesse gritando terrivelmente.
No Canto VI, quando os troianos estão em posição de desvantagem em relação aos gregos, Heleno, sacerdote de Apolo, dirige-se a Heitor e a Eneias, exortando-os a deter os aqueus e a emular os dardânidas à luta. A figura de Eneias é enaltecida por Heleno, juntamente à de Heitor, pois neles, acima de todos, é depositada a confiança tanto dos troianos quanto dos aliados, em relação à realização dos trabalhos mais pesados da guerra, por serem os melhores tanto no combate quanto nas assembleias (Ilíada, VI, 77-85). Eles são os heróis troianos cuja é a maior.
Depois desse episódio, Eneias irá aparecer novamente apenas no Canto XII, no ataque dos troianos às naus gregas. Ele será responsável por comandar um dos cinco grupos de combatentes formados para rechaçar os aqueus em seu acampamento junto aos navios. No Canto XIII, no combate junto às naus, o Anquisíada luta acirradamente. Ele enfrenta Idomeneu, que pede auxílio aos companheiros tendo em vista o receio que sente diante da investida de Eneias, mais jovem e mais veloz do que ele. No Canto XVI, na de Pátrocles, o troiano tenta atingir Meríones, exímio guerreiro, com a sua lança. Mas tem o golpe frustado. No Canto XVII, na luta pelo corpo de Pátrocles, morto por Heitor, Eneias de destaca. Ele, instigado por Apolo, incentiva Heitor e os troianos, que se encontravam em desvantagem, a lutar e a enfrentar os aqueus. Ele luta destemidamente, e juntamente com Heitor, promove a debandada dos argivos. No Canto XX ocorre a última participação de Eneias na narrativa da Ilíada. O episódio, já referido acima, dá a Vigílio o mote para a construção da Eneida. O caráter piedoso de Eneias faz ser ele o escolhido para a missão de dar continuidade à raça troiana, a partir da edificação de um novo reino. Na epopeia latina, a
pietas do herói é a mola propulsora das suas ações, sendo este valor basilar na estruturação do
2. Estrutura da Eneida
Poema latino escrito entre os anos 29 e 19 a. C., por Publius Vergilius Maro, a Eneida trata da fundação das bases da grande civilização romana. Eneias, personagem principal, tem como características constituintes da sua personalidade, a pietas (a piedade, reverência aos deuses e respeito pelas relações familiares), a fides (fidelidade à palavra dada) e a virtus (virtude, excelência guerreira). Desses três atributos, a virtus tem papel estrutural dentro do poema, pois é graças a ela, sobretudo, que o herói cumpre o seu destino, fundar as bases de Roma. No entanto, é possível observar dois momentos da virtus dentro na narrativa, no que concerne a Eneias. No primeiro, ela tem um caráter individual, em que o herói aspira à ‘bela morte’ e à consequente imortalização da sua glória:
Iliaci cineres et flamma extrema meorum, testor, in occasu vestro nec tela nec ullas vitavisse vices, Danaum et, si fata fuissent ut caderem, meruisse manu.
(Eneida, II, 431-434)
Cinzas de Ilião e chama suprema dos meus, em vossa queda, (sede) testemunha, (de eu) não ter evitado nem os dardos dos Dânaos nem outras vicissitudes, e se os destinos existissem para que eu sucumbisse, teria merecido pela façanha.
O trecho acima diz respeito à fala de Eneias na ocasião em que Troia já está completamente invadida pelos aqueus e por eles sendo incendiada. O troiano, juntamente com outros companheiros, luta com bravura a fim de vencer o inimigo. Os versos põem em evidência a busca da ‘bela morte’ por Eneias, tendo seus feitos reconhecidos e a coroação da sua honra com uma morte gloriosa.
No segundo momento, vemos um sentido mais coletivo da virtus, pois o filho de Anquises veste as armas a fim de defender o interesse do grupo, no cumprimento da missão para a qual foi designado pelos deuses:
nec veni, nisi fata locum sedemque dedissent, nec bellum cum gente gero; rex nostra reliquit hospitia et Turni potius se credidit armis. (Eneida, XI, 112-114)
Nem teria vindo se os destinos não tivessem assinalado o lugar e a sede, nem faço guerra com a gente; o rei desprezou nossos laços de hospitalidade e confiou-se, de preferência, às armas de Turno.
Trata-se da fala de Eneias, quando os latinos pedem-lhe uma trégua para que possam enterrar os mortos. Ele, então, declara que gostaria de poder conceder paz não apenas aos que sucumbiram na batalha, mas também aos vivos, pois não viera para aquele lugar fortuitamente, mas por ordem dos deuses. E que a guerra foi deflagrada por causa do perjúrio do rei. Desse modo, o herói veste as armas não para sua glória pessoal, mas, sobretudo, para fazer-se cumprir a vontade dos deuses.
A linha divisória desses dois momentos é a katábasis de Eneias aos Infernos, ápice da
pietas do herói, a qual, a nosso ver, representa a sua ‘bela morte’ simbólica, haja vista a mudança que ocorre quanto ao seu perfil. Morre o Eneias troiano, com as características próprias do herói individual homérico, para surgir o herói romano, cujas ações visam ao bem coletivo:
tu regere imperio populos, Romane, memento (hae tibi erunt artes), pacique imponere morem, parcere subiectis et debellare superbos.
(Eneida, VI, 851-853)
tu, Romano, lembra de governar os povos sob (teu) poder – estas artes são para ti –, impor a lei pela paz, poupar os submetidos e debelar os soberbos. Essa é a recomendação dada por Anquises a Eneias na ocasião do encontro de pai e filho no mundo dos mortos. Após mostrar o porvir glorioso de Roma na figura das personalidades que irão reencarnar e compor o cenário da soberania romana, o ancião delega ao troiano a linha de conduta que deve seguir, a partir daquele momento, não apenas Eneias, mas todo aquele que se denominar romano. Na verdade, suas palavras traduzem o lema da romanização, cuja mola propulsora era a força bélica. O uso do verbo debellare (de + bello) reforça essa ideia, sobretudo se aferirmos a sua formação etimológica, liquidar a partir da guerra, o que nos remete ao sentido de virtus, discutido no primeiro capítulo do presente trabalho. Nesse sentido, é possível identificar o papel estrutural deste valor, a virtus, na composição do poema, entrelaçado à figura do Anquisíada, fundador das bases dessa
civilização. Essa ideia será desenvolvida no estudo sobre Eneias, concernente à sua excelência guerreira.
Esbocemos, para uma visão mais acurada da obra e, desse modo, uma análise mais profícua do texto, um quadro estruturante da Eneida, delineando o argumento de cada livro que a compõe.
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