Frente às premissas dos ‘currículos de contingência’ de Toffler (1970), inferem-se algumas considerações que possibilitam entender o que se pretende dizer sobre uma ‘aprendizagem contingencial’, numa época de transitoriedade onde o senso que o indivíduo tem de futuro desempenha um papel crítico na sua capacidade de lutar em prol de seus projetos de vida. Quanto mais rápido o ritmo da vida, mais rapidamente o ambiente escorrega por entre as mãos, mais velozmente as potencialidades futuras se transformam em realidades presentes.
Assim, à medida que os fatos, nos diversos ambientes, acontecem mais depressa, as pressões para aquisição por mais recursos mentais tornam-se mais intensas, ou seja, é preciso selecionar e estabelecer critérios. Então, pensar a respeito do futuro e entender o horizonte temporal, ou seja, as prioridades do hoje para, assim, poder esquadrinhar mais à frente, de modo a não ser atropelado pela celeridade dos acontecimentos atuais, é uma necessidade, além de aprender a conviver com eles (os fatos), numa total roda viva.
Na verdade, esse modo operante é bastante individualizado e depende da quantidade de pensamentos que a pessoa devota ao futuro, como algo diferente do passado e do presente; a aceleração generalizada da vida leva a uma ampliação do horizonte temporal que vai depender da cada um em particular, sendo preciso verificar esse ritmo, caso contrário corre-se o risco de ser surpreendido e embaraçado pelos acontecimentos.
Assim, torna-se premente uma mudança de rotina, uma mudança de hábito, que vai ser desenvolvida pela prevenção e construção de uma habilidade que condiciona a pessoa para olhar para frente, desempenhando essa postura um papel-chave na adaptação para o porvir, o que promove uma maior possibilidade de antever. É como o jogador de xadrez que presume a jogada do seu oponente ou o estudante que vê o sumário antes de ler a página pretendida.
Mediante este pressuposto, pode-se conceituar a aprendizagem contingencial, como toda e qualquer atividade empreendida numa base contínua, visando a um melhor conhecimento, maior aptidão e mais competência que se fundamentam num novo paradigma educacional emergente formado em diversos contextos educacionais, apresentando-se como instrumento chave para a adaptação de possíveis ‘currículos de contingência’ como infere Toffler (1970).
Desta forma, o aprendiz, frente aos diversos vieses e tendências de caráter vocacional e tecnocrata, vislumbra constituir-se como um cidadão ético, ávido e lépido, comprometido com a criticidade e criatividade exigida na atualidade.
Sendo assim, a educação encontra-se com um grande desafio a vencer, uma vez que a impressionante rapidez com que a perspectiva de aprendizagem se dissemina através das novas tecnologias absorvidas no vocabulário corrente, no âmbito das mais variadas esferas da vida em sociedade, faz que este aprendiz desenvolva posturas compatíveis com as necessidades atuais.
A criança é movida, na Escola atual, por modelos. Sua imagem de identificação focalizada no futuro modela o que ela quer ser ou parecer quando crescer. Essa imagem ‘focalizada no futuro’ tende a organizar e dar sentido ao padrão de vida que ela quer assumir, embora mal definido, uma vez que não existe um modelo para o futuro. Deduz-se, assim, mediante este vácuo, que o significado atribuído ao comportamento valorizado pela sociedade ampla não existe, visto que essa pretensão da infância vai se transformando paulatinamente conforme o currículo escolar.
Percebe-se, então, que o trabalho educacional torna-se sem sentido, bem como as regras da sociedade; considera-se o modo como a Escola de hoje trata o ‘espaço e o tempo’, aquém das suas premissas. Cada aluno é cuidadosamente ajudado a se posicionar no ‘espaço’, ou seja, exige-se que estude geografia, mapas, para que saiba se localizar no espaço local, sua rua, cidade, seu espaço regional, nacional e até universal, além das grandes linhas imaginárias do globo terrestre.
Todavia quando se trata de localizar a criatura no ‘tempo’ ela mergulha no máximo possível do passado da sua região, da sua nação e do seu mundo, estuda a história das
civilizações, revoluções, figuras legendárias, tudo marcado com data do passado chegando timidamente à história da atualidade, com alguns poucos fatos históricos vistos em jornal ou revistas atuais e só, ou seja, tem apenas uma mínima concepção do presente. Em seguida “o tempo para a Escola mantém silêncio quase total sobre o futuro” (TOFFLER, 1970, p. 338).
A sociedade tem embutido no estudante as chaves do tempo que o ajudam a ligar a atual geração ao passado. O senso de passado é desenvolvido com o contato com a geração antecedente pela herança acumulada da arte, da música, da literatura e da ciência, através dos anos, pela história oral, escrita e gravada, mas, observa-se um grande hiato entre o que foi e o que será a rua, a cidade, a região, as personalidades, o país, os conflitos, a história das religiões, das artes, da música, dos governos, da economia, das ciências, enfim, do mundo e seus acontecimentos cronológicos em todas as áreas.
É preciso sensibilizar esta geração para as possibilidades e probabilidades do amanhã, para aumentar o sentido de futuro, este estado de tempo que se encontra no porvir, e que se pode denominar, segundo o autor, de ‘futuridade’ que é a possibilidade de se prever o que se espera. O processamento mental de dados prévios a respeito de qualquer assunto presumivelmente reduz a quantidade de processamento e o tempo de reação durante o período de adaptação (TOFFLER, 1970, p. 336).
Com isso, podem-se construir, também, mecanismos que liguem o ser às chaves do tempo futuro, onde se possa construir uma postura inovadora, pois do mesmo modo como se conhece o passado, é preciso se precaver sobre o futuro que, nos dias atuais, chega de modo bastante célere e imperativo.
Assim a aprendizagem contingencial deve ser o resultado, em última análise, da aplicabilidade dos valores estudados pelos ‘currículos de contingência’, que contemplam “programas educacionais visando treinar as pessoas para lidar com situações que não existem hoje, mas que podem ou não se materializar” (TOFFLER, 1970, p. 331).
Estas probabilidades ocasionam uma virada educacional no sentido da construção de novos paradigmas que contemplem outros valores, comportamentos, saberes, resoluções e relacionamentos com vistas a projetar as mentes para a frente, criando uma consciência de futuro.
É óbvio que não se possui uma ‘literatura do futuro’ para usar nas Escolas contemporâneas, existe apenas uma literatura sobre o futuro que consiste, não apenas em grandes utopias, mas também em ficção científica, tidas como um ramo menor da literatura.
Todavia se for considerada como uma espécie de ‘sociologia do futuro’ em vez de ser reconhecida como uma literatura secundária terá um enorme valor como força de expansão da
mente para a criação de novos hábitos, para a previsão frente a novas conjunturas que deverão ser utilizadas em situações inusitadas.
Os jovens poderiam estar estudando Arthur Charles Clarke, Willian Tenn, Ray Bradbury e outros, não por serem autores afeitos a naves espaciais, máquinas do tempo, mas por induzirem as jovens mentes a uma viagem imaginária de exploração na selva de questões políticas, sociais, psicológicas, éticas dentreoutras, visando a estimular pretensas questões. Frente a estas proposições haveria a possibilidade da criatividade, e assim “como esses jovens reagiriam ao se defrontar com situações impensadas ao se tornarem adultos” (TOFFLER, 1970, p. 340).
Outro ponto relevante, que possibilita o exercício das mentes jovens rumo às possibilidades e probabilidades futuras, são os jogos, os quais apresentam alternativas tecnológicas e sociais do futuro, forçando-os a escolher, entre elas, finalizações. Isto os estimula a verificar que os acontecimentos tecnológicos e sociais estão interligados, podendo levá-los a pensar em alternativas, em caminhos, em resoluções, munidos de diversos argumentos que favoreçam as modificações, para que possam ajuizar as escolhas valorativas das tomadas de decisão.
Outros jogos (games) demonstram a maneira como a tecnologia e os valores poderão interagir no mundo do amanhã; esses instrumentos vão instigando a curiosidade e direcionando o aluno para uma aplicabilidade futura. Levará, com certeza, o aprendiz contemporâneo a lidar com o equivalente a milênios de anos de mudança, dentro de um espaço de tempo comprimido de uma única geração, além de manter um foco que lhe permite construir situações que lhe propiciem ter em mente imagens razoavelmente precisas do futuro. Frente a estas colocações é necessário que se pontuem as práticas pedagógicas num universo de diversidades.