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A correspondência administrativa ordinária nos leva a crer que, na primeira parte do período que recortamos, o clientelismo se manifestava com inabalável espontaneidade no relacionamento entre os mandantes, nas providências por eles tomadas e em suas relações com a sociedade de maneira geral, constituindo o aspecto elementar da encenação da hegemonia.205 Dificilmente um indivíduo pertencente às camadas menos favorecidas poderia se recusar a “dobrar os joelhos” aos poderosos mesmo em situações cotidianas. Em regra, teria prestado ou prestaria serviços a um ou outro chefe político possuidor de grande patrimônio ou cargo que facultasse amplo controle das oportunidades de emprego disponíveis. Escapando à labuta nos negócios particulares das classes ricas, quase certamente, teria que trabalhar no setor público, opção que também não dispensava deferências. Além disso, frequentemente, mesmo eventualidades como a doença levavam sujeitos sem recursos à dependência dos “favores” ou “caridades” dos poderosos. Em 25 de abril de 1935, Floriano Neiva de Siqueira Torres, prefeito de Montes Claros, escreveu ao provedor da Santa Casa de Misericórdia de Belo Horizonte o seguinte texto:

Tomo a liberdade de apresentar-lhe o portador deste Snr. Oswaldo Eustachio Bispo, que vae a esta capital com o fim de tratar de sua saúde e como o mesmo não possue recursos financeiros, peço a V. S. o obsequio de internal-o como indigente nesse estabelecimento de caridade onde V. S. é competente Provedor.

Com os meus antecipados agradecimentos, subscrevo-me.206

Oswaldo Eustachio Bispo, indivíduo doente e pobre, cujo domicílio não podemos precisar, necessitava tratar de sua saúde na capital. Destituído de meios próprios para solucionar seu problema, que possivelmente configurava uma questão de vida ou morte, encaminhou-se ou foi encaminhado até o prefeito, a quem fez um pedido de ajuda. O dirigente tornou-se então responsável pelo único registro do episódio, cuidando de intermediar a demanda ao mais elevado membro da cadeia, o controlador do bem em vista, situado em Belo Horizonte. Do ponto de vista de Bispo, a

205

No sentido gramsciniano, conforme entendido por Edward Palmer Thompson. THOMPSON, As peculiaridades dos ingleses. In.: NEGRO; SILVA (Orgs.), As peculiaridades dos ingleses e outros

artigos, p. 146-9. 206

possibilidade de escapar à “situação-limite” em que se encontrava,207 bem como, ao desamparo e isolamento inerentes à sua condição de indivíduo sem recursos, dependia da ingerência da autoridade pública, cujos poderes exclusivos abririam caminho ao “provedor”. Situações como estas se multiplicam na correspondência administrativa. Em conjunto, permitem-nos identificar uma ampla e articulada rede clientelar em funcionamento. Vejamos mais exemplos. A história de Manuel Ferreira de Lima, a qual tentamos reconstituir abaixo, assemelha-se bastante à de Bispo. Porém, enquanto este se revelou ao ser encaminhado pelo prefeito ao detentor do recurso pretendido, Lima teria se apresentado ao titular máximo do executivo local, Dr. Santos, para obter o mesmo encaminhamento, portando esta carta datada em 21 de maio de 1940:

Presado amº

É portador desta ahi Manuel Ferreira Lima, o qual acha-se passando mal dos olhos, já tendo um vista perdida e outra perturbada, sendo elle pobre não podendo pagar tratamento resolveu ir a Belo Horizonte, a fim de ver si é possivel internar em um hospital.

Sendo que, sem uma guia de uma autoridade208 disendo ser indigente não pode internar, peço-lhe o favor de fornecer do mesmo algum documento para facilitar e mesmo internar. Manoel (sic.), foi um companheiro que muito trabalhou, a bem da nossa politica.

Sem mais, desde já agradeço-te. (...)

[Fabrício] Pereira de Souza.209

Graças ao registro produzido por Fabrício Pereira de Souza sabemos que Manuel Ferreira de Lima encontrava-se relativamente afastado da autoridade municipal. Residia na zona rural, no distrito de “Pathys” ou adjacências, localidade confiada à jurisdição administrativa de Montes Claros. Ao buscarmos refazer o caminho por ele percorrido em função da necessidade de tratar de sua doença na capital, fica claro que, por si mesmo, não obteria a internação. Afinal, a assistência médica aos despossuidos

207

Conforme estudos realizados por Elisa Pereira Reis, a busca individual por auxílios de detentores de posições no âmbito dos poderes públicos tende, na maioria das vezes, a configurar “um exemplo do recurso à autoridade para a garantia do exercício de um direito natural” – a vida. REIS, Opressão

burocrática: o ponto de vista do cidadão, p. 167. Esta hipótese parece se confirmar em nossa pesquisa no

tocante às intervenções individuais que tomaram as formas do contato direto ou da correspondência.

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Provavelmente, um ofício ao dirigente do sanatório semelhante aquele de que Bispo foi objeto.

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DPDOR 007/APMC.46.01.07/000.001/1937/12/09, p. 458. 621 p. Bispo, protagonista do caso anterior, pode ou não ter sido, igualmente, intermediado à prefeitura. Caso tenha, a sua carta de apresentação desapareceu, do mesmo modo que a “guia” que Lima lá teria ido buscar. Assim, convém assinalar que as pistas referentes aos contatos dessa natureza entre populares e poderosos encontradas na correspondência destes são em regra incompletas, diferenciando-se dos episódios em que os favorecidos não se encontravam propriamente em situações de desamparo e se apoiavam em figuras demasiado influentes, situados fora do nosso escopo. Isto confere valor especial a registros feitos por expositores como Fabrício Pereira de Souza, capazes de abarcar alguns detalhes dos casos relatados.

pressupunha a apresentação de “guia” expedida por uma autoridade, espécie de “atestado de indigência”, no caso, subscrito pelo prefeito. Poderíamos atribuir esta formalidade à vantagem da demanda sobre a disponibilidade do benefício, concluindo tratar-se de uma medida disciplinadora. Mas é improvável que não fosse instrumento de clientelismo político. Apostamos nesta hipótese. Souza seria alguém influente no distrito de “Pathys” e junto à administração do município, intercedendo em algumas questões concernentes aos poderes públicos no referido lugar. O seu método promovia o acesso direto dos necessitados à autoridade municipal, personalizando ações administrativas. A prerrogativa de intermediar demandas favorecia aquele que a colocava em prática, que obtinha o respeito e gratidão dos beneficiados, assim como, aos dirigentes locais, que pelas mesmas razões poderiam constituir bases eleitorais.

O acesso dos populares dos distritos às providências da municipalidade, no período em questão, parece de fato ter dependido da mediação de elementos dotados de poder econômico e influência ou – como se costumava dizer à época – “conhecimento”.210 Noutro caso respeitante à zona rural do município, o ferrenho controle personalista dos poderosos sobre a máquina administrativa, os bens desta alçada e daqueles que dela dependiam evidencia-se de maneira particularmente clara. Do distrito de Santo Rosa, em 5 de julho de 1940, partiu outra correspondência ao Dr. Santos. Novamente, pedia-se sua intervenção em favor do internamento de um doente. O texto datilografado em papel timbrado da firma A Primavera fora escrito por Agenor de Oliveira, agricultor, negociante e industrial proprietário da dita empresa, criada em Santa Rosa e com filial em São Pedro da Garça, de onde viera Augusto Cordeiro, provavelmente um funcionário, para cuidar de sua saúde. O correspondente assim expôs o caso:

Presado Amigo,

O apresentante desta Snr. Augusto Cordeiro, homem chefe de grande familia, trabalhador e que se acha gravemente abalado pela sua saude, soffrendo febres apanhada (sic.) em S. Pedro da Garça.

Como se acha sem recursos para o seu tratamento, então veio me pedir uma guia para se enternar na Santa Casa de Misericórdia, como não tenho conhecimento com o Provedor desse Instituto de Caridade, por isso tomo a liberdade de solicitar do distinto Amigo a internação do mesmo, pois, V. Excia. é o único que poderá attender tão justo apello.

210

A situação dos pobres urbanos não seria muito diferente. Neste caso, o acesso aos membros do governo municipal poderia dispensar intermediários, mas a conquista individual de benefícios mantinha o caráter personalizado.

Mui penhorado vos agradeço, e, aqui ao vosso inteiro dispor, subscrevo-me com particular estima e leal apreço.

D. V. Excia. Amigo atto. e obro. Cro. Agenor de Oliveira.211

A história parece se repetir. Cordeiro, habitante da zona rural, adoeceu. Sem recursos próprios para o tratamento, a exemplo do que fizeram Bispo e Lima, dirigiu-se a um “superior” que pudesse ajudá-lo a obter assistência médica gratuita. Agenor de Oliveira, procurado pelo enfermo, não tendo “conhecimento” com o detentor do benefício visado, encaminhou-o à pessoa certa para auxiliá-lo em sua situação. Deu-lhe carta apresentando-o ao prefeito municipal, que seria “o único” dotado do “conhecimento” necessário com o provedor do “Instituto de Caridade” para emitir a “guia” solicitando-o internar o doente – sugerindo, pois, não haver autoridade local, senão o chefe do executivo, habilitada a interceder nesses casos. Esta aparente centralização, se de fato existiu, deve ter feito com que incontáveis indivíduos em situação de doença e escassez passassem pelo gabinete do Dr. Santos ao longo dos quase cinco anos em que esteve à frente do governo municipal (1937-42). Talvez, esteja aí uma das razões para o destaque deste – notável adepto da correspondência e da troca de favores – face a seus antecessores e sucessores.212

Também há indícios de que, no período em vista, a conduta personalista dos mandantes em assuntos administrativos que envolviam demandas populares, cujo efeito mais importante do ponto de vista do comportamento popular na política parece ter sido a multiplicação de atores pragmáticos e dependentes, impunha condições ao acesso às “dádivas” do poder. Aí residiria a eficácia do tipo de governo empreendido pelos setores hegemônicos em moldar à reprodução da “velha política” o modo dos subalternos dirigirem-se aos detentores do poder. O gozo dos recursos sociais213

211

DPDOR 007/APMC. 46.01.07/000.001/1937/12/09, p. 486. 621 p.

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Após a ascensão de Getúlio Vargas à presidência da República a Câmara Municipal deu lugar a um Conselho Consultivo cujos membros eram nomeados pelo governador do estado. Em julho de 1936 aquela retomou suas atividades dotada de poderes para eleger prefeitos. Porém, sofreu nova interrupção em novembro de 1937, após a emergência do Estado Novo. Dr. Santos foi conduzido ao cargo de prefeito em substituição a Alfeu Gonçalves de Quadros. Durante alguns anos, as atividades legislativas estiveram suspensas por determinação do novo regime político nacional. Dessa maneira, a administração pública municipal centralizou-se no poder executivo, tornando-se notório o uso acentuadamente privado da burocracia, em tese, contrariando a lógica tecnocrática apontada pelo governo federal. Quadros retornou à prefeitura em 1942, após a morte do Dr. Santos. Lá ficou até 1946. Em 1947, a Câmara Municipal voltou a funcionar.

213

Designação que, na prática, revela-se enganosa à medida que controlados de maneira privada pelos mandantes.

regulados pelos governantes seria permitido prioritariamente àqueles que se enquadrassem em um dado perfil, o qual podemos identificar nas características atreladas aos solicitantes por seus intermediários, não bastando como critério de acesso, portanto, a mera necessidade. Assim, somente Floriano Neiva de Siqueira Torres ao fornecer a Bispo “guia” para que este buscasse internamento na Santa Casa de Misericórdia em Belo Horizonte eximiu-se de apontar características comportamentais respeitantes ao doente, limitando-se a atestar sua carência de recursos para justificar sua internação como indigente.214 Provavelmente, o interesse na minúcia restringia-se ao âmbito político local, visto que Fabrício Pereira de Souza não privou o Dr. Santos de atender a “um companheiro que muito trabalhou, a bem da nossa politica”215 e Agenor de Oliveira enfatizou que o seu “protegido” era “homem chefe de grande familia” e “trabalhador”.216 Dessa maneira, a adesão manifesta dos necessitados à política dos detentores dos recursos visados era uma garantia certa à atenção destes, mas também não era dispensável a dedicação ao trabalho, noutros termos, um comportamento ordeiro, aspecto central do modelo idealizado de “cidadão” discutido alhures por meio de suas manifestações no discurso dominante. Convém ilustrar melhor.

Ao prefeito do município de Bariry, estado de São Paulo, Sr. Sebastião Negrão, em 1935, escreveu Floriano Neiva de Siqueira Torres. A correspondência emitida pelo administrador de Montes Claros seria bem definida como uma carta de recomendação. Tinha como objeto o “Snr. Waldemar Rocha dos Santos”, morador local que decidiu ir àquela localidade “em procura de melhores condições de vida”, isto é, em busca de trabalho. A fim de garantir ao migrante a colocação almejada, o intermediário enfatizou tratar-se de “um rapaz de bom procedimento honesto, criterioso e trabalhador”, assegurando ao destinatário, ainda, a sua própria gratidão pelo “acolhimento que ao mesmo dispensar”. No estado vizinho, esperava Torres, seu destinatário procuraria meios para situar Santos e, logo, obter o reconhecimento de

214

DPDOR 007/APMC. 46.01.07/000.001/1937/12/09, p. 486. 621 p.

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Esta “credencial” reforça a hipótese de uma rede clientelar centrada no governo local que se irradiava além da urbe exercendo força centrípeta sobre as populações rurais, votantes como os moradores da sede municipal, os quais se pretendia pois integrar ao centro administrativo pelos meios da “velha política”. DPDOR 007/APMC.46.01.07/000.001/1937/12/09, p. 458. 621 p.

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ambos.217 Por volta de 1937, o sucessor de Torres, Dr. Santos, recebeu carta do seu mais notável e freqüente correspondente, Cyro dos Anjos, funcionário do governo estadual em Belo Horizonte, que lhe pedia “benevolo acolhimento ao pedido que o Jair lhe vai fazer do Alcides Curtiss Lima”. O remetente-intermediário afirmava ser este “um rapaz correto e trabalhador”, e assegurou ao prefeito: “se você puder fazer algo por ele, acredito que corresponderá a sua boa vontade”.218 Logo, práticas de natureza clientelista ultrapassavam os rincões setentrionais concatenados em torno do município estudado. Embora não possamos demonstrá-lo nos limites desse trabalho, não é arbitrário afirmar que elas conferiam o tom à política naqueles anos em escala bem mais ampla que nosso escopo.

2.2.2 A presença dos moradores urbanos perante aos dirigentes municipais: