Em 1956, Sebastião de Oliveira Aquino, morador do distrito de Mirabela – lugarejo submetido à administração municipal de Montes Claros e como os demais distritos (por mais tempo) à “velha política” vigente na cidade entre 1930 e meados da primeira metade do século –, escreveu longa carta ao prefeito. Solicitava-lhe medidas paliativas à situação em que se encontrava seu “tão humilde e abandonado distrito” carente de diversos melhoramentos, dentre os quais, “a bem da coletividade”, urgiam a construção de prédio escolar, reparos em ruas e estradas. Num recorrente “beija-mão”, encareceu ao destinatário as qualidades de “representante eleito”, “pessoa culta e capaz para administrações superiores”, que muito orgulhava os montesclarenses do centro
urbano, bairros e distritos. Interessa-nos neste episódio, todavia, o que tinha de excepcional e, simultaneamente, revelador da atmosfera sociopolítica imperante no município durante a primeira metade do século. De forma especialmente evidente, Aquino estruturou seu discurso a partir de elementos extraídos de uma dimensão representacional da política socialmente compartilhada. Nesse sentido, encetou inaudita reflexão. Dizendo-se não ser “nenhum chefe político”, “um dos muitos correligionários193 de V. Excia. componentes do glorioso PSD facção (...) de Mirabela”, concluiu com esta catártica assertiva: “Sinto em mim as necessidades dos mais e é ésta uma das rasões que tomo a liberdade de (...) apresentar-vos esta simples e particular presença”.194
Equiparando-se aos demais habitantes do lugar, Aquino reclamou a si próprio a representatividade que lhe atribuímos em seu contexto pelo viés de entendimento em que nos referenciamos acerca da historicidade dos imaginários. O papel destes na vida dos grupos sociais, na conformação das concepções de mundo das coletividades e indivíduos que as integram, não permite aos últimos se isentarem completamente à dimensão sócio-imaginária de suas experiências. Do contrário, condenar-se-iam ao isolamento em relação seus contemporâneos.195 Dito de outra maneira, como Carlo Ginzburg, autor de célebre biografia histórica, não duvidamos que “um indivíduo medíocre” ou comum seja “representativo” o bastante para “ser pesquisado como se fosse um microcosmo de um estrato social inteiro num determinado período histórico”.196 Tal orientação teórico-metodológica – em que se sustenta outra máxima da micro-história, bem sintetizada por Giovanni Levi, segundo a qual “fatos insignificantes e casos individuais podem servir para revelar um fenômeno geral”197 –, traz em si a força de um axioma, uma vez que dificilmente se discordaria de Ginzburg por ter afirmado que “da cultura do próprio tempo e da própria classe não se sai a não
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O apoio político-eleitoral aumentava as chances dos pretendentes às dádivas da autoridade. Oposicionistas não teriam chances. Os indiferentes, como ficará claro, tinham seu ingresso às redes clientelares dominantes condicionado a outras qualidades valorizadas pelos governantes e seus mediadores, dentre elas, a “humildade”, a “honestidade”, a “dedicação ao trabalho”, o reconhecimento à legitimidade do mandante, expresso em adjetivações como “representante eleito”, “humanitário”, “caridoso”, “culto” e “capaz”.
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APCM/PAD/1956.
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BACZKO, Imaginação social, 1985.
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GINZBURG, O queijo e os vermes: o cotidiano e as idéias de um moleiro perseguido pela Inquisição, p. 20.
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ser para entrar no delírio e na ausência de comunicação”. Se portanto concordamos com o autor que, “como a língua, a cultura oferece ao indivíduo um horizonte de possibilidades latentes – uma jaula flexível e invisível dentro da qual se exercita a liberdade condicionada de cada um”,198 podemos acreditar que há nos enunciados formulados por Aquino e outros missivistas concepções do político e outros domínios, quando menos vestígios destas, que nos informam sobre o universo sócio-cultural mais amplo em que viveram.199 Assim, sintomaticamente, este correspondente advertiu ao seu interlocutor: “nós”, correligionários do PSD,
(...) sentimos assim como séntem decepcionados os nossos companheiros políticos (eleitores) que até então não fomos e não podemos fornecer nenhum beneficio pela parte administrativa municipal; precisamos mostrar que a política é para fazer beneficio depois de adquirida a posição diante de tantos esforços (...) eu vos digo que em absoluto não podemos ficar assim.200
Vê-se que a prática de cambiar o sufrágio era aspecto padrão da conduta política nas vizinhanças rurais da urbe. Sendo esta tradicionalmente governada pelos chefes políticos pessedistas e seus correligionários – ao que se sabe, bastante afeitos aos “antigos métodos” de conquista do voto e graças a isso praticamente imbatíveis nos pleitos realizados no interior –, mesmo os habitantes da sede municipal, a despeito da expansão urbana e descoberta de formas coletivas de intervenção e expressão, não estiveram imunes ao fisiologismo da política local, bem traduzido pela afirmativa de que “a política é para fazer beneficio”. Um “pacto” informal, embora nem um pouco dissimulado, tendo como esquepe aquela representação utilitária do apoio político- eleitoral, balizava as relações e compromissos estabelecidos entre populares e seus representantes efetivos ou potenciais. Por conseguinte, a incondizente ausência de retribuições esperadas da atual administração pelo eleitorado do distrito, votantes do “glorioso PSD”, segundo Aquino, acarretara um “tom lôbrego em todos os setôres e principalmente na parte tocante a politica administrativa do Município”.201
O mesmo ocorreria em qualquer parte deste, em especial ao longo das duas primeiras décadas da cronologia pesquisada quando as proporções da cidade eram
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GINZBURG, O queijo e os vermes: o cotidiano e as idéias de um moleiro perseguido pela Inquisição, p. 20.
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Obviamente, acreditamos que as demais componentes do repertório de formas populares de intervenção e expressão na política inscrito no contexto pesquisado apresentam a mesma valia.
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APCM/PAD/1956 – Grifos nossos, parênteses do autor.
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reduzidas e menores as distâncias que separavam eleitores e políticos. Aos indivíduos pertencentes às camadas populares, nessas circunstâncias, a possibilidade de dirigirem- se oralmente ou por escrito a estes para lhes fazer demandas pessoais tornava-se particularmente atraente. Mas, a acessibilidade aos mandantes não deve, contudo, ser confundida com livre participação ou representatividade política satisfatória. As elites, obviamente, encontravam na proximidade com os subalternos antes de tudo um recurso para controlá-los, não raro, de modo coercitivo. Ao tentarem auferir pessoalmente benefícios aos poderosos, por sua situação de marginalidade sócio-econômica e política, os suplicantes poderiam ser, com alguma facilidade, forçados à submissão por seus interlocutores, que desfrutavam posição antípoda. Confiadas às classes dominantes, as instituições públicas locais sujeitavam-se a (ab)usos acentuadamente conservadores e nada democráticos. Por meio destas, certas autoridades controlavam as possibilidades de sobrevivência à enfermidade, concediam e retiravam oportunidades de emprego, reconheciam ou suprimiam direitos em um raio relativamente amplo, concorrendo apenas com rarefeito impacto da assistência social do Estado. Aos que se agarravam às bordas do tecido social, desse modo, impunha-se demandar proteção aos chefes políticos locais, curvando-se – porém resistindo como possível – à “velha política”, com certeza, não sem prejuízos à conquista de direitos.
Quanto mais recuamos no tempo, mais o cenário político estudado mostra- se determinado por elites capazes de regular, por meios próprios ou públicos, a distribuição dos recursos sociais disponíveis. Conseguintemente, por seu turno, os setores desprivilegiados pautam suas ações em noções pragmáticas acerca das atribuições do político de modo tanto mais claro e preponderante quando nos detemos ao início da cronologia pesquisada. Aliás, ao lado do paternalismo que obliterava a exploração exercida pelas camadas dominantes sobre estes, tal fisiologismo parece ser o que tornara possível, eventualmente, a união de interesses tão diversos em lado único. Ocorria pois que os líderes políticos, em sua azáfama por se perpetuarem no poder, além de argumentar, imaginar, representar e idealizar em defesa da duvidosa universalidade de seus projetos de poder, nutriam atitudes autoritárias e clientelistas fundadas na privatização de bens simbólicos e materiais não raro públicos. Convertendo favores, esmolas, caridade e outros elementos em apoio, fidelidade e submissão política, com efeito, permutavam direitos em privilégios. Assim, bem ou mal, obtinham sustentação à
situação hegemônica desfrutada secularmente, ao custo de relações que, por motivos alheios à representatividade política, buscavam atrair as camadas menos favorecidas para o lado dos antigos “mandões”.
Desse modo, seria ao certo forçoso que os populares se contentassem com oportunidades esporádicas e restritas, como por exemplo, as campanhas eleitorais, fazendo delas o melhor uso possível. Em tempos de eleições a política abria-se ao público, tentando disfarçar sua limitação vocacional aos interesses dos próprios governantes. Então, tornava-se possível aos desprivilegiados interporem algumas demandas, não sendo difícil obter o compromisso, ainda que verbal, dos chefes políticos em atendê-las. O comprometimento, investido de importância moral, favoreceria a cobrança de benefícios em situações futuras. Isso de fato importava aos populares, não sendo eles auto-representados nos quadros político-administrativos. Relembrando os indícios fornecidos por Aquino,202 podemos afirmar que o “povo” participava das eleições mediante promessas dos candidatos aos cargos públicos em solucionar seus problemas cotidianos. A legenda partidária seria algo provavelmente desimportante, senão enquanto formalidade exigida às candidaturas, salvo casos excepcionais. O voto convertia-se em moeda de troca, sendo confiado, a título de investimento, a futuras realizações administrativas ofertadas pelos candidatos para sua obtenção. Portanto, a própria coerção paternalista exercida sobre os pobres oferecia-lhes uma alternativa – muito pouco eficaz se vista retrospectivamente – às limitações da política convencional que não reservava espaço satisfatório aos interesses destes. Em alguma medida, os políticos locais não eram de todo refratários a indivíduos ou grupos da sociedade que os procurassem com suas reivindicações. Interessadamente, estiveram sempre atentos aos anseios populares, por vezes, como observou Laurindo Mékie Pereira, respondendo-lhes com medidas efetivas, uma vez que estes dispunham das mencionadas estratégias submissas ou insurgentes de participação política e, de acordo com as especificidades do momento, do voto.203 O resultado era uma relação recíproca, embora restritiva à emergência autônoma das classes subalternas na esfera política municipal, entre estas e os poderosos, cujos primeiros traços iniciais, ainda que parcialmente, desvaneceriam mediante os desdobramentos da experiência urbana, dando margem a outros modos de
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intervenção, os quais discutiremos nos capítulos subseqüentes. Por ora, vejamos como era o comportamento predominante entre dos atores estudados na política por volta dos anos 1930 e 1940.