Fonte: Arquivo próprio.
A aprendizagem musical sem o auxílio da partitura percorre todo o trabalho coletivo das disciplinas de Prática Instrumental Sopros/Madeiras, tanto na construção do repertório
como em diversos momentos de técnica instrumental, composição e improvisação. Também o desenvolvimento da leitura e escrita e dos elementos de estruturação musical são amplamente incentivados e presentes, tais como harmonia e teoria musical. A prática e teoria não são indissociáveis, mas complementares e caminham juntos durante todo o período letivo da Prática Instrumental.
O aluno a seguir fala do trabalho musical realizado através da aprendizagem de ouvido:
“Trabalhamos música de ouvido que é importante a gente ter trabalhado. Ter trabalhado também a música de ouvido, né?”(Estudante F).
iii) Integralmente por Partitura.
O trabalho de leitura musical por meio da partitura não está excluído deste processo. No trabalho que busco desenvolver no ensino de instrumentos de sopros/madeiras, conforme citado anteriormente, intento inserir a leitura e a escrita musical no mesmo passo em que realizo a abordagem prática. Justifico pelo contexto acadêmico em que os estudantes se encontram, ou seja, dentro da universidade e, por isso, a importância da aquisição de ampla competência para a leitura musical.
“Para tentar acompanhar os colegas eu venho estudando muito em casa, estudo de técnicas e principalmente de escalas. Um fator que eu, particularmente, tenho muita dificuldade é a teoria porque eu nunca tive vivência de leitura de partituras antes de entrar no curso, tudo é muito novo, então eu ainda tenho bastante dificuldade na leitura, mas ando me esforçando para ter um resultado satisfatório nas disciplinas”
(Estudante N).
O aluno a seguir fala que a Prática Instrumental, junto com outros componentes curriculares do Curso, pode oferecer uma base teórica aos graduandos:
“A prática instrumental é uma das disciplinas mais importantes do curso de licenciatura em música, se não a mais importante, é uma das disciplinas iniciais do curso, que em conjunto com outras, vem dar uma base ao ingressante do curso”
(Estudante A).
Assim como cita o estudante no depoimento anterior, os conhecimentos práticos e teóricos com que os alunos se deparam nas disciplinas de Prática Instrumental Sopros/Madeiras devem estar articulados com as demais disciplinas, que ocorrem sobretudo naquele semestre em que está cursando. Ficaria inviável retardar a aprendizagem da leitura
musical, uma vez que há em paralelo as disciplinas que os alunos estudam este conteúdo. Portanto, reforço a ideia da teoria em paralelo a prática para ratificar a proposta de Aprendizagem Musical Compartilhada. Para Swanwick (2003, p. 69) ler e escrever não é o objetivo final da educação musical, mas, simplesmente, um meio para quando se estiver trabalhando com algumas músicas.
“E uma formação só é perfeita se unida a teoria com a prática com perfeição, essa é a grande importância para minha formação que só consigo atingir esse objetivo com a prática instrumental” (Estudante D).
No depoimento a seguir, o aluno ressalta a importância da aprendizagem da leitura musical nos dois anos de Prática Instrumental.
“Nesses dois anos, a prática instrumental me proporcionou a vivência em um novo instrumento, além de ajudar bastante na minha leitura musical. Creio que o progresso foi extenso para quem nunca tinha pego em um sax”(Estudante L).
Sendo o trabalho musical com a partitura também presente nas disciplinas de Prática Instrumental, com o repertório os alunos exercitam a leitura musical através de arranjos diversos, alguns por mim elaborados exclusivamente para cada turma e direcionados a partir de objetivos musicais a serem trabalhados em sala e extra sala entre os alunos. Nestes arranjos busco inserir desafios que incentivem os estudantes a empreitar dedicação e interesse na aprendizagem e, consequentemente, a busca da partilha e da solidariedade entre eles. A maioria destas músicas compõe o recital final do semestre que é realizado no Auditório da UFCA. Alguns destes arranjos encontram-se nos apêndices deste trabalho para melhor apreciação do leitor66.
No trabalho com leitura musical, utilizo incialmente os exercícios do Dacapo: método elementar para o ensino individual e/ou coletivo de instrumentos de sopros e percussão e o
Dacapo: criatividade, ambos do professor Joel Barbosa; também arranjos que desenvolvo ou de outros arranjadores e também arranjos com textura homofônica67 para o desenvolvimento da afinação e que, por isso, são arranjos trabalhados no início de cada semestre.
Estas músicas são apresentadas no recital final. É importante ressaltar que o trabalho é baseado na prática coletiva. Alguns aspectos são trabalhados durante toda a aula, como
66 Os arranjos que elaborei e que não são citados diretamente nestes escritos podem ser encontrados no DVD. 67 Arranjos que possuem entre as vozes, em grande parte, ritmos iguais e alturas diferentes, ou seja, os acordes da harmonia aparecem em bloco.
afinação, postura, digitação no instrumento, dentre outros. Mas todas as partes da aula estão entrelaçadas umas com as outras.
Em relação ao trabalho com a leitura musical um dos alunos coloca:
“A questão da leitura também eu acho que melhorou. Eu vejo isso quando aqui eu aprendo e onde eu boto mais em prática é lá na banda. Eu to vendo resultado, eu to vendo que não sendo em vão. Eu to gostando. Eu sei que tem muito a aprender, mas eu to gostando” (Estudante K).
Comecei a utilizar as músicas com arranjos com textura homofônica a partir do primeiro semestre de 2011. Entretanto, havia uma dificuldade no acesso a essas músicas e por isso, para a turma ingressante em 2011, realizei uma composição chamada Estudo Coletivo I
para trabalhar, principalmente, os aspectos da afinação e leitura. Havia a intenção de desenvolver outros Estudos Coletivos, mas passei a ter acesso a vários arranjos através da internet que atendiam aos objetivos propostos e por isso não mais dediquei tempo em compor.