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Fonte: Elaboração própria (2013).

Neste exercício, a voz do solista (improvisador) foi tocada por todos na sequência do círculo em que estavam sentados, enquanto os outros executavam suas partes correspondentes. Ressalto que o improvisador realizava a transposição da escala utilizada quando fosse o caso, uma vez que desde o primeiro semestre os alunos aprendem sobre a transposição da qual seu instrumento é peculiar59. Na parte do solista estão escritas as notas da escala, como sugestão, mas em um estágio inicial sugeri aos estudantes uma seleção de notas

59 Alguns instrumentos utilizados na disciplina de Prática Instrumental são transpositores em relação ao som real. O sax soprano e clarinete são afinados em Si bemol e sua transposição se dá um tom acima do som real. O sax tenor é também em Si bemol, mas uma oitava abaixo do sax soprano e clarinete, e por isso sua transposição é uma nona maior acima do som real. O sax alto e barítono são em Mi bemol. O alto tem sua transposição de sexta maior acima do som real e o barítono, soa uma oitava abaixo do sax alto, é transposto uma décima terceira maior acima do som real. A flauta transversal não é um instrumento transpositor.

da escala para começar o processo de improvisação, como, com duas notas, com três notas, depois a escala pentatônica, e etc. O exercício era repetido quantas vezes fossem necessárias para que todos participassem no papel de solista.

Após o trabalho com improvisação em diversas aulas de Prática Instrumental, foi perceptível a reação dos estudantes, satisfeitos por realizarem esta tarefa que, para eles, era destinada aos virtuosos. Era comum os alunos solicitarem outros exercícios para as próximas aulas, assim como sugere o estudante no depoimento a seguir:

Focar no improviso, porque eu acho que o improviso ajuda muito” (Estudante A).

Um dos alunos faz uma síntese do trabalho da improvisação nos quatro semestres:

Esse momento [da improvisação] proporcionou maior autonomia para os alunos, exercitou a performance e exigiu de nós segurança e tranquilidade perante o público

(Estudante B).

Percebi com as ações propostas de aprendizagem criativa do instrumento musical que os conhecimentos trazidos pelos alunos, e que delinearam a ecologia e diversidade de saberes, foram incutidos, sobretudo por eles, no processo criativo musical. Tais saberes ganham cor e forma com o que é adquirido pela interação e experiência na prática instrumental sopros- madeiras. Essa zona de desenvolvimento proximal e musical foi por mim observado no momento das execuções musicais derivadas do processo criativo. E a partir desta percepção busquei ampliar o leque técnico e criativo com outras ações, como a proposição de repertório.

5.2.1.3 O Repertório e a Aprendizagem do Instrumento Musical

O repertório e os arranjos musicais que buscam desenvolver determinadas competências e habilidades podem ser um meio significativo para desenvolver de forma dinâmica à execução do instrumento musical. Através de arranjos, nos quais vêm intrínsecos aspectos técnicos a serem explorados, o professor pode incutir estímulos para buscar dedicação e vontade de estudo por parte dos alunos, além de ser um recurso técnico mais aliciante, estimulante e dinâmico. Para além dos conhecimentos técnicos musicais, o programa de repertório pode latentemente trazer saberes sociais e culturais que refletem diversas influências pedagógicas e relações sociais (ALMEIDA, 2010).

Na pesquisa que desenvolvi no curso de mestrado60 sobre as aprendizagens advindas do repertório, pude perceber que os arranjos executados por um grupo podem ser um importante meio para a afirmação da aprendizagem musical. Para tanto, é necessário, por parte do professor/regente, um planejamento e objetivos pedagógicos inerentes a cada peça musical proposta (ALMEIDA 2010).

As músicas são geralmente escolhidas no início do semestre letivo e são feitos os arranjos para aquelas que não estão adaptadas para o grupo de instrumentos de madeiras. Outras são definidas no decorrer do semestre, observando a aprendizagem dos estudantes e inserindo nos arranjos elementos musicalmente desafiadores para cada um, a fim de que possam desenvolver sua técnica e executar o arranjo da melhor forma possível. A maioria das músicas é conhecida dos alunos, facilitando sua aprendizagem, outras são desconhecidas, no intuito de ampliar o repertório dos estudantes.

Uma dos aspectos que contribuem para o delinear pedagógico em busca da aprendizagem discente, são as competências que busco desenvolver para a prática do arranjo musical. Tal prática é constantemente posta em uso, com a atenção de incluir nestes arranjos conhecimentos estudados e conhecimentos trazidos pelos estudantes, a fim de que sejam executáveis por todos, mas que possam se tornar um desafio para eles. Além dos arranjos que busco realizar, utilizo alguns arranjos de outros músicos para também incitar a percepção dos alunos a outras formas de instrumentação.

A utilização de músicas como meio para o desenvolvimento da execução ao instrumento também é realizada por outro professor de Prática Instrumental do Curso. Através das peças musicais, para ele, fica mais fácil a realização do trabalho:

Tô trabalhando mais peças do que, digamos, métodos em si, métodos de ensino coletivo. Como os meninos já têm certa iniciação musical, já tem certo conhecimento musical, conhecimento das escalas, da leitura de partitura, fica mais fácil de você trabalhar(Professor A).

A aprendizagem das músicas na Prática Instrumental Sopros-Madeiras ocorre por meio da partitura e de ouvido (sem a partitura)61. Desta maneira classifico a aprendizagem do repertório na prática instrumental aqui estudada da seguinte maneira: i) integralmente de ouvido, ii) parcialmente de ouvido e iii) integralmente por partitura.

60 Ver: ALMEIDA, José Robson Maia de. Tocando o repertório curricular: bandas de música e formação musical no Ceará. [Dissertação de Mestrado]. Fortaleza: Universidade Federal do Ceará (UFC), 2010.

61 Nos anexo estão disponíveis outros arranjos, por mim elaborados, e que foram utilizados para desenvolver as habilidades técnicas no instrumento.

Como os arranjos musicais podem influenciar na aprendizagem musical dos estudantes? Como articular os conhecimentos anteriormente estudados com os arranjos a serem executados? Como prover desafios musicais a partir do repertório?

i) Integralmente de Ouvido.

Na primeira aula do primeiro semestre, quando surgem os sinais sonoros produzidos pelos alunos no instrumento escolhido, como já foi citado, ensino o refrão de Berimbau, de Baden Powell e Vinícius Morais, sem auxílio da escrita musical, mesmo porque há alguns alunos que não tem experiência de leitura, a fim de que possam, musicalmente, desenvolver a embocadura do instrumento e para que saiam do primeiro dia de aula com a sensação de que fizeram música.

A criação e a improvisação aparecem intercalando-se com o refrão de Berimbau, mesmo sendo esta improvisação somente com duas notas para aqueles que estão iniciando no instrumento e, para aqueles que possuem experiência, há possibilidades de diversas notas. A improvisação aparece para incentivar a expressão musical. Neste momento a colaboração ocorre fortemente quando aqueles experientes auxiliam os demais com os aspectos técnicos iniciais, como digitação, postura e manejo do instrumento.

Relacionado com a utilização da improvisação/criação no início da aprendizagem musical, Gordon (2000, p. 370) afirma:

Uma maneira de motivar os alunos que estão a iniciar-se no estudo de um instrumento e, ao mesmo tempo, torná-los menos ansiosos quanto ao fato de não terem livros com a notação impressa, é fazer a ponte, logo que possível, do nível de associação verbal para o nível de criatividade/improvisação da aprendizagem, nas actividades instrumentais.

A música Berimbau tem sido um recurso utilizado praticamente em todo início de primeiro semestre, pelo fato de ter somente duas notas em uma de suas partes e pertencer a linhagem da música popular brasileira, carregada de nuances que se aproximam da vivência musical dos estudantes, tornando mais fácil sua aprendizagem. Para as demais partes mais difíceis da música, solicito a execução para um aluno que ingressa com mais experiência no instrumento. Quando não há na turma, encarrego-me dessa tarefa.

A partitura a seguir é um exemplo usado na aula. Por vezes, os instrumentistas permutam as vozes de acordo com suas habilidades no instrumento de maneira que todos participem deste momento. O resultado deste trabalho pode ser visto com mais detalhes no

recital de encerramento do semestre 2014.1, ocorrido em 29 de maio de 2014 no auditório da UFCA, gravado em filme no arquivo Vídeo 3 - Berimbau, disponível no DVD em anexo.

Benzer Belgeler