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1. MUSTAFA KUTLU’NUN HAYATI VE HİKÂYELERİ

3.3. Halk Bilgisi

No interior do movimento feminista também encontramos uma diversidade teórica e política quanto à compreensão da prostituição. Segundo Piscitelli (2007), o debate se deu a partir das diferenças no que concernem às representações acerca da sexualidade. Enquanto algumas tendências feministas compreendiam a sexualidade como um componente utilizado para tornar as mulheres objetos dos homens, não as possibilitando ascender como sujeito de direito, outras a compreendiam como um campo de possibilidades para a liberação das mulheres do domínio masculino.

Para Piscitteli (2007), conforme Chapkins:

Essas diferenças, atualizadas no marco da segunda onda do feminismo, essas diferenças teriam tido o efeito da criação de dois campos dicotômicos descritos, de maneira simplista, um como hostil ao sexo, que era percebido como fonte de opressão feminina em uma ordem patriarcal e outro que defendia o sexo como fonte de prazer e poder nas vidas das mulheres (2005, p. 13).

Nesse sentido, segundo a autora, os debates acerca dos significados e funções do sexo, à medida que foram se complexificando, intensificaram-se também as discussões acerca da prostituição, ficando, paradoxalmente, de um lado a prostituta como a oprimida sexualmente pelo homem, e de outro, como uma espécie de agente subversiva no interior da ordem social sexista.

Nos finais do século XIX iniciou-se na Europa um movimento contra o regulamentarismo, protagonizado por feministas que consideravam a prática da prostituição uma escravidão humana. Josefine Butler, feminista da Federação Abolicionista Internacional, em 1875, afirmava:

Se a prostituição é uma necessidade social, uma instituição de saúde pública, então os ministros, os prefeitos da polícia, os altos funcionários, os médicos que a defendem, faltam a todos os deveres, não lhes consagrando as suas filhas (SANTOS, 1982, p. 21).

Havia, portanto, o entendimento por parte das autoridades de que a prostituição era necessária não só para conter instintos como para preservar a família. Para as feministas, esse posicionamento implicava uma desigualdade entre homens e mulheres, já que se isentavam os homens da reprovação social enquanto as mulheres envolvidas eram estigmatizadas.

As campanhas abolicionistas reuniram milhares de mulheres. Por mais que as vertentes higienicistas tivessem bastante força política, surgiram posições

feministas contundentes que trouxeram à tona as distintas formas de vivenciar a sexualidade para homens e mulheres, principalmente no tocante ao modo “irrefreável” que era atribuído aos desejos masculinos.

É pertinente ressaltar, nesse contexto, o aprofundamento, no cenário público, do debate das mulheres em torno da sexualidade e dos direitos neste campo. “A mobilização das mulheres feministas das classes médias, em defesa das prostitutas provenientes da classe operária, marcou uma aliança interclassista de cariz feminista” (NASH, 2005, p.104).

A intervenção do Estado sobre a prostituição apenas pretendia a limpeza sanitária imposta policialmente às prostitutas e não a melhoria das suas condições sociais. Foi esta política discriminatória que motivou uma crescente mobilização feminista em torno deste problema (TAVARES, 2006, p.02).

Convém ressaltar que o movimento abolicionista, desde suas primeiras mobilizações, considera a prostituição incompatível com a dignidade humana, estando as prostitutas na condição de vítimas, que não devem ser punidas, mas sim incentivadas a deixar a prática prostitucional. Nesse sentido, se deve punir a exploração comercial da prostituição ou a atividade de rufianismo36.

Em 2 de Dezembro de 1949 é aprovada pelas Nações Unidas a Convenção Internacional para a repressão do tráfico de seres humanos e da exploração da prostituição de outro, que nos seus artigos 1º e 2º determina punir todas as pessoas que exploram a prostituição de outra pessoa, mesmo consentida, assim como todos os que contribuem para abrir estabelecimentos orientados para a prostituição. No preâmbulo declara-se que a prostituição é incompatível com a dignidade da pessoa humana (TAVARES, 2006, p.03).

Entre os anos 1970 e 1980, algumas organizações feministas, tanto nos EUA quanto na Inglaterra, apoiaram as reinvidicações que emergiam nesse

36 Artigo 230 do Código Penal, tirar proveito da prostituição alheia, participando diretamente de seus

contexto, no qual as prostitutas buscavam denunciar a violência policial e a criminalização do Estado (TAVARES, 2006).

A partir da década de 1980, eclodiu uma tensão ideopolítica entre as feministas que reconheciam a prostituição como uma atividade legítima, a partir de um ato de escolha, ou seja, que as prostitutas fizeram uso do seu direito de escolha na decisão de se prostituir, e as que compreendiam a prostituição como uma forma de violência contra as mulheres, de opressão patriarcal. Esses posicionamentos polarizados levaram a uma fragmentação no movimento feminista mundial. Enquanto parte lutava ao lado das prostitutas contra as condições de exploração e violência no interior da indústria do sexo, outras lutavam para que o Estado interviesse de forma mais rígida para interditar tal indústria (PHETERSON, 2000).

A perspectiva abolicionista é adotada por algumas feministas, como (Pateman (1993), Raymond (2003) e Hughes (2004), que consideram a prostituição como uma violência e negação dos direitos humanos das mulheres, atribuindo-lhes a condição de vítimas, dadas às condições de desigualdade e exploração a que são submetidas. Vale ressaltar que esse posicionamento está em consonância com a perspectiva adotada pelo Estado brasileiro, bem como com a perspectiva adotada nesse estudo. As prostitutas são levadas à prostituição sem escolhas, vivendo para servir aos homens, legitimando, desta forma, a ordem sexista e patriarcal, na qual a subordinação da mulher ao homem fica evidenciada no que concerne a dispor de seu corpo para satisfazer os desejos de quem possa pagar, reforçando a ideia da mulher como propriedade do homem (PATEMAN, 1993).

Há ainda, nessa perspectiva, o estudo de Raymond (2003), que entende a prostituição como uma forma que as mulheres encontram para sobrevivência. Contudo, essa perspectiva é rebatida por Fonseca (1996) cuja afirmação atribui a atividade prostitucional um opção “nada desprezível” para as mulheres pobres e sem escolaridade.

Evidentemente que tal análise permanece acrítica as condições aviltantes que perpassam as relações na prostituição. Nega as determinações que faz com que muitas permaneçam nesse tipo de atividade por circunstancias alheias a sua vontade.

A segunda perspectiva parte de um grupo de acadêmicas e militantes que consideram a vinculação das mulheres com o sexo, a fonte de maior poder, vêem na prostituição “um símbolo da autonomia sexual, e como tal, uma ameaça ao controle

patriarcal sobre a sexualidade das mulheres” (PISCITELLI, 2005, p.14). Vale ressaltar que tal discurso foi incorporado pela “indústria do sexo” e é utilizado como estratégia para justificar a prostituição, atribuindo à mulher o direito de dispor de seu próprio corpo.

Nesse sentido, pouco a pouco as reivindicações feministas são incorporadas por esse lobby, admitindo que o direito de dispor do corpo torna-se o direito de vendê-lo. Logo, o direito de se prostituir é assimilado como expressão de liberdade. O “mercado do sexo” manipula a sexualidade potencializando uma demanda (pornografia, turismo sexual), buscando atualmente criar uma demanda feminina (cf. LEGARDINIER, 2000) [tradução nossa].

Contrapondo-se a perspectiva de superação da ordem patriarcal, Björk aponta que:

El hecho es que los "liberales" en el debate actual sobre la prostitución tienen poco que hacer con la libertad sexual (y no con la libertad sexual de las mujeres), pero de alguna manera forman parte de la perspectiva de género, políticas dominantes que gritan por los mercados liberalizados, incluyendo el mercado que comercia con los cuerpos de las mujeres. La atracción de las visiones de liberalización / legalización no sólo nada por encima del dominio general de las políticas económicas liberales. También existe el enfoque liberal habitual que cuando las cosas son complejas y parece haber resistencia y dificultades, ofrece una solución de alguna manera "más fácil" el enfoque individualista (2002, p.03).

Outrossim, Beauvoir considera que é na prostituição que [...] a mulher é oprimida sexualmente e economicamente, submetida ao arbítrio da polícia, a uma humilhante vigilância médica, aos caprichos dos clientes, destinada aos micróbios e à doença, é realmente submetida ao nível de uma coisa (BEAUVOIR apud SWAIN, 2004, p.25).

A nosso ver, a vivência plena da sexualidade, ao contrário do que admitem algumas correntes feministas, não tem necessariamente que passar pela prostituição, no qual só há o direito unilateral ao uso sexual do corpo por parte do

cliente. Compreendemos que autonomia37 deve estar pautada em relações

igualitárias, assegurados os desejos afetivo-sexuais, como uma escolha e não um negócio do qual as mulheres precisam utilizar-se como modo de sobreviver, dissociado de qualquer compreensão de subversão e/ ou superação de uma determinada ordem.

Tem cliente que vem para cá trata a gente mal e você ter que ficar queta, fazer o que eles quer e pronto, espero que um dia eles vejam com os olhos deles mesmo, a gente como gente (TAÍS,25ANOS).

Nesse sentido, partimos do entendimento de que essas mulheres são exploradas sexualmente, e mesmo obtendo algum dinheiro, perdem sua autonomia, o direito sobre si, a decisão sobre seu corpo, com consequência para outras dimensões da sua sociabilidade. Assim sendo, para as mulheres que se prostituem representa, de fato, uma forma de violência, pois estão invariavelmente envoltas numa relação de opressão (cf.SOUZA, 2008), visto que, por um lado são exploradas pelo sistema capitalista, por outro, servem ao sistema patriarcal como um mecanismo do qual os homens se utilizam, tanto para afirmar sua virilidade, quanto para exercitar a superioridade, imposta muitas vezes por intermédio do poder de compra que o dinheiro lhe outorga.

À luz dessa concepção, ressaltamos que tal discurso pauta-se numa lógica invertida do real significado do que seja autonomia. Aqueles (as) que defendem essa perspectiva têm que analisar mais profundamente os aspectos que permeiam a prática da prostituição e perceber as concessões que muitas prostitutas fazem para garantir minimamente sua sobrevivência e de sua família, e que esses atos não passam por uma ação política deliberada de subverter a ordem patriarcal.

Os (as) que defendem a regulamentação da prostituição tentam deslegitimar a posição feminista contrária a ideia de prostituição como trabalho,

37 “Termo introduzido por Kant para designar a independência da vontade em relação a qualquer

desejo ou objeto de desejo e sua capacidade de determinar-se em conformidade com uma lei própria que é a da razão”. IN: ABBAGNANO, Nicola. Dicionário de Filosofia. 4. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2000. Adotamos neste estudo uma perspectiva crítica a esta concepção, visto que as prostitutas ao estarem sob os ditames do sistema capitalista-patriarcal o qual mercantiliza seus corpos como fonte de lucro, não podem exercer a sua livre vontade com independência.

atribuindo a condição de conservadoras, moralizadoras, vitimizantes e estigmatizantes das prostitutas.

Como não se opor a tal prática se a entendemos como uma das formas mais contundentes de opressão das mulheres? Ou ainda como assegurar o uso livre do próprio corpo como um direito humano, quando as condições na qual a prostituição é praticada violam a dignidade da pessoa? Nesse contexto, há ainda a desvinculação da sexualidade do sujeito prostituta. Nesse sentido, vender a sexualidade significaria vender uma parte fundamental do ser. “O pagamento às prostitutas serviria para ocultar o abuso sexual, aparentemente transformando-o em trabalho” (PISCITELLI, 2007, p.188).

Evidentemente que necessitamos dessa leitura crítica dos posicionamentos que se distinguem no interior dos feminismos, não recusando as contradições sob pena de esvaziamento do debate. Entretanto, é preciso articular estratégias políticas que incorporem as prostitutas na agenda de discussão e não conduzam o debate em nível de generalizações que não atendem as emergenciais condições de opressão e exploração a qual estão sujeitas grande parte das prostitutas.

A ordem sexual dominante subordina os corpos e a sexualidade feminina aos desejos do macho, transformando as mulheres em objeto lucrativo no mercado do sexo, onde impera a heterossexualidade obrigatória como padrão normativo de sexualidade.

Benzer Belgeler