Soberano é quem decide no estado de exceção.
Carl Schmitt
No início da obra Teologia política, Carl Schmitt estabelece e delimita o conceito de soberania em estreita relação com o poder soberano, enraizado e estribado na decisão sobre o estado de exceção. Assim, “Soberano é quem decide sobre o estado de exceção”127. Nesse sentido, o pensador alemão salienta e esclarece que esta definição indica um conceito limítrofe e, portanto, não pode ser vinculado ao caso normal, tendo que ser entendido na perspectiva de um conceito geral da teoria do Estado, mas não qualquer ordem de necessidade, mas em um âmbito de uma definição jurídica de soberania sustentada em um motivo sistemático, lógico-jurídico.128
Desse modo, Carl Schmitt contrapõe as teorias então em voga, sobretudo o positivismo jurídico e o liberalismo jurídico-estatal (na figura de Mohl) para o qual a presença de um estado de necessidade não poderia ser jurídica, pois ele parte “[...] do pressuposto de que uma decisão, em sentido jurídico, deve ser completamente deduzida do conteúdo de uma norma”129. Destarte, desenvolve uma nova visão que configura uma compreensão estatal diferenciada, sob novos alicerces, porém não decorrente e identificada com o próprio ordenamento legal, pois “O caso excepcional, o caso não descrito na ordem jurídica vigente pode ser, no máximo, caracterizado como caso de extrema necessidade, como risco para a
direito como idêntico ao Estado e o Estado como despojado de qualquer elemento decisório – aquele que é, no plano jurídico, o seu mais radical adversário” (SÁ, Alexandre Franco de. O poder pelo poder – ficção e ordem no combate de Carl Schmitt em torno do poder. Lisboa, p. 228).
127
SCHMITT, Carl. Teologia política, p. 7.
128 Conforme Bernardo Ferreira: “O recurso de natureza metódica às oposições de normalidade e anormalidade, situação normal e caso de exceção contém, na verdade, uma premissa implícita de fundo substantivo,
arriscaria a dizer de caráter ontológico: no curso regular da vida, os fatores constitutivos da experiência tenderiam a se ocultar sob a fachada da sequência regulada do acontecer, de modo que tal sequência vem a ser vista como auto-instituída e dotada de validade universal. Para Schmitt, somente uma perspectiva que parta do caso de exceção seria capaz de extrair as “determinações” últimas da experiência concreta”. (FERREIRA, Bernardo. Exceção e história no pensamento de Carl Schmitt. In: Revista Brasileira de Estudos
Políticos, p. 343-382, jul./dez. 2012, p. 348). [grifo do autor]. 129 SCHMITT, Carl. Teologia política, p. 7.
existência do Estado ou similar, mas não ser descrito como pressuposto legal”130, portanto, fixado, estabelecido e alicerçado em uma suspensão da ordem jurídica.
A exposição schmittiana parte da imagem da exceção como pressuposto fundamental em vista de se pensar a ‘realidade concreta’ no que concerne à vida social e política como algo indeterminado e mesmo contendo em si um caráter de precariedade. Essa concepção de uma potencial excepcionalidade se configura a partir do embate entre a ideia de uma regra contida em si própria, assente em uma premissa que compreende a correspondência entre seus princípios normativos e os fatos sobre os quais se exerce a governabilidade. Nessa acepção, segundo Schmitt,
[...] uma filosofia da vida concreta não pode se retrair diante da exceção e do caso extremo, porém deve interessar-se por isso em grande medida. A ela deve ser mais importante a exceção do que a regra, não por uma ironia romântica do paradoxo, mas com a inteira seriedade de um entendimento que se aprofunda mais que as claras generalizações daquilo que, em geral, se repete. A exceção é mais interessante do que o caso normal. O que é normal nada prova, a exceção comprova tudo; ela não somente confirma a regra, mas esta vive da exceção. Na exceção, a força da vida real transpõe a crosta mecânica fixada na repetição131.
Frente ao acima exposto, evidencia-se o caráter de importância dado à exceção enquanto recurso de oposição à generalidade abstrata do dever-ser normativo, em virtude de se pensar o ser da ‘vida real’, com um potencial extraordinário. Esse potencial extraordinário, a prioridade que é atribuída à exceção, conforme Bernardo Ferreira, permite “[...] “revelar o núcleo das coisas”, [...] um postulado sobre a natureza mesma dessa realidade. O privilégio metódico que adquire a exceção como ponto de vista encontra sua outra face na centralidade ontológica que se atribui à exceção como experiência constitutiva da vida social e política”132. Isto se deve ao fato de que a realidade concreta não obedece a critérios racionais meramente calculáveis e dedutíveis, de tal modo que não pode ser previsto de um modo antecipado. Nesse sentido, Schmitt é enfático ao afirmar: “A exceção não é subsumível; ela se exclui da
130 Idem, Teologia política, p. 8. 131 Ibidem, p. 15.
132
FERREIRA, Bernardo. Exceção e história no pensamento de Carl Schmitt. In: Revista Brasileira de Estudos
Políticos. Belo Horizonte, n. 105, jul./dez. 2012, p. 343-382, p. 349. [grifo do autor]. Ainda, de acordo com o
autor, “No pensamento de Carl Schmitt dos anos 1920, o tema da exceção se apresenta – prioritariamente, embora não de forma exclusiva – como resposta a um conjunto de questões no campo da Teoria e da Filosofia do Direito. Em particular, como uma tentativa de pensar o problema do fundamento e das condições de validade de uma ordem normativa” (p. 349-350).
concepção geral, mas ao mesmo tempo revela um elemento formal jurídico específico, a decisão na sua absoluta nitidez”133.
O estado de exceção, em sua configuração, emerge somente e quando uma determinada situação deve ser criada a partir da validação por meio de princípios jurídicos. Isto é, na compreensão de Carl Schmitt não existe norma que possa ser simplesmente aplicada ao caos, ou seja, precisa ser criada uma ordem, uma situação normal, e aqui entra o papel do soberano, enquanto agente que decide, de modo definitivo, sobre se uma determinada situação de normalidade é efetiva. Destarte, o soberano detém a prerrogativa e o poder de criar e garantir uma situação, como um todo, em sua completude, posto que ele têm, em última instância, o poder de decisão.134
Desse modo, o estado de exceção revela e evidencia de modo clarividente a natureza essencial da autoridade estatal. Logo, o caráter decisório de tal autoridade distingue-se da norma jurídica de tal modo que comprova poder criar o direito (direito situacional), sem que para isso, necessariamente, precisa ter razão ou mesmo direito para tal. A natureza da autoridade soberana assim se expressa:
Ele decide tanto sobre a ocorrência do estado de necessidade extremo, bem como sobre o que se deve fazer para saná-lo. O soberano se coloca fora da ordem jurídica normalmente vigente, porém a ela pertence, pois ele é competente para a decisão sobre se a Constituição pode ser suspensa in toto135.
A partir da passagem supracitada, em que se enuncia a prerrogativa de ação do soberano, também fica exposto o paradoxo de tal modelo de soberania, no qual esse poder soberano pode, por excelência, instituir e estabelecer de modo legítimo o estado de exceção que consiste na suspensão do ordenamento jurídico. Tal paradoxo compreende, conforme explicita Gustavo Oliveira de Lima Pereira, “[...] o soberano, nesta condição, está, ao mesmo
133 SCHMITT, Carl. Teologia política. Trad. Elisete Antoniuk. Belo Horizonte: Del Rey, 2006, p. 13. 134
A exposição de Moyses Pinto Neto explicita de modo ímpar a proposta schmittiana, vejamos: “Seu objetivo era a inscrição do estado de exceção num contexto jurídico.Tratar-se-ia de uma inscrição paradoxal, à medida que se pretende inscrever no Direito algo externo a ele; algo que significa nada menos que a suspensão da própria ordem jurídica. O operador fundamental da Politische Theologie (teologia política) para efetivar a difícil ligação que Schmitt pretendia concretizar era a distinção entre dois elementos: a norma (Norm) e a decisão (Entscheidung, Dezision). Mesmo suspendendo a norma, o estado de exceção manteria intacto, na mais absoluta pureza, um elemento formal e jurídico: a decisão. Os elementos, norma e decisão, manteriam autonomia” (NETO, Moysés da Fontoura Pinto. O rosto do inimigo: um convite à desconstrução do direito penal do inimigo. Rio de Janeiro: Lumen Juris, 2012, p. 21).
tempo, fora e dentro do ordenamento. Nesses termos, o soberano, na medida em que detém o poder legal de suspender a validade de uma norma, coloca-se legalmente fora da norma”136. Nesse contexto de análise, Giorgio Agamben, relendo a obra do pensador alemão, considera e ilustra tal paradoxo, como se lê: “a lei está fora dela mesma, ou então: “eu soberano, que estou fora da lei, declaro que não há um fora da lei”137.
Nessa acepção, a decisão soberana instaura uma ordem a partir de um contexto de necessidade, de emergência, criando uma situação de normalidade jurídica, na qual atuam as instituições. Assim, a ordem jurídica, bem como toda a ordem, repousa em uma decisão e não em uma norma. Nessa esfera, o estado de exceção, sendo algo distinto da anarquia e do caos, subsiste, em sentido jurídico, numa ordem, mesmo que esta não seja necessariamente uma ordem jurídica. Consequentemente, o Estado permanece tendo uma supremacia em relação a qualquer espécie de vínculo normativo. Nesse interstício, “Em estado de exceção, o Estado, suspende o Direito por fazer jus à autoconservação, como se diz”138, de tal forma que a norma (lei) passa a ser aniquilada, permanecendo a ordem e a decisão, conservadas no âmbito jurídico.