C. MANEVĠ HAKLAR
3. Haklar
No Santuário de Fátima, os movimentos são multifacetados, ponderando-se entre institucionais e simbólicos. Forças que fomentam dinâmicas caracterizadoras da fluidez do objeto-sujeito geográfico a ser analisado.
Se o santuário é fixo no espaço, as representações que o constituem e são constituídas por ele passam longe dessa possibilidade, até porque o santuário é obra humana e como tal se estabelece no entremeio de passagens bíblicas. Entre outros exemplos, no Genesis
(Antigo Testamento) Caim e Abel expressam a rivalidade entre a agricultura (fixação) e o pastoreio (a mobilidade), nos domínios humanos (ONFRAY, 2009).
São considerações sobre o movimento, inclusive, que nos levam a afastar-nos do marasmo da fixidez geométrica da geografia neopositivista, por exemplo. Ponto de vista relevante, pois buscamos tratar de um lugar denso de relações e em constante movimento, onde “o “aqui” é nada mais (e nada menos) do que nosso encontro e o que é feito dele. É, irremediavelmente, aqui e agora. Não será o mesmo “aqui” quando não for mais agora” (MASSEY, 2008, p. 201).
É no contexto das relações entre fixos e fluxos (SANTOS, 1996) ou em uma definição mais recente de sistemas de objetos e sistemas de ações (SANTOS, 1997), inseridos no contexto de intersubjetividade e vivência do espaço (BOLLNOW, 2008), que pretendemos compreender o Santuário de Fátima. Sem nos esquecermos da escala íntima, mas não encerrada, da casa-lar-lugar que apresentamos há pouco.
De antemão, é de bom grado explicar que as dinâmicas logo apresentadas, de maneira diferenciada, também são propostas por pensadores como Santos (1997), o qual indica que horizontal e vertical têm uma antiga presença na geografia, assim como por Mangematin e Younès (1996).
O primeiro, situando a análise das verticalidades e horizontalidades na compreensão da relação lugar-mundo e os seguintes, caracterizando a espacialidade, ou de outra maneira, a dinâmica do lugar, a partir do que chamam de tensions dynamiques representadas pela horizontalité, verticalité, profondeur e frontalité. São representativas exatamente da geografia do movimento, não satisfeita com o encerramento de categorias e conceitos, assim como, e principalmente, do encerramento da análise social.
Nosso objeto-sujeito é outro, contudo a consideração sobre a necessidade da análise das dinâmicas geográficas é praticamente a mesma, por mais que as dinâmicas agora apresentadas apontem para outros planos. Eis as dinâmicas que serão discutidas no decorrer deste trabalho.
Dinâmicas verticais: representativas, principalmente, da relação casa-outro mundo numa dimensão simbólica comunicacional, são caracterizadas por uma comunicação entre os fiéis e o outro mundo, a partir da casa. Tais dinâmicas são marcadas pelas intermediações entre a casa e o outro mundo, a partir das materializações simbólicas direta ou indiretamente referentes ao santuário (santinhos, estátuas, terços, imagens etc.) e dos serviços em prol do sagrado prestados pelo mesmo (confissões, aconselhamentos etc.). Essas intermediações,
a nosso ver, são fomentadoras da sacralidade do santuário, de sua denominação enquanto lugar sagrado e enquanto casa da mãe de Deus.
Dinâmicas horizontais: representativas, em especial, da relação casa-mundo, em sua dimensão técnica comunicacional, tais dinâmicas referenciam as relações entre a parte institucional do santuário (outra faceta da casa representada, em especial, pelos funcionários do santuário, assim como pelos especialistas do sagrado) e o mundo. Estas principiando das relações internas a casa e entre a casa e o bairro, desdobrando-se em escalas mais amplas. Qualificam o santuário para além de seu contexto sacro, demonstrando sua institucionalidade, isto é, sua condição administrativo-institucional, política e territorial. Elementos esses também fomentadores do imaginário da sacralidade do Santuário de Fátima em que as relações com o mundo profano, por princípio, alimentam as delimitações sagradas (OLIVEIRA, 2001).
Em ambas as dinâmicas, podemos perceber a centralidade da categoria casa e a importância de seus compon(entes) para a compreensão de sua relação com o outro mundo e o mundo. Sem essa centralidade, em realidade, pautada a partir dos sujeitos-grupos de fé do santuário, pois a casa enquanto centralidade é intermediação, não poderíamos descortinar a espacialidade sacro-profana preponderante nessa peculiar geografia da religião de Fátima. Não obstante, para traçar a força do elo entre as duas dinâmicas supracitadas havemos de a posteriori relacioná-las. São as dinâmicas relacionais que buscam explicar esse contato.
Dinâmicas relacionais: representativas da relação casa-rua-outro mundo ou casa- mundo-outro mundo, estas dinâmicas são concebidas, em especial, pelo momento festivo. Sua maior intensidade, em se tratando do Santuário de Fátima, se dá nos dias 13 de todo mês, principalmente nos dias 13 de maio e 13 de outubro. O encontro é a palavra-chave neste espaço-tempo efêmero, o “aqui e agora”, bem lembrado por Massey (2008). Desse modo, as festividades em Fátima vigoram a intermediação entre as categorias que nos propomos analisar, fazendo-as convergir, pois é obra de todo o trabalho simbólico e institucional elaborado pelo santuário.
Todavia, elementos transversais perpassam as dinâmicas que explicam o Santuário de Fátima, fazendo papel de elo e sendo basilares para uma complementação compreensiva do santuário. São eles: a questão patrimonial, a comunicação, a política, a questão urbana e a visitação, ou seja, elementos (in)diretamente relacionados ao santuário, mas de suma importância para sua representatividade plural. No trabalho, os denominaremos
de travessias, sendo elas inseridas em momentos distintos da dissertação, em ocasiões onde a discussão pode ser enriquecida ou mesmo preenchida. Para uma visão geral das dinâmicas apresentadas, vejamos a figura abaixo.
Figura 02: Representação das Dinâmicas Geográficas no/do Santuário de Fátima. Fonte: Elaborado por Tiago V. Cavalcante, 2010.
Não à toa, pensamos que a casa da mãe de Deus comporta o (outro) mundo. E é a partir das suas dinâmicas geográficas que podemos caracterizar esse peculiar encontro, corroborando com Jean-Marc Besse (2006, p. 82) ao dizer: “O geógrafo habita o mundo ao mesmo tempo em que procura compreender-lhe as estruturas e os movimentos”.