• Sonuç bulunamadı

BÖLÜM 2: ABDÜLMELİK B. HAB î B’İN HAD î SÇİLİĞİ

2.6. İbn Habîb ve Hadîs İlmi

2.6.1. Hadisi Anlama ve Yorumlama Metodu

Passaremos agora a uma reflexão sobre o conceito de comunidade, o qual é fundamental para compreendermos mais a respeito desse sujeito do orkut. Para tal, debruçar-nos-emos sobre algumas considerações de Bauman (2003) a respeito da comunidade, tentando estabelecer uma ponte entre as reflexões desse estudioso com o nosso objeto de estudo, ou seja, as comunidades virtuais e as redes sociais.

Bauman inicia sua introdução ao conceito de comunidade analisando a carga semântica que essa palavra carrega. O autor ressalta o fato de que, quando utilizamos esse termo, o fazemos quase sempre para referir a algo que abriga, que traz conforto ou o sentimento de pertencer, de estar inserido, identificado no interior de um determinado grupo. Para Bauman,

Numa comunidade todos nos entendemos bem, podemos confiar no que ouvimos, estamos seguros a maior parte do tempo e raramente ficamos desconcertados ou somos surpreendidos. Nunca somos estranhos entre nós... nunca desejamos má sorte uns aos outros, e podemos estar certos de que os outros à nossa volta nos querem bem. (BAUMAN, 2003, p.8)

Essas considerações nos remetem a um conceito de comunidade como um elo que une os sujeitos por um determinado traço identitário, causando nos mesmos a impressão de não estarem sozinhos, ou seja, a comunidade (religiosa, científica, partidária, virtual ou de outras ordens diversas) parece operar como um amálgama que une sujeitos diferentes a partir de um (ou mais) ponto(s) de identificação, funcionando como uma espécie de “morfina” que traz o alívio para a agonia gerada pelo aspecto fragmentado do homem contemporâneo.

O efeito sedutor do pertencimento a uma comunidade parece apelar ao indivíduo moderno no sentido de preencher (ou fomentar a ilusão do preenchimento) de uma lacuna, de uma sutura identitária de um sujeito cada vez mais afetado por

uma sociedade que aposta no poder do indivíduo, daquele que escolhe e traça o seu caminho na sociedade “conscientemente”, preparando-se para um mundo competitivo no qual precisamos apenas fazer as escolhas corretas para obter o sucesso e o reconhecimento. Essa investida hegemônica de uma ideologia do “eu” parece operar no apagamento dos traços que vinculam o sujeito aos seus semelhantes, tendo como conseqüência esse desejo de pertencimento (de um pertencimento que outrora existiu ou se imaginou existir), desejo esse que pode direcionar um indivíduo a uma religião, um partido político, um fã-clube, etc.

O conceito de comunidade, de acordo com o que Bauman observa, parece estar perpassado por um vínculo de cooperação entre seus membros. Esse vínculo, no entanto, não é regulado por nenhuma lei que tenha sido escrita ou enunciada, mas por uma “certeza” que temos dentro de nós mesmos de que não deixaríamos à deriva um membro da comunidade que estivesse carente de ajuda ou de conforto, e que, portanto, podemos esperar dos membros da comunidade a que pertencemos o mesmo tipo de “voluntarismo”. “Nosso dever, pura e simplesmente, é ajudar uns aos outros e, assim, temos pura e simplesmente o direito de esperar obter a ajuda de que precisamos.” (Idem.)

A forma como Bauman aborda o conceito de comunidade em seus aspectos de cooperação mútua, e de um ambiente reconfortante e confiável, nos remete ao enunciado que encontramos logo na página de entrada da rede social orkut, a qual é descrita como “uma comunidade online que conecta pessoas através de uma rede de amigos confiáveis” (orkut.com, 2006).

Essa descrição parece investir em uma representação de comunidade como o lugar onde se apaga toda a desconfiança vivenciada na sociedade da competição, na qual todos são, inevitavelmente, colaboradores para um “bem comum”, onde

todos estariam ligados entre si, colaborando uns com os outros na construção de um meio no qual os valores que realmente contam seriam a própria negação daqueles da “sociedade” do “mundo real”. Colocamos aqui sociedade em direta oposição à comunidade, ou seja: enquanto a primeira é caracterizada como o lugar da competição e do indivíduo como valor maior, a segunda é o lugar da cooperação, da abdicação do “eu” em favor dos “nós”, ainda que, como veremos adiante, esse “nós” pode ser problematizado não como uma diversidade mas como um grupo de “eus” homogêneos em um ponto de identificação e por este traço identitário aproximados, mas separados por tantos outros, os quais nos empurram para outras comunidades.

Dessa forma, esse sujeito heterogêneo e singular, em busca da completude pela identificação que nunca se dá por completo, mas apenas por pontos de identificação com outros sujeitos, se vê compelido a investir em filiações em comunidades de ordem diversa. Dessa forma, ao mesmo tempo em que temos um movimento do sujeito em direção a um traço identitário que o une a tantos outros sujeitos, temos também um movimento no qual esse sujeito se individualiza em decorrência de sua heterogeneidade. Sendo mais explícitos, tomemos o caso das comunidades virtuais.

Trabalhando de modo mais específico com nosso corpus, tomemos um indivíduo que se filie à comunidade daqueles que “amam” a língua inglesa, a qual possui cerca de 22.000 membros. Há, portanto, um ponto de identificação desse sujeito (o “amor” declarado pela língua inglesa) que o une a outros milhares de membros da rede. Admitamos que este mesmo indivíduo participe da comunidade dos que falam francês. Temos, então, dois traços identitários que vão acabar constituindo esse sujeito de modo diferente ao que constitui aquele que participa da comunidade dos que “amam” a língua inglesa mas que não participa da comunidade

dos que falam francês. O que queremos problematizar é o conceito de pertencimento, ou seja, dentro da comunidade dos que “amam” a língua inglesa, esse sujeito identifica-se em apenas um ponto, podendo estar completamente apartado, talvez até em posições antagônicas, em relação a um número considerável de membros dessa comunidade que, por ventura, não falem ou francês ou que, até mesmo, participem em comunidades que postulam a recusa ou - como é comum no orkut - o “ódio” à língua francesa. Ou seja, cada filiação em uma comunidade, que caracterizaria uma busca de coletivização e de homogeneização, pode também se caracterizar como um movimento em direção à constituição de uma identidade singular, única e heterogênea.

Parece que estamos diante de um funcionamento de busca de identificação que se dá numa relação de nunca acabar onde quanto mais o sujeito se associa a grupos mais ele se particulariza no idêntico a si mesmo. Aparentemente, estamos diante de uma instância de customização da identidade, construída pelo pertencimento em comunidades às quais podemos nos filiar e “consumir” livremente e quando nos sentirmos delas enfadados nos desfiliarmos e ingressarmos em outras. Esse aspecto aponta para a tendência de uma individualidade resultante de um investimento ideológico no qual a propaganda e o mercado tentam a todo tempo nos fazer acreditar que podemos “construir” uma identidade baseados em escolhas “conscientes”, produzindo um indivíduo customizado como os produtos que o próprio capitalismo lhe oferece ou como o atendimento que recebemos em bancos do tipo

“prime” ou “personalité”.

A forma como o processo de filiação e constituição dessa identidade singular - representada pela associação entre “perfil do usuário” a rede de “amigos” e o grupo de “comunidades” - se dá em uma rede social como o orkut, se coloca de modo

bastante análogo ao que Bauman postula como uma comunidade idealizada que se opõe diretamente a uma realidade que ele denomina como “dura” e “não comunitária”, uma vez que nessas comunidades não há a cobrança de “fidelidade”. A vinculação a uma outra comunidade não necessariamente caracteriza uma “traição” como tal fato caracterizaria nos coletivos que estão dados na sociedade e que Zygmunt Bauman denomina como “comunidades realmente existentes”. Ou seja, o que parece haver de específico nas comunidades de uma rede social é uma maior flexibilidade para que se pertença a determinados coletivos sem que estes exijam exclusividade, lealdade e total dedicação de seus participantes. Para Bauman, diferentemente do que parece acontecer nas comunidades virtuais de uma rede social, “a ‘comunidade realmente existente’, se nos achássemos a seu alcance, exigiria rigorosa obediência em troca dos serviços que presta ou promete prestar” (Op. Cit. pp. 9, 10).

Essa “comunidade realmente existente” trocaria uma suposta liberdade de comportamento e pensamento pela “segurança” e o “aconchego” da coletividade, ao passo que as comunidades virtuais parecem investir não no antagonismo entre esses conceitos, mas num convívio harmonioso (ou pelo menos ausente de conflitos) entre singularidade e pertencimento; liberdade e segurança; entre outros binômios que parecem, a priori, se excluir.

Enquanto Bauman postula o pertencimento a uma comunidade por meio de uma equação na qual “ganha-se alguma coisa perdendo-se outra”, onde aquilo que se perde seria o “ ‘direito à auto-afirmação’ e ‘à identidade’ ”, a comunidade virtual parece buscar uma relação de conciliação entre o pertencimento e o indivíduo, ainda que isto não passe de uma ilusão do sujeito.