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3.3. UYGULAMANIN MODELİ

3.3.3. Bulanık Regresyon Modeli

3.3.3.3. H=0.70 Seviyesinde Minimum Bulanıklık Analizi

A proposta da presente tese era investigar o dilema da modernidade e da antimodernidade na narrativa do escritor espanhol Ramón María del Valle-Inclán, analisando como este dilema pode ser interpretado através da representação do evento histórico do carlismo na sua narrativa, de maneira específica na trilogia La Guerra Carlista, (Los Cruzados de la Causa, El Resplandor de la Hoguera e Gerifaltes de Antaño), publicadas entre 1908 e 1909.

Nosso objetivo era compreender, em primeiro lugar, como Valle-Inclán propõe uma revisão crítica do momento histórico espanhol do final do século XIX através da reelaboração dos modos de narrar, criando a estética do esperpento, considerando que ao criar uma nova maneira de escrever, o autor também criava uma nova maneira de tratar os eventos históricos objeto de sua crítica. Em segundo lugar, desejávamos verificar como a recriação ficcional do evento das guerras carlistas realizada pelo autor insere a sua obra no conceito da antimodernidade.

Valle-Inclán escreve os romances que formam parte da trilogia sob a influência das ideias sobre as duas Espanhas, a saber, o profundo conflito entre liberais e conservadores que influenciou e determinou a política espanhola ao longo do século XIX. No contexto deste conflito, surge uma disputa familiar entre tio e sobrinha pelo trono que é apropriada e manipulada pelos grupos conservadores e liberais. Isto origina as guerras civis conhecidas como Guerras Carlistas, três em total, ocorridas entre 1833 e 1876 e que terminam com a derrota do carlismo.

Vemos que as guerras carlistas não se limitam a uma questão familiar e sim ao processo político (as duas Espanhas) que questiona, principalmente, a religiosidade espanhola, que está arraigada na tradição e na política desde os discursos fundadores da nação espanhola, criados pelos Reis Católicos no seu projeto de expansão territorial que envolvia a expulsão de árabes e judeus da Península Ibérica. Deste modo, vemos que a relação do carlismo com as duas Espanhas insere este evento histórico em um contexto muito mais amplo e profundo que uma simples disputa política pelo poder, retroagindo assim a sua crítica política a todo o processo de formação da Espanha.

Ao definir o evento histórico do carlismo e descrever os processos relacionados aos três conflitos que originaram as guerras, percebemos que a interpretação que Valle-Inclán faz do carlismo não corresponde à maneira como os fatos estão registrados na historiografia. Isto ocorre porque Valle-Inclán resgata, na sua escrita, o carlismo depreendido através dos relatos familiares. O escritor cresce no ambiente da segunda guerra carlista (1846-1848), no seio de uma família nobre e tradicional, escutando todo tipo de relato mítico e favorável ao carlismo.

De fato, o carlismo (ou a interpretação de Valle-Inclán do carlismo) está presente, em maior ou menor medida, em grande parte da produção literária do autor, tendo como principal representante o personagem Marqués de Bradomín, cavaleiro carlista por excelência, que tanto na Sonata de Invierno quanto em Los Cruzados de la Causa expressa sua lealdade ao carlismo, mas, no primeiro livro, afirma o seu interesse pela majestade caída, em outras palavras, admite o fracasso da causa.

Percebemos uma ambiguidade entre a postura pública de Valle-Inclán e a sua escrita ficcional. Na sua vida pública, Valle-Inclán afirma ser carlista, no entanto, na ficção, seus personagens criticam a causa e as guerras. Os estudiosos, de maneira geral, se dedicam a tentar elucidar se Valle-Inclán era ou não carlista, no entanto, acreditamos que o valor da sua escrita está justamente nesta ambiguidade, que provoca estranhamento e reflexão.

Valle-Inclán desenvolve sua obra literária em meio às questões de fim de século e da modernidade. Discute-se se a Espanha passou pelo processo de modernidade, considerando que não é possível identificar no país o mesmo processo de modernidade que ocorreu na Europa. No entanto, isto seria considerar a existência de apenas uma modernidade. Entendemos, no âmbito da presente pesquisa, que existem múltiplas modernidades e que a modernidade é um processo híbrido e não linear, portanto, é possível que a Espanha tenha passado por um processo de modernidade diferente da modernidade europeia. De fato, de acordo com a periodização da história, a Descoberta da América em 1492 é um dos marcos da modernidade, o que coloca a Espanha no processo da modernidade, não uma modernidade nacional e sim universal, uma vez que este evento altera de maneira definitiva os rumos do mundo ocidental.

Os problemas sociais e econômicos enfrentados pela Espanha na transição entre os séculos XIX e XX inspiram o surgimento de um grupo de pensadores que

foi nominado por Azorín como a Geração de 98. Ao mesmo tempo, surge na América, pelas mãos de Rubén Darío, o Modernismo, escola literária que terá ampla aceitação na Espanha. Valle-Inclán dialoga com os dois movimentos, o que leva a uma tentativa de categorização da obra do autor, não havendo uma definição definitiva de se era modernista ou generacionista. Afirmamos, novamente, que defender a classificação de Valle-Inclán em uma ou outra escola literária não é algo efetivo, uma vez que limita a escrita de Valle-Inclán a categorias literárias que são apenas espanholas, quando em realidade a obra de Valle-Inclán demonstre estar vinculada a questões que ultrapassam os limites nacionais e conferem ao autor importância universal. Percebemos o caráter dicotômico do pensamento espanhol, que tende a reduzir as questões a pares binários: conservadores x liberais, geração de 98 x modernismo, carlistas x republicanos, entre outros.

Ao resgatar a guerra carlista e transformá-la em matéria narrativa nas suas obras, Valle-Inclán é considerado um autor nacionalista, concebendo o nacionalismo, neste caso, como uma maneira de entender a história através da literatura. O autor relaciona a causa carlista às cruzadas, remetendo à Idade Média e aprofundando, deste modo, o conflito carlista, ao conferir a ele os sentidos do enfrentamento entre cristãos e árabes, promovido pelos Reis Católicos. É notório, na maneira como Valle-Inclán reelabora o carlismo na trilogia La Guerra Carlista, que a sua visão sobre o carlismo é única, inventada apenas para as suas obras. Tentar classificá-lo como carlista ou não carlista é, insistimos, limitar as possibilidades da sua escrita e do seu pensamento.

La Guerra Carlista é, em sua totalidade, uma alegoria do conflito das duas Espanhas pelo seu caráter dicotômico. Deste modo, o conflito entre carlistas e republicanos transforma o carlismo no evento que melhor responde aos objetivos estéticos de Valle-Inclán para problematizar os problemas relacionados ao final do século.

Se por um lado Valle-Inclán se apresentava como defensor do carlismo, por outro, ao longo de todo o texto da trilogia, percebemos uma crítica constante ao carlismo e às guerras na voz dos seus personagens. Não podemos confundir as categorias autor / personagem, mas também não podemos ignorar esta contradição. Acreditamos que Valle-Inclán apresenta esta ambiguidade de maneira proposital, para gerar o efeito estético do estranhamento no leitor e fazê-lo refletir sobre as contradições e os absurdos da guerra.

Esta escrita ambígua insere o autor na discussão da antimodernidade. O antimoderno não nega a modernidade, ao contrário, é o mais moderno dos modernos, porque problematiza a modernidade para tratar de entendê-la. Isso ocorre porque o antimoderno não é ingênuo, não se deixa levar pelas promessas da modernidade, apenas a segue por entender que é o caminho que deve ser seguido.

Entendemos, então, que o antimoderno está situado entre a modernidade e a sua problematização, que ocorre porque o antimoderno entende que pode ser progressista e conservador ao mesmo tempo, o que faz com que Milán Kundera (2001) afirme que a única modernidade digna de existência é a modernidade antimoderna, isto é, a modernidade que questiona a si mesma.

Quando Valle-Inclán se propõe a pensar as questões nacionais da Espanha na sua produção literária através da ficcionalização do carlismo, Valle-Inclán está sendo moderno. No entanto, fazê-lo de maneira crítica e instigando o leitor a refletir sobre os absurdos da guerra, Valle-Inclán está se utilizando da modernidade para pensar e criticar a mesma, assumindo, assim, seu papel na modernidade antimoderna.

Ao longo desta pesquisa, vimos que uma das preocupações dos pensadores espanhóis do final do século XIX era a criação de novas formas de narrar. Valle- Inclán, na sua genialidade, cria a estética do esperpento, que consistia na deformação sistemática das formas da narrativa como alegoria da deformação da realidade.

Há, na Espanha, uma predileção pela representação da crueldade na cultura. Podemos mencionar, como exemplo, a tauromaquia e, na literatura, o romance picaresco. Na trilogia La Guerra Carlista, há episódios esperpénticos que aproximam a estética ao grotesco e à carnavalização, alimentados por esta predileção pela crueldade. Estes elementos geram inquietação e angústia, vinculando o esperpento às estéticas do estranhamento e, ao mesmo tempo, elevando a obra de Valle-Inclán a patamares mais amplos que os limites da literatura espanhola, vinculando o autor às estéticas universais.

Nos livros que compõem o nosso corpus, o esperpento se desenvolve através de um processo de sufixação que tem como objetivo criar sentidos pejorativos e através da animalização, que pode assumir sentidos negativos ou positivos. O personagem Roquito será uma antecipação do personagem Max Estrella, de Luces

de Bohemia. Ambos, apesar de serem cegos, possuem um entendimento da realidade mais profundo que os videntes.

Além de deformar elementos internos da narrativa, Valle-Inclán deforma o gênero literário. Percebemos que a trilogia é uma epopeia deformada, uma vez que Valle-Inclán desvirtua as características do gênero ao relatar uma história de fracasso e não de vitória, como é característico da epopeia. De maneira ainda mais inovadora, Valle-Inclán esperpentiza o próprio carlismo, ao apresentá-lo de maneira grotesca e deformada.

Por fim, Valle-Inclán esperpentiza a si mesmo como processo de autoficção. O autor não publica nenhuma autobiografia ou autoficção, no entanto, se autoficcionaliza, mas não por escrito, em um romance. Valle-Inclán constrói um personagem que é encenado na vida real, no mesmo nível de realidade dos seus leitores. Para isso, cria uma aura de histórias ficcionais sobre si mesmo e, ao mesmo tempo, omite informações pessoais reais, fazendo com que a sua atuação pública seja ficcional e parte do seu projeto de criação literária.

Há ainda muitas possibilidades de ampliação deste estudo, que não foram incluídas no recorte de pesquisa da tese, mas que são aqui mencionadas a título de intenção de desenvolvimento futuro. Uma das possibilidades é incluir como corpus, a trilogia El Ruedo Ibérico, última obra de Valle-Inclán, na qual também encontramos a temática do carlismo e a estética do esperpento na sua máxima expressão, o que demonstra que a escrita de Valle-Inclán evolui através do tempo e, de maneira paralela, o esperpento também. Também é possível estudar a relação entre a estética do esperpento e a produção artística de Goya, e ainda a relação esperpento / fantástico. Por último, percebemos a possibilidade de aprofundar o estudo da desconstrução da figura do herói e também a construção da figura do autor.

Diante do exposto, concluímos que Valle-Inclán realiza uma profunda crítica da Espanha da sua época através da representação do carlismo na trilogia La Guerra Carlista. O evento histórico do carlismo é o que melhor representa a dicotomia das duas Espanhas e Valle-Inclán se posiciona de maneira ambígua, apresentando-se como defensor do carlismo na vida real e criticando o mesmo na literatura. Esta ambiguidade expressa o caráter da modernidade antimoderna a qual Valle-Inclán pertence por ser moderno e reacionário ao mesmo tempo. A estética do esperpento desempenha um papel fundamental para a elaboração desta crítica, uma vez que através dela Valle-Inclán desvirtua a escrita, os personagens, o gênero

literário e a si mesmo como alegoria da deformação da realidade da Espanha da sua época.

Benzer Belgeler