BÖLÜM 4: SFYC’NİN DAĞILIŞINDAN SONRA SIRP MİLLİYETÇİLİĞİ
4.1. SFYC’ den Sonra Kurulan Bağımsız Devletler
4.1.1. Hırvatistan
Nos dias de hoje, o conjunto das publicações voltadas ao público homossexual é predominantemente caracterizado pela veiculação de conteúdo pornográfico, com raras exceções, o que significa que a tradição que se forjou
com o final da censura se mantém bastante forte. Uma das revistas cujo projeto editorial não abarca a pornografia é a Junior, fundada em 2008 com uma concepção que difere da maioria das publicações voltadas a homens homossexuais em contexto brasileiro.
O conteúdo veiculado, o preço da revista nas bancas (R$12) e a elevada qualidade de seu papel permitem inferir que se trata de um título concebido para atender principalmente a um público composto por homens homossexuais das classes altas. Confirma essa hipótese o fato de que suas páginas, em que vemos estampada publicidade de bens produzidos por grifes famosas, costumam trazer recomendações sobre onde ficar e o que visitar quando em viagem ao exterior, além das indicações de danceterias e clubes com preços elevados para ingresso, bens de consumo normalmente reservados às classes mais altas de nossa sociedade.
A título de ilustração do elevado preço dos produtos que a revista traz, citamos a pequena seção sobre moda, às páginas 52 e 53 da 15ª edição de Junior, em que é recomendado o uso de calças de jeans largas e confortáveis. As calças mostradas têm valores que variam de R$ 340 a R$1940, sendo que quatro dos modelos mostrados na reportagem custam mais de R$1100.
A revista se caracteriza, ademais, por entremear ensaios fotográficos, portfólios de artistas, pequenas reportagens sobre celebridades e artigos que tratam de temas que se relacionam em alguma medida ao universo homossexual. Entre os artigos, são comumente encontrados textos que tratam de relacionamentos, falam de casos de intolerância contra homossexuais, apresentam possibilidades para se manter ou obter um corpo bonito, relatam o
cotidiano de homossexuais que encontram algum tipo de dificuldade para serem aceitos pela sociedade, recomendam a compra de produtos (viagens, equipamentos eletrônicos, roupas) etc. Não se trata, portanto, de uma revista cujo objetivo principal seja informar sobre fatos noticiosos, mas sim a veiculação de textos de variedades, com temática quase sempre amena, tais como moda e estética, e com o objetivo de entreter seus leitores.
André Fischer, editor de Junior, explica, no editorial do primeiro número da revista, que o projeto de criar um título “bacana” para homossexuais era antigo e que a publicação da revista representava a concretização dele. Observe-se o excerto a seguir:
(4)
Você sabe há quanto tempo acompanhamos a efervescência do mercado editorial gay no exterior? Anos e anos, morrendo de vontade de fazer uma revista bacana por aqui. Ela seria assumida sem ser militante, sensual sem ser erótica, cheia de homens lindos, com informação para fazer pensar e entreter.41
É interessante observar, nesse segmento, o trecho “Anos e anos, morrendo de vontade de criar uma revista bacana por aqui”, que sugere que, em contexto brasileiro, não havia, antes da criação de Junior, nenhuma revista que pudesse ser avaliada positivamente, o que reforça a idéia de que a publicação em questão difere dos demais títulos disponíveis no mercado.
A singularidade de Junior parece estar conectada ao fato de que, tal como a Têtu, de origem francesa, e a Out, publicada nos Estados Unidos, a revista editada por Fischer prescinde de conteúdo pornográfico, o que significa, a princípio, um rompimento do ideal de revista para homens homossexuais vigente até então.
41 Trecho do editorial escrito por André Fischer publicado na primeira edição de Junior, no ano de 2007.
É importante que se observe, entretanto, que a revista Junior, assim como a maioria das revistas voltadas a homossexuais, faz uso de imagens de corpos masculinos para atrair leitores. Essa revista se destaca, no entanto, devido ao modo como faz isso. Enquanto a maior parte das outras revistas recorre a ensaios com homens totalmente nus, Junior oferece diversos ensaios fotográficos a seus leitores, mas utiliza um formato que é próximo ao de fotografias de moda.
Outra forma de apresentação de corpos masculinos se dá através dos portfólios de artistas publicados pela revista. De modo geral, são selecionados trabalhos de caráter visual, em detrimento de produções com predominância de texto verbal, como contos ou crônicas. Essas imagens trazem, de modo geral, fotos de corpos de homens com poucas roupas, o que permite à revista desfrutar, a um só tempo, do status de divulgadora de produções artísticas e do potencial de atração de consumidores exercido pelos corpos, conforme podemos observar, por exemplo, no anexo J6.
Assim, ao mesmo tempo em que se busca fazer com que os leitores sejam atraídos pelas fotos, a revista, conforme já dissemos, desvincula-se de uma imagem de revista pornográfica, o que lhe dá alguma distinção com relação a publicações similares dirigidas ao mesmo público. De certa forma desvinculada do universo das revistas pornográficas, as quais normalmente são marcadas por um estigma social e associadas à ideia de mau gosto, a revista Junior se destaca como uma publicação dotada de certo refinamento e sofisticação, apesar de não se libertar totalmente da tradição de recorrer às imagens de corpos para se manter atrativa para seu público.
Além disso, chama a atenção o fato de Fischer defender que a revista teria uma postura não militante, diferentemente do que ocorria com as publicações alternativas precedentes. Entretanto, poder-se-ia pensar que o próprio fato de conceber uma revista que se volta a homossexuais e que conceder a esse grupo certo reconhecimento por parte do mercado e relativa visibilidade implica um posicionamento que reconhece, em seu público, sujeitos passíveis de serem representados pela mídia, possuidores de características e demandas de mercado próprias. Trata-se, em outras palavras, de uma tomada de posição política e ideológica que reconhece, na homossexualidade, algo que não deve ser ocultado da sociedade e que pode receber um tratamento midiático que a situe dentro dos limites de uma normalidade.
A inscrição da homossexualidade no rol das práticas sociais aceitáveis não é, com certeza, univocamente aceita por todos os membros da sociedade brasileira; não há dúvida, entretanto, de que o projeto da revista pressuponha que haja espaço, em termos de liberdades individuais, para dar visibilidade a esse grupo, seus membros, práticas e preferências. Essa liberdade é, em larga medida, tributária não só da luta da militância que a precedeu e que ainda se faz presente, mas também da capacidade de expressão da minoria homossexual em termos de consumo, que faz com que a receptividade a condutas sociais ligadas à homossexualidade aumente.