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BÖLÜM 4: SFYC’NİN DAĞILIŞINDAN SONRA SIRP MİLLİYETÇİLİĞİ

4.1. SFYC’ den Sonra Kurulan Bağımsız Devletler

4.1.3. Bosna-Hersek

Foram incluídas na categoria das trajetórias potencialmente bem- sucedidas todas as narrativas em que é feita menção de um ou mais objetivos de vida ainda não conquistados por seus protagonistas.

Dessa forma, diferentemente do que ocorre com as trajetórias de sucesso, analisadas no item anterior, o final das narrativas, supostamente, não corresponde ao ponto de maior sucesso obtido por esses indivíduos, mas apenas a um dos diversos momentos que antecedem sua obtenção.

A ascensão e o sucesso dos protagonistas das narrativas são, portanto, anunciados nos textos, ao invés de serem narrados, como acontece no caso das trajetórias de sucesso.

Observe-se a representação em forma de gráfico feita a seguir, em que a linha pontilhada representa a ascensão prenunciada:

Quadro 11: Representação gráfica de uma trajetória potencialmente bem-sucedida

Momento 1 Momento 2 Momento 3 Momento 4 Momento 5

Su

c

e

ss

o

Dentre os textos selecionados para compor o corpus deste trabalho, observou-se que as narrativas de trajetórias potencialmente bem-sucedidas são mais comuns na revista Raça Brasil, tendo sido encontrado apenas um exemplo em Junior.

Em ambas as revistas, as trajetórias narradas possuem relação com a carreira profissional e/ou acadêmica dos membros dos endogrupos representados, conforme se pode constatar no quadro sinótico a seguir:

Quadro 12: Síntese de narrativas potencialmente bem-sucedidas Código do anexo Nome do sujeito retratado no texto

Condição de vida no momento

da narrativa Objetivos para o futuro

RB1 Fernanda Valentim

Estudante do terceiro ano de Radiologia Médica e trabalha à tarde e à noite em profissão não especificada.

Terminar a faculdade e ter uma vida estável.

RB3 Carlos Benne

Ator com 25 espetáculos no currículo e sócio de uma empresa de treinamentos corporativos teatralizados.

Participar como ator de um filme de longa metragem.

RB4 Marcelo Violla Iluminador de peças teatrais. Estudar tecnologia teatral fora do Brasil.

RB9 Carlos Rafael Músico em uma banda, modelo e figurante. Abrir uma escola para jovens que queiram aprender a tocar instrumentos musicais.

RB10 André Luiz Patrício Ator com mais de 20 anos de carreira Ter um papel de destaque em um filme de longa metragem.

J9 Thiago Silvestre Ganhador do título de Mister Gay Brasil 2009 Melhorar condicionamento físico, melhorar seu inglês e ganhar o concurso Mister Gay World 2009.

A recorrência da temática acadêmica e profissional sugere que, sobretudo para o endogrupo negro, a melhoria de condições de vida decorrente de um aumento de remuneração e de promoções é vista como um sinônimo de sucesso. Ainda que tal visão impregne a sociedade na qual vivemos, não parece fortuito que haja a afirmação, por parte da revista, de que há possibilidade de ascensão social para os membros do grupo negro, que, historicamente, esteve fortemente ligado ao subemprego e à falta de mobilidade social.

Conforme afirmado anteriormente, no item 5.1.1., pode-se observar, sobretudo na revista Raça Brasil, o predomínio absoluto de textos da categoria (2), que têm por objetivo traçar o perfil público de um determinado indivíduo. Não é incomum, entretanto, que essa revista escolha para seus protagonistas indivíduos totalmente desconhecidos do grande público, que não se sobressaem por seus êxitos, realizações, qualidades, riquezas ou talentos,

visto que esses são bastante triviais. Trata-se, em última análise, da representação de indivíduos bastante comuns, não singulares, via de regra pertencentes às camadas mais pobres da sociedade.

Citamos, a título de exemplo, a representação que se constrói de Fernanda Valentim (anexo RB1), estudante que, segundo o artigo, sai todos os dias cedo de casa e retorna somente à noite, rotina que é bem recorrente na vida de muitos alunos brasileiros, sobretudo os jovens e adultos mais pobres, nos diversos níveis de ensino.

A seleção desse tipo de indivíduos para protagonizar as narrativas consiste, dessa forma, em uma opção de natureza aparentemente paradoxal, uma vez que a revista faz a opção de dedicar textos totalmente à representação de indivíduos que, por serem tipos comuns e facilmente encontráveis dentro do endogrupo, talvez não despertassem o interesse do público leitor.

Entendemos que a análise que propomos deva, portanto, concentrar- se em identificar os critérios de noticiabilidade que são subjacentes à escolha dos indivíduos a serem representados nos textos da revista Raça Brasil.

Não é possível, com efeito, pressupor que a escolha de indivíduos comuns para protagonizar textos seja casual. Na verdade, a solução para o paradoxo parece poder ser construída se considerarmos que existe, por parte da publicação, uma tentativa de estabelecer a identificação do público leitor com os indivíduos representados.

Pode-se dizer que, ao optar pela representação de pessoas bastante comuns, a revista busca que os leitores tenham contato com representações de indivíduos que se assemelham a eles. Essa escolha pode ser interpretada

como uma afirmação de que negros são dignos de serem representados pela mídia, mesmo que não sejam famosos ou tenham feito algo de muito relevo, o que resulta na valorização do indivíduo comum negro.

O exame dessas narrativas permitiu observar uma tendência a avaliar positivamente tanto os indivíduos representados quanto seus hábitos e conquistas profissionais, conforme exemplificado no quadro a seguir:

Quadro 13: As imagens de negros projetadas por narrativas potencialmente bem- sucedidas Código do anexo Nome do sujeito retratado no texto Excerto Imagem projetada RB1 Fernanda Valentim

“Estudante do terceiro ano de Radiologia médica, a moça acorda todos os dias às 5 horas para chegar à faculdade e só vai deitar por volta das 1 hora, depois de um dia inteiro de trabalho.”

Trabalhadora, determinada, persistente.

RB3 Carlos Benne

“No momento, divide a paixão pelos palcos com os treinamentos corporativos teatralizados, oferecidos pela Iconix Eventos, onde é sócio e usa de seus talentos musicais (...) e circenses para atrair um público pouco habituado às artes cênicas.”

Talentoso, inteligente, empreendedor.

RB4 Marcelo Violla “Aos finais de semana chega a trabalhar 16 horas por dia.” Trabalhador.

RB9 Carlos Rafael

“Esse paulistano passa a maior parte de seu tempo ensaiando e tocando com sua banda – sim, ele toca violão, cavaco e ainda canta – mas, entre um acorde e outro, o jovem encara a profissão de modelo (...).”

Talentoso, polivalente, bonito.

RB10 André Luiz Patrício

“Mesmo fazendo papel de um bandido e uma única cena, ele conseguiu dar significados mais humanos e contraditórios para o personagem. (...) No filme Salve

Geral, de Sérgio Rezende, (...) o ator fez uma

pequena mas especial participação, contracenando com a atriz Andréa Beltrão.”

Profissional competente cuja participação interferiu de modo positivo no resultado final de um projeto.

Este esforço de busca pela identificação entre público leitor e protagonistas das narrativas não parece encontrar reverberação na narrativa potencialmente bem-sucedida trazida pelo anexo J9, em que observamos que, apesar de haver a intenção, por parte do Mr. Gay Brasil Thiago Silvestre, de obter êxito profissional como modelo, a conquista do título de Mr. Gay Mundo,

ao contrário da ascensão social, é algo inatingível para a maior parte da população homossexual, dada a singularidade do título. Isso resulta na menor possibilidade da utilização da figura de Thiago Silvestre como um modelo de caminho a ser seguido.

O enaltecimento do homem negro comum por parte da revista é também uma tentativa de valorização do público-leitor, dada a possibilidade de identificação deste com os indivíduos representados. É nesse sentido que se justifica a existência de seções como “Eu na Raça” e “Negrogato”, nas quais apenas pessoas desconhecidas, com rotinas bastante prosaicas, são convidadas a protagonizar. Além disso, por serem narrativas em que é vislumbrada uma ascensão, pode-se dizer que está também implícito que o negro comum, leitor da revista, assim como os indivíduos representados nos artigos, pode vislumbrar para si a obtenção de melhorias e a realização de objetivos, sobretudo com relação aos universos profissional e acadêmico.

Nesse sentido, é relevante que seja analisado o excerto a seguir, em que a esperança (ou, nesse caso, a certeza) de que o iluminador Marcelo Violla terá um futuro caracterizado pelo sucesso se marca linguisticamente de modo explícito, como se pode observar em “sem deixar dúvidas de que o futuro será brilhante”:

(28)

“Assim que terminar meu curso, vou começar a fazer inglês. Meu sonho é poder estudar tecnologia teatral fora do Brasil – e trabalhar com grandes nomes do teatro”, planeja, sem deixar dúvidas de que o futuro será brilhante! (anexo RB4)68.

A crença na possibilidade de ascensão de um negro comum e, por consequência, de outros que tenham vida parecida ganha força, na medida em

que é manifestada através do discurso da própria revista, que utiliza as narrativas como forma de reforçar e ilustrar a idéia de que negros são passíveis de experimentar um processo de ascensão.

Tal articulação discursiva é relevante, na medida em que age de modo a complementar a valorização de negros bem-sucedidos que as narrativas de trajetórias de sucesso operam.

Tomando ambos os tipos de narrativas, observamos um esforço de valorização não apenas de afrodescendentes que já conquistaram sucesso, mas também daqueles que não o obtiveram, ficando sempre sugerido que estes estão caminhando, por meio de oportunidades, trabalho e talento, para a realização de seus objetivos.

No caso de Thiago Silvestre, representado pela revista Junior no anexo J9, observa-se que tanto a obtenção do título de Mr. Gay Brasil como a possibilidade de receber também a faixa de Mr. Gay World apontam para a valorização não só da beleza de um membro do endogrupo homossexual, mas também para “inteligência, segurança, conhecimentos satisfatórios de cultura e direitos gays”, visto que, segundo o texto, estes são os atributos necessários para alguém que foi eleito Mr. Gay.

Dessa forma, se por um lado a defesa de que Thiago Silvestre possa ser atraente, seguro, inteligente e detentor de razoável conhecimento acerca de direitos do homossexual não polemiza por si só com o estereótipo de homossexual prevalente, por outro, o fato de ser retratado a um só tempo como homossexual assumido e atraente implica a negação de que a homossexualidade seja algo vergonhoso e que deva ser, portanto, ocultada da

sociedade, podendo, assim, ser divulgada por meio da revista e do evento de eleição do Mr. Gay Brasil.