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HÜKÜM GEREKÇESİ I. Kabuledilebilirlik

Finda a Guerra da Restauração, duas grandes tarefas nacionais se impunham imediatamente aos portugueses. Evitar ou conter uma nova investida militar espanhola, e prosseguir na colonização do Brasil.

Depois do ‘ciclo da prata’ das colonias espanholas, as riquezas do Brasil.

O poder de Portugal no sistema internacional entre 1640 e 1807 basear-se-á, em grande medida, no Brasil, e no monopólio da rota que unia o grande império americano a Lisboa.

“As exportações totais de Portugal à Europa (sobretudo à Inglaterra) alcançavam um valor médio de 49 milhões de cruzados entre 1796 e 1807. Destes mais da metade eram produtos do Brasil entre 45 e 75%, segundo os anos (…). Essencialmente Portugal

107 Olinda e Recife eram cidades que tinham uma enorme importância para os portugueses pois a capitania de Pernambuco constituía no Brasil, a maior concentração de população oriunda da metrópole e Olinda era considerada a capital açucareira. Cf. ALMEIDA, Palmira Morais Rocha de (2008), Poetas

Brasileiros do período colonial, p. 11.

108 Atribui-se ao conde Maurício de Nassau, o mérito de ter sido o grande responsável pela urbanização desta região do nordeste brasileiro.

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funcionava como uma enorme plataforma giratória entre Brasil e a Europa, sobretudo a Europa do Mar do Norte (a Inglaterra e os estados alemães). Lisboa e o Porto eram os principais eslabões desta cadeia. Era um fluxo significativo que representava umas das principais fontes de abastecimento de Europa em produtos tropicais, ouro e pedras preciosas”109.

Com efeito, depois do “ciclo da prata” das colónias espanholas ‒ que duraria até 1660 ‒ a colónia americana passara a ser a principal fonte de receitas para a coroa portuguesa. João IV chamar-lha-ia a “vaca leiteira”. Primeiro, como vimos, através da produção açucareira. Mais tarde, a partir de 1693 ‒ quando a concorrência das Antilhas já lançara em crise, o comércio português do açúcar ‒ , iniciam-se os achados de jazigos de ouro110, e de diamantes. Posteriormente, com o cultivo de tabaco – a que os portugueses chamavam de «erva-santa».

“Entre 1706 e 1750, Lisboa recebe num só ano 25 toneladas de ouro do Brasil. Isso rendeu em impostos régios (os quintos) algo como 3 milhões de cruzados (€ 240 milhões) em 1720, o que deu para equilibrar o Tesouro real e desenvolver obras públicas majestosas (…). A partir de 1729 juntar-se-ia a corrida aos diamantes, encontrados em Cerro do Frio, na zona aurífera (…) ”111

.

Convém aqui apontar também a importância que ganha o comércio de

escravos para os portugueses, particularmente para aquelas comunidades que

residiam no Brasil, e que participavam, directa ou indirectamente, no tráfico negreiro, num contexto económico, onde as principais actividades eram essencialmente de natureza extractiva.112

109 TELO, António José e Hipólito de la Torre (2003), Portugal y España en los sistemas internacionales

contemporâneos, p.20.

110 RODRIGUES, Jorge Nascimento e Tessaleno Devezas (2009), Portugal. O Pioneiro da Globalização. A

Herança das Descobertas, pp.385, 386. “ (…) Os exploradores encontraram na região do Rio das Velhas o famoso «ouro preto» aluvial (…). Estavam achadas as Minas Gerais entre 1693 e 1695, que abririam o segundo ciclo deste metal na história económica portuguesa, depois do quatrocentista em torno do ouro da Guiné”.

111

Idem, pp. 391,392. 112

Calcula-se que entre 1701 e 1830 tenham sido enviados para o Brasil mais de 95% de todos os escravos trazidos de África em navios sob bandeira portuguesa. Cf. CALDEIRA, Arlindo Manuel (2013),

55 Fora do Brasil, alguns portugueses que se tinham estabelecido nas diferentes colónias hispano-americanas ‒ a maioria cristãos novos ‒ foram alvo de perseguição politica (com fundamentos claramente comerciais), e religiosa (através da Inquisição). Muitas redes comerciais entre mercadores de Lima e Cartagena foram exterminadas. Mas o grande número e a influência que detinham, efectivamente, algumas famílias de portugueses, impediram que fossem adoptadas medidas radicais contra os ‘estrangeiros’, havendo, não obstante, uma clara diminuição na emigração portuguesa, para aqueles destinos.113

Neste contexto, também é fácil imaginar o enorme o impacto que a emigração em meio século, de um aproximado de 800.000 portugueses ‒ numa população total que não deveria ultrapassar em muito os 2 milhões de habitantes ‒ terá na metrópole, assim como as respectivas remessas.114

Os conflitos nas fronteiras das colónias americanas.

Finda a União Ibérica, as divergências entre Portugal e a Espanha reaparecem. O quadro geral mostra-nos dois impérios coloniais rivais, Portugal e a Espanha, em luta pelos territórios americanos que correspondem hoje ao Uruguai, norte do Paraguai e a Argentina. Um motivo fundamental era a questão do controlo sobre o sistema fluvial Prata-Paraná-Paraguai, de grande importância, tanto no económico, como no militar. O livre acesso ao sistema fluvial mencionado significaria a possibilidade de penetrar desde o Atlântico, até o coração da América do Sul, e os seus enormes recursos.

113 Konetzke, citado por NAVARRETE, Maria Cristina (2009), Judeos conversos en el mundo colonial

neogranadino siglos XVI y XVII, p. 24.

114

Cf. RODRIGUES, Jorge Nascimento e Tessaleno Devezas (2009), Portugal. O Pioneiro da Globalização.

A Herança das Descobertas, p. 386. Ainda sobre o tema da emigração portuguesa para o Brasil, durante

os séculos XVII e XVIII, veja-se SERRÃO, Joel, [et al.] (1976), Testemunhos sobre a Emigração Portuguesa, pp. 57-88.

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A fundação de Colónia do Sacramento.

A Restauração tinha posto fim, naturalmente, ao bom entendimento e às trocas comerciais que se tinham estabelecido entre o Rio de Janeiro e Buenos Aires. Em 1680, os ‘bandeirantes’115 do sul do Brasil avançaram decididos a ocupar as terras férteis da região fronteiriça. No mesmo ano, os colonos brasileiros fundam a Nova Colonia de Sacramento, no Rio da Prata, frente a Buenos Aires.116

Após vários confrontos entre portugueses e espanhóis pela pose definitiva do seu território, o Tratado provisional de Lisboa, de 7 de Maio de 1681, reconhece a soberania dos primeiros sobre a Colónia, passando a estabelecerem ali um próspero comércio de couros, baseado na produção pecuária. Anos mais tarde, em 1705, alvo de sucessivos ataques por parte dos espanhóis, a cidade teve de ser abandonada pelos ocupantes lusos.

As guerras na Europa e os tratados que marcam os avanços e recuos das fronteiras nas colónias americanas.

A partir de 1704, ao fim de trinta anos de paz, Portugal envolve-se na Guerra de Sucessão de Espanha, aliado aos ingleses, austríacos e holandeses, contra os espanhóis e franceses, tendo em vista alcançar posições estratégicas mais favoráveis na Europa, fixar as fronteiras meridionais do Brasil, na margem esquerda do Rio da Prata, e libertar as regiões brasileiras do norte, das pressões francesas.

Pelo Tratado de Utreque, de 11 de Abril de 1713, que põe fim à guerra, a França desistiu das suas pretensões na Amazónia, tendo sido reconhecido a Portugal o

115 As ‘bandeiras’ eram expedições feitas por particulares à procura de riqueza e escravos. Os ‘bandeirantes’ provinham na sua maioria do território que actualmente corresponde ao estado de São Paulo, e tinham como destino o interior do nordeste brasileiro.

57 domínio sobre as duas margens do Rio Amazonas. Dois anos mais tarde, em 6 de Fevereiro de 1715, a Espanha devolve Colonia do Sacramento à Portugal.117

Em 1750, Portugal e a Espanha celebram um novo tratado, em Madrid. Depois de avanços e recuos na fronteira, pelos colonos pertencentes a ambos os reinos, este tratado parecia oferecer as bases para uma solução realmente aceitável. Rejeitando os princípios de delimitação, através do uso de linhas rectas artificiais (Tratado de Tordesilhas), estabelece o critério do utis possidetis, isto é, da ocupação efectiva como base parcial para a delimitação. A fronteira entre a Banda Oriental (hoje Uruguai) e o território brasileiro de Rio Grande do Sul estabeleceram-se segundo esse critério.

Pelo Tratado de Madrid, Portugal reconhecia a soberania espanhola nas Filipinas. A sua vez, a Espanha reconhecia a soberania portuguesa no Maranhão, Amazonas e Mato Grosso. As fronteiras meridionais do Brasil foram fixadas, através da devolução à Espanha da Colónia do Sacramento, e pela entrega à Portugal da região a leste do Rio Uruguai118. A Espanha cedia aos portugueses sete das mais importantes Reduções Jesuíticas do Paraguai.119

A ocupação das Reduções, contudo, fora obstaculizada pela rebelião dos jesuítas e indígenas sob a sua tutela, que resistiam à invasão das suas terras.120 A Guerra Guarani empreendida por estes, contra os colonos espanhóis e portugueses, impossibilitaram a execução do acordo. Onze anos mais tarde, em 1761, o Tratado de Madrid fora anulado.

117 Cf. MARTINEZ, Pedro Soares (2010), História Diplomática de Portugal, pp. 223, 224. 118 Idem, p. 253.

119O território ocupado pelas reduções jesuíticas do Paraguai era visto como o “Reino de Deus sobre a Terra” pelos colonos brasileiros, segundo nos relata Demétrio Boersner. Cf. BOERSNER, Demetrio (1996), Relaciones Internacionales de América Latina, p. 33.

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(…) Que mais queres de nós? Não nos obrigues A resistir-te em campo aberto. Póde Custar-te muito sangue o dat hum passo.

Não queiras ver se cortão nossas frexas. Vê que o nome dos Reis não nos assusta.

O teu está muito longe; e nós os Indios

Não temos outro Rei mais do que os Padres (…) 121.

Na Europa, uma nova guerra colocara Portugal e a Espanha, uma vez mais, em lados opostos. Sacramento é novamente conquistada pelos espanhóis e anexada, junto com a Ilha de Santa Catarina ao seu império. À Guerra dos Sete Anos seguiu-se um período, podemos dizer, de ‘bom entendimento’ luso-espanhol.

Efectivamente, com os Tratados de Santo Ildefonso (1777) e de El Pardo (1778), há espaço para as negociações ‘pacíficas’ entre portugueses e espanhóis mas as condições eram bem piores para os primeiros. A fim de recuperar a ilha de Santa Catarina e todo o Rio Grande do Sul, Portugal teve de ceder definitivamente Colónia do Sacramento, e ainda, as ilhas africanas de Fernando Pó (actual Bioko) e Ano Bom122, no Golfo da Guiné, formando parte da actual Guiné Equatorial.

Anos mais tarde, depois do episódio curto da Guerra das Laranjas, em 1801, entre a Espanha (aliada de Napoleão) e Portugal (vinculado a Inglaterra), os dois países subscrevem o Tratado de Paz de Badajoz. Apesar das penosas sanções impostas à Portugal ‒ como fora a perda de Olivença, no território peninsular, a favor dos espanhóis ‒ , este documento reconhece a soberania portuguesa sobre alguns troços do território, que entretanto foram incorporados durante a guerra, pelos colonos brasileiros, na região que hoje se configura como o Rio Grande do Sul.123

121Excerto do Canto II do poema “O Uraguay”, do jesuíta José Basílio da Gama. Citado por ALMEIDA, Palmira M. R. (2008), em Poetas Brasileiros do período colonial, p.119.

122 Cf. MARTINEZ, Pedro Soares (2010), História Diplomática de Portugal, pp. 284, 285. 123 Cf. BOERSNER, Demetrio (1996), Relaciones Internacionales de América Latina, p. 34.

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II.3 A fuga da Corte para o Brasil e entretanto a independência das colónias

Benzer Belgeler