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GRUPLAR ARASINDA BAŞ AĞRISI, BAŞ DÖNMESİ, STATİK POSTÜROGRAFİ VE ABC VE DHI SKALALARININ VERİLERİNİN

INVENTORY, DHI):

5.8. GRUPLAR ARASINDA BAŞ AĞRISI, BAŞ DÖNMESİ, STATİK POSTÜROGRAFİ VE ABC VE DHI SKALALARININ VERİLERİNİN

O segundo sujeito ouvido é um cantor da aldeia de Córrego Grande. As circunstâncias de sua vinda para a pesquisa se deram a partir de dúvidas levantadas por uma palestrante que estivera na aldeia, em novembro de 2011. A descrição dessa situação compõe parte de meus relatórios de períodos ausentes da aldeia, quando saía para consultas médicas, devido às complicações cirúrgicas anteriores à entrada em campo.

Foram a professora bororo e a irmã dela, a professora 2, que me contaram que, durante a semana da consciência negra, a Aldeia Central recebera dois pesquisadores (um homem e uma mulher) para divulgar atividades culturais no Museu Rosa Bororo, em Rondonópolis. Ao longo de uma palestra proferida pela pesquisadora, ela teria identificado em outro clã um ancestral que a professora e a irmã dela reconheciam como membro do clã de origem delas, Bakoro Ecerae. A professora 2, descreveu como teria sido o ocorrido:

Aí que ela falou que ele era um Jerigi Otojiwu e que ele era um baadojeba [homem do clã Baado Jebage], que ele era um iedaga [antepassado de linhagem] dela, acho que ela foi batizada com nome de baadojeba, eu não sei se ela foi batizada, mas assim que ela falou. (...) assim, as pessoas que sabe... fala o bakaru, eles falam que são três [chefes de linhagem] Bakoro Ecerae que tem: o primeiro lá que é, se não me engano, é Akaruio Bokodori, que é o primeiro, aí o Mamuiawuge Eceba, parece que é o gêmeo dele, né, aí o terceiro é o Jerigi Otojiwu, só que, assim, só a diferença eles falam é o nome, é só o nome deles (...). (Professora 2)

Com a questão posta, passamos eu e a professora bororo a perguntar aos mais velhos da Aldeia Central sobre isso. Fiz um levantamento do pertencimento clânico de todos os ancestrais chefes de linhagem que aparecem na coleta de bakaru da EB II e constatei que não havia registro sobre os Bakoro Ecerae e que os três ancestrais citados pela professora foram identificados como Baado Jebage cobugiwuge, na EB II. Em conversa com o “capitão da cultura” sobre a questão, ele me respondeu que desde quando era menino (mostrou o tamanho com uma das mãos), ele sabe da existência destes clãs, da metade Ecerae: “Bakoro Ecerae, que Kie, Bokodori Ecerae, Baado Jebage e Ó ecerae”.

A fim de obtermos mais esclarecimentos, a professora bororo sugeriu que eu acompanhasse um grupo de professores de Tadarimana, dentre os quais ela, ao início de um curso de formação de professores em nível de magistério para os Bororo, que aconteceria na aldeia de Córrego Grande. Ela, a irmã dela (professora 2 e esposa do cacique) e o cacique conversariam com as lideranças de Córrego Grande para que eu ficasse por uma semana nessa

aldeia, a fim de pesquisar sobre isso com esse ancião, aqui denominado de cantor bororo, contando com a mediação dela.

Foi desse modo que, na primeira semana de julho de 2012, eu estive em Córrego Grande para a gravação com esse cantor. Esse senhor, com idade entre 60 e 70 anos, é nativo da região dos Bororo da Bacia do São Lourenço, tendo nascido numa aldeia de nome Tori Paru. Ele pertence à metade Tugarege, sendo por nascimento membro do clã Iwagudu-doge coreu, mas foi também nominado no clã dos Paiwoe.

Ele nos recebeu em dois momentos em sua casa e se mostrou bastante solícito em fornecer as informações que buscávamos. Embora tenha predominado a fala em português na sua gravação, trechos de conversa entre ele e a professora bororo foram na primeira língua deles, além de termos e expressões em bororo terem sido utilizados por ele em vários momentos da gravação.

Bakaru foi termo recorrente em toda a conversa, e a sua relação com os cantos bororo foi logo destacada por ele:

Canto é bakaru. É, canto tem bakaru (...). Esses cantor, esses cantor é de bakaru mesmo também. Tudo, tudo, esse Marenaruie [nome de um canto de funeral] também. (...) Assim, como agora que o pessoal morre tem que fazer esse Marenaruie. Tá certo, esse aí é uma história também. É mesmo do bakaru também. (Cantor bororo)

Bakaru, canto e cantor têm sua função social entre os Bororo. O cantor é instrumento por meio do qual se propaga bakaru cantando em contexto cerimonial, como o funeral. Isso pressupõe que, nessa sociedade, o cantor tenha no bakaru um dos domínios de conhecimento no rol de habilidades desenvolvidas para ser cantor e assumir a sua responsabilidade social com a comunidade, ao dispor o seu conhecimento para as práticas importantes para ela.

Na língua bororo, canto é “Roia” e significa “modos de fazer, costume” (EB I, 1962, p. 908). Albisetti e Venturelli (1976, p. 1) escrevem que os cantos bororo são “o código dos feitos dos heróis lendários, das instituições, dos adornos, das ações célebres de algum membro da tribo (...)”. O volume III da EB, organiza em três partes os cantos bororo. Na Parte I, de 1976, eles publicam os cantos de caça e pesca; na Parte II, de 2002, eles publicam os cantos festivos e; na Parte III, de 2009, eles publicam os cantos de funeral.

Os cantos fizeram parte das etapas de dois rituais que acompanhei na Aldeia Central de Tadarimana: a nominação e o funeral. O canto citado pelo ancião de Córrego Grande, o Marenaruie, (Canto das lamentações ou canto dos órfãos, EB III, Parte III, p. 93), apresenta uma série de orientações e providências a serem tomadas pelos Bororo na realização de um

funeral. Enquanto entoa o canto, o cantor está narrando ao povo os procedimentos instituídos nos cuidados com os mortos, no momento imediato do reinstituir deles, em razão da realização do funeral.

Conta-se cantando no Marenaruie que o chefe Bakoro Kudu, do clã Baado Jebage, chama as pessoas da aldeia para se prepararem para o ciclo fúnebre, dispondo água para o banho, fumo e bebida para os que vão cantar e dançar no funeral; pede também que os meninos a serem iniciados sejam preparados; convida os ancestrais (Aroe: almas) para virem ao funeral; revela que o lugar onde ficam as almas que vêm para o funeral são os enfeites, os instrumentos e as pinturas dos que desempenham atividade no funeral; lembra a divisão das tarefas entre homens e mulheres; traz à lembrança dois comportamentos que foram repreendidos pelo ancestral Baitogogo: o canibalismo praticado pelos Kie e o abandono de uma criança faminta pelos Apiborege.

Por meio dos cantos, os Bororo contam bakaru. O conhecimento da técnica do canto e do uso dos instrumentos dá projeção social ao cantor e fazem dele um conhecedor de bakaru, um conhecedor legitimado dos códigos da cultura bororo. Essa foi uma das formas (não imaginada por mim no começo da pesquisa) encontradas em campo do que seria uma ‘roda de contação de bakaru’.

A performance do cantor com a voz, com os movimentos ritmados dos instrumentos musicais, com os movimentos corporais, com a pintura corporal, com os enfeites amarrados nos braços e nas pernas, com a viseira colorida e com o diadema de penas sobre a cabeça absorve a atenção e enreda até quem não sabe o que ele está cantando, pelo desconhecimento da língua.

Conforme descrito pelo professor 2, a formação de um cantor bororo se dá na convivência com os mais experientes durante as práticas rituais. Primeiro ele observa e ouve, até que, pouco a pouco, passa a participar-fazendo e depois a conduzir cantos em atividades sociais do povo. A essa forma característica de formar cantores, entretanto, estava sendo agregada outra na Aldeia Central de Tadarimana. Ela estava sendo negociada por Tadarimana e Córrego Grande com a empresa Dossel Ambiental/Caxerê, que passaria um linhão de energia por Terras Indígenas Bororo.

Em reunião com a comunidade de Tadarimana, no dia 13 de setembro de 2011, seria contrapartida da empresa, além de bens materiais, a proposição de cursos de formação que deveriam acontecer na aldeia. Entre os cursos estavam previstos o de cantos e o de pintura

corporal. As pessoas contratadas pela empresa para ministrar os cursos, aberto a todos da aldeia que tivessem interesse, seriam o “capitão da cultura” e a esposa dele.

Isso mostra que outra estratégia de aprendizado está sendo inserida pelos Bororo para a formação no conhecimento bororo. Qual estaria sendo o alcance dela e que implicações ela traz aos modos próprios de propagar conhecimentos bororo? São interessantes questões de pesquisa a ser feita.

Benzer Belgeler