1.2. Örgütsel Yaşamdaki Sessizliğin Nedenleri ve Gelişim Dinamikleri
1.2.2. Grup Dinamikleri
O debate sobre a democratização do acesso às universidades públicas brasileiras tem aumentado progressivamente na última década e vem ampliando o conceito de democracia e igualdade de direitos para os diferentes segmentos racial e socialmente excluídos.
Essa inflexão das instituições públicas à demanda por políticas afirmativas é resultante da ação dos movimentos sociais, sobretudo os negros, que constataram que a miscigenação e o mito de democracia racial “explicavam a estagnação dos negros nas camadas mais baixas da população e suas piores condições de trabalho, habitação, saúde e educação”, comenta (MUNIZ, 2004, p.322).
Na UFMG esse debate é ainda recente e incipiente, uma vez que ao longo de seus oitenta e três anos de existência a universidade manteve-se fiel ao ideário de modernização da sociedade. Elitista desde a origem, esse processo não visava à incorporação dos grupos para os quais ela não tinha sido inicialmente planejada.
Diante da realidade externa e da mobilização política de membros da comunidade acadêmica, a discussão sobre a democratização vem sendo pautada nos órgãos internos da universidade, apesar das resistências de vários setores, como a expressa a seguir:
não me parece justificável a adoção do regime de cotas raciais na universidade sem, simultaneamente, levá-lo a todos os outros locais, como às câmaras, às assembléias, aos ministérios, ao Instituto Rio Branco, aos fóruns e tribunais, às empresas de comunicação, à Embraer, à Petrobrás, aos partidos políticos e seus candidatos, às corporações e sindicatos, às congregações e ordens religiosas e acadêmicas, às premiações e cargos honoríficos, aos times de futebol, às novelas de TV, às empresas privadas e às escolas particulares. Também essas escolas têm deveres que vão além da geração de lucros e bastaria que fossem obrigadas também às cotas para que parassem de engrossar a defesa da adoção delas nas universidades públicas. O que se estranha é que a universidade pública autônoma não possa vir a ter seus próprios critérios voltados para a produção do conhecimento e do saber, sobretudo o avançado. Em resumo: ou se coloca cotas raciais em tudo, ou não se coloca em nada. Mesmo porque, no caso da UFMG, uma instituição pública que há muito se volta para promover a inclusão social que lhe compete, os índices indicam que ela já vem cumprindo, em parte, este papel (BRANDÃO, 2008, p242).
Em maio de 2003, realizou-se na UFMG o seminário “Ampliação do acesso à universidade pública: uma urgência democrática”, com o objetivo de dar visibilidade ao tema da democratização no ensino superior. A proposta de inclusão apresentada pela instituição naquele período foi a democratização através da ampliação de vagas em alguns cursos noturnos.
Uma comissão designada pela Reitoria procedeu à análise dos dados constantes do Censo Socioeconômico dos Alunos de Graduação da UFMG que ingressaram entre os anos de 2003 e 2005, e constatou que, do ponto de vista de pertencimento étnico-racial, a universidade necessitava fazer algum investimento, uma vez que os dados eram bastante díspares. Enquanto os que se declaravam brancos somavam 70,3% do alunado, os autodelarados pretos e pardos atingiam 28%. O investimento em vagas nos cursos noturnos aumentaria o contingente de egressos de escolas públicas e de alunos negros. As análises revelaram, também, que os oriundos de escola pública e negros, quando conseguiam a aprovação no vestibular, optavam por cursos noturnos. Além disso, a entrada desses sujeitos não feriria o princípio do mérito acadêmico, uma vez que seriam submetidos ao processo seletivo.
Essa forma de inclusão foi contestada por estudiosos da temática étnico-racial, que argumentavam que a política era insuficiente para abarcar o quantitativo de jovens negros que demandavam o ensino superior. Gomes e Martins (2004) afirmavam que a ampliação de vagas em cursos noturnos é um mecanismo insuficiente diante do quadro de desigualdade registrado na UFMG.
O outro aspecto questionado na referida política era que os cursos mais concorridos funcionavam apenas durante o dia, e dessa forma os estudantes oriundos da escola pública e os negros estariam forçados a optar por cursos menos valorizados socialmente. Apesar das ponderações, a proposta, que já havia sido aprovada em reunião do Conselho Universitário em fevereiro de 2003, foi difundida na comunidade acadêmica.
Em novembro de 2006 a universidade organizou o segundo seminário sobre a democratização do ensino superior, Universidade Pública e Inclusão Social: Experiência e Imaginação. Durante o evento, as proposições da instituição acerca da ampliação de vagas nos cursos noturnos foram reiteradas e o compromisso assumido pelo reitorado de discutir a temática da inclusão na UFMG, mantido.
Paralelo às discussões coordenadas pelo staff da Administração Central, outros setores articulavam-se em prol de uma proposta de políticas afirmativas mais efetivas. Dentre esses segmentos destacaram-se o Programa de Ações Afirmativas, na UFMG, e o Programa Conexões de Saberes, atualmente sediado na FAFICH.
Criado em 2002 o Programa de Ações Afirmativas tem como objetivo promover o fortalecimento acadêmico de estudantes negros, prioritariamente pobres, que ingressaram na Universidade, antes mesmo desta instituição adotar a política de bônus para estudantes egressos de escolas públicas e autodeclarados negros.
Apesar de as ações desenvolvidas pelo referido programa terem o caráter de promoção da permanência de alunos negros e alunas negras na universidade, o mesmo é uma iniciativa de um coletivo de professores negros e brancos empenhados na luta anti-racista, lotados na Faculdade de Educação, Ciência da Informação e Escola de Ensino Fundamental do Centro Pedagógico.
Em maio de 2008 o Conselho Universitário aprovou a proposta de inclusão social que consiste na concessão de um bônus adicional de 10% para os candidatos ao vestibular que comprovarem ter cursado os últimos sete anos em escola pública e mais 5% para os candidatos que, além do primeiro requisito, se autodeclararem pretos e pardos.
A inclusão do quesito raça/cor como adicional ao bônus resultou da articulação e da pressão de um grupo de docentes negros e brancos da UFMG, vinculados a diferentes cursos e áreas do conhecimento, que pautaram o tema com o reitorado da época. Eles e elas colheram assinaturas de 47 docentes de diversos cursos que defendiam a proposta de cotas raciais na UFMG. A carta datada de 13 de agosto de 2007, contendo as assinaturas foi entregue à reitora. Esse grupo ainda publicou artigo com o seu posicionamento no Boletim da UFMG, em 22 de abril de 2008.
Na reunião do Conselho Universitário em que se discutiu a proposta de inclusão, esse grupo apresentou a sua demanda específica de ação afirmativa para estudantes negros, a qual já havia sido discutida com setores representativos do Movimento Negro de Belo Horizonte e foi por eles apoiada. Ressaltamos que, antes da realização da reunião no Conselho Universitário, representantes dessa articulação e de diferentes entidades do Movimento Negro de Belo Horizonte e região reuniram-se em duas ocasiões distintas com Reitor e vice-reitora para apresentar as suas demandas e proposta de ação afirmativa na modalidade de cotas. Como a UFMG recusou-se a adotar essa modalidade devido à decisão de implementar uma política de “inclusão social” baseada na proposta de bônus para estudantes egressos de escolas públicas, inspirada em grande medida pelo critério adotado pela UNICAMP, a proposta de cotas raciais foi transformada em bônus racial e defendida junto ao Conselho Universitário por um docente representante dessa articulação, por diretores de unidade, técnico- administrativos e estudantes, tendo sido aprovada em 15 de maio de 2008.
Para acompanhar a implementação da política de inclusão o Conselho Universitário aprovou a criação de uma comissão, que foi instituída em setembro de 2008 – Comissão de Estudo e Acompanhamento das Medidas de Inclusão Social no Corpo Discente (CAIS).
A Cais é composta por integrantes dos três segmentos da comunidade universitária, e no momento os membros da comissão vêm discutindo de que forma os técnico- administrativos poderiam participar ativamente das discussões, proposições e implementação de políticas voltadas para a temática racial na UFMG. No entanto, a comissão enfrenta dilemas complicados, pois apesar de ser instituída oficialmente pelo Conselho Universitário, contando com a participação voluntária de um grupo de docentes, um representante dos TAE´s e um discente não encontram ainda um lugar institucional na estrutura da universidade, que coloca obstáculos à sua atuação.