2.1. GRAFİK TASARIM, KARİKATÜR ve EĞİTİM
2.1.2. Grafik Sanatının Tarihi
É vasta a quantidade de pesquisadores que se debruçaram sobre a questão da modernização, do desenvolvimento das cidades contemporâneas e da modernidade. Neste trabalho, não ignora-se que o tema é importante e ganhou várias interpretações. Um dos primeiros autores a avaliar o impacto que as cidades em desenvolvimento representam para a vida em coletividade foi Karl Marx.
Karl Marx (2001), no Manifesto Comunista dimensionou a era burguesa como a época de ininterruptas alterações. Para o autor, o capitalismo sobrevive de frequentes revoluções no modo de produção que, por sua vez, impacta todas as relações sociais. Desse modo a modernidade não gera acomodações dos sujeitos no tempo, mas desenraiza sua memória, na medida em que a aceleração do cotidiano impede a percepção da sobrevivência das certezas que guiaram os homens até o século XIX.
Na esteira de Karl Marx, Marshall Berman foi um dos autores a ganhar notoriedade nos estudos sobre a modernidade, desde a publicação de Tudo que é sólido desmancha no ar: a aventura da modernidade, frase, aliás, tomada de empréstimo de Marx.
Para o autor, apesar de, tradicionalmente, o pensamento contemporâneo utilizar de forma dissociada o termo modernidade para aspectos da economia e política e o termo modernismo para aspectos da arte, cultura e sensibilidade, há a possibilidade do tratamento desses termos com profunda associação. Goethe e Marx, por exemplo, na visão de Berman (1986), partilham de um senso de totalidade, pois a vida moderna abarcaria, para os mesmos, em um movimento coerente, aspectos da economia, política e arte.
A bifurcação da visão da vida moderna em dois níveis, o material e o espiritual, fato generalizado na cultura contemporânea, dificulta a apreensão de um de seus fatos mais marcantes: a fusão desses dois níveis, ou seja, um conjunto de ideias perpassando, ao mesmo tempo, a estrutura mais concreta da sociedade (política e economia) e as representações que os homens fazem dela e de si mesmos (arte). Autores como Goethe, Marx e Baudelaire tinham uma visão instintiva desta interpretação (BERMAN, 1986). Baseado em Berman, pode-se afirmar, então, que a vida moderna, ou a busca desta vivência, foi pautada tanto em aspectos culturais, mais voltados ao espírito, como em aspectos econômicos e políticos, mais voltados à matéria. Fez parte do ideal de modernidade um determinado estilo artístico e estético, bem como a República, enquanto forma de governo associada à democracia, ao urbanismo e à valorização das descobertas científicas.
Já a modernização é entendida por Berman (1986, p. 16) como o que dá existência “ao turbilhão da vida moderna”. Este turbilhão tem sido alimentado por muitas fontes: grandes descobertas científicas, industrialização da produção, explosão demográfica, crescimento urbano, sistemas de comunicação de massa, Estados Nacionais cada vez mais poderosos, movimentos sociais de massa e de nações e o mercado capitalista mundial.
A industrialização e o crescimento das cidades são processos que aconteceram em épocas distintas e em intensidades diferentes, mas dentro de um mesmo universo de transformação, uma vez que os impactos desse tipo de desenvolvimento foram percebidos de forma muito semelhante pela população de diferentes países e/ou localidades.
A sociedade pode reconhecer-se (ou desejar ser) moderna, mesmo que as condições materiais não sejam propícias ao conjunto do que denominamos de modernidade, conceito, aliás, construído por autores cuja experiência é a Europa do século XIX.
Em Montes Claros, no período em estudo, apesar da permanência do rural, do atrasado, a cidade já sentia a efervescência de uma nova sociedade que metamorfoseava em muito pela valorização das benesses proporcionadas pelo avanço da ciência. Em Cyro dos Anjos, especialmente quando ele regressava de períodos vividos na zona rural39, evidencia- se tal emoção:
Para aguçar essa ânsia de vida urbana, que na fazenda me consumia e definhava, aconteceu que a cidade, por essa época, conhecesse dias febricitantes, que lhe iam rapidamente modificando a fisionomia. O governo havia deliberado retomar as obras do ramal ferroviário, paralisadas havia tempo, e a notícia de tal decisão foi suficiente para que minha velha Santana de menino acabasse de ir pelos ares. [...] Outras coisas perturbadoras ocorreram: as ruas da cidade haviam estremecido com as explosões do primeiro motor a gasolina. Um pastor protestante, camarada afoito, chegara, à nossa urbe, de motocicleta [...]. Parecia que 1920 deliberara matar-nos de emoção: não haviam passado dois meses sobre o advento da motocicleta e já chegava a Santana um caminhão Ford [...]. E havia mais: o proprietário do veículo, seu Castro [...] decidira também erguer um coreto no Largo de Baixo. Novidade grande, que trazia outra ainda maior no seu bojo: seriam subterrâneos os fios que levariam a luz elétrica ao coreto. Acesa controvérsia estabeleceu-se em todas as rodas, e em muita gente sisuda admitia que ficaria eletrificada a área percorrida pelos fios, constituindo perigo para os incautos [...]. Este coreto produzira sensível alteração nos hábitos da mocidade; O giro à Rua do Bispo foi, duas vezes por semana, substituído pelas retretas que a Lira Santanense nele realizava (ANJOS, 1979, p. 156-157).
39 Antes de se mudar para Belo Horizonte, Cyro dos Anjos alternava períodos vividos na área urbana de Montes Claros, onde a família tinha um comércio, e períodos vividos na zona rural, na fazendo do pai ou do tio.
O memorialista destaca a exacerbação do desejo da vida urbana, das inéditas possibilidades que se apresentavam na cidade. A ferrovia, o caminhão, a luz elétrica no coreto, conquistas de um mundo moderno, frutos do avanço científico que alimentava o “turbilhão da vida moderna”: não participar deste processo era motivo de agonia.
Alterava-se substancialmente o cotidiano da população que, vivendo “dias febricitantes”, tinha novas referências, renovadas possibilidades de comportamento. A chegada do caminhão do “seu Castro”, por exemplo, inaugurou uma nova e disputada prática de diversão na cidade. Segundo Paula (1957, p.27), no início, as pessoas gradas da cidade eram convidadas pelo proprietário para passearem. Após algum tempo, os passeios eram pagos, reunindo a rapaziada do comércio aos domingos, e Cyro dos Anjos “era naquele tempo um dos mais entusiasmados. Chefiava a ‘vaca’. Catando dez tostões de cada um até perfazer os vinte mil réis– preço de uma corrida ida e volta aos Paus-Pretos”. Assim, o processo de modernização imprimia originais marcas no cotidiano dos indivíduos.
Para Berman (1986), a história da modernidade pode ser dividida em três fases. A primeira, compreendida entre o início do século XVI e o fim do século XVIII marca o início da experiência da vida moderna, o que o autor chama de “estado de semi-cegueira”. Essa primeira fase é caracterizada pela ausência de consciência dos sujeitos que presenciam um fenômeno amplo e duradouro. Na segunda fase, demarcada pela onda revolucionária de 1790 e pelo fim do século XIX, ainda segundo Berman, há o sentimento de viver em um mundo revolucionário, em que está presente uma sensação de dicotomia devido à percepção de se viver em um mundo que não chega a ser moderno por inteiro. A terceira fase, inaugurada pelo século XX, engloba a expansão da modernização que, virtualmente, abarca todo o mundo.
Com a expansão da modernização ocorrida, segundo Berman, no século XX, multiplicam-se também seus significados. Ao adotar o processo de modernização da sociedade montesclarense como objeto de estudo, o trabalho partiu da premissa de que modernidade e modernização na prática foram fenômenos plurais, vivenciados em diferentes formas e intensidades e que a aspiração pela modernidade conviveu com o temor da mudança. Para Berman (1986, p. 15), “ser moderno é encontrar-se em um ambiente que promete aventura, poder, alegria, crescimento, autotransformação e transformação das coisas ao redor – mas ao mesmo tempo ameaça destruir tudo o que temos, tudo o que sabemos, tudo o que somos”.
Diversos indícios indicam a presença da ambiguidade no processo de modernização de Montes Claros. Cyro dos Anjos, ao abordar as transformações da cidade do início do século XX, destacou eventos como a chegada da eletricidade, as sessões de cinema e as práticas de diversão. Em todos, estavam presentes simultaneamente o ardor de uma nova vida e certo temor diante das intensas transformações. Um exemplo do receio para com o desenvolvimento foi a inauguração da casa comercial moderna que competia com a venda de tipo familiar, que assustava os antigos comerciantes, apesar do entendimento de que tais novidades arrancariam a cidade da pobreza.
A modernidade, cujo conceito emergiu da sociedade urbana, provocou o desejo pela mudança, mas também o medo do que isso significaria, expressando-se em dois sentidos. O que estava em evidência eram experiências compartilhadas pelos grupos sociais motivadas, paradoxalmente, pela mudança e aventura, e também pelo receio e a dúvida.
Segundo José Murilo de Carvalho (1998), a partir do final do século XIX, apesar do avanço da modernidade, muitos valores foram mantidos em virtude da força da tradição. A Força da Tradição é o título de revolucionária obra de Arno Mayer.
Segundo Mayer (1987), a percepção da mudança e da novidade da sociedade burguesa rumo à modernidade foi maior no imaginário do que em crescimento do poder burguês, propriamente dito. Ao contrário da maioria dos pesquisadores do período que escreveram buscando marcar as mudanças da sociedade capitalista europeia de fins do século XIX e início do XX, Arno Mayer mapeou a permanência, no intuito de problematizar as resistências à modernidade. O autor chega a afirmar que a burguesia financeira não dispunha de capital político suficiente para solapar as antigas aristocracias, o que faz com que a primeira Guerra Mundial possa ser compreendida também na leitura da remobilização das forças do Antigo Regime.
Ainda para Mayer (1987, p. 14), “embora perdendo terreno para as forças do capitalismo industrial, as forças da Antiga Ordem ainda estavam suficientemente dispostas e poderosas para resistir e retardar o curso da história, se necessário recorrendo à violência”. Dessa forma, sem negar a importância crescente das forças modernas, o autor afirma que os elementos pré-modernos não eram frágeis e não tinham desaparecido, sendo capazes de refrearem, ou pelo menos incomodarem, a nova sociedade dinâmica e expansiva.
No esforço de retratar a sociedade que se formava na transição do século XIX para o XX, como ainda apegada aos valores da Antiga Ordem, Mayer centra seu argumento na força da tradição, a partir da análise de fatores econômicos, sociais, políticos e culturais da época. Economicamente, vê a sociedade europeia do início do século XX como pré-
industrial e pré-burguesa, com suas sociedades civis ainda fortemente radicadas na agricultura, na manufatura de bens de consumo e no pequeno comércio. Em termos sociais analisa a burguesia emergente (a financeira) como incipiente e insegura, mantendo-se subserviente em suas relações a membros da aristocracia agrária. Além disso, politicamente reconhece a manutenção da força da nobreza e a adoção do regime republicano como uma exceção entre os países do ocidente europeu. Por fim, vê as culturas oficiais da Europa ainda ancoradas em valores da Antiga Ordem, na forma de conteúdo e estilo.
Em conjunto, a análise de Mayer aponta o que ele denominou de permanência da tradição, no sentido de apontar a enorme flexibilidade dos valores aristocráticos que permitiam a elite representante da Antiga Ordem se adaptar com facilidade às mudanças exigidas pela modernização. Significa, em outras palavras, afirmar que o velho conviveu com o novo sem perder sua importância durante quase toda a primeira metade do século XX.
Em Montes Claros, assim como em boa parte do Brasil, a tensão entre aspectos tidos como modernos, progressistas e aspectos vistos como antiquados é evidente. Inicialmente, é importante lembrar a força política e econômica que a aristocracia rural ainda tinha na cidade. Como discutido anteriormente, os membros das camadas dirigentes, com frequência, ou eram produtores rurais ou possuíam estreitos laços com este grupo. Além disso, o que era considerado moderno ou antigo não era separado por uma fronteira bem demarcada, podendo ambos ser identificados de forma diferente por cada grupo político-social. O futebol, por exemplo, expoente de uma sociedade que desejava modernizar-se, foi utilizado como ferramenta pedagógica por um grupo que baseava suas ações na manutenção da tradição, os missionários premonstratenses.
Uma questão central para a convivência de arranjos sociais tradicionais e modernos na Europa Ocidental dos séculos XIX e parte do XX analisada por Mayer é a conservação da posse da terra como abono de poder. Para o autor, a perda da autoridade política e administrativa no Antigo Regime não implicou na perda do poder em virtude da manutenção do status e da riqueza pelos nobres ligados a terra. “A terra continuou a ser a principal forma de riqueza e renda das classes dirigentes e governantes até 1914” (MAYER, 1987, p. 19).
Nos rincões de Minas Gerais no início do século XX, a posse da terra foi elemento primeiro de constituição de poder econômico e político. O papel estratégico da região no fornecimento de suprimentos à região das minas no século XVIII consolidou a área como um recanto de poderosos proprietários rurais. Mesmo no período republicano,
com o crescimento das cidades e a dinamização social, os apelos pela modernização esbarravam nos interesses de uma elite conservadora. Para Porto (2002), o elemento oligárquico foi um componente essencial na cultura política de Montes Claros da época, tendo como personagens de destaque os grandes proprietários, além de médicos, bacharéis em direito e outros profissionais liberais. Tal fato corrobora para o argumento de que o discurso que subsidia a política de crescimento da cidade é pela modernidade, mas não em todos os seus significados.
Também na imprensa podia ser percebida a tensão e o imbricamento entre o moderno e o tradicional. O jornal, porta voz de parcela da elite, expressava a ansiedade pelas novidades que a vida moderna anunciava, mas proclamava também a manutenção da ordem vigente. Isto porque os próprios colunistas das folhas estavam inseridos neste conflito. A polissemia do que exprimia o jornal explica-se também em virtude do fato de que as mãos que redigiam os textos a serem publicados eram mãos de indivíduos marcados pelos valores do mundo tradicional, da grande propriedade rural, em relação com a realidade moderna que se impunha. Além das características dos proprietários dos jornais, já tratados no capítulo 2, vejamos dois frequentes colunistas do jornal Gazeta do Norte: João de Andrade Câmara e João Martins da Silva Maia.
João de Andrade Câmara nasceu em 1878, filho do influente advogado Justino Câmara. Foi fazendeiro, criador de gado e invernista; ocupou o cargo de coletor estadual e federal; participou da fundação da Escola Normal Norte-Mineira, onde também foi professor e diretor (VIANNA, 1964). Outro colunista, o Cel. João Martins da Silva Maia nasceu em 1867; tinha vínculos com a grande propriedade rural através de seu pai, o Cap. João Martins Maia. Foi fazendeiro e criador de gado zebu. Também foi um dos pioneiros nas tentativas de industrialização do norte de Minas Gerais. Investiu na indústria têxtil, charcutaria e fábrica de banha, entre outras, e na construção de estradas (VIANNA, 1964).
Em uma época assinalada pela volubilidade, não era raro atores sociais que exprimiam o vínculo ao tradicional, como a grande propriedade rural, e ao novo, como a indústria e a escola normal.
A ideia de que o velho e o novo compuseram as sociedades no período da modernidade é essencial para este trabalho. Como tratado nos capítulos anteriores, a ânsia pela modernização conviveu com antigos hábitos já difundidos entre a população montesclarense.
No empenho de entender os embates entre ideais modernos e tradicionais como um processo complexo em que diferentes valores coexistiram e foram (re)significados, destaca-se o pensamento de Edward Palmer Thompson40.
A obra intitulada Formação da classe operária inglesa (2004) foi um marco na carreira do historiador, notadamente hoje apontado como precursor da história cultural. Nela, o historiador abandonou a tradicional perspectiva marxista de análise do operariado enquanto fruto de grandes processos e, portanto, compreendida em termos definidores gerais, com tendência coletiva de reações iguais, e propôs a análise do “fazer-se” da classe operária, advogando uma “História vista de baixo”. Nesse sentido, a experiência é elemento essencial no pensamento de Thompson. A política associada à cultura, percebida nos domínios da longa duração, foi apresentada pelo autor como um imbricado fazer e (re)fazer de atores em seus contextos mais cotidianos, obviamente sujeitos às pressões externas. As classes subalternas, nas diversas relações que estabeleciam entre si, com outros e o meio, em diferentes realidades, exercitavam, como todos os outros grupos sociais, reflexões sobre o agir e o mundo, interagiam com o conhecimento e as formas de dominação a que todos estariam subordinados e (re)elaboravam, cada qual ao seu modo, a percepção oriunda da elite que marcava os instrumentos de controle social. Ora, Thompson deu voz aos sujeitos, utilizou fontes variadas e combateu a análise das classes sociais em modelos estabelecidos a priori das particularidades de seus membros.
Em Costumes em Comum, Thompson (1998, p. 13) defende a tese de que “a consciência e os usos costumeiros eram particularmente fortes no século XVIII” e funcionavam como oposição às tentativas de reformas sociais. Nesse contexto, é preciso entender costume não como práticas que foram mantidas em pequenos grupos41, mas como elementos difundidos em grupos extensos, provocadores de identidade e ambiência, geradores de expectativa e legitimação.
É clara nos historiadores que se ocupam dos séculos XVI e XVII a tendência de ver o século XVIII como uma época em que esses costumes se encontravam em declínio, juntamente com a magia, a feitiçaria e superstições semelhantes. O povo estava sujeito a pressões para reformar
40 Adepto formalmente do comunismo desde a juventude, Thompson integrava um seleto grupo de pesquisadores que pensavam a tumultuada situação da esquerda inglesa na década de 50 do século XX. Christopher Hill, Eric Hobsbawm, Raymond Williams e Thompson, dentre outros, se autointitulavam
“marxistas humanistas”. Em 1956 Thompson abandonou o partido e sete anos mais tarde afastou-se
definitivamente de alguns pressupostos teóricos e linhas de abordagem que o aproximava do grupo de outrora. 41 Para Thompson (1998), o surgimento do folclore é decorrência da separação, no século XVIII, entre a cultura patrícia e a cultura da plebe. Assim, o folclore está associado a costumes que foram mantidos em
sua cultura segundo normas vinda de cima, a alfabetização suplantava a transmissão oral, e o esclarecimento escorria dos estratos superiores aos inferiores– pelo menos, era o que se supunha. Mas as pressões em favor da “reforma” sofriam uma resistência teimosa (THOMPSON, 1998, p. 13).
Essa resistência caracteriza-se pelo entendimento do costume como uma prática dinâmica e relacional. As transformações ou permanências na sociedade inglesa do século XVIII não se davam em uma única direção, mas através de um processo permeado de embates e negociações entre o “novo” e as práticas costumeiras da população. Mais que isso, os próprios costumes da população não funcionavam como estruturas fixas e imutáveis.
No século XVIII, o costume constituía a retórica de legitimação de quase todo uso, prática ou direito reclamado. Por isso, o costume não codificado
– e até mesmo o codificado – estava em fluxo contínuo. Longe de exibir a
permanência sugerida pela palavra tradição, o costume era um campo para mudança e disputa, uma arena no qual interesses opostos apresentavam reivindicações conflitantes (THOMPSON, 1998, p. 16-17).
No entender de Thompson, o termo costume possui forte relação com a cultura. Inicialmente, o autor define cultura como similar ao sentido atribuído aos costumes do século XVIII. Estes, como afirmado anteriormente, foram meios e justificativas de resistência e luta das classes populares contra as classes dominantes. Posteriormente, o autor critica também a visão universal de cultura, vista como “sistema de atitudes, valores e significados compartilhados, e as formas simbólicas (desempenhos e artefatos) em que se acham incorporados” (THOMPSON, 1998, p. 17).
A análise tecida por Thompson para a realidade histórica inglesa indica a possibilidade de, a partir de uma visão crítica, perceber na dinâmica dos costumes a cultura como espaço de conflito, e não de consenso e acomodação. Tal ideia pode inspirar o olhar sobre a sociedade montesclarense das primeiras décadas do período republicano brasileiro, em que elementos ancorados numa nova ideia de civilidade atingiam o norte do Estado de Minas Gerais e integravam-se ou não à cultura local mediante um processo conflituoso.
Como já apontado anteriormente, uma das profissões de destaque na sociedade montesclarense do início do século XX eram de comerciantes denominados de caixeiros-