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Gizli Belgelerle

Belgede 20 6 (sayfa 48-52)

Com fins didáticos, podemos ilustrar o conjunto das metáforas supraexaminadas na subseção anterior através do quadro sumarizante abaixo, adaptado de Lakoff (2009) e reformulado a partir de Lakoff e Johnson (1999), Lakoff (2002) e Ferraz (2007). Neste, cada uma das metáforas para a moralidade é definida por meio da fórmula MORALIDADE É X, a motivação experiencial subjacente ao mapeamento metafórico, que corresponde às suposições relativas ao conceito de bem-estar, assume a forma de uma proposição genérica tal qual “Você está melhor se você pode X”, e algumas expressões linguísticas atualizadoras são arroladas para exemplificar cada metáfora.

Moralidade é... Você está melhor se... Exemplos linguísticos

MORALIDADE É RIQUEZA Você está melhor se você tem

riqueza do que é empobrecido Lula se queixa de que o seu aliado teria sido escolhido para

pagar pelos escândalos no

Senado / É injusto debitar a responsabilidade pela totalidade da crise ao senador José Sarney.

MORALIDADE É FORÇA, donde, MORALIDADE É RETIDÃO (uprightness) e MORALIDADE É EQUILÍBRIO

Você está melhor se é forte do que é fraco;

Você está melhor se está reto e equilibrado do que incapaz de se manter de pé.

É preciso resistir às tentações cotidianas.

Ele cultiva altos ideais morais. A crise que se instalou em Brasília balançou as mais importantes instituições da República.

MORALIDADE É

AUTORIDADE Você está melhor se estiver no controle do que se estiver sob o domínio de outros

É preciso respeitar as leis nesse país.

Ele é culpado por

insubordinação

MORALIDADE É ORDEM Você está melhor se obedece à hierarquia natural de poder a que está sujeito

A sociedade vive hoje em um verdadeiro estado de caos.

MORALIDADE É LIMITE Você está melhor se segue um caminho sancionado por sua comunidade

Sua atitude transgrediu os padrões de comportamento da sociedade.

Os desvios de verba foram descobertos pelo TCU.

MORALIDADE É ESSÊNCIA Você está melhor se sua essência é composta por virtudes do que por vícios

Ele tem um coração de ouro. Ele é um caso perdido. É podre

até o caroço.

MORALIDADE É

INTEGRIDADE Você está melhor se está inteiro/íntegro do que fragmentado ou tem alguma deficiência

Os sucessivos escândalos

desgastam a imagem do

Congresso.

Seus princípios ruíram ante a cobiça e a facilidade de enriquecimento ilícito.

MORALIDADE É

PUREZA/LIMPEZA

Você está melhor se dispõe de ar e alimentos puros do que contaminados / Você está melhor se está limpo do que sujo

É preciso varrer a corrupção do país.

A imagem do legislativo foi

manchada pelos escândalos no

Senado.

MORALIDADE É SAÚDE Você está melhor se está com saúde do que doente

O criminoso agiu segundo sua mente doentia.

A corrupção no Brasil

converteu-se em uma epidemia que se dissemina por todos os órgãos públicos.

MORALIDADE É EMPATIA Você está melhor se tem empatia pelos outros do que indiferença

Devemos sempre nos solidarizar com o sofrimento alheio

MORALIDADE É CUIDADO Você está melhor se é cuidado e protegido do que descuidado e ignorado

É dever dos pais proteger os seus filhos das más influências.

QUADRO 2: Sistema metafórico da moralidade

Cumpre advertir, contudo, que o quadro acima nos permite divisar apenas um retrato parcial do sistema metafórico da moralidade, uma vez que, segundo sustenta Lakoff (2009), “como existem muitas formas de bem-estar e mal-estar que normalmente experienciamos, existem correspondentemente muitas metáforas para a moralidade” (LAKOFF, 2009, p. 96, tradução nossa).

Lakoff e Johnson (1999) reiteram, de igual modo, que essa lista de metáforas para a moralidade não é exaustiva, podendo ser virtualmente ampliada por outros mapeamentos tais como MORALIDADE É LUZCLARIDADE  IMORALIDADE É ESCURIDÃO, MORALIDADE É BELEZA, dentre outros. Lakoff (2002), por seu turno, acresce ainda a esse rol MORALIDADE É FELICIDADE, MORALIDADE É CUIDADO SOCIAL, bem como a denominada metáfora do Crescimento Moral.

Relativamente ao fato de como essas metáforas morais se articulam em um sistema coerente, Lakoff e Johnson (ibid.), pautando-se no estudo de Lakoff (2002), aventam a hipótese de que elas se baseiam, na verdade, em modelos essenciais de família, e nas correspondentes formas de moralidade atreladas a cada um desses modelos. Desse modo, segundo os autores, “são modelos de família que ordenam nossas metáforas para a moralidade em perspectivas éticas relativamente coerentes por meio das quais vivemos nossas vidas.” (LAKOFF; JOHNSON, 1999, p. 313, tradução nossa). Cumpre, pois, ainda que sucintamente, aludirmos à análise da noção de moralidade, sistematizada por Lakoff (2002) em sua obra

Moral Politics.

Lakoff (2002) empreendeu, sob os pressupostos da Ciência Cognitiva, uma análise minudente dos principais sistemas políticos em embate no cenário da política americana, a saber, o conservadorismo (habitualmente associado aos grupos de orientação republicana) e o liberalismo (típico dos grupos denominados de progressistas ou democratas). O autor demonstrou que a cosmovisão e comportamentos característicos do primeiro sistema político estão embasados em um modelo de família denominado de Família do Pai Severo, ao passo que os posicionamentos político-ideológicos atinentes ao segundo estão fundados em um modelo familiar diverso, intitulado de Família do Pai Cuidadoso. Cada um desses modelos organiza, ainda, o conjunto das metáforas morais de maneira diversa, atribuindo-lhes diferentes prioridades, o que culmina por formatar dois sistemas morais distintos.

Mas em que efetivamente consistem os dois modelos fundamentais de família16 a que se refere Lakoff (2002)

A Família do Pai Severo corresponde basicamente ao modelo de família tradicional, em que o pai ocupa a posição central. A autoridade paterna assume aqui grande relevância, uma vez que o pai é a figura que estabelece os princípios morais e normas rigorosas de comportamento a serem obedecidas no interior da família. A obediência a tais normas por

16 Lakoff (2002), bem como Lakoff e Johnson (1999) enfatizam que esses modelos são, na verdade, apenas

idealizações, e não existem em sua forma pura, logo, o que encontramos em nossa experiência real são antes versões particulares ou mesmo mesclas (blendings) desses dois tipos de família.

parte dos filhos é reforçada a partir de um sistema de recompensas e punições, ao modo de um behaviorismo popular (LAKOFF, 2002). Espera-se que, através da obediência e do respeito à autoridade, os filhos desenvolvam a auto-disciplina, a auto-confiança, e um caráter moralmente forte que os habilitará a enfrentar um mundo duro e competitivo, eivado de males e ameaças. Finalmente, nesse modelo, a mãe é responsável apenas pelas funções de cuidar dos filhos e dar sustentação à autoridade paterna. O amor e o cuidado têm alguma importância, contudo, não devem sobrepujar a autoridade paterna.

O sistema de moralidade vazado a partir desse modelo familiar, ou Moralidade do

Pai Severo, por conseguinte, atribui o nível mais alto de prioridade às metáforas da

Autoridade Moral, Força Moral e Ordem Moral, estando as metáforas do Cuidado Moral e da Empatia Moral, por sua vez, subjugadas a estas. Intimamente associadas a esse sistema moral estão ainda, sob a perspectiva de Lakoff (2002), as metáforas da Essência Moral, Pureza Moral, Saúde Moral, Limites Morais e Totalidade Moral.

Na Família do Pai Cuidadoso, em contrapartida, a ênfase incide sobre o amor, a empatia, o cuidado e a proteção. A obediência dos filhos deriva antes do seu amor e respeito pelos pais que do receio de punição. A auto-disciplina e a auto-confiança são desenvolvidas através das experiências de receber cuidado e de cuidar de outras pessoas, quer da família, quer da comunidade. A comunicação entre pais e filhos é, ainda, aberta, mútua e respeitosa, e as decisões dos pais são justificadas claramente. A meta última visada pelo cuidado paterno nesse tipo de família é a felicidade e realização plena dos filhos. Espera-se, sobretudo, que estes desenvolvam a empatia pelos outros e as capacidades do cuidado e da cooperação.

A Moralidade do Pai Cuidadoso, consequentemente, exibe uma ordem de prioridade para as metáforas da moralidade diversa daquela examinada há pouco. Nesse sistema moral, as metáforas do Cuidado Moral e da Empatia Moral assumem agora a posição mais elevada, sendo a Autoridade Moral secundária face a estas. A metáfora da Ordem Moral, analogamente, também tem pouca importância.

Através de uma análise acurada, Lakoff (2002) deslinda de que modo os valores familiares, subjacentes a esses dois sistemas de moralidade, motivam posições políticas conflitantes por parte de conservadores e liberais. Com base nas metáforas inscritas nos dois sistemas morais, o autor especifica, assim, por que a defesa da pena de morte, a oposição ao aborto, a programas de assistência social, aos direitos de gays e mulheres, à intervenção de ambientalistas, dentre outros temas, integram a visão programática de conservadores, ao passo que os liberais defendem justamente as posições ideológicas inversamente contrárias.

Lakoff e Johnson (1999) operam, por seu turno, uma generalização da tese proposta em Lakoff (2002), refletindo que, independentemente do modelo familiar adotado, a moralidade humana é “definitivamente baseada em alguma concepção de família e moralidade familiar.” (LAKOFF; JOHNSON,1999, p. 317, tradução nossa).

A conceptualização da moralidade em geral a partir do caso específico da moralidade familiar é viabilizada, segundo os autores, graças à denominada Metáfora da Família do

Homem. Por promover a transposição da moralidade familiar para a moralidade universal, tal

metáfora implica na percepção de toda a humanidade como integrante de uma enorme família. Senão vejamos o conjunto de mapeamentos inscritos nessa metáfora, segundo Lakoff e Johnson (ibid.):

Metáfora da Família do Homem

A HUMANIDADE É UMA FAMÍLIA CADA SER HUMANO É CADA CRIANÇA

CADA UM DOS OUTROS SERES HUMANOS SÃO OUTRAS CRIANÇAS RELAÇÕES MORAIS UNIVERSAIS SÃO RELAÇÕES MORAIS FAMILIARES AUTORIDADE MORAL UNIVERSAL É AUTORIDADE MORAL FAMILIAR MORALIDADE UNIVERSAL É MORALIDADE FAMILIAR

CUIDADO MORAL UNIVERSAL É CUIDADO FAMILIAR

Por meio dessa metáfora, as obrigações morais previstas no esquema moral familiar são projetadas para o espectro da moral universal, de modo que todos os seres humanos são equiparados aos membros de uma mesma família. Com efeito, segundo Lakoff e Johnson (1999):

Assim como cada criança na família está sujeita à mesma autoridade moral e leis morais, de igual modo cada pessoa no mundo está sujeita à mesma autoridade moral e leis morais. Assim como cada membro da família é responsável por cuidar de todos os demais membros da família, cada pessoa, igualmente, é obrigada a cuidar de todas as outras. (LAKOFF; JOHNSON, ibid., p. 317, tradução nossa).

Lakoff e Johnson refletem ainda que o papel relativo ao pai universal nessa metáfora pode eventualmente vir a ser desempenhado por diferentes entidades, tais como Deus, a Razão Universal, ou mesmo a própria Sociedade como um todo.

Belgede 20 6 (sayfa 48-52)

Benzer Belgeler