O enfoque cognitivo também lançou luzes sobre outro fenômeno tradicionalmente descrito como mera figura de linguagem, a saber, a metonímia. Na metonímia, tipicamente, empregamos uma entidade para nos referirmos a outra, relacionada, de algum modo, à primeira. A título de ilustração, vejamos as sentenças abaixo:
Eu estou lendo Machado de Assis. Precisamos de sangue novo na empresa.
Nos exemplos acima, a expressão Machado de Assis refere-se, efetivamente, a obras
escritas por Machado de Assis, ao passo que sangue novo remete a pessoas novas que possam
vir a integrar o quadro de funcionários da empresa em causa. Na primeira sentença, a metonímia estaria fundada numa relação do tipo PRODUTOR PELO PRODUTO, já o segundo exemplo ilustraria uma relação do tipo PARTE PELO TODO.
Lakoff e Johnson (2002 [1980]) sustentam que a metonímia não consiste meramente numa operação substitutiva entre nomes de coisas, mas é, antes, um fenômeno conceptual e, por conseguinte, de modo análogo à metáfora, “não é somente um recurso poético ou retórico, nem é somente uma questão de linguagem”. (LAKOFF; JOHNSON, ibid., p. 93).
A relevância cognitiva da metonímia é sublinhada por Lakoff e Johnson (ibid.) ao refletirem que muitos conceitos metonímicos subjazem a nosso sistema conceptual e se inscrevem de modo significativo em nossas relações culturais. Exemplo ilustrativo desse fato, segundo os autores, consiste na prática cultural da representação de pessoas através de retratos de seu rosto, que revelam, em última análise, uma materialização da relação metonímica do tipo ROSTO PELA PESSOA (subtipo da metonímia PARTE PELO TODO).
Os autores insistem ainda que a relação metonímica não é um mero expediente referencial, dado que os conceitos metonímicos são atravessados por valores e modos de pensar relativos a uma dada cultura. No célebre exemplo O sanduíche de presunto quer sua
conta citado pelos autores, em que se atualiza uma relação metonímica do tipo PRODUTO
PELO CONSUMIDOR, teríamos uma metonímia desumanizadora, por assim dizer, possivelmente pautada na lógica capitalista, uma vez que se focaliza apenas a relação comercial. Logo, de acordo com Lakoff e Johnson (2002 [1980]), “assim como as metáforas, os conceitos metonímicos estruturam não somente a linguagem, mas também nossos pensamentos, atitudes e ações” (LAKOFF; JOHNSON, ibid., p. 97).
Radden e Kovecses (1999) enfatizam, de igual modo, que, a despeito de, tradicionalmente, a metonímia ser definida como uma relação de substituição, o que se explicita na notação empregada para descrever relações metonímicas, qual seja, X POR Y, na verdade, “a metonímia não substitui simplesmente uma entidade por outra, mas antes as inter- relaciona para formar um significado novo, complexo” (RADDEN; KOVECSES, 1999, p. 19, tradução nossa).
Com efeito, em um enunciado como Pedro comprou uma Ferrari, em que se evidencia uma relação metonímica do tipo PRODUTOR PELO PRODUTO, a virtual interpretação literal (algo equivalente a Pedro comprou um carro) não expressa precisamente, contudo, o significado previsto pela relação metonímica. Isso porque a metonímia não exerce apenas um papel referencial, como adverte Lakoff e Johnson (2002 [1980]), mas focaliza aspectos específicos da entidade a que desejamos nos referir. No exemplo ora em tela, não temos, pois, uma relação meramente substitutiva, dado que não desejamos apenas nos referir a um objeto no mundo (carro - PRODUTO), mas também evocar todo o status de luxo e refinamento associado à marca de automóveis em causa (Ferrari - PRODUTOR).
Por outro lado, a noção de contiguidade, normalmente arrolada como traço essencial que articula as entidades constitutivas de uma relação metonímica também será revista sob a abordagem cognitiva. Segundo a concepção tradicional, os elementos relacionados por metonímia estão próximos um do outro, isto é, mantêm uma relação de contiguidade na dimensão espaço-temporal. Nos exemplos citados há pouco, diríamos que produtor e produto estão simultaneamente in presentia, dado que o primeiro é responsável pela criação do segundo, e, de igual modo, o rostoparte integra o corpotodo.
Contudo, sob o viés cognitivo, essa relação de “proximidade” será redimensionada e alçada ao nível conceptual. Para Kovecses (2002), isso implica dizer, que as entidades relacionadas pela metonímia estão próximas porque pertencem a um mesmo domínio
conceptual ou modelo cognitivo idealizado (MCI)9. Produtor e produto comporiam, dessa
forma, um mesmo MCI, o MCI da Produção, ao passo que rosto e pessoa integrariam, por sua vez, o MCI do Todo e suas Partes.
Retomando sumariamente a questão, com Radden e Kovecses (1999), podemos dizer, portanto, que “as abordagens tradicionais situam a relação de contiguidade no mundo real, enquanto as abordagens cognitivas a localizam no nível conceptual.” (RADDEN; KOVECSES, 1999, p. 19, tradução nossa).
Kovecses (2002) irá propor uma definição para a metonímia que contempla sua natureza cognitiva. Para o autor, com efeito, a metonímia consiste em
um processo cognitivo em que uma entidade conceptual, o veículo, provê acesso mental a outra entidade conceptual, o alvo, dentro do mesmo domínio, ou modelo cognitivo idealizado (MCI). (KOVECSES, 2002, p. 145, tradução nossa).
Assim, nas sentenças já referidas, Machado de Assis e sangue novo desempenhariam o papel de entidades-veículo que propiciam o acesso mental ou cognitivo às entidades-alvo
obras escritas por Machado de Assis e pessoas novas, respectivamente.
Kovecses acrescenta ainda que a escolha das entidades-veículo na relação metonímica atende a um critério de saliência, dado que habitualmente as entidades que atuam como veículo são mais concretas ou salientes. Em um estudo mais detalhado, Radden e Kovecses (1999) apresentam um conjunto de princípios cognitivos e comunicativos que, segundo os autores, determinam a seleção do veículo metonímico.
Lakoff e Johnson (2002 [1980]) consideram que a metonímia não é um fenômeno fortuito ou aleatório, mas antes exibe um caráter sistemático, sendo possível discriminar as principais relações subjacentes às entidades relacionadas pela metonímia. Nesse sentido, Kovecses (2002) e Radden e Kovecses (1999) apresentam um quadro minucioso das numerosas relações passíveis de existir entre entidades-veículo e entidades-alvo, bem como dos MCIs mais comuns a que estas se vinculam. Reproduzimos abaixo apenas um breve
9 A noção de modelo cognitivo idealizado (MCI) consiste um construto teórico elaborado por Lakoff que
designa “uma representação mental relativamente estável que representa uma ‘teoria’ sobre algum aspecto do mundo, a partir da qual palavras e outras unidades linguísticas podem ser relativizadas” (EVANS, 2007, p. 104, tradução nossa). Assim, um conceito lexical como “solteirão” adquire sua significação somente em relação ao MCI CASAMENTO, socioculturalmente determinado, e que prevê, dentre outros aspectos, uma idade núbil ideal. Tais modelos são idealizados porque exibem caráter esquemático e condensam uma gama de experiências, abstraindo instâncias específicas de um dado fenômeno. Dentre os princípios estruturantes dos MCIs, Lakoff elenca os esquemas imagéticos, a metáfora e a metonímia.
elenco de algumas dessas relações, ao lado de ocorrências linguísticas atualizadoras das mesmas.
PARTE PELO TODO
A vela desapareceu no mar revolto.
Precisamos de boas cabeças nesse projeto.
TODO PELA PARTE
A América é um país poderoso. (por Estados Unidos)
PRODUTOR PELO PRODUTO
Ela gosta de ouvir Mozart. Maria comprou um Ford.
INSTITUIÇÃO PELOS RESPONSÁVEIS
O Senado votou o Projeto Ficha Limpa.
A UFPB vai discutir a aceitação do ENEM como critério para substituir o vestibular.
O LUGAR PELA INSTITUIÇÃO
Washington está negociando com Moscou.
CONTROLADOR PELO CONTROLADO
Napoleão perdeu em Waterloo.
CATEGORIA PELO MEMBRO DE UMA CATEGORIA
Ela faz uso da pílula há muito tempo. (por pílula anticoncepcional)
1.4.1. Metáfora e metonímia: diferenças e inter-relações
Metáfora e metonímia se inter-relacionam de maneira complexa e os limites entre os dois fenômenos são bastante fluidos, de modo que, por vezes, “não é fácil dizer com certeza se um dado mapeamento deve ser considerado como metafórico ou metonímico”. (BARCELONA, 2003a, p. 8, tradução nossa).
Embora intimamente associadas, metáfora e metonímia exibem, no entanto, algumas diferenças, discutidas em Kovecses (2002). Um dos aspectos elencados pelo autor concerne à função cognitiva desempenhada por cada um desses fenômenos. Enquanto a metáfora se presta precipuamente à compreensão de um conceito a partir de outro, a metonímia exerce, como vimos, a função de permitir o acesso mental, ou ainda, nos termos de Kovecses (ibid.), dirigir a atenção para uma entidade (alvo), através da menção a outra (veículo), normalmente mais saliente ou acessível.
Outra característica que assume papel crucial para a distinção entre os dois fenômenos corresponde ao fato de que, na relação metafórica, temos um mapeamento entre dois domínios distantes em nosso sistema conceptual (a exemplo dos conceitos de amor e viagem na metáfora O AMOR É UMA VIAGEM), ao passo que, na metonímia, as entidades veículo e alvo estão intimamente relacionados, pois pertencem a um mesmo domínio. Em uma palavra, com Kovecses (2002): “os elementos em uma relação metonímica formam um único domínio. Em contraste, a metáfora usa dois domínios ou MCIs distintos e distantes”. (KOVECSES, ibid., p. 147, tradução nossa).
Kovecses (ibid.) reflete ainda sobre os diferentes modos através dos quais metáfora e metonímia interagem e considera que muitas metáforas conceptuais são derivadas de metonímias. Um dos exemplos apontados por Kovecses é a metáfora RAIVA É CALOR. Segundo o autor, essa metáfora possui uma base ou motivação metonímica, na medida em que podemos entrever uma relação de causalidade entre fonte e alvo, de modo que vislumbramos o domínio fonte (CALOR) como um efeito produzido pelo domínio alvo (RAIVA). Com efeito, de acordo com a teoria popular das emoções (KOVECSES, 2002), as emoções produziriam certos efeitos fisiológicos, a exemplo do aumento da temperatura corporal, no caso especifico da raiva. Dessa forma, Kovecses conclui que, subjacente à metáfora conceptual RAIVA É CALOR existe uma relação metonímica do tipo EFEITO PELA CAUSA, vinculada ao MCI de Causação.
Dentre outros exemplos de metáforas baseadas em metonímia explorados pelo autor, destacam-se as metáforas integrantes da metáfora de estrutura de eventos, a que já aludimos nessa exposição (vide 1.2.3.). Nesse caso, uma metáfora como AÇÃO É MOVIMENTO, por exemplo, seria motivada por uma relação metonímica do tipo MEMBRO DE UMA CATEGORIA PELA CATEGORIA (subespécie da metonímia PARTE PELO TODO), já que o domínio fonte (MOVIMENTO) consiste numa subcategoria do domínio alvo (AÇÃO), ou seja, ação é uma categoria superordenada, da qual movimento constitui uma espécime ou
tipo. São ainda exemplos de metáforas motivadas igualmente pela mesma metonímia: EVENTOS SÃO AÇÕES, MUDANÇA É MOVIMENTO, CAUSAS SÃO FORÇAS etc.
Assim, no que concerne à postulação de uma possível base metonímica para a metáfora, Kovecses culmina por concluir que “se uma relação metonímica pode ser descoberta entre uma fonte e um alvo metafórico, então se pode dizer que a metáfora é motivada por e deriva da metonímia em questão.” (KOVECSES, 2002, p. 157, tradução nossa). Relativamente a esse aspecto, Barcelona (2003b), por sua vez, chega mesmo a desenvolver a hipótese de que “todo mapeamento metafórico pressupõe um mapeamento metonímico conceptualmente anterior”. (BARCELONA, ibid., p. 31, tradução e grifo nossos). Por fim, ao investigar a interação entre a metáfora e a metonímia, Radden (2003) irá propor a existência de um continuum entre os dois fenômenos. Assim, para o autor, ao pensarmos na relação entre estes:
Em vez de sempre separar os dois, nós podemos antes pensar em um
continuum metonímia-metáfora com casos obscuros ou difusos entre eles. A
metonímia e a metáfora devem ser vistas como categorias prototípicas nas extremidades deste continuum. As metáforas baseadas em metonímia ocupam muito da zona intermediária imprecisa do continuum. Elas podem estar mais próximas ou da extremidade metonímica ou da extremidade metafórica no continuum metonímia-metáfora. (RADDEN, ibid., p. 93, tradução nossa).