• Sonuç bulunamadı

A diretora da instituição, percebendo a importância e o benefício que o programa havia gerado para as crianças de cinco e seis anos, conseguiu o patrocínio de uma empresa da cidade para a aquisição de escovas elétricas para as crianças maiores e incumbiu a Terapeuta Ocupacional de treinar as outras professoras e monitoras dos adolescentes e dos adultos para o uso da escova elétrica. Isso trouxe imensa alegria à pesquisadora, que pôde ver o seu trabalho multiplicado para outras crianças.

DISCUSSÃO

O estudo demonstrou, com nove crianças autistas de cinco e seis anos, e utilizando um delineamento de múltiplos tratamentos e observação, que a escova elétrica associada a uma canção diminuem o índice de placa, sendo condições que favorecem a aprendizagem da escovação.

Estudos como de Bartizek e Biesbrock (2002), Heins et.al. (2002), Sharma et. al. (2001), Ainamo et.al. (1997), entre outros, também demonstraram que a escova elétrica removeu mais placa bacteriana, sendo, portanto, mais efetiva que a escova convencional para pacientes adultos. O presente estudo obteve resultados semelhantes, mas agora para crianças autistas. Outros estudos (por exemplo, Steenackers et.al., 2001; Roscher et. al., 2001) demonstraram não haver diferenças estatísticas significativas no índice de placa quando se comparou uso de escova elétrica com manual. Esses autores analisam os resultados afirmando que o fator diferencial é a instrução que o profissional oferece e não o equipamento de higiene utilizado.

Quanto ao uso da escova elétrica em crianças, os resultados desse estudo concordam com os de Jongenelis e Wiedemann (1997); Grossman e Proskin (1998), que apontam que a escova elétrica foi mais eficiente na remoção de placa em crianças com dentição mista (decídua + permanente) do que a manual convencional, até quando não havia experiência prévia de escovação com a escova elétrica.

Cabe destacar que estudos como os de Costa et. al. (2001), Scheidegger e Lussi (2005) relataram não haver diferença significativa nos índices de placa de crianças que fizeram uso de escova elétrica e convencional. Esses autores reforçaram a importância das crianças receberem treinamento e instruções adequadas, independentemente do tipo de escova. Assim, é possível verificar que os resultados contraditórios são explicados em termos de oferecer instruções adequadas e não relacionadas ao equipamento. Os resultados do presente estudo, entretanto, ressaltam que a soma dessas condições (instrução

adequada, se considerarmos a canção como tal, mais escova elétrica) e, evidentemente, a freqüência de escovação resultam em menores índices de placa.

A comparação entre escova elétrica e manual na diminuição de placa bacteriana foi estudada em crianças portadoras de diferentes necessidades especiais, sendo a deficiência mental a mais pesquisada (por ex., Dogan et. al., 2004; Soares e Soares, 1999; Carr, Sterling & Bauchmoyer, 1997). Os resultados desses estudos apontam na direção dos obtidos no presente estudo. Apenas Macedo et al. (2005) notaram uma redução significativa no índice de placa com os dois tipos de escova (elétrica e convencional), tendo como referencial crianças com paralisia cerebral. No entanto, os pesquisadores observaram uma preferência pela escova elétrica por parte dos cuidadores.

No que se refere à utilização de música, Reinhold (1994) a recomendava como estratégia para modificar comportamentos inadequados de pacientes infantis. Segundo Decourt (1998), a música está capacitada a influenciar a pessoa que age (o profissional) e a pessoa que recebe a ação (o paciente) e enriquece o ambiente que os envolvem. O presente estudo demonstrou que a associação de uma canção ao ato de escovar dentes parece ser uma condição favorecedora para diminuir índices de placa, principalmente quando associada à escova elétrica. É importante ressaltar que, se tais resultados foram obtidos com crianças autistas, estudos futuros deveriam avaliar a aplicabilidade de tais condições a crianças com desenvolvimento típico com grande população.

A técnica “FALAR-MOSTRAR-FAZER” (Lowe & Lindemann, 1985), muito utilizada em odontopediatria, pode ser inadequada para crianças autistas, uma vez que elas podem ter dificuldades em seguir instruções, repetir gestos, prestar atenção, etc., parecendo não ser uma estratégia para ensinar escovação. Assim, o presente estudo demonstrou que uma canção contendo instruções simples e repetitivas, associada a equipamentos adequados, mostram-se mais efetivos.

Uma contribuição importante do presente estudo para a área de odontopediatria foi o delineamento utilizado (delineamento de múltiplos tratamentos de Tawney & Gast, 1984). Ele permitiu avaliar o efeito específico da

introdução de cada variável (canção e escova elétrica) no índice de placa, replicado para três participantes. Além disso, a análise procurou sanar uma dificuldade metodológica encontrada na maioria dos estudos (por ex. Hanato et.al, 2005; Cronin et.al, 2001; Wadekerchhove et.al, 2004): a de utilizar delineamento de pré e pós-teste com um grupo, delineamento este classificado por Selltiz, Wrightsman e Cook (1987) como pré-experimental e “exemplo de como não fazer pesquisa” (p. 36). Entretanto, pesquisas com maior número de participantes são necessárias.

Também é necessário que se desenvolvam mais pesquisas para avaliar essa relação (autismo – escova elétrica – escova manual). Futuros estudos poderiam verificar essa relação em adultos com autismo, bem como em crianças autistas mais jovens (abaixo de cinco anos). Haveria também a possibilidade de aplicar esse treinamento (escova elétrica + canção) em ambiente domiciliar e, ainda, testar se há relação entre uso de escova elétrica e diminuição de comportamentos de aversão ao motor de baixa rotação utilizado no tratamento odontológico. Outra fonte de estudos seria a capacitação de cuidadores na aplicação dos procedimentos.

Ao realizar o estudo, algumas dificuldades foram encontradas. A primeira delas diz respeito à localização dos participantes com diagnóstico de autismo na faixa etária de cinco a seis anos. Foi necessário deslocar-se para uma cidade de grande porte do interior do estado de São Paulo, a fim de encontrá-los. Em segundo lugar, a instituição em que o estudo foi realizado mostrou-se resistente em autorizar a pesquisa. Tal resistência parecia estar relacionada a não ter experiência prévia com pesquisa e não acreditar na intervenção. Contudo, a autorização foi obtida após ficar estabelecida uma parceria entre os alunos da instituição e a pesquisadora para atendimento odontológico. À medida em que os resultados foram favoráveis, a direção da instituição estendeu o procedimento de escovação para os alunos mais velhos. Por último, vale lembrar que a coleta de dados durou dois anos e meio.

Benzer Belgeler