O bairro do Jardim Iguatemi possui uma creche municipal e uma escola estadual, e ambas são responsáveis por atender aos moradores do Residencial dos Oitis. Foram entrevistadas duas professoras da Creche do bairro e um membro da direção da escola estadual Professora Luísa Rolfsen Petrilli. As entrevistas foram realizadas nas referidas unidades dos serviços públicos de educação.
Segundo os agentes públicos entrevistados a chegada dos moradores do Residencial dos Oitis não foi precedida de reuniões com membros do poder público. No caso da escola, ocorreu apenas uma reunião emergencial com a diretoria estadual de ensino, com intuito de planejar a organização da escola para receber os novos alunos. A direção da escola precisou resolver o problema relacionado ao aumento do número de vagas e de material para conseguir atender a nova demanda que emergiu no bairro. Para isso foi necessário transformar uma sala que seria destinada à informática em sala de aula.
Já a creche do bairro foi chamada apenas a participar de reuniões do Orçamento Participativo19, que ocorreram após o residencial estar instalado na região. Elas trataram conjuntamente com os moradores e agentes públicos do serviço educacional sobre algumas possibilidades de investimento no bairro. Os agentes públicos da creche solicitaram o aumento do espaço da unidade, mas o resultado final da reunião determinou a implantação do CRAS no território. Desse modo, a creche teve problemas de espaço físico para receber a nova demanda de alunos, que dobrou com a chegada das novas crianças ao bairro. Outro problema mencionado foi o comportamento agressivo de algumas famílias com os agentes públicos que trabalham na creche, logo que chegaram ao bairro. No entanto, tais comportamentos não ocorrem mais com a mesma frequência. Um dos agentes públicos entrevistados expôs que as famílias foram orientadas inicialmente a procurar o serviço de creche pública do CECAP, o bairro vizinho, mas muitas famílias recusaram e quiseram ser atendidas no bairro em que moravam. Sobre as dificuldades enfrentadas pela creche do bairro destacam-se as seguintes falas:
[...] no início foi bem difícil porque eles mesmo colocam assim uma barreira, então eles vinham falar com a gente já de maneira agressiva, que era uma autodefesa, a gente acredita [...] (AP EDUCAÇÃO 1).
[...] a creche ficou superlotada [...], tinha dia que eles dormiam meio que no corredor, assim, sabe? Porque não tinha espaço e a prefeitura não teve esse planejamento, sabe? Então não só por isso a gente sentiu muita dificuldade, mas por conta da diferença também das outras famílias, às vezes por falta de material, falta de participação. E na creche é um lugar que a gente precisa muito de participação e parceria dos pais (AP EDUCAÇÃO 2).
[...] nós precisamos desfazer uma classe que estava montada, uma classe de multimídia e com computadores pra área da educação pros alunos usarem. E de um dia pro outro nós precisamos desativar aquela sala que tínhamos acabado de ganhar praticamente, pra colocar alunos (AP EDUCAÇÃO 3).
19 O orçamento participativo é um instrumento da democracia representativa que chama os cidadãos a tomarem
decisões sobre a gestão da cidade. Para isso, escolhem qual será a prioridade dos investimentos e usos dos
orçamentos das prefeituras. Disponível em:
Quando ao problema de lotação da creche, um dos entrevistados asseverou que o problema permanece, conforme sua fala exposta a seguir:
[...] faz quatro anos, elas ainda estão em superlotação aqui na creche, tem um monte de criança junto, às vezes dificulta o trabalho porque é uma turma muito grande, falta espaço e eles... Não se tocou mais no assunto, e assim foi ficando, sabe? [...] Por exemplo [...], tem três salas, tem seis turmas, o dia que chove, por exemplo, são duas turmas de vinte e cinco alunos em cada sala, olha o tamanho dessas salas, são setenta alunos aqui dentro, e são crianças, entendeu? Olha o espaço externo. É grande? É, mas olha o sol que tá. Hoje, por exemplo, tem um espaço que tem sol, entendeu? E assim, as turmas são muito lotadas, tem muita criança no espaço, assim, a gente tem muita matrícula, são quatrocentas [...]. Então isso dificulta o nosso atendimento. Porque não houve planejamento. A gente foi simplesmente informada: “a partir do ano que vem vocês vão receber” (AP EDUCAÇÃO 2).
Os agentes públicos entrevistados disseram sentir diferenças entre as famílias residentes no conjunto habitacional e as demais famílias do bairro, que já eram atendidas nas unidades educacionais, principalmente com relação ao comprometimento dos pais em relação aos filhos e ao comportamento agressivo das crianças. Segundo um dos entrevistados, a escola do bairro passou a ser depredada após a construção do residencial. O comportamento agressivo e negligente de alguns pais perante o sistema educacional também foi ressaltado como uma dificuldade das famílias que residem do conjunto habitacional.
Quando indagados a respeito dos problemas que identificavam junto às famílias de moradores do Residencial dos Oitis, os agentes apontaram: falta de recursos materiais; negligência familiar; violência doméstica; problema com o lixo; atraso dos pais em buscarem os filhos na creche ou escola; falta de crianças às aulas; tráfico de drogas e uso de drogas pelos pais das crianças atendidas.
A questão da segurança no bairro e no Residencial dos Oitis é um problema para os entrevistados, que consideram os dois territórios inseguros. Um deles discorreu sobre o aumento de roubos no bairro e no comércio com a chegada dos moradores do residencial ao bairro.
[...] eu percebo de relato até das pessoas que moram no bairro ou de outros funcionários que moram no bairro [...]. Tem uma vizinha que [...] falava que não podia estender roupa porque as roupas sumiam do varal, sabe? Não podia lavar um tênis e colocar pra secar, porque a hora que fosse ver já não teria mais a cesta (AP EDUCAÇÃO 2).
Os agentes públicos foram questionados sobre suas compreensões acerca das origens dos problemas citados, e destacaram a dificuldade de convivência, a falta de estrutura e as condições de pobreza em que vivem muitas famílias. Um dos educadores mencionou a falta de estrutura do residencial como um fator que contribui para a insegurança no local, pois dificultaria a entrada da polícia. O mesmo agente público também fez referência à falta de serviços públicos no bairro e ao fato de o conjunto habitacional ser vertical como fatores que culminaram nos problemas ainda existentes:
[...] se fosse um conjunto de casas a polícia poderia estar passando nas ruas, a polícia não pode entrar ali sem um mandato, sem um motivo, entendeu? Então, assim, eu acredito que eles reclamam por isso, sabe? A falta de segurança [...], eles reclamam da falta de estrutura no bairro também, por exemplo, não aumentou um posto, não fez um posto de saúde a mais, não fez uma escola a mais. Então eles têm que aceitar do jeito que tá aqui, entendeu? O bairro não foi preparado pra receber um conjunto habitacional. Principalmente um conjunto habitacional vertical (AP EDUCAÇÃO 1).
A dificuldade de convivência entre as famílias de moradores foi outro fator mencionado por dois agentes públicos entrevistados, e contribuído para a insatisfação das famílias que moram no conjunto habitacional. Segundo eles, existe uma dificuldade de convivência entre os moradores e também entre famílias “boas” e “ruins”. As famílias boas, segundo os entrevistados, seriam as famílias que se preocupam com seus filhos, e as famílias ruins seriam as que são negligentes, desestruturadas e têm envolvimento com o uso ou tráfico de drogas. Como foi ressaltado:
[...] acredito que tem um choque entre os próprios moradores do condomínio. Tem diferença sabe, não só com as outras pessoas do bairro, mas ali dentro do próprio condomínio acontece isso. Porque têm muitas mães que reclamam, tem uma criança minha que mudou recentemente, a mãe falou assim: “Graças a Deus eu consegui sair dali, porque eu estou criando meus filhos lá no meio, é difícil você falar pro seu filho: ‘ó, não faça isso’, sendo que ali todo mundo faz.” Então eu percebo que têm boas famílias ali que tão tentando até, às vezes, sair. Porque não querem continuar naquela realidade (AP EDUCAÇÃO 2).
Os agentes públicos do serviço educacional disseram que tentam atuar na superação dos problemas identificados. Segundo as entrevistas realizadas, os casos graves de violações dos direitos da criança são encaminhados ao Conselho Tutelar. Quando os problemas são identificados, há uma busca para que sejam trabalhados através de conversas que tratem de temas que auxiliem na formação da cidadania das crianças. No entanto, existe uma dificuldade narrada pelos agentes públicos da creche em lidar com as crianças quando são expostos temas relacionados à violência. É demandada da escola uma atenção voltada às
crianças atendidas. Os professores são orientados a permanecerem atentos a sinais que possam significar algum tipo de problema com as crianças. Segue a mesma agente educacional:
É muito difícil. [...] Por exemplo, ano passado quando as crianças vieram me falar: “Ah tia, o Marcos rouba, ele fica pedindo as coisas no mercado”, muitas vezes você não sabe como reagir, sentar e conversar, porque às vezes você também fica insegura em relação a isso. No nosso caso, por exemplo, com as crianças, o que a gente tenta fazer é isso, fazer um projeto sobre valores, conversar, fazer uma roda de conversa, porque eu acho que o que cabe a nós é mais isso, entendeu? [...] Às vezes a gente mesmo não sabe o que fazer. São situações que deixam até a gente surpreso, sem reação (AP EDUCAÇÃO 2).
Ou como afirmou um terceiro agente educacional:
[...] nós aqui na escola procuramos deixar tanto os pais como as crianças sabendo dos direitos e deveres deles. Inclusive com relação à violência. As professoras estão sempre, assim, preocupadas com isso, com uma criança que parece um pouco triste. Faz algumas perguntas pra criança, pra ver se tem alguma coisa intrínseca nisso, né? Nós estamos muito atentos, sempre (AP EDUCAÇÃO 3).
Quando questionados sobre a existência de projetos ou ações do sistema educacional que visem, especificamente, trabalhar a prevenção da violência junto aos moradores do Residencial dos Oitis, os três agentes públicos responderam que não há. Na creche existe a reunião de pais onde alguns temas são abordados, mas nunca foi trabalhada essa temática de forma específica. A escola do bairro procura trabalhar temas que julgue pertinentes nas reuniões de pais, mas de acordo com a fala de um agente público entrevistado existem dificuldades em criar um momento específico para discutir com os moradores esses problemas que são identificados no local onde moram, com perspectivas de trabalhar a prevenção da violência. O mesmo agente também fez alusão à necessidade de serem estabelecidas parcerias com outras instituições para desenvolverem conjuntamente estratégias de enfrentamento dos problemas que acometem as famílias de moradores do Residencial dos Oitis.
[...] chamá-los todos pra falar a respeito de violência, isso nós ainda não conseguimos fazer [...]. Nós não temos condições de chamá-los todos, nós precisamos de parcerias, de outras instituições pra fazer um trabalho bem feito, entende? (AP EDUCAÇÃO 1).
De acordo com os entrevistados, as políticas habitacionais merecem críticas atribuídas à construção de conjuntos habitacionais sob a forma de prédios; ao planejamento do atendimento dos serviços públicos essenciais para atender as populações novas desde a chegada dos novos moradores aos bairros e à seleção das famílias que vão morar em um
mesmo local. Como muitas vezes certas famílias já detém um quadro de vulnerabilidade social, os conjuntos habitacionais acabam agrupando em um mesmo território famílias vulneráveis, o que acarreta uma intensificação dos problemas sociais. Sobre isso, destaca-se a fala do agente público entrevistado que considera essa política habitacional como uma ação higienista e despreocupada com a qualidade de vida e garantia de direitos das famílias atendidas:
[...] Eu vejo muitas crianças [...] que têm uma família problemática e que a criança cresceu vendo que só na casa dela tinha polícia todo dia, só na casa dela tinha violência todos os dias; que a mãe de todo mundo trabalhava, todo mundo tinha comida em casa e eu vejo que aquele menino cresceu percebendo que as coisas na casa dele não estavam tão legais, e que ele foi buscando outros caminhos. Ali, infelizmente, tudo é normal para quase todas as crianças. O pai de quase todo mundo foi preso, quase todo mundo não tem comida [...]. Muitas vezes, eu vejo que eles não veem outra saída para a vida deles. Ali é normal, todo mundo faz isso, todo mundo fica na rua, todo mundo não tem ninguém em casa para olhar; a mãe de todo mundo usa droga, eles veem prostituição. Então, às vezes, o que eu fico pensando que ele [o governo local] juntou um monte de problemas e não deu para essas pessoas alternativas; talvez de socializarem [...] com outras famílias e verem outros exemplos para seguir. Meio que eles tão fadados àquilo, porque ali é realidade para todo mundo, e eu vejo que têm crianças que tão saindo da creche e tão seguindo pelo mesmo caminho. Só que, infelizmente, para eles é o normal. [...] É outro mundo; é difícil de você compreender olhando de fora, assim. [...] Tem roubo, tem arma. As minhas crianças sabem nomes de armas, eu não sei, entendeu? Então, assim, eu penso que foi muito errado o que foi feito, eu acho que ele [o governo local] deveria, sim, ofertar residência pra essas famílias, tem que ter um programa social, tem que ter programa de políticas públicas, mas não dessa maneira. Eu vejo que a administração quis se isolar de um problema; ele pegou um canto da cidade e juntou as famílias que davam problemas ali e meio que limpou os outros bairros da cidade; por exemplo, tinham famílias dando problemas nos outros bairros da cidade, ele aglomerou ali. Só que assim ele não resolveu o problema, eu acredito que ele só piorou. Mas eu acredito que, talvez, para ele tenha sido mais fácil, ele concentrou todo mundo ali. Ali tem polícia todo dia e meio que ele tenta controlar. Eu não consigo entender às vezes qual foi a estratégia (AP EDUCAÇÃO 2).
Por meio das entrevistas realizadas junto aos agentes públicos que atuam no serviço educacional do bairro Jardim Iguatemi foram identificadas situações em que ocorrem a violação dos direitos da criança envolvendo as famílias que moram do Residencial dos Oitis, como a negligência familiar. As origens dos problemas identificados, segundo os entrevistados, relacionam-se ao modo como o residencial foi implantado. A ausência de planejamento junto ao serviço público educacional se soma aos problemas estruturais que ocorrem em conjuntos habitacionais construídos sob a forma de prédios. A vulnerabilidade
social atribuída às famílias de moradores foi outro fator que surgiu como justificativa aos problemas apresentados.
Embora existam problemas graves acometendo as famílias de moradores do Residencial dos Oitis, o serviço educacional não realiza trabalhos especificamente voltados a essa população, que tenham a perspectiva de trabalhar a prevenção e superação da violência e insegurança urbana evidenciadas nesse território do bairro.
De acordo com as entrevistas realizadas, existe a necessidade de melhorar o planejamento das políticas públicas habitacionais e de investimento no sistema educacional que se encontra superlotado.