(...) As escolas constituem uma territorialidade espacial e cultural onde se exprime o jogo dos atores educativos internos e externos; por isso, a sua análise só tem verdadeiro sentido se conseguir mobilizar todas as dimensões pessoais, simbólicas e políticas da vida escolar, não reduzindo o pensamento e a ação educativa à perspectivas técnicas, de gestão ou de eficácia stricto senso (Nóvoa, 1995, p. 16).
Como já dissemos anteriormente, os processos educacionais levados à cabo no interior das instituições prisionais são gerenciados pela FUNAP – Fundação “Prof. Dr. Manoel Pedro Pimentel”, organicamente vinculada ao próprio Secretário de Administração Penitenciária do Estado de São Paulo. Para buscar atingir os seus
objetivos a FUNAP conta com um corpo de funcionários que inclui aqueles ligados às questões administrativas, aqueles ligados à gerência dos programas de educação, supervisores e orientadores pedagógicos e ainda, o próprio corpo de auxiliares nas instituições prisionais, os monitores. Também já dissemos que a FUNAP mantém em seu quadro de pessoal docente, monitores contratados, estagiários, monitores oriundos de parcerias com prefeituras municipais de educação ou da própria rede pública estadual de educação e ainda, monitores selecionados e credenciados junto à própria população reclusa.
Um certo distanciamento entre as políticas que a FUNAP propaga e as políticas que, efetivamente consegue implementar foi tema de algumas das entrevistas que realizamos com os sujeitos que vivem o cotidiano da educação nas prisões. Ouvimos queixas variadas com relação a esse aspecto, entretanto, o fato de que elas vieram de pessoas bastante próximas à própria Fundação nos leva a crer que devem ser relevantes:
O relacionamento nosso com a FUNAP, eu acho que ainda deixa a deseja. Não com relação à nós aqui com a FUNAP. Eu acho que a FUNAP deveria participar mais... por exemplo: O gerente da FUNAP, deve estar há uns três meses, eu ainda não conheço esse novo gerente. Eu acho que cabe a eles vir se apresentar e visitar à escola (Transcrição de relato de um diretor de educação, 2004).
Quando reuníamos o material coletado visando a sua sistematização para utilização neste trabalho, e líamos o conteúdo do relato desse funcionário, lembramos que dias após a nossa segunda visita de campo à penitenciária onde o mesmo trabalha, ocorreu uma solenidade de entrega de certificados de conclusão de ensino fundamental e médio à alguns alunos. Ocorre que, na semana anterior ao evento, quando visitávamos a unidade prisional, ouvimos comentários que apontavam para um certo desentendimento por parte da direção de educação da instituição e da própria FUNAP com relação a como deveria ser encaminhada a solenidade de formatura dos alunos. No dia marcado para a referida solenidade, momento em que eram aguardadas algumas “autoridades” da unidade prisional e da Fundação, aconteceu de essa solenidade acontecer apenas com a presença de representantes da FUNAP, entre eles, o gerente regional, uma orientadora pedagógica, alguns monitores e os formandos. Nem o diretor
de educação nem o diretor geral da unidade prisional compareceram a fim de prestigiar o evento. Aproximadamente no meio da solenidade fez-se presente o diretor de reabilitação da unidade prisional.
Para a orientadora pedagógica que entrevistamos esse procedimento tem a ver com um certo “jogo de forças” que medem os diretores da instituição prisional e a FUNAP:
(...) A FUNAP pode dar uma série de regras para o seu professor, que não serão aplicadas aqui dentro se a direção da casa não permitir. (...) Na verdade, ainda que a FUNAP ache que não, a direção suprema, a FUNAP é submissa as regras da casa e o trabalho da FUNAP será conduzido de acordo com as regras dessa casa e de acordo com o jogo de cintura, com o jeito e com todo esse jogo político que esse funcionário da FUNAP tiver com a casa, se ele conseguir (Transcrição de relato de orientadora pedagógica, setembro, 2004).
Embora reconheça essa distância entre as políticas pensadas para a educação em presídios e as ações efetivamente conduzidas nas instituições, uma da monitoras entrevistadas na penitenciária 2, diz verificar uma tamanha limitação da FUNAP em relação à possibilidade de concretização dessas políticas:
Eu vejo assim, Arlindo. O sistema penitenciário, ele cresceu, deu uma inchada. Tanto que você pega os números de matrículas aí e a FUNAP não acompanhou o crescimento, não acompanhou assim, a FUNAP não teve pernas, e quando eu digo pernas, eu digo não teve o número de pessoas suficientes para acompanhar os números de unidades prisionais que hoje a FUNAP atende. Então, assim: você atende? Atende. Atende com que? Com material dentro do que é possível ser atendido, más em termos de informação, é muito complicado, porque, de repente, eu estou aqui, em (penitenciária 2), a FUNAP está lá, a 700 quilômetros de mim. Atualmente tem-se regional em ******, más mesmo assim, são lá 22 unidades prisionais para três pessoas atenderem. Então, como formar? Não dá para formar, porque o..., por exemplo, meu supervisor, ele veio aqui, a última reunião de formação foi em setembro, então, de setembro até maio, quantos meses se passou? (Transcrição de relato de entrevista de monitora, penitenciária 2, maio de 2004).
A inter-relação entre a FUNAP e suas diretrizes para a educação nos presídios se dá por intermédio do diretor do núcleo de educação, subordinado hierarquicamente ao diretor do centro de reabilitação e ao diretor de departamento ou geral. As atribuições da diretoria de educação estão previstas em decreto regulamentado
pelo próprio governador do Estado. Essas atribuições, atualmente, constam do artigo 28 – “Os Núcleos e as Equipes de Educação têm as seguintes atribuições”, do decreto n.º 43.277, de 3 de julho de 1998, que “reorganiza os estabelecimentos penais da Secretaria da Administração Penitenciária e dá providências correlatas”. Um novo Decreto recém publicado, altera esse formato anterior, colocando juntos a educação e o trabalho penitenciário. Apesar de dizer respeito a organização de duas novas penitenciárias, recém inauguradas, imaginamos que esta será a diretriz futura para as prisões (conforme Seção III, – “Dos Centros de Trabalho e Educação”, Capítulo V, Decreto n.º 48.905, de 30 de Agosto de 2004).
Em ambas as penitenciárias estudadas, os diretores de educação começaram a sua carreira nas prisões como Guardas de Presídio, denominação anterior do Agente de Segurança Penitenciária. Na penitenciária 1, o diretor de educação é Bacharel em Direito, exerce funções em presídio há 20 anos e está no cargo de diretor há, aproximadamente, dois anos. Já na penitenciária 2, o diretor de educação é Licenciado em Educação Física, está no cargo de diretor já há quatro anos, porém trabalha em setores ligados à educação desde o ano de 1981. Perguntados sobre se sabiam das propostas metodológicas da FUNAP para os presídios, reconheceram saber o mínimo. Suas funções eram mais voltadas à efetivação das políticas no interior das instituições prisionais. Questões metodológicas ou pedagógicas ficariam mais voltadas aos monitores, orientadores e supervisores pedagógicos.
Na penitenciária 1, em suas cinco salas de aula e nos três períodos letivos, tínhamos, em setembro de 2004, 215 alunos freqüentando salas de alfabetização, ou ALFA I e II, sendo 83 alunos em ALFA I e 132 em ALFA II, 160 estudavam o Supletivo do ensino fundamental e 96 alunos cursam aulas de ensino médio, totalizando 471 alunos matriculados. Nessa penitenciária estudavam ainda, 45 alunos em curso profissionalizante de injeção eletrônica em veículos automotores. Já dissemos anteriormente que foi nessa última classe onde constatamos a maior freqüência de alunos. O número de alunos matriculados por classe variava de 18 alunos (ALFA II, das oito horas e trinta minutos às dez horas) à três turmas com mais de quarenta alunos matriculados: 49 no ensino médio das 14 horas às 15 horas e trinta minutos, 47 alunos também no ensino médio, das 16 horas às 17 horas e trinta minutos e 45 alunos no curso profissionalizante, das 13 horas às 15 horas.
Na penitenciária 2, em suas quatro salas de aula e nos quatro períodos letivos, ao menos nos momentos em que lá estivemos observando os processos educativos, os 375 alunos matriculados recebiam apenas, a instrução do ensino fundamental, assim divididos: quatro turmas recebiam aulas de ALFA 1 (1ª e 2ª séries do ensino fundamental); três turmas estavam matriculadas no ALFA II (3ª e 4ª séries); 3 turmas faziam o Telecurso 1 (5ª à 8ª séries do ensino fundamental), que compreendia as matérias de Português e História; duas turmas tinham o Telecurso 2, com as matérias de Geografia e Ciências e finalmente, duas turmas freqüentavam o Telecurso 3, com as matérias de Matemática, Inglês e Artes. O número de alunos matriculados em sala de aula variava de 39 alunos (a de maior número de matrículas – ALFA II, das 15 horas às 16 horas e quarenta minutos), à 18 alunos (a de menor número de matrículas – ALFA I, das 13 horas às 14 horas e cinqüenta minutos). Já dissemos que as salas de aula eram amplas e, portanto comportavam, com certo conforto, o número de alunos matriculados. Entretanto, em que pese o número relativamente alto de alunos matriculados em sala de aula, raramente presenciamos a presença de mais de 30 alunos nas mesmas. Em entrevista, o diretor de educação nos disse que se tentava uma parceria com o SENAI – Serviço Nacional da Indústria, para a promoção de cursos profissionalizantes.
A inscrição de alunos para a escola é similar a ambas as instituições:
Quando o preso chega na unidade, ele fica, aproximadamente, 30 dias na cela habitacional. A gente chama de regime de observação ou período de observação, aonde, no período da manhã ele fica dentro da cela, ele não sai. Aonde ele vai observar se naquele raio habitacional que ele mora ali, aqueles sentenciados que habitam por ali não venham trazer nenhum problema à ele e, durante esse período desses 30 dias, ele vai passar pelo setor de inclusão, ele vai passar pela equipe de saúde, vai fazer uma avaliação pela equipe de inclusão da casa onde a gente vai fazer a sua inclusão aqui, a sua chegada. Vai receber todo o seu material, e pela equipe da educação, onde ele vai fazer essa prova de triagem, uma prova de avaliação, pra que? Saber onde que ele faz por necessidade continuar o estudo. Às vezes, na rua, ele já vem com algum certo nível de conhecimento. Nós vamos fazer essa prova de medição, de acordo com o resultado que ele tira, assim que ele for liberado desse período de prova de 30 dias, né, ele vai ser colocado naquela classe na qual ele teve resultado para estudar, é isso. Ele é chamado em sala de aula, já é uma prova, já é elaborada pela FUNAP. Nós utilizamos os professores da FUNAP, que faz esse trabalho de medição. Já há muito tempo ele vem com esse projeto aí, e nessa medição aonde que sai a classificação escolar dele. No dia seguinte dessa classificação, ele já inicia o trabalho de freqüência às aulas (Transcrição literal de trecho de entrevista com diretor de educação da penitenciária 2, maio, 2004).
Cartazes alusivos à vida escolar são encontrados em ambas as escolas. No quadro mural da penitenciária 1 (um porta-avisos medindo 1 metro de largura por 80 centímetros de altura) estão: um aviso informando sobre como receber o certificado de conclusão das provas do CESU – Centro de Exames Supletivos, da Secretaria Estadual de Educação de São Paulo; um panfleto com a história do lápis, contada por um sábio alienígena – JEE; cópia do Jornal interno da penitenciária, denominado “CulturAção”, com poesias, frases de efeito, letras de músicas cifradas, curiosidades, caça-palavras e informações gerais aos prisioneiros; reportagem da revista “VEJA” tratando da questão de raça (identidade); dois pequenos trechos de reportagens com opiniões de especialistas sobre o fim da obrigatoriedade dos exames criminológicos para fins de benefícios e dois cartazes com animais em extinção e os dizeres: “só uma coisa pode salvar a vida destes dois sujeitos: a educação”. Ao lado do quadro-mural, uma folha ilustrada com uma cabeça de dinossauro enterrada e um homem sentado no que foi um dia o seu nariz, que está soterrado e os dizeres: “Quem não lê não sabe o que está perdendo”; um comunicado do setor “Rol de Visitas” com informações das normas e regras para a visita de sentenciados e cartazes alusivos à Olimpíadas de Atenas, feitos pelos próprios alunos – parece que a FUNAP patrocinou um concurso de cartazes sobre esse tema e aquele escolhido como melhor proporcionou a quem o fez um prêmio, um walkman.
Diferentemente da penitenciária anterior, os avisos que pudemos visualizar na penitenciária 2, diziam respeito mais às normas e às sanções no caso de desrespeito às mesmas. Nas paredes do corredor escolar da penitenciária 2, vários comunicados e listas de alunos (contendo apenas a matrícula dos mesmos41) estão afixadas – um deles, proíbe o uso de cigarros em sala de aula e promete “punir os faltosos com o rigor da lei, ou das normas internas”. Diz ainda que, “aquele que desejar fumar no momento de aula, deve dirigir-se ao banheiro existente”. A julgar pelo que vimos, o pedido de autorização ao professor é dispensado, bastando levantar e dirigir-se ao banheiro. Um outro cartaz buscava disciplinar a saída de sentenciados da sala de aula – “apenas com autorização expressa e por escrito de porte de algum funcionário”.
41 Várias listas de alunos que tivemos acesso nessa penitenciária continham apenas o número de sua matrícula na rede de presídios da Secretaria de Administração Penitenciária. Mesmo nas gaiolas, pudemos observar que os prisioneiros eram identificados, sobretudo, por esse número.
Bem próximo às salas do fundo do corredor escolar dessa penitenciária, vimos um aparelho telefônico grudado à parede. O volume sonoro de sua campainha estava bem alto. Apesar disso, nas vezes em que o ouvimos tocar, nos pareceu que ninguém que se encontrasse no corredor escolar ou mesmo nas salas de aula dispensava muita atenção àquele aparelho telefônico. Na penitenciária 1, o telefone do setor permanece em mesa distante das salas de aula, junto ao funcionário de vigia ao posto (conforme figura n.º . 22) e ao lado do livro de ocorrências – um livro que serve de anotações das ocorrências (caso haja alguma) no prédio escolar.
A formação básica exigida pela FUNAP para os monitores presos é de ensino médio. Assim, dos três monitores presos que entrevistamos (dois na penitenciária 1 e um na penitenciária 2), apenas um deles cursava ensino superior quando foi preso e já tinha alguma experiência com a função docente. Um dos monitores docentes havia concluído o ensino médio no interior da prisão. A exigência da FUNAP para o corpo técnico contratado já é maior. Tanto a orientadora pedagógica entrevistada na penitenciária 1, quanto a monitora entrevistada na penitenciária 2, tinham formação superior em Letras. Ambas tinham nessa época uma longa trajetória de educação no interior das prisões.
Figura n. º 22 – Mesa do funcionário de vigia à escola na penitenciária 1. No detalhe, aparelho telefônico e livro de ocorrências.