• Sonuç bulunamadı

Gerekli Tanımlar, Teoremler ve E¸sitsizlikler

Belgede TES ¸EKK ¨ UR (sayfa 10-22)

2. TEMEL KAVRAMLAR

2.1. Gerekli Tanımlar, Teoremler ve E¸sitsizlikler

E por que tratar de representação LGBTQ+ em telenovelas brasileiras? Em que isso contribuiria tanto para esses sujeitos como também para a investigação na comunicação? Como abordado anteriormente, nosso trabalho parte do princípio de que a mídia, os meios de comunicação e a cultura inserida e transmitida por esses meios são componentes fundamentais na formação de um imaginário coletivo e das identidades (SIMÕES; FRANÇA, 2007; KELLNER, 2001).

No caso das minorias e grupos excluídos, Kellner (2001) ressalta a importância das representações na mudança de discursos. Para o autor, a cultura da mídia pode tanto promover discursos discriminatórios, constituindo um entrave para a democracia, como também se mostrar uma força de resistência, propiciando ―o avanço dos interesses dos grupos oprimidos quando ataca coisas como as formas de segregação racial ou sexual, ou quando, pelo menos, as enfraquece com representações mais positivas de raça e sexo‖ (KELLNER, 2001, p. 13).

Para o pesquisador Deilnson Lopes (2004), mais do que uma diversidade de narrativas, existe a necessidade de uma diversidade de narrativas. Como veremos adiante, embora a crescente incorporação de papéis LGBTQ+ nas telenovelas brasileiras na última década, em diversos períodos, certos perfis se repetem – vão desde o de vilões, passando por personagens com estética afeminada em núcleos de humor, até padrões que seriam mais ―palatáveis‖ por seguirem uma estética heteronormativa.

Nesse campo de disputas, a abordagem das vivências dos sujeitos LGBTQ+ nas telenovelas brasileiras, durante os meses em que os folhetins permanecem no ar, embora não expresse a complexidade dessas identidades, fornece pistas sobre quais as visões de quem produz essas tramas (os autores responsáveis pelos textos; atores ao interpretar os papéis; emissoras definindo o que pode ou não ser transmitido; e o mercado que anuncia e sustenta a programação) a respeito desses sujeitos e, consequentemente, sua inserção na sociedade. A abordagem nas novelas pode nos revelar também uma visão hegemônica sobre esses personagens, através das performances assumidas por esses papéis, ficando ainda mais evidente com as supostas representações do cotidiano.

Tais personagens já foram tema de levantamentos de pesquisadores brasileiros (PERET, 2005; SILVA, 2015; SILVA, 2016, entre outros). As relações apresentadas pelos autores nos mostram um panorama da quantidade de personagens e sua evolução em números e temáticas ao longo dos anos, mas podemos considerar como aproximações já que em muitos casos – como os que serão analisados adiante – os personagens não apresentam sua identidade (e, principalmente, sexualidade) de maneira clara.

Silva (2015) cita como o primeiro registro a personagem Rodolfo Augusto (Ary Fontoura) na telenova ―Assim na Terra como no Céu‖, escrita por Dias Gomes e dirigida por Walter Campos. A telenovela, de 212 capítulos, foi ao ar às 22 horas, de 20 de julho de 1970 a 23 de março de 1971. A ficha técnica da trama descreve o personagem como um ―costureiro, amigo de Danuza (Heloísa Helena), vivia em função dos desfiles de carnaval do Teatro Municipal (dados retirados do site Memória Globo, 2013).

Já Peret (2005) menciona a homossexualidade como tema abordado na telenova O

Rebu, de Bráulio Pedroso, exibida entre nos anos 1974 e 1975. Na telenovela, Conrad Mahler (Ziembonski) tinha uma relação com seu ―protegido‖ Cauê (Buza Ferraz). A homossexualidade foi retratada de maneira clara, mostrando uma relação de dependência financeira de um jovem com um milionário mais velho – um dos estereótipos de como a homossexualidade é retratada na telenovela brasileira (PERET, 2005).

Ao fazer um panorama histórico sobre a homossexualidade na telenovela, o pesquisador levanta uma questão que acompanha a trajetória dos sujeitos LGBTQ+ na televisão, o ―respeito ao preconceito‖. Já que muitas vezes se espera que essas personagens estejam inscritas numa conivência com a norma socialmente aceita. O autor destaca o fato de muitas referências a personagens homossexuais usarem expressões como ―conquistou o público sem cenas chocantes‖.

―A expressão ‗cena chocante‟ se refere, geralmente, a qualquer cena que demonstre a orientação sexual de forma explícita, como um beijo, um olhar romântico ou mesmo uma insinuação. Observamos que, à medida que a telenovela evoluiu para acompanhar o gosto popular e manter sua relação empática, a personagem homossexual se valorizou através do discurso da sexualidade no nível social, predendo-se cada vez menos a estereótipos visuais, como o gestual ‗efeminado‘ nos homens ou vestuário masculinizado em mulheres, porém sem a intensificação da imagem da sexualidade per se, através do contato íntimo (PERET, 2005, p. 63, grifo do autor).

De acordo com o autor, o respeito se refere a não exposição explícita da homossexualidade, quando o sujeito respeita o meio social e é respeitado por ele a partir de uma postura que, apesar de não negar sua homossexualidade, também não a confirma explicitamente, evitando qualquer postura que possa constranger as pessoas. Esses personagens, para serem aceitos, acabam reproduzindo um discurso heteronormativo. Também parte desse ponto de vista a pesquisadora Iara Beleli (2009), ao refletir sobre ―discursos internos a tramas que privilegiam modos de viver como lésbicas e gays‖. Esses modos aos quais a autora se refere são os que, apesar de trazerem personagens homossexuais, os inserem em uma lógica semelhante às relações heterossexuais (a autora examinou a visibilidade gay e lésbica nas telenovelas globais Páginas da Vida, exibida em 2006, e A

favorita, em 2008)

Ao incorporarem as relações entre pessoas do mesmo sexo, as novelas também produzem um chamado à identificação, encapsulando os sujeitos em um modelo que remete às relações heterossexuais, pautadas por práticas que parecem predefinidas e, portanto, não necessitam ser problematizadas (BELELI, 2009, p. 117).

Tal representação, apesar da inclusão pretendida, não diversifica ou complexifica as inúmeras identidades possíveis.

Silva (2016) evoca o conceito de single story para problematizar a abordagem única (e estigmatizada) das sexualidades na comunicação. Para a autora, ―single story nada mais é do que um sentido único compartilhado por uma sociedade sobre algo‖ (SILVA, 2016, p. 21). Ela aponta a single story na construção da história do outro e de sentidos – nesse caso, das sexualidades – vigorando por muito tempo, principalmente no campo ficcional. Para a autora, a mídia pode agir para manter essa visão única sobre as sexualidades, como também pode ajudar na ―construção de memórias alternativas‖ (SILVA, 2016, p. 22), e de um repertório plural.

Encontramos nas telenovelas brasileiras também uma ―narrativa da revelação‖. Colling resgata esse conceito desenvolvido por Dennis Allen sobre como as relações

homoeróticas foram desenvolvidas no seriado estadunidense Melrose Place. Nesse caso, apenas há a suspeita das orientações dos personagens, que acaba por revelada próximo ou ao final da trama.

A este tipo de narrativa, Allen denomina ―narrativa de revelação‖, que existe para constituir um sub-tema da narrativa da heterossexualidade e incorporar o inevitável ciclo do amor, casamento, família de forma tradicional. Este investimento interpretativo exclui a alteridade ou marginalidade da homossexualidade (OLIVEIRA, 2002, p. 166, apud COLLING, 2007, p. 7). Essa narrativa também permite, uma vez que a telenovela brasileira apresenta um pequeno intervalo entre a produção dos capítulos e sua veiculação, experimentar a recepção do público em relação a tais personagens, garantindo que, caso haja um indicativo de rejeição a respeito da sexualidade de determinado papel, ele permaneça ―dentro do armário‖. Um registro recente de tal situação foi a personagem Carlos Alberto, interpretado por Marcos Pasquim em Babilônia (2015), cuja sinopse original previa um romance com Ivan (Marcello Melo Jr.), mas teve a trama alterada devido à rejeição das mulheres participantes do grupo de discussão sobre a novela. A rejeição do grupo em relação a uma possível homossexualidade interpretada pelo ator, que possui histórico de galã viril, foi o suficiente para que a história fosse readequada. A mesma rejeição não se deu em relação a um novo personagem, Sérgio, vivido por Cláudio Lins, que foi inserido para preencher a lacuna da trama, sendo irmão de Carlos Alberto e vivendo o romance com Ivan.

A narrativa da revelação se assemelha à saída do armário, ainda marcante na vida dos sujeitos homossexuais. Em uma sociedade como a brasileira, esconder a própria sexualidade é, por vezes, uma manobra que homossexuais têm que recorrer para não ter prejuízos em suas vidas, seja no âmbito público ou privado. Como aponta Eve Kosofsky Sedgwick, o ―armário‖ acaba consistindo em um dispositivo de regulação da vida de gays e lésbicas, que constantemente são compelidos a situações de ocultamento e revelação de sua identidade.

O armário gay não é uma característica apenas das vidas de pessoas gays. Mas, para muitas delas, ainda é a característica fundamental da vida social, e há poucas pessoas gays, por mais corajosas e sinceras que sejam de hábito, por mais afortunadas pelo apoio de suas comunidades imediatas, em cujas vidas o armário não seja ainda uma presença formadora. (SEDGWICK, 2007, p. 22)

A autora sublinha diferentes situações, públicas, do âmbito jurídico ou pessoais em que o sujeito acaba submetido a ―consequências‖ do assumir-se gay ou lésbica (ou bissexual, ou transexual...), seja a perda do emprego, ―readequação‖ de função. Outra questão é que, em relações de poder, muitas vezes quem se revela ainda está sujeito à análise de outrem. O

revelar-se é ainda mais complexo uma vez que é difícil saber de antemão qual a importância que o interlocutor dá a questão e quais as consequências do ―sair‖.

A estrutura do ―armário‖ traz ainda uma dinâmica complexa entre a preservação do sujeito e a violência homofóbica. Ao mesmo tempo em que ele pode ―proteger‖ o sujeito, de agressões físicas, morais ou até resguardá-lo de situações constrangedoras ou que leve a algum dano (na carreira ou na vida social), como se só fosse digno de respeito aquele que mantém sua sexualidade e afetividade a portas fechadas, leva também a um apagamento das identidades e sexualidades ―desviantes‖. Mantê-las dentro do armário é negar-lhes o direito a existência. E fazer conviver com a constante ameaça de ter a sua verdade revelada.

Embora associado à vivência homossexual, o armário então pode ser entendido também como um mecanismo de preservação da hegemonia heterossexual, já que ao ―outro‖ fica implicado seu lugar no âmbito privado, de portas fechadas.

Algumas dessas normas se refletem também nas telenovelas. Nas produções brasileiras, por muitas vezes recorre-se à narrativa da revelação, uma vez que a medida em que os personagens vão se ―descobrindo‖, podem gerar empatia do público através das questões tratadas. O recurso foi também bastante utilizado por Aguinaldo Silva, tanto na questão do ―descobrir-se‖ homossexual, no caso de Jenifer (Senhora do Destino); admitir-se gay e revelar para outro, como Adamastor (Pedra sobre Pedra); como também, a questão de manter-se uma vida inteira ―dentro do armário‖, como Cláudio Bolgari (Império) e ter a estrutura rompida por terceiros e a violência da questão na vida do sujeito.

Ao fazer um levantamento histórico sobre o panorama de personagens LGBTQ+ na produção audiovisual brasileira, Fernanda Silva (2015) mapeou, em sua dissertação, 126 personagens em 62 telenovelas da Rede Globo de Televisão, entre 1970 e 2013. A maior parte, gays, brancos (apenas quatro personagens eram negras) e jovens. São esses: 104 gays (57,8%); 34 bissexuais (18,9%); 29 lésbicas (15,5%); oito transexuais ou transgêneros (4,4%); cinco travestis (2,8%); um intersexual (0,6%). Baseados nesse levantamento, podemos perceber a relevância do trabalho de Aguinaldo Silva na representação dessa temática no país. O autor é responsável por 11 dessas telenovelas (17,7%) e 31 personagens (24,6%) em que a questão LGBTQ+ é abordada.

O número de personagens homossexuais nas telenovelas brasileiras aumentou com o passar dos anos. Baseado no levantamento da autora e de Peret (2005), é possível observar que há uma crescente no número de papéis homoafetivos nas telenovelas globais desde então. Os primeiros registros datam dos anos 1970. Nessa década, foram contados oito personagens homossexuais. O número mais que dobrou na década seguinte, com 18 personagens em 11

telenovelas. Já os anos de 1990 não apresentaram um aumento tão significativo, registrando 22 personagens LGBTQ+ em 13 produções seriadas. Nos anos 2000, o número praticamente triplicou, com 61 personagens, em 28 telenovelas. Já de 2011 a 2017 foram 66 personagens em 25 telenovelas (REVISTA MUNDO ESTRANHO, p. 12 e 13, abr. 2017).

Ainda baseado nos levantamentos dos dois pesquisadores é possível observar o predomínio de personagens, além de gays, que seguem características heteronormativas, seguidas por personagens que apresentam uma estética camp18. Outras identidades de gênero são praticamente anuladas ao longo dos mais de 40 anos. Foram nove transexuais registradas até o ano de 2013, dessas, três foram interpretadas por Rogéria. Também três das produções são de autoria ou coautoria de Aguinaldo Silva – o levantamento vai até 2013. A telenovela Império, escrita pelo autor e exibida entre 2014 e 2015, traz também a personagem Xana Summer, crossdresser interpretada por Aílton Graça.

Outros limites permaneceram por mais de 40 anos sem serem ultrapassados. Acontecimentos nas narrativas televisivas que transpõem a lógica do ―respeito‖ só foram superados na última década, como o ―beijo gay‖ em novelas globais e o ―sexo gay‖.

Apesar dos avanços sobre a reprodução de identidades de gênero, inclusive com o aumento de personagens homossexuais ao longo dos anos, a exibição da sexualidade desses personagens ainda se mantém como tabu para o público. Como citado, o primeiro caso de um personagem homossexual em novelas globais ocorreu em 1974, em O Rebu, no entanto, o primeiro beijo entre dois homens (em uma telenovela) na mesma emissora ocorreu apenas 30 anos depois, em 2014, entre o casal Felix (Mateus Solano) e Niko (Thiago Fragoso), em Viver

à Vida – que, à época, repercutiu na imprensa como um marco na promoção da visibilidade LGBTQ+ e também debate da homofobia.

Dois anos mais tarde, em ―Liberdade, Liberdade‖, produção transmitida no horário alternativo das 23 horas, pela Rede Globo de Televisão, uma cena de sexo entre os personagens André (Caio Blat) e Tolentino (Ricardo Pereira), a primeira cena de ―sexo gay‖ em telenovelas brasileiras (em que é mostrada a troca de carícias eróticas entre os dois homens, indo além da sugestão do ato sexual), foi repercutida pela imprensa, tanto em notícias como em seções de crítica especializada em telenovelas, como um avanço da visibilidade LGBTQ+ e, com uma maior influência da interação entre o jornalismo e público nas redes sociais, refletindo as reações do público diante da exibição da sequência.

18 Retomando o conceito inicialmente trabalhado por Sontag, um comportamento baseado na estética camp, em

uma esfera LGBTQ+, pode ser considerado como tendo como essência o exagero, a ―teatralização da existência‖: ―Camp é um certo tipo de esteticismo‖ (SONTAG, 1987, p. 27, grifo nosso).

Algumas telenovelas são marcos na história dessa narrativa dos homossexuais na televisão brasileira. Também autores que se destacam, ao trabalhar essa temática, ao realizarem um trabalho que foge de um estereótipo comum de representatividade. Este trabalho situa essa trajetória nas produções de Aguinaldo Silva, uma vez que o autor apresenta importantes personagens que abordam essa temática, fazendo um tratamento que oscila entre a tensão social, estereótipos de gênero, e o jogo entre o poder do autor na construção do personagem (e também da emissora) e a interferência do público.

Belgede TES ¸EKK ¨ UR (sayfa 10-22)

Benzer Belgeler