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SANEAMENTO BÁSICO E A UNIVERSALIZAÇÃO DO ACESSO

As redes de infra-estruturas são indispensáveis às políticas desenvolvimentistas. Entretanto, a indefinição competencial do setor travou a aprovação de pontos relevantes para a aceleração dos investimentos de universalização do serviço.

Além disto, durante muito tempo no Brasil, não se deu a devida importância ao desenvolvimento social, dando prioridade em infra-estruturas voltadas para o setor econômico e de produção industrial, como o da energia elétrica. E a noção de serviço público (e o fornecimento de água, principalmente) se apóia na idéia de solidariedade social (redistribuição e universalização).

A Carta de Punta Del Este, Uruguai, em 1961, foi um dos marcos para o aprimoramento de serviços públicos distintos do setor de produção. Comprometeram-se, os países da América Latina, “com a elevação da cobertura dos serviços de água e esgoto. Tinha- se como diretriz atingir 70% da população urbana e 50% da população rural”207.

O Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento, de novembro de 2005, apontou que o Brasil apresenta uma situação péssima no abastecimento de água, sendo que um das principais barreiras para o avanço (universalização do serviço) é a desigualdade da oferta e acesso. Assim, são essenciais as intervenções do Estado e suas políticas públicas para levar os serviços públicos a reduzir as desigualdades. Dentre as metas do Milênio fixadas pela Organização das Nações Unidas até 2015, estão as estratégias de financiamento para se atingir a universalização dos serviços de saneamento básico.

Segundo Maria Luiza Machado Granziera208, o fornecimento público de água potável é um indicador do desenvolvimento de um país, notadamente pela estreita relação do abastecimento com a saúde pública.

“O saneamento apresenta-se como estratégico para o país, tendo em vista a necessidade de se garantir o abastecimento da água em quantidade e qualidade para a população e a melhoria dos índices de desenvolvimento”. 209

207 CARVALHO, Vinícius Marques de. op cit.. p. 113. 208 GRANZIERA, Maria Luiza Machado. op. cit,.p. 126.

209XAVIER, Yanko Marcius de Alencar. Águas, desenvolvimento e direito comparado. In Xavier, Yanko Marcius de Alencar, IRUJO, Antonio Embid, SILVEIRA NETO, Otacílio dos Santos. O Direito de Águas no

O princípio da universalização do acesso (o primeiro dos direitos do usuário, independente de sua situação econômica) é baseado nos direitos fundamentais da pessoa humana, a vida, a saúde, a moradia, ao equilíbrio do meio ambiente, da democracia, ao saneamento ambiental, “da moralidade, da impessoalidade, da eficiência, da segurança das relações jurídicas, dentre outros”210. Significa o direito de todo ser humano, em qualquer local

regularizado, ter acesso (efetivo) aos serviços públicos de saneamento básico, bem como a obrigação estatal de concretizar. “Trata-se de direito fundamental de natureza social que exige prestação ativa por parte do Poder Público para seu atendimento”211.

A busca de universalização do serviço de abastecimento de água necessita da expansão do sistema em áreas periféricas novas, onde há a presença de usuários de baixa renda. Além disto, as expansões de um sistema de abastecimento de água dependem da busca de novos mananciais, que geralmente se situam em locais mais distantes, ampliando-se os custos de investimento e operação.

Ora, sendo as arrecadações de tarifa nessas áreas abaixo dos custos de investimentos (chamados sistemas deficitários) e mesmo de operação (comercial, inclusive, vez que às vezes os custos com o pagamento do agente arrecadador é quase igual ao da tarifa social) das prestadoras de serviços, tal universalização somente será concretizada com subsídios, públicos ou privados.

No Brasil é improvável que as tarifas, sozinhas, assegurem os objetivos de universalização. Deveria ser criado, por exemplo, um fundo nacional com recursos da cobrança do uso de águas. “A finalidade de se instituir cobrança pela utilização da água não é a de arrecadar dinheiro para os cofres do Estado. A finalidade é fazer com que o usuário do recurso dê o devido valor ao bem”212

, para evitar o desperdício e financiar a estrutura de gerenciamento dos recursos hídricos do Estado.

O Estado arcaria com subsídios de investimento (condições de amortização diferenciadas) e de consumo (subsídio cruzado e o direto). Nos diretos, remunerando diretamente a prestadora do serviço por um consumo mínimo de um domicílio privilegiado.

Brasil e na Espanha: Um Estudo Comparado. Fortaleza: Fundação Konrad Adenauer Stiftung, 2008. p. 11- 25. p. 15.

210 SILVEIRA, Raquel Dias da. O equilíbrio econômico-financeiro nos contratos de serviço de saneamento básico e o direito público subjetivo do usuário à modicidade da contraprestação. In PICININ, Juliana; FORTINI, Cristina. op cit.. p. 265.

211 LOMAR, Paulo José Villela In MUKAI, Toshio (Org.) Op. cit p. 15.

212 SILVEIRA NETO, Otacílio dos Santos. A propriedade da água no Brasil. In Xavier, Yanko Marcius de Alencar, IRUJO, Antonio Embid, SILVEIRA NETO, Otacílio dos Santos. O Direito de Águas no Brasil e na Espanha: Um Estudo Comparado. Fortaleza: Fundação Konrad Adenauer Stiftung, 2008. p. 139-157. p. 154.

Na França, por exemplo, houve intensa participação do Estado na universalização dos serviços de saneamento básico (extensamente financiados pelos impostos e não pelas tarifas pagas em função do consumo). Embora hoje prevaleça um certo distanciamento do Estado francês, até a universalização dos serviços ele foi imprescindível.

O investimento continua mesmo após a universalização, como exemplo a substituição de redes antigas, a fiscalização de ligações clandestinas, a manutenção de hidrômetros, a pesquisa de vazamentos e outros procedimentos (todos no controle de perdas).

Normalmente, a população com renda menor apresenta um índice de cobertura abaixo da média nacional, enquanto as classes mais altas, melhores. Isto demonstra que ser desenvolvido, neste prisma, é ter acesso à água potável.

No Brasil, em 1998, 1% da renda per capita era destinada ao pagamento de contas de água e esgoto. Na França, representava 0,65%, enquanto na Alemanha, 0,63%. “A própria ligação entre a renda da população e o acesso aos serviços demonstra a necessidade de efeitos tarifários distributivos”213.

As águas são um dos elementos básicos do desenvolvimento214. E para que se alcance o mesmo, os processos de participação e controle social amparam o contraponto entre a adoção de instrumentos econômicos e a proteção dos direitos fundamentais de acesso à água215. “Afinal de contas, a efetiva prestação dos serviços de saneamento básico é condição imprescindível para a realização dos direitos fundamentais da população”216. Além disto,

necessária também a cooperação intergovernamental.

213 CARVALHO, Vinícius Marques de. op cit.. p. 345.

214 ANTUNES, Paulo de Bessa. Direito ambiental. 5ª ed. Rio de janeiro: Lumen Juris, 2001. p. 423.

215 GUIMARAES, P. B. V.; RIBEIRO, M. M. R.. USO EFICIENTE DA ÁGUA NAS CIDADES: A REGULAMENTAÇÃO DO SANEAMENTO PARA SUSTENTABILIDADE HÍDRICA NO BRASIL. In: VIII Seminário Iberoamericano, 2008, Lisboa. VIII SEREA: Influência das Alterações Climáticas, Eficiência Energética, Operacionalidade e Segurança em Sistemas de Abastecimento e Drenagem Urbana. LISBOA: INSTITUTO TÉCNICO DE LISBOA, 2008. p. 1-15.

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KRELL, Andreas Joachim. Saneamento Básico, competências federativas e direitos fundamentais. Revista Saenar. número 8. Brasília, Nov/2009. p. 29.

Benzer Belgeler