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O Protocolo de Montevidéu de 1997 (PM/1997) estabeleceu que os Estados-partes mercosulistas se comprometeram a liberalizar completamente o comércio de serviços.

O PM/1997 estabelece que o termo serviços representa todo o serviço, de qualquer setor econômico, exceto os prestados no exercício de faculdades governamentais, sendo essas entendidas como o serviço não prestado em condições comerciais nem em condições de concorrência com outro ou vários outros prestadores de serviços.

Essa definição estabelece um afastamento da liberdade de circulação de todos os serviços prestados sob o regime de monopólio legal do tipo natural.

O PM/1996 exige ainda que a prestação de um serviço inclua a produção, distribuição, comercialização, venda e entrega de um serviço.

O Protocolo tem como finalidade o comércio intrazona de serviços, sendo entendido como a prestação de um serviço:

a) a partir do território de um Estado-parte no território de outro Estado- parte;

b) no território de um Estado-parte, o consumidor de serviços de qualquer outro Estado-parte;

c) por um prestador de serviços de um Estado-parte, mediante uma presença comercial no território de outro Estado-parte;

d) por um prestador de serviços de um Estado-parte, por meio da presença de pessoas físicas de um Estado-parte no território de outro Estado-parte.

O Protocolo, no condizente à personalidade, define o prestador de serviços como sendo toda pessoa, física ou jurídica, que preste um serviço. Quando o serviço não for prestado por uma pessoa jurídica diretamente, mas por intermédio de outras formas de atuação comercial, como, por exemplo, uma sucursal ou um escritório de representação; outorgar-se-á, entretanto, ao prestador de serviços – vale dizer, à pessoa jurídica -, através dessa presença, o tratamento aplicado aos prestadores de serviços em virtude do Protocolo.

Tal tratamento será aplicado à presença por meio do qual se presta o serviço, sem que seja necessário outorgá-lo a nenhuma outra parte do prestador situada fora do território em que se presta o serviço.

Já o consumidor de serviços é definido no PM/1997 como sendo toda pessoa, física ou jurídica, que receba ou utilize um serviço.

O PM/1997 especifica ainda, no seu art. XVIII, 1 – i que

“’pessoa física de outro Estado Parte’ significa uma pessoa física que resida no território desse outro Estado Parte ou de qualquer outro Estado Parte e que, de acordo com a legislação desse outro Estado Parte, seja nacional desse outro Estado Parte ou tenha o direito de residência permanente nesse outro Estado Parte;”

Assim, o Protocolo amplia a abrangência dos titulares do direito à livre circulação de serviços, podendo ser tanto nacionais de um Estado-parte como os estrangeiros residentes permanentemente em um Estado-parte.

O art. XVIII, 1 – j define pessoa jurídica como “(...) toda entidade jurídica devidamente constituída e organizada de acordo com a legislação que lhe for aplicável, tenha ou não fins de lucro, seja de propriedade pública, privada ou mista e esteja organizada sob qualquer tipo societário ou de associação”.

A pessoa jurídica de um Estado-parte, nos termos do art. XVIII, 1 – k do Protocolo, especifica como sendo

“uma pessoa jurídica que esteja constituída ou organizada de acordo com a legislação desse outro Estado Parte, que tenha nele a sua sede e desenvolva ou programe desenvolver operações comerciais substantivas no território desse Estado Parte ou de qualquer outro Estado Parte”.

Comparando-se ambas disposições, percebe-se a ausência de distinção quanto à origem do capital das pessoas jurídicas.

O Protocolo de Montevidéu se aplica a todas as medidas adotadas pelos Estados-partes mercosulistas e que tenham efeitos no comércio de serviços, o que, no campo jurídico, denomina-se âmbito material de aplicação.

O âmbito material de aplicação do PM/1997, conforme art. 1º, são:

“(...) as medidas adotadas pelos Estados Partes que afetem o comércio de serviços no Mercosul, incluídas as relativas à:

i) a prestação de um serviço;

ii) a compra, pagamento ou utilização de um serviço;

iii) o acesso a serviços que se ofereçam ao público em geral por prescrição dos Estados Partes, e a utilização deles, por motivo da prestação de um serviço;

iv) a presença, incluída a presença comercial, de pessoas de um Estado Parte no território de outro Estado Parte para a prestação de um

serviço.”

A presença comercial corresponde a todo tipo de estabelecimento comercial ou profissional com finalidade de prestar serviço por meio da constituição, aquisição ou manutenção de uma pessoa jurídica, entre outros meios, assim como de filiais e escritórios de representação localizadas no território de um Estado-parte (art. XVIII, 1 – c do PM/1997).

As medidas consistem em “(...) qualquer medida adotada por um Estado Parte, seja ela tomada em forma de lei, regulamento, regra, procedimento,

decisão ou disposição administrativa, ou em qualquer outra forma” (art. XVIII, 1 – a).

Essas medidas podem ser adotadas por um Estado-parte mercosulista diretamente (incluindo, no caso da República Federativa do Brasil, por meio dos Estados, Municípios, entre outros) e por entidades não-governamentais a quem o Estado tenha delegado funções públicas.

Para a concretização da livre circulação de serviços no Mercosul, ficou estabelecido no Protocolo a aplicação dos princípios do tratamento nacional e do tratamento da nação mais favorecida, sendo ambas de aplicação imediata e incondicional.

Pela regra do tratamento nacional, os Estados-partes são obrigados a conceder aos serviços e aos prestadores de serviços de qualquer outro Estado- parte, com respeito a todas as medidas que afetem a prestação de serviços, um tratamento não menos favorável do que aquele que concedem a seus próprios serviços similares ou prestadores de serviços similares (art. V, 1).

No condizente ao tratamento da nação mais favorecida, os Estados- partes obrigam-se a dar aos serviços e aos prestadores de serviços dos outros Estados-partes o mesmo tratamento que concedem aos serviços similares e aos pretadores de serviços similares nacionais ou de qualquer outro Estado- parte ou de qualquer terceiro Estado (art. III, 1).

O tratamento da nação mais favorecida, entretanto, não impede que um Estado-parte “(...)outorgue ou conceda vantagens a países limítrofes, sejam ou não Estados Partes, com o fim de facilitar intercâmbios limitados às zonas de fronteira contíguas de serviços que sejam produzidos e consumidos localmente”. (art. III, 2)

Ademais, o Protocolo proíbe o estabelecimento de medidas que vedem o acesso dos prestadores de serviços de um Estado-parte aos mercados de outros Estados-partes, instituindo o livre acesso aos mercados.

Entre essas proibições, incluem-se a de estabelecer limites quantitativos ou quotas.

Assim, os Estados-partes não poderão (art. IV, 2):

(...) manter nem adotar, já for na base de uma subdivisão regional ou da totalidade do seu território, medidas com relação a:

a) o número de prestadores de serviços, seja em forma de contingentes numéricos, monopólios ou prestadores exclusivos de serviços, seja através da exigência de uma prova das necessidades econômicas; b) o valor total dos ativos ou transações de serviços em forma de contingentes numéricos ou mediante a exigência de uma prova das necessidades econômicas;

c) o número total de operações de serviços ou à quantia total da produção de serviços, expressadas em unidades numéricas indicadas em forma de contingentes ou mediante a exigência de uma prova das necessidades econômicas, excluídas as medidas que limitam os insumos destinados à prestação de serviços;

d) o número total de pessoas físicas que possam empregar-se num determinado setor de serviços ou que um prestador de serviços possa empregar e que sejam necessárias para a prestação de um serviço específico e estejam diretamente a ele relacionadas, em forma de contingentes numéricos ou através da exigência de uma prova de necessidades econômicas;

e) os tipos específicos de pessoa jurídica ou de empresa conjunta por meio dos quais um prestador de serviços pode prestar um serviço; e

f) a participação de capital estrangeiro expressadas como limite percentual máximo à posse de ações por estrangeiros ou como valor total dos investimentos estrangeiros individuais ou agregados.”

No intuito de concretizar a livre circulação de serviços, o Protocolo prevê que os Estados-partes realizarão, anualmente, rodadas de negociação (negociação de compromissos específicos) com a finalidade de incorporar, progressivamente, setores, sub-setores, atividades econômicas e modos de prestação de serviços à livre circulação, assim como a redução ou eliminação dos efeitos desfavoráveis das medidas sobre o comércio de serviços, como meio de assegurar o acesso efetivo aos mercados, nos termos do art. XIX, 1.

O resultado do processo de negociação entre os Estados-partes, os mesmos estabelecerão, anualmente, as Listas de Compromissos Específicos.

Nessas Listas, cada Estado-parte especificará os setores, sub-setores e atividades econômicas com respeito aos quais assumiram compromissos de liberalização e, para cada modo de prestação correspondente, indicará os termos, limitações e condições em matéria de acesso aos mercados e tratamento nacional.

Em tais listas, os Estados-partes indicarão ainda, se for pertinente para cada caso, os prazos para implementação de compromissos, assim como a data de entrada em vigor desses compromissos.

O processo de negociação não deve ultrapassar dez anos (art. XIX, 1) e deve se desenvolver de forma a promover os interesses de todos os participantes, sobre a base de vantagens mútuas e conseguir um equilíbrio global de direitos e obrigações.

Na evolução das negociações, admitir-se-ão as diferenças de nível de compromissos assumidos, atendendo as particularidades dos distintos setores.

Outrossim, o processo de liberalização respeitará o direito de cada Estado-parte mercosulista de regulamentar e de introduzir novos regulamentos dentro de seu território para alcançar os objetivos de políticas nacionais relativas ao setor de serviços.

Tais regulamentações poderão tratar, inter alia, sobre o tratamento nacional e o acesso aos mercados, contanto que não anulem ou prejudiquem as obrigações emergentes do Protocolo e dos compromissos específicos.

As Decisões CMC nº 01/2000 e nº 56/2000 consideraram como concluídas a Primeira e Segunda Rodada de Negociação de Compromissos Específicos em Matéria de Serviços e aprovaram as respectivas Listas de Compromissos Específicos apresentadas pelos Estados-partes.

Outro instrumento para a configuração da livre circulação de serviços é o reconhecimento recíproco das habilitações técnicas para o exercício de atividades de serviços. O Protocolo de Montevidéu tratou dessa questão em dois momentos.

Em um primeiro momento, isso aconteceu nas Listas de Compromissos específicos, o que será feito em cada setor específico.

Em um segundo momento, ficou estabelecido pelo PM/1997 um mecanismo que multilateralizou as vantagens concedidas bilateralmente. Com isso, ficou disposto que, quando um Estado-parte reconhecer de forma unilateral ou através de um acordo a educação, a experiência, as licenças, as matrículas ou os certificados obtidos no território de outro Estado-parte ou de qualquer terceiro Estado; não será exigido desse Estado-parte que reconheça, automaticamente, a educação, a experiência, as licenças, as matrículas ou os certificados obtidos no território de outro Estado-parte.

Todavia, fica ainda assegurado a qualquer outro Estado-parte a oportunidade de demonstrar que a educação, a experiência, as licenças, as matrículas e os certificados obtidos em seu território também devem ser reconhecidos; ou de poder celebrar um acordo ou convênio de efeito equivalente (art. XI, 1 – a e b).

O Protocolo de Montevidéu, procurando assegurar o reconhecimento e incentivando a cooperação entre as entidades competentes em seus respectivos territórios com as entidades competentes de outros Estados-partes, institui o art. XI, 2 nos seguintes termos:

“Cada Estado parte se compromete a alentar às entidades competentes nos seus respectivos territórios, entre outras, às de natureza governamental, assim como associações e colégios profissionais, em cooperação com entidades competentes dos outros Estados Partes, a desenvolver normas e critérios mutuamente aceitáveis para o exercício das atividades e profissões pertinentes na esfera dos serviços, através da concessão de licenças, matrículas e certificados aos prestadores de serviços e a propor recomendações ao Grupo Mercado Comum sobre reconhecimento mútuo.”

Uma vez que a recomendação seja recebida, o Grupo Mercado Comum (GMC) verificará a sua consistência com as regras do Protocolo e, posteriormente, cada Estado-parte se encarregará da implementação do decidido pelas instâncias competentes do Mercosul (art. XI, 4)

As normas e os critérios já mencionados poderão ser desenvolvidos, entre outros, com base nos seguintes elementos: educação, exames, experiência, conduta e ética, desenvolvimento profissional e renovação de certificados, âmbito de ação, conhecimento legal, proteção ao consumidor e requisitos de nacionalidade, residência ou domicílio.

Com o objetivo de assegurar que tanto as medidas relativas às normas técnicas, requisitos e procedimentos em matéria de títulos de aptidão como os requisitos em matéria de licença não constituem obstáculos ao comércio de serviços, os Estados-partes devem velar para que esses requisitos e procedimentos, dentre outros (art. X, 4 – i, ii e iii):

a) estejam baseados em critérios objetivos e transparentes, tais como a competência e a capacidade para prestar o serviço;

b) não sejam mais gravosos do necessário para assegurar a qualidade do serviço; e

c) no caso de procedimentos em matéria de licenças, não constituam por si uma restrição à prestação do serviço.

Não obstante, o PM/1997 assegura que cada Estado-parte tenha a liberdade de estabelecer os procedimentos adequados para verificação da competência dos profissionais de outros Estados-partes.

Passou-se, com isso, a utilizar os princípios similares ao GATS, acordando-se realizar tal liberalização em um período de dez anos depois da entrada em vigência do protocolo.

Esse último aspecto requer a aprovação de três dos quatro Estados- partes do Mercosul.

O PM/1997 tem como objetivo liberalizar o comércio de serviços, complementarmente, cumprir com o art. V do GATS de lhe dar cobertura universal, indicando-se que os resultados das negociações das rodadas anuais sucessivas se incorporarão automaticamente.

Em tal sentido, definem-se modos de provisão e regras de acesso ao mercado e tratamento nacional similares aos do GATS.

As medidas tomadas pelos membros corresponderiam, assim, a iniciativas de governos de todo tipo e entidades não-governamentais com poder delegado por eles.

Os serviços incluídos são todos aqueles não providos pelos governos, deixando de fora as compras estatais, inclusive.

O princípio da NMF é absoluto no PM/1997, não permitindo exceções. O acesso ao mercado (AM) e o TN é similar ao do GATS e, nos compromissos específicos, podem-se fazer exceções ao AM e ao TN, se existem medidas de desconformidade, anexando-se as listas ao protocolo.

a) reconhecimento de um membro de certificados ou educação de outro país (seja parte ou não) que não necessariamente deve reconhecê-los a outro Estado-parte;

b) encorajar os Estados-partes a realizar cooperação de entidades nacionais (governos, associações profissionais, entre outros);

c) estimular o investimento estrangeiro para melhorar o nível e a qualidade no fornecimento regional de serviços;

d) modificar compromissos específicos incluídos nas listas em caso de ausência de salvaguarda durante a implementação do programa de liberalização pelos Estados-partes.

Sobre o marco institucional, dispõe-se que o Conselho do Mercado Comum (CMC) aprovará os resultados das negociações sobre os compromissos específicos e fará qualquer modificação ou suspensão. A responsabilidade das negociações também são assumidas por dito conselho. Por sua vez, a Comissão de Comércio do Mercosul (CCM) ficou a cargo de aplicar o PM/1997, receber informação e atender consultas, sendo que as disputas devem atender ao sistema de solução de controvérsias no Mercosul.

O PM/1997 permite exceções gerais e por segurança, tal como as previstas no GATS.

Os anexos ao PM/1997 e compromissos específicos (Decisão nº 9/98) contêm os correspondentes aos serviços financeiros, transporte por terra e água, transporte aéreo, movimento de pessoas naturais fornecedoras de serviços, com exceções relacionadas com acordos regionais anteriores na área.

Em tal sentido, implementaram-se listas de compromissos iniciais que aprofundam as listas anteriormente negociadas no GATS. Com isso, criou-se o Grupo de Serviços que implementou as negociações, seguindo os critérios da Resolução nº 73/98.

A sexta lista do PM/1997, sobre o mercado de transportes, infelizmente, ainda não está em vigor.

2.2.4 O estágio atual da política de integração de transporte multimodal