A Associação Pró-Mutirão da Casa Popular de Piracicaba – MUCCAP, segundo o site da instituição, foi fundada em dezembro de 1993 e é uma sociedade civil, de caráter filantrópico e sem fins lucrativos que tem como finalidade a construção de moradias populares em forma de mutirões, autoconstrução ou empreitadas.
Esta ONG, pioneira neste tipo de ação no município e já premiada no Brasil e no exterior pelas suas ações, arrecada recursos de voluntários de pessoas físicas e jurídicas e os administra na compra de materiais; faz o recrutamento e organiza a mão-de-obra necessária; fiscaliza as obras e promove parcerias com o poder público, instituições e outras ONGs para execução dos projetos e obras, bem como busca ainda oferecer trabalho social às famílias atendidas. A instituição possui hoje cerca de 400 sócios-contribuintes, que fazem as doações em dinheiro. As famílias beneficiadas também pagam mensalidades à MUCCAP, conforme suas possibilidades, referentes à aquisição de suas moradias. (http://www.mucapp.org/view/a-mucapp/, consulta em jul./2015).
Neves e Elias (2012) explicam que a ONG ainda conta com a ajuda de voluntários para apoio técnico e já conseguiu prover moradia digna para mais de 420 famílias, priorizando as famílias que habitam áreas de risco e em condições precárias de habitabilidade.
A ONG já conseguiu apoio e parcerias com diversas instituições, tais como Rotary Club, Repúblicas de estudantes, Estudantes estrangeiros (Ohio University), organizações religiosas, BM&F, Fundação Mario Dedini, imobiliárias e construtoras do município e associações beneficentes.
As doações e essas parceiras são conseguidas, sobretudo, graças a atuação insistente da Presidente da ONG e da relação de transparência e confiança entre os envolvidos. Para além de cumprir requisitos legais, parte da própria convicção da Presidente Ivani Fava Neves de que a transparência é fundamental para estimular a participação e coibir o oportunismo para criar um ambiente de confiança, seja dos envolvidos com a oferta de doações e trabalho
voluntário, seja pelos demandantes de moradias participantes dos mutirões. Esta foi a percepção do autor em relação à entrevista realizada presencialmente com a Presidente da ONG.
Algo presente tanto no discurso quanto nas ações publicadas pela Muccap refere-se ao propósito de multiplicar, entre os beneficiados, o senso de colaboração, de responsabilidade e de ajuda mútua, entendidos como elementos essenciais para o trabalho da instituição, tanto para que sejam quebrados paradigmas de relações paternalistas presentes nessas comunidades, quanto para tirá-los da condição da miséria e fazê-los participar de uma comunidade solidária, de ajuda mútua. (NEVES E ELIAS, 2012)
Daí a prioridade da ONG em tratar com ações que envolvam mutirões após a percepção dos gestores da instituição de que, quando são terceirizados os serviços, detalhes são deixados à parte e há perda do envolvimento das famílias. Contrariamente, quando do regime de construção em mutirão, “as famílias põem a alma, a vida naquele esforço. Os tijolos são deles, as paredes levantadas são para eles. É tudo muito diferente”. (NEVES E ELIAS, 2012, p. 69).
Esta foi uma forma encontrada pela ONG para reforçar os laços entre as famílias nos locais de atuação, formando uma comunidade solidária, disposta a cooperar mutuamente.
Putnam (2006, p. 177), conforme já observado, havia constatado a relação entre disponibilidade de capital social e desempenho das ações a propor que onde há maior disponibilidade de capital social, a cooperação voluntária é mais fácil: “O capital social facilita a cooperação espontânea”.
De fato, a experiência da ONG os permite concluir, por exemplo, que “[...] a rapidez ou demora da edificação depende, fundamentalmente, da capacidade de aglutinação que a família beneficiada tenha para reunir familiares e amigos para auxiliar na construção”. (NEVES E ELIAS, 2012, p. 27).
Esta, porém, não é tarefa simples, conforme fica evidenciado nas experiências da Muccap, que resultaram em um livro denominado “Construindo Casas e Reconstruindo Vidas”, em que a fundadora e presidente da ONG, Ivani Fava Neves, expõe trechos que podem sinalizar para a questão da falta de capital social entre as famílias extremamente pobres, ainda que as autoras não tivessem este propósito.
“[...] muitos já não estão mais no bairro. Há imóveis vendidos, um ou outro está alugado. Alguns poucos foram melhorados, pintados, ampliados. Mas a maioria está como foi feito pela Muccap: ainda sem o reboco, sem a pintura”. (NEVES E ELIAS, 2012, p. 17)
“Marta não tem 50 anos, mas sua fisionomia está cansada. A casa também parece gasta pelos anos. Não foi rebocada, nem pintada. A fechadura da porta já não funciona, faltam vidros [...] o marido teve que sair, depois da separação ocasionada pela bebida, pelas agressões, pelas outras mulheres [...] Hoje ela não sabe quanto é sua dívida para quitar o terreno [...] Sobrevive pela ajuda dada por um dos filhos, que trabalha e lhe dá cerca de 50 reais, pelo pouco mais de 100 reais do Bolsa-Família e pela pensão de outro pouco mais de 100 reais, quando o ex-marido paga.” (NEVES E ELIAS, 2012, p. 17-18)
“Conseguimos, depois de muito esforço, que Amadeu aceitasse colocar uma dentadura. Ficou tão feliz com o resultado estético, que abandonou sua mulher.” (NEVES E ELIAS, 2012, p. 19)
“Muitas vezes nos preocupamos com a higiene pessoal da Raimunda e também com o relaxo com relação aos cuidados dos filhos e da casa.” (NEVES E ELIAS, 2012, p. 19)
“O importante é a consciência de estarmos fazendo o bem sem esperarmos gratidão. Há casos em que a pessoa responsável pela mão-de-obra está envolvida com alcoolismo e então a obra para por longo tempo. Chegamos para fazer o acompanhamento e ninguém aparece [...] temos que entender os problemas daquelas famílias”. (NEVES E ELIAS, 2012, p. 44)
“[...] é muitas vezes desanimador mesmo. A família está praticamente ganhando a casa e não se envolve como a gente espera. Você chega para ver o trabalho, mas nem o lixo, nem o entulho foi tirado da frente da casa”. (NEVES E ELIAS, 2012, p. 44)
As autoras registram ainda que, mesmo com ampla transparência das ações e das cobranças frequentes às famílias beneficiadas, a inadimplência entre os beneficiários sempre existiu e já chegou aos 100% de atraso nos pagamentos.
Esses relatos, ainda que não façam parte da regra37, permitem suspeitar que as relações de apego ao local e às pessoas ao redor são menos densas, com relações pouco sólidas e não duradouras.
Para Albagli e Maciel (2003, p. 425) “a confiança é alcançada a partir do conhecimento mútuo entre os membros da comunidade e de uma forte tradição de ação comunitária”.
Esta tradição na ação comunitária, porém, ao menos nas intervenções iniciais da ONG para com a moradia, não parece configurar no cenário descrito pela Muccap; ao contrário, é algo que a instituição tem manifestamente tentado desenvolver, encontrando para isso imensa dificuldade em seus relatos.